Cyphocharax stilbolepis é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, endêmica do Brasil e distribuída nas bacias dos rios Xingu, Tocantins e Araguaia. Foi descrita em 1992 pelo ictiólogo Richard P. Vari durante sua revisão sistemática do gênero Cyphocharax, com base em exemplares coletados na região de Belo Monte, no estado do Pará. O nome específico stilbolepis, derivado dos termos latinos para “brilhante” e “escama”, faz referência à intensa coloração prateada característica da espécie.

A espécie apresenta corpo relativamente alongado, cabeça pontiaguda e boca subterminal, distinguindo-se da maioria dos congêneres pelo elevado número de escamas na linha lateral e em séries transversais acima e abaixo dela. Possui entre 54 e 62 escamas perfuradas na linha lateral, contagem superada apenas por poucos representantes do gênero. Embora compartilhe diversas características com C. platanus, diferencia-se por apresentar maior número de escamas, menor número de vértebras, órbitas proporcionalmente maiores e ausência de uma mancha escura conspícua na base dos raios medianos da nadadeira caudal. Sua coloração é predominantemente prateada, com dorso mais escuro e uma faixa lateral pouco evidente que não forma uma mancha caudal definida.

Cyphocharax stilbolepis habita grandes sistemas fluviais associados aos biomas Amazônia e Cerrado, ocorrendo tanto em canais principais quanto em tributários das bacias do Xingu, Tocantins e Araguaia. Pouco se conhece sobre sua biologia, embora a espécie não seja considerada migratória. Avaliações nacionais e globais classificaram-na como Pouco Preocupante (LC), uma vez que possui ampla distribuição geográfica e não apresenta evidências de declínio populacional significativo, apesar dos potenciais impactos associados à mineração e à construção de grandes usinas hidrelétricas em sua área de ocorrência. Entretanto, estudos recentes apontam a necessidade de pesquisas adicionais sobre sua ecologia, abundância e tendências populacionais.

Etimologia

O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa “curvado” ou “corcunda”, e chárax (), nome aplicado na Antiguidade a um peixe marinho não identificado. O epíteto específico stilbolepis deriva dos termos latinos stilbo, “brilhante” ou “reluzente”, e lepis, “escama”, em referência à intensa coloração prateada e ao aspecto brilhante do corpo da espécie.

Taxonomia

Cyphocharax stilbolepis é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita em 1992 pelo ictiólogo norte-americano Richard P. Vari durante sua revisão sistemática do gênero. O holótipo, catalogado como MZUSP 41759, mede 104,5 milímetros de comprimento padrão e foi coletado em setembro de 1983 na região de Belo Monte, no rio Xingu, estado do Pará. Na descrição original, a espécie foi reconhecida principalmente pela combinação de elevadas contagens de escamas na linha lateral e em séries transversais acima e abaixo dessa estrutura, além da ausência de uma mancha escura definida no pedúnculo caudal. Essas características aproximam C. stilbolepis de C. platanus, mas diferenças merísticas e morfométricas permitiram distingui-las de forma consistente. Entre os caracteres diagnósticos mais importantes estão o maior número de escamas da linha lateral, menor número de vértebras e ausência de uma mancha caudal conspícua.

Diagnose

Cyphocharax stilbolepis distingue-se da grande maioria das espécies do gênero por apresentar entre 54 e 62 escamas perfuradas na linha lateral, entre dez e meia e onze e meia fileiras de escamas entre a linha lateral e a origem da nadadeira dorsal e entre oito e meia e nove e meia fileiras entre a linha lateral e a origem da nadadeira anal. Essas contagens são superiores às observadas na maior parte dos congêneres, que geralmente possuem 45 ou menos escamas na linha lateral, nove ou menos fileiras acima da linha lateral e até seis e meia fileiras abaixo dela. A espécie diferencia-se de C. abramoides, único congênere com número ainda mais elevado de escamas, por apresentar 54–62 escamas na linha lateral, contra 77–97 naquela espécie, além de números substancialmente menores de fileiras de escamas acima e abaixo da linha lateral. Entre as espécies conhecidas, C. platanus é a que mais se aproxima de C. stilbolepis quanto ao padrão de escamação corporal. Contudo, C. stilbolepis possui maior número de escamas na linha lateral (54–62 contra 48–54), órbita proporcionalmente mais larga, maior distância entre a ponta do focinho e a origem da nadadeira anal, menor número de vértebras (32 contra 33–35) e ausência de uma mancha escura conspícua na base dos raios medianos da nadadeira caudal, presente em C. platanus.

Descrição

Cyphocharax stilbolepis apresenta corpo relativamente alongado e comprimido lateralmente, característica mais evidente nos exemplares menores. A maior altura corporal situa-se na região da origem da nadadeira dorsal, correspondendo a 34–37% do comprimento padrão. A cabeça possui perfil pontiagudo e representa 25–28% do comprimento padrão. O focinho é relativamente longo e a boca é subterminal, com a mandíbula superior ligeiramente mais longa que a inferior. O perfil dorsal da cabeça é suavemente convexo anteriormente, tornando-se reto até a extremidade do espinho supraoccipital. O perfil dorsal do corpo é discretamente convexo até a origem da dorsal, tornando-se reto posteriormente. O perfil ventral apresenta curvatura suave desde a mandíbula inferior até o pedúnculo caudal. A região pré-pélvica é transversalmente achatada e apresenta séries longitudinais irregulares de escamas. Posteriormente à origem das nadadeiras pélvicas ocorrem quilhas medianas pouco pronunciadas ao longo da superfície ventral do corpo. As narinas encontram-se muito próximas entre si; a anterior é circular e a posterior possui formato crescente. A pálpebra adiposa é bem desenvolvida, sobretudo nos exemplares maiores, apresentando ampla abertura ovalada sobre a região central do olho.

