miniatura|225px|O pergaminho Vindel. A literatura galego-portuguesa ou literatura galaico-portuguesa é aquela escrita em galego-português entre os séculos XII e XV.Giuseppe Tavani pôs em dúvida o uso do "galego-português" (que ele qualifica de inverosímil e fantástico) como língua da lírica medieval do oeste peninsular; na sua opinião, essa lírica foi composta especificamente em galego medieval e só com a intercessão dos escribas portugueses do século XIV chegou até nós na língua, segundo ele, misturada ou híbrida que conhecemos como galaico-português; cf. G. Tavani, "Une Provence hispanique: la Galice médiévale, forge de la poésie lyrique péninsulaire", Romania, 501-502, t. 126, 1-2, 2008, pp. 4-17. Esta inclui lírica sacra e profana e diferentes tipos de prosa. Foi a primeira lírica dos reinos cristãos peninsulares, depois da dos reinos muçulmanos. A literatura galego-portuguesa deste período deu lugar a mais de 2 000 canções poéticas, compostas por cerca de 150 trovadores, e espalhou-se por todo o norte peninsular, da Galiza a Aragão. Por vezes, a literatura medieval galego-portuguesa é dividida em época trovadoresca, ou trovadorismo, e época pós-trovadoresca.

Entre os séculos XII e XIV floresceu no ocidente da Península Ibérica um movimento poético em língua galego-portuguesa. Esta era a única poesia escrita em língua românica nos reinos da Galiza (antes e depois da independência de Portugal), Leão e Castela. Esta literatura estava escrita numa forma altamente elaborada de galego-português, independentemente da origem do autor. Pelo contrário, a prosa medieval galego-portuguesa, relativamente escassa, consta fundamentalmente de traduções de obras escritas noutras línguas feitas para serem lidas na Galiza. Porém, a partir do final do século XV, as circunstâncias sociolinguísticas derivadas das consequências sociopolíticas da época propiciarão a "independência" da língua portuguesa relativamente à galega e a divisão do sistema literário galego-português, dando lugar aos Séculos Escuros na Galiza e ao nascimento da literatura portuguesa.

Contexto histórico miniatura|Os três estamentos: Oratores, bellatores e laboratores.

A Idade Média vai ser socioeconomicamente caracterizada pelo sistema feudal. Desde o século VII, o feudalismo converteu-se na base política e económica da Europa. Nas sociedades feudais, o vassalo recebia terras do seu senhor e ficava sob a sua proteção e autoridade, em troca de retribuir uma boa parte dos benefícios da dita terra ao seu proprietário.

Entre os séculos VIII e XI consolida-se o sistema feudal graças ao fortalecimento da nobreza laica e do seu poderio militar, o qual deriva num poderio jurisdicional. A Igreja, por seu lado, é na Galiza a proprietária da maior parte das terras.

O século XII vai ser um século esplendoroso na Galiza. O aumento da demografia permitirá a expansão das atividades agropecuárias, com o consequente aumento das atividades mercantis, baseadas em produtos agrícolas levados a centros urbanos para serem trocados por produtos manufaturados.

Como consequência disto, produz-se um renascimento urbano e o nascimento da burguesia, organizada em grémios estabelecidos em bairros ou ruas, segundo o seu ofício. As cidades, ao contrário dos núcleos rurais, são domínio dos reis, e não dos senhores feudais.

Também a partir do século XII começará o período de tempo conhecido como Era Compostelana, pela mão do arcebispo Diego Gelmírez, o qual trará esplendor a Santiago de Compostela, tanto económico como cultural. A lírica trovadoresca profana, a chegada da arte românica através da francesa Ordem de Cluny, o Caminho de Santiago, a composição do Codex Calixtinus... serão um fiel espelho deste apogeu cultural.

A partir do século XIII, a burguesia começa a mostrar o seu interesse em aceder ao poder político, o que levará à existência de "choques" desta classe emergente com a nobreza laica e religiosa. Mas, desde o final do século XIII, a Europa começa a viver uma tremenda crise, que se acentuará no XIV. O esgotamento do sistema feudal, a miséria, a peste, guerras,... levarão o indivíduo do século XIV a sentir-se insignificante, o que se reflete perfeitamente na prosa religiosa e anónima deste século.

esquerda|miniatura|210px|Os irmandiños destruíram castelos, como o de Sandiás. Mas a crise do século XIV deu lugar a uma recuperação gradual, que culminará no crescimento económico do século XV e na procura de novos mercados exóticos principalmente pelas Coroas de Portugal e Castela. Durante muito tempo, a evolução da sociedade galega avança lado a lado com a do resto do continente europeu. Mas, a partir de meados do século XV, houve uma forte conflitualidade social e política, pela mão das revoltas irmandinhas, que consistem principalmente num levantamento antifeudal, posto que todos os setores implicados (campesinato, burguesia e baixa fidalguia) viam a sua economia sufocada pelo feudalismo ou tinham um interesse particular em acabar com o sistema feudal. Mas a Igreja e a Coroa, que inicialmente apoiaram ou permitiram (respetivamente) a revolta, aliaram-se aos grandes senhores e favoreceram a imobilidade da conjuntura sociopolítica galega.

A partir de 1482, por outro lado, Isabel I de Castela (depois da sua vitória nas guerras trastamaristas), juntamente com o seu consorte Fernando II de Aragão, começará a denominada pelo Padre Zurita como doma da Galiza, que trará ao país uma dura submissão política, cuja consequência não será outra que os chamados Séculos Escuros.

Lírica

Conceito de originalidade

A lírica trovadoresca galego-portuguesa nasceu como consequência da mistura entre uma tradição autóctone, de longa vida oral, cuja origem é popular e difundida pelos jograis, que, depois de reelaborarem os modelos trovadorescos, se encontra na base da cantiga de amigo; e outra alheia, de procedência occitana, mais «culta» (associada à escrita) e cortesã, empregada pelos trovadores, que se encontra na cantiga de amor.

É fundamental para poder compreender a lírica medieval galego-portuguesa o conhecimento do conceito de originalidade medieval. Se hoje em dia qualificamos de original uma obra concreta em função da sua plena inovação (isto é, uma obra é sumamente original quando o seu autor é capaz de criar muitos elementos novos), na Idade Média alcança-se a originalidade no momento em que um autor é capaz de realizar uma composição completamente nova introduzindo pequenas variações relativamente à tradição anterior.

Por este motivo, numa perspetiva atual, pode resultar monótona a leitura da lírica medieval galego-portuguesa (sobretudo das cantigas de amor), mas devemos ter perspetiva histórica e considerar que a repetitio et variatio (repetição e variação) era a melhor demonstração de originalidade na época medieval.

Profana

Contexto histórico

miniatura|240px|Dialetos do occitano.

A lírica profana galego-portuguesa surge posteriormente à lírica trovadoresca provençal, que estava escrita em occitano. Mas esta lírica nunca esteve perdida (ao contrário do que aconteceu com a galego-portuguesa). Por estes dois motivos, tendeu-se a dizer durante muito tempo que a nossa lírica trovadoresca não era mais do que uma simples imitação da provençal. Para além de existirem argumentos literários que refutam esta hipótese, o contexto histórico da época faz pensar que a mimese absoluta da lírica galego-portuguesa relativamente à provençal era muito difícil. É que, na Idade Média, os principais transmissores de ideias (neste caso, literárias) eram os jograis, que não poderiam reproduzir sozinhos uma literatura tão complexa como a trovadoresca, sobretudo tendo em conta os meios de transporte e as comunicações existentes na época.

Por outro lado, a lírica trovadoresca surge devido ao excedente económico da época e à paz alcançada. Graças a esta circunstância, os senhores feudais de Compostela do século XII não estavam obrigados a organizar justas nem torneios com a finalidade de se treinarem, mas podiam viver rodeados de luxos e dedicar-se ao cultivo das letras.

Também influenciou o desenvolvimento da nossa lírica trovadoresca o facto de, em determinado momento, terem coincidido na mesma corte trovadores em galego e em provençal, devido às circunstâncias sociopolíticas da época (o exílio em Castela dos poetas occitanos após a luta contra os cátaros). Ainda assim, os galegos não copiam dos occitanos, mas adaptam à sua idiossincrasia particular determinados elementos.

miniatura|esquerda|280px|O Caminho de Santiago favoreceu a chegada do lirismo provençal. A lírica profana trovadoresca desenvolve-se nas cortes, e a única corte existente na Galiza no século XII estava em Santiago de Compostela. A corte compostelana não tem nada a ver com as refinadas cortes occitanas, mas a cidade compostelana será centro de peregrinação de toda a Europa, o que favorece a chegada à corte de inovações poéticas, que serão combinadas com a tradição galega.

Não obstante, importa sublinhar que a tradicionalmente denominada "corte de Leão" não deixou de ser uma corte galega. Como não deixam de sublinhar historiadores atuais, —tal é o caso, entre outros, de Xosé Ramón Pena— nas próprias composições provençais fala-se dos reis leoneses como "monarcas dos galegos"; isto é, a corte de Leão era, na realidade, uma corte galego-leonesa, daí que a convergência entre os trovadores occitanos e aqueles autores que pretendiam levar adiante um movimento semelhante entre nós encontrasse nela um espaço singular. Além disso, à corte régia leonesa importa ainda acrescentar, neste processo, as cortes dos senhores feudais galegos e portugueses interessados na propagação de uma forma literária, ou socioliterária, que se ajustava perfeitamente à sua projeção social e aos seus interesses culturais.

Etapas

Realmente, é difícil conhecer o momento em que se inicia a lírica trovadoresca galego-portuguesa. Atualmente considera-seCarlos Alvar e Vicente Beltrán, Antología de la poesía gallego-portuguesa, Alhambra, 1989 consideram que foi composta por volta de 1200. que o limite ad quo (anterior) da nossa lírica trovadoresca é marcado pelo aparecimento da cantiga Ora faz host'o senhor de Navarra, de Johan Soarez de Pávia. Outros investigadores, por sua vez, consideram que a primeira cantiga galego-portuguesa é Ai eu, coitada como vivo en gran cuidado, atribuída ao rei Sancho I de Portugal; e ainda outros acreditam que a composição mais antiga é a anónima Cantiga de Guarvaia. Todas estas composições estão datadas do último terço do século XII. Ainda assim, qualquer dos três textos demonstra pertencer a uma tradição já formada, pelo que deve ter existido uma tradição lírica anterior.

No que respeita ao limite ante quem, alguns investigadores situam-no em 1350, ano da publicação do testamento do último mecenas da lírica galego-portuguesa, Pedro Afonso, conde de Barcelos. Outros estudiosos, porém, decidem marcar o fim desta literatura em 1354, ano da morte do Conde de Barcelos. De qualquer modo, temos de ter presente que uma tradição lírica não desaparece de um dia para o outro, mas requer um processo progressivo de desaparecimento.

Quanto à periodização dos autores, o estudioso italiano Giuseppe Tavani estabeleceu a seguinte classificação:

A geração histórica: compreenderia desde as origens da lírica galego-portuguesa até 1217, ano em que sobe ao trono de Castela Fernando III. Pertencem a esta etapa Mendinho, Johan Soarez de Pávia, Nuno Eanes Cerzeo, Gil Sanchez, Garcia Mendiz de Eixo, Johan Soairez Somesso, Vasco Fernandez Praga, Estevan Perez Froian, Roi Gomez de Briteiros, as três irmãs da família galega dos Marinho, Martin Eanes, Pero Eanes e Osoiro Eanes, e Nuno Fernandez de Mirapeixe, Pero Velho e Paio Soares de Taveirós. Tavani acrescenta, embora com reservas, mais dois autores: Pero Martins e Abril Pérez.

miniatura|130px|Afonso X pertence à geração intermédia.