thumb|Vale do Pati - Parque Nacional da Chapada Diamantina A Biologia da Conservação foi cristalizada como uma disciplina devido não somente ao crescimento da percepção de uma crise de extinção, mas também devido à percepção de uma lacuna entre biólogos ecologistas e manejadores de recursos 1. Meine, C.D. 1995. The oldest task in human history. Pages 7-35 In R. L. Knight and S. F. Bates, editors. A new century of natural resource management. Island Press, Washington, D.C. e desenvolvida para combater a crise da biodiversidade, com dois objetivos principais: primeiro, entender os efeitos da atividade humana sobre as espécies, comunidades e ecossistemas, e, segundo, desenvolver abordagens práticas para prevenir a extinção de espécies e, se possível, reintegrar as espécies ameaçadas ao seu ecossistema funcional .
Os biólogos da conservação sabem que cada espécie é uma peça-chave da evolução, potencialmente imortal exceto por chance rara ou escolha humana, sendo sua perda um desastreWilson, E.O. 2000. On the future of Conservation Biology. Conservation Biology, 14: 1–3.. As comunidades biológicas que levaram milhões de anos para se desenvolver vêm sendo devastadas pelo homem em toda a terra e a lista de transformações de sistemas naturais que estão diretamente relacionadas à atividades humanas é longa (Primack e Rodrigues, 2001), ou seja, a escolha humana prevalece.
A linha de pesquisa Ecologia da Conservação está voltada para o desenvolvimento de estudos teóricos ou aplicados relacionados com a conservação da fauna e da flora. Os estudos podem ser referentes a uma única espécie, a um grupo taxonômico, ecossistema ou região. Os estudos ainda podem ser de avaliação de políticas públicas de conservação, planejamento sistemático para conservação, modelagem de cenários de conservação ou avaliação do status de conservação de espécies da fauna e flora.
História É um campo relativamente recente, sintético, que aplica os princípios da ecologia, da biogeografia, genética de populações, economia, sociologia, antropologia, filosofia, e outras disciplinas teoricamente embasadas, para a manutenção da diversidade biológica por todo o mundo. É recente na medida em que é um produto dos anos 1980, embora as suas raízes retrocedam a séculos. Ele é sintético porque une disciplinas tradicionalmente acadêmicas, como a biologia de populações e a genética, com as tradições aplicadas de manejo da vida selvagem, da pesca e da terra, e de campos afins. É, sobretudo, desafiador e imperativo, porque é motivado pelas mudanças globais causadas pelos humanos que têm resultado no maior episódio de extinção em massa desde o desaparecimento dos dinossauros há 65 milhões de anosGROOM, Martha J.; MEFFE, Gary K.; CARROLL, C. Ronald (Eds.). Principles of Conservation Biology. 3. ed. Massachusetts: Sinauer Associates, 2006..
A história natural foi uma das principais preocupações no século XVIII, com grandes expedições e a abertura de exposições públicas populares na Europa e América do Norte. No início do século XIX, a biogeografia foi acesa através dos esforços de Alexander von Humboldt, Charles Lyell e Charles Darwin. O fascínio do século XIX com história natural gerou um fervor por ser o primeiro a coletar espécimes raras com o objetivo de fazê-lo antes que eles se extinguiram por outros tais colecionadores. Embora o trabalho de muitos naturalistas do século XVIII e 19 tenham servido para inspirar os amantes da natureza e organizações de conservação, seus escritos, por padrões modernos, mostrou insensibilidade para com a conservação, já que eles matariam centenas de espécimes para suas coleções.
A Biologia da Conservação tem suas raízes nas muitas culturas que ao longo de milhares de anos através de suas crenças religiosas e filosóficas relacionam o valor das espécies a vida natural. Filósofos como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau elegeram a natureza como um elemento importante para o desenvolvimento moral e espiritual do homem. Defensores da vida natural, tais como John Muir e Aldo Leopold, trabalharam pela preservação das paisagens e manutenção da saúde dos ecossistemas naturais. Segundo os adeptos da Hipótese de Gaia, a Terra apresenta as propriedades de um “super organismo” cujos componentes biológicos, físicos e químicos interagem para manter as características da atmosfera e do clima.
A ética da conservação que começou a evoluir incluiu três princípios fundamentais: a de que a atividade humana danificou o ambiente, de que havia um dever cívico para manter o ambiente para as gerações futuras, e que os métodos científicos com base empírica deviam ser aplicados para garantir o referido direito. Uma das primeiras sociedades de conservação foi a Sociedade Real para a Protecção das Aves, fundada em 1889 em Manchester, como um grupo de protesto campanha contra o uso de peles e penas em roupas de peles. No Estados Unidos, o Ato de Reserva Florestal de 1891 deu o poder ao Presidente de constituir reservas florestais em terras de domínio público. No século XX, canadenses e funcionários públicos, incluindo Charles Gordon Hewitt e James Harkin lideraram o movimento em direção à conservação da vida selvagem.