O diâmetro orbital corresponde a 31–34% do comprimento da cabeça e a largura interorbital a 40–44%. A linha lateral é completa e possui entre 54 e 62 escamas perfuradas até a articulação hipural. Entre cinco e sete séries de escamas perfuradas prolongam-se posteriormente sobre a base da nadadeira caudal. Entre a origem da dorsal e a linha lateral existem dez e meia a onze e meia fileiras de escamas, enquanto entre a linha lateral e a origem da anal ocorrem oito e meia a nove e meia fileiras. A nadadeira dorsal apresenta dois ou três raios simples e nove ramificados. A nadadeira anal possui dois ou três raios simples e sete ramificados. As peitorais possuem quinze a dezessete raios e as pélvicas geralmente um raio simples e oito ramificados. A nadadeira adiposa é bem desenvolvida e a caudal é profundamente bifurcada. O pedúnculo caudal é relativamente estreito, correspondendo a 12–13% do comprimento padrão. A espécie possui 32 vértebras totais, número inferior ao observado em C. platanus e em diversas outras espécies de grande porte do gênero.

Nos exemplares preservados que mantêm depósitos de guanina nas escamas, a coloração geral é intensamente prateada. As regiões dorsais da cabeça e do corpo apresentam tonalidade mais escura, produzindo contraste evidente com os flancos brilhantes. Nos espécimes que perderam a guanina durante a preservação, o corpo apresenta coloração castanho-clara a amarelada, com pigmentação mais intensa sobre a superfície dorsal da cabeça e sobre as regiões dorsolateral e dorsal do corpo acima da linha lateral. Uma faixa médio-lateral escurecida e pouco definida estende-se desde o supracleitro até o pedúnculo caudal. Essa faixa torna-se mais evidente na região posterior do corpo, mas não origina uma mancha escura distinta sobre o pedúnculo caudal, característica que diferencia a espécie de alguns congêneres morfologicamente semelhantes. A margem distal e a borda anterior da nadadeira dorsal são escuras, enquanto o restante da nadadeira apresenta pigmentação difusa. Os raios da nadadeira caudal são delineados por pequenos cromatóforos distribuídos sobre as membranas inter-radiais. A nadadeira adiposa apresenta coloração escurecida uniforme. As nadadeiras anal, peitorais e pélvicas são predominantemente hialinas.

Distribuição e habitat

Cyphocharax stilbolepis é endêmica do Brasil e ocorre nas bacias dos rios Xingu, Tocantins e Araguaia. A localidade-tipo situa-se em Belo Monte, no rio Xingu, estado do Pará, onde os exemplares conhecidos foram coletados na base de corredeiras. Registros adicionais confirmam sua ocorrência em diferentes setores da bacia do Tocantins, incluindo Tucuruí, o igarapé Muru e Icangui, bem como no Araguaia, nas proximidades de Aruanã, em Goiás. Os registros disponíveis sugerem que a espécie está associada principalmente a grandes sistemas fluviais do leste da Amazônia e do Brasil central, ocorrendo tanto em canais principais quanto em ambientes tributários conectados às bacias do Tocantins-Araguaia e do Xingu. A distribuição conhecida da espécie abrange os estados de Goiás, Mato Grosso, Pará e Tocantins, estendendo-se pelos biomas Amazônia e Cerrado. Segundo a avaliação nacional mais recente, sua ocorrência está confirmada nas sub-bacias do Araguaia, do baixo Tocantins e do Xingu. Registros recentes também indicam sua presença em áreas protegidas, incluindo a Estação Ecológica da Terra do Meio, o Parque Nacional da Serra do Pardo, a Área de Proteção Ambiental Ilha do Bananal/Cantão e a Reserva Particular do Patrimônio Natural Reserva Boca da Mata.

Ecologia

Pouco se conhece sobre a biologia e a ecologia de Cyphocharax stilbolepis. A localidade-tipo situa-se na região de Belo Monte, no rio Xingu, onde os exemplares utilizados na descrição original foram coletados na base de corredeiras, sugerindo associação com ambientes lóticos de grandes rios. Registros posteriores indicam que a espécie ocorre tanto em canais principais quanto em tributários das bacias dos rios Xingu, Tocantins e Araguaia. Amostragens realizadas no médio rio Xingu entre julho de 2012 e abril de 2013 registraram a espécie apenas durante os períodos de cheia e enchente, com captura por unidade de esforço (CPUE) total de 2,683 indivíduos/km²/h, valor relativamente baixo quando comparado ao de outros curimatídeos registrados na mesma região. A espécie não é considerada migratória. Não há informações publicadas sobre sua alimentação, reprodução, comportamento ou uso de hábitat ao longo do ciclo de vida. A ficha de avaliação do ICMBio destacou a necessidade de estudos populacionais, ecológicos e biológicos que permitam compreender melhor a história natural da espécie e avaliar os possíveis efeitos das ameaças identificadas em sua área de ocorrência.

Conservação

Cyphocharax stilbolepis é considerada inofensiva aos seres humanos. A espécie não possui avaliação ou enquadramento registrado na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES) nem na Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). Foi avaliada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) em 7 de novembro de 2018, durante o processo de elaboração do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O resultado da avaliação foi publicado em 2022 na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da UICN, que classificou a espécie como Pouco Preocupante (LC). Anteriormente, o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção já havia classificado a espécie como Pouco Preocupante (LC) com base em uma avaliação realizada em 2014. Posteriormente, uma nova avaliação nacional conduzida pelo ICMBio em 25 de junho de 2021 manteve a espécie na categoria Pouco Preocupante, resultado publicado em 2025 no Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE).