Na mitologia tupi-guarani, a Terra Sem Males (Yby Marã E'yma em tupi e Yvy Marã E'ỹ em guarani, também chamada Nhanderu Retã, "Lugar de Nhanderu"LADEIRA, Maria Inês. O caminhar sob a luz: o território Mbya à beira do oceano. São Paulo: [s.n.], 1992. 198 p. Dissertação de mestrado em Antropologia-PUC/SP. p. 72.) é um paraíso terrestre utópico onde não existem morte, fome, guerras, doenças, envelhecimento ou a necessidade de trabalhar.

Descrição do paraíso Este paraíso se configuraria numa ilha real que muitos dos tupis-guaranis consideram estar localizada além-mar a leste, em alguma parte do Oceano Atlântico (Para-Guaçu, "Grande Mar"). Para se chegar a ela seria necessário alcançar o estado de perfeição espiritual que os indígenas denominam aguyjé. A ilha, portanto, não seria visível a qualquer mortal e, se assim fosse, a mesma se moveria para longe, pois somente os que estivessem em estado de perfeição poderiam adentrar.

Na ilha mística moraria o deus criador (Nhamandu para os guaranis), e sua casa seria uma cabana. Dentro estariam o Jaguar Azul (Jaguarový ou Chariã) e o Morcego Originário (Mbopí recoypý), ambos contidos pelo deus, pois se soltos o Jaguar Azul destruiria a humanidade e o Morcego Originário engoliria o Sol. Do lado de fora da cabana estaria a Serpente Originária, que dizem ser uma caninana. A cabana de Nhamandu estaria rodeada de trevas, mas em seu peito ainda brilharia a luz criadora, a mesma que ele portava no começo da criação, e ela iluminaria os seus arredores.

Nhandeci ("Nossa Mãe"), esposa de Nhanderu ("Nosso Pai", às vezes considerado o próprio Nhamandu), também tem por morada a Terra sem Mal. Quando há recém-chegados ao paraíso, eles são recepcionados pela arara e pelo sabiá de Nhandeci, que lhes oferecem comida e bebida, e em seguida chegam à casa dela no meio de uma grande plantação e de um bananal, onde ela os recebe em lágrimas (uma tradição comum em diversos povos indígenas brasileiros, quando os anfitriões choram com a chegada de um parente ou amigo há muito ausente), pedindo para não mais voltarem para o lugar de onde vieram, onde a morte é certa, e para ali ficarem.

De acordo com os indígenas, muitas aves migratórias, como araras, tangarás e sabiás, vão para este lugar e de lá retornam. Na ilha sagrada, tanto a fauna como a flora falariam como os humanos.

Não se deve confundir a Terra Sem Males com o Guajupiá, o paraíso do pós-vida tupi situado "além das montanhas" no oeste.

Busca da Terra sem Males Segundo a mitologia guarani do povo mbiá, o primeiro homem a alcançar a Terra sem Mal foi, também, o primeiro incestuoso: o caraí Jeupié (originalmente chamado Tapari e também conhecido como Joajué). Ele transgrediu o tabu do incesto ao casar-se com sua tia paterna, o que causou o dilúvio que destruiu a Primeira Terra (Yvy Tenondé). Apesar de sua transgressão, ele e sua esposa conseguiram se purificar através de orações, canções e danças para alcançar a perfeição (aguyjé), ainda nadando nas águas, o que lhes permitiu criar uma palmeira milagrosa (pindoju, "palmeira amarela") para descansar por algum tempo e depois alcançar o paraíso ainda em vida, adentrando a convivência dos deuses, e Jeupié se tornou o primeiro dos homens-deuses, Nhande Ru Karaí Tapari, o pai das divindades menores (Tupã Mirĩ, os habitantes da Primeira Terra que ascenderam ao paraíso em forma humana, assim como os heróis divinizados).CADOGAN, L. Ayvu rapyta: textos míticos de los Mbyá-Guaraní del Guairá. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1959. (Boletim n. 227 / Antropologia n. 5). Disponível em: http://www.etnolinguistica.org/biblio:cadogan-1959-ayvu

De 1539 a 1549, sofrendo com a colonização portuguesa, de 12.000 a 14.000 tupis partiram do litoral rumo aos Andes, no oeste. Depois de dez anos de marcha e milhares de mortes, apenas trezentos chegaram a Chachalpoyas, no Peru, onde foram capturados e presos. Lá contaram aos espanhóis que, em seu percurso, haviam passado por um país provido de "tanta riqueza que afirmaram haver ruas mui compridas entre eles, nas quais não se fazia outra coisa senão lavar pedras d'ouro e pedrarias", alimentando o mito do país de Eldorado que fascinou os espanhóis e os levou a grandes expedições pelo interior da América do Sul em sua procura.NAVARRO, E. A. Terra sem mal, o paraíso tupi-guarani. Cultura Vozes, v. 89, n. mai./ju 1995, p. 61-71, 1995.

Apesar de ter sido suposto que a busca à "terra sem males" tenha tido papel central nesses processos de resistência e migração, trabalhos etno-históricos contestam a veracidade dessa teoria, pela ausência de dados empíricos que a comprovem, sendo resultado de uma leitura redutiva das fontes documentais. Segundo o historiador Eduardo Neumann (2009):"As migrações praticadas pelos guaranis estão ligadas ao sentido da terra, do território e do espaço social (...) Para os guaranis a terra não é uma divindade, mas está impregnada de toda experiência religiosa. A terra, por sua vez, é o suporte, um meio para eles efetivarem a sua economia de reciprocidade. É através da terra que eles procuram atingir toda sua plenitude. Assim, em determinadas ocasiões, devido à manifestações do líderes espirituais, por seu tom profético e a busca por novas terras, alguns etnógrafos sentiram-se autorizados a firmarem que todo o pensamento dos guaranis estava orientado em torno da terra sem mal".

Ainda, o mito da Terra sem Mal ou o mito do messianismo tupi-guarani teria sido generalizado a todas populações tupi-guarani, quando de fato era exclusivo aos apapocuva e tembés, etnografados por Nimuendaju.

Com a expansão da sociedade moderna, as migrações tupis-guaranis em busca da Terra sem Mal tornaram-se praticamente inviáveis, devido à ocupação de territórios outrora livres por fazendas, cidades e estradas. Embora a Terra sem Mal continue sendo um elemento central da espiritualidade indígena, sua busca passou a ser entendida predominantemente como uma jornada espiritual, muitas vezes associada à vida após a morte, em vez de uma migração física. Nesse contexto, os líderes religiosos ("caraíbas" entre os tupis ou "caraís" entre os guaranis) adaptaram seu discurso à nova realidade, transformando a vida em sociedade e os desafios impostos pela colonização e pela perda cultural em uma prova espiritual diante da ameaça de desaparecimento das tradições indígenas.

Ver também Guajupiá Ilhas Afortunadas Jardim do Éden Paraíso

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