Em meados do século XX, os esforços se direcionaram a conservação de espécies-alvo individuais. A New York Zoological Society foi fundamental no desenvolvimento de conceitos e estabelecimento da conservação de determinadas espécies, bem como a realização de estudos de conservação necessários para determinar quais locais são mais apropriados e devem ser prioridades de conservação. Em 1980, um desenvolvimento significativo foi o surgimento do movimento de conservação urbano, criado em Birmingham, Reino Unido, seguido por uma rápida sucessão em várias cidades do Reino Unido, em seguida, no exterior. Embora percebida como um movimento popular, seu desenvolvimento inicial foi impulsionado pela pesquisa acadêmica em animais selvagens urbanos.
Em 1992, a maioria dos países do mundo tornaram-se comprometidos com os princípios de conservação da diversidade biológica com a Convenção sobre Diversidade Biológica, posteriormente, muitos países começaram programas de Planos de Ação de Biodiversidade para identificar e conservar as espécies ameaçadas dentro de suas fronteiras, bem como habitats associados. Final dos anos 1992 aumentou o profissionalismo do setor, com o amadurecimento de organizações ambientais. Desde 2000, o conceito de conservação em escala de paisagem ganhou proeminência, com menos ênfase a ser dada a uma única espécie ou mesmo ações focadas em um único habitat, em vez disso uma abordagem ecossistêmica é defendida pela maioria dos conservacionistas tradicionais, embora preocupações foram expressas por aqueles que trabalham para proteger algumas espécies de alta importância.
Prioritariamente, essa ciência busca compreender as consequências da atividade humana nas espécies, comunidades e ecossistemas, e, então, desenvolver abordagens práticas para prevenir a extinção de espécies e, se possível, reintegrar espécies ameaçadasPrimack,R.B. & Rodrigues, E. 2001. Biologia da Conservação. 328pp.. Também procura identificar as razões para o declínio de populações que se encontram em níveis críticos de existência.
A Biologia da Conservação não pretende criar leis e muito menos unidade de medida para a diversidade, ou normas para conservação, e sim discutir formas de proteger áreas com alta diversidade, e também de recuperar espécies que se encontram vulneráveis a extinção. Como grande parte das ameaças à biodiversidade tem origem na pressão exercida pelo desenvolvimento das civilizações, a Biologia da Conservação se apropria dos conhecimentos de outras áreas e não somente da Biologia.
Princípios ou Pressupostos Básicos Segundo Primack & Rodrigues (2001) a Biologia da Conservação se apoia em alguns pressupostos básicos acerca de princípios éticos e ideológicos que deveriam levar a debates sociais em favor da conservação da diversidade biológica. São elas:
(I) Toda espécie tem o direito de existir, pois são frutos de uma história evolutiva e são adaptadas;
(II) Todas as espécies são interdependentes, pois estas interagem de modo complexo no mundo natural, e a perda de uma espécie leva a consequente influência sobre as demais;
(III) Os humanos vivem dentro das mesmas limitações que as demais espécies, que são restritas a um desenvolvimento, em razão a capacidade do meio ambiente, e a espécie humana deveria seguir esta regra, para não prejudicar a sua e as outras espécies;
(IV) A sociedade tem responsabilidade de proteger a Terra, devendo usar os recursos de modo a não esgotá-los para as próximas gerações;
(V) O respeito pela diversidade humana é compatível com o respeito pela diversidade biológica, pois como apreciamos a diversidade cultural humana deveríamos apreciar a diversidade biológica;
(VI) A natureza tem um valor estético e espiritual que transcende o seu valor econômico, e isto deve ser mantido independente de qualquer coisa;
(VII) A diversidade biológica é necessária para determinar a origem da vida, espécies que vão se extinguindo poderiam ser importantes nas pesquisas sobre a origem da vida.
Também tem como objetivo encontrar soluções para situações que ameaçam a biodiversidade, por meio de medidas que envolvem vários setores da sociedade, como governos, instituições públicas e privadas, universidades, organizações-não-governamentais, entre outras.Ensino da Conservação. Princípios da Biologia da Conservação: Diretrizes para o Ensino da Conservação recomendadas pelo Comitê de Educação da Sociedade para a Biologia da Conservação. Volume 18, N. 05, Outubro 2004.
Biodiversidade É um termo científico conhecido em todo o mundo, mas ainda não é bem compreendido, possuindo diversos enunciados (Lewinsohn, 2001):
• "A totalidade de gens, espécies e ecossistemas de uma região e do mundo" (Estratégia Global de Biodiversidade).
• "A variedade total de vida na Terra. Inclui todos os genes, espécies, e ecossistemas, e os processos ecológicos de que são parte" (ICBP - Conselho Internacional para a Proteção das Aves).
• "Diversidade biológica significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas" (Convenção sobre Diversidade Biológica, Artigo 2).
Biodiversidade refere-se ao número de diferentes categorias biológicas (riqueza), à abundância relativa dessas categorias (equitabilidade) e inclui: a variabilidade ao nível local (diversidade alfa), a complementaridade biológica entre habitats (diversidade beta) e variabilidade entre paisagens (diversidade gama). A biodiversidade se manifesta em todos os níveis de organização dos seres vivos (das células aos ecossistemas) e diz respeito a todas as espécies (vegetais, animais e microrganismos). Portanto, não há um nível considerado “correto” para se medir a biodiversidade. Uma alta diversidade se traduz imediatamente em maior número de relações de alimentação, parasitismo, simbiose e inúmeras outras formas possíveis de interações ecológicas.