Eduardo Duarte Ferreira ComMAI (Tramagal, 10 de fevereiro de 1856 — 21 de abril 1948) foi um empresário metalúrgico português, conhecido pela fundação da Metalúrgica Duarte Ferreira, bem como do primeira charrua metálica com bico e rasto substituíveis.
Apesar das suas origens humildes, Duarte Ferreira criou um verdadeiro Império, de nível internacional, do fabrico de máquinas agrícolas, numa primeira fase, de lagares de azeite, de peças para automóveis e de carros militares, e transformou o nome TRAMAGAL e a marca borboleta em sinónimo de excelência, contrariando por completo a origem tradicional do investimento industrial português do final do século XIX e inícios do século XX: famílias abastadas ou indivíduos estrangeiros.
Vida Eduardo Duarte Ferreira nasceu em Tramagal, a 10 de fevereiro de 1856, o segundo dos cinco filhos de Joaquim Duarte e Florinda Ferreira. Teve como padrinho André Ferreira, irmão da mãe, e como madrinha os pais escolheram a Senhora da Oliveira, orago da vila de Tramagal.
Começa a sua vida escolar aos 5 anos, como era habito, mas interrompe-a aos oito, quando começa a ajudar o Pai, carregando mercadorias para a barca do Tejo, bem como em serviços agrícolas.
A sua família era tão pobre que não tinha posses para fazer o exame da então quarta classe, o que era agravado pelo financiamento da educação do filho mais velho, que tinha sido mandado estudar farmácia pelo pai. esquerda|miniaturadaimagem|Farmácia do irmão de Eduardo Duarte Ferreira actualmente Era um rapaz muito tímido, contudo muito observador. O jovem Duarte Ferreira entretinha-se a ver os homens a consertar as cordas usadas nas noras para prender os alcatruzes e, por volta dos 10 anos imitava-os ele próprio e ajudava-os no conserto das dessas cordas.
O seu irmão, entretanto formado, começara a trabalhar em sociedade numa farmácia no Rossio ao Sul do Tejo (Rossio de Abrantes). Desse modo, pode ajudar a família e pôr fim à ânsia que o (agora adolescente) Eduardo Duarte Ferreira sentia por não saber qual a sua vocação. Depois de pôr de parte alguns ofícios, aos seus 19 anos, o seu pai tem a ideia de o colocar como aprendiz na Forja de Manuel Mineiro no Rossio ao Sul do Tejo, trabalhando três anos sem vencimento.
Das primeiras duas semanas que lá trabalhou, guardou especialmente na memória uma charrua que vira em ferro fundido. Ao chegar à terra disse ao seu pai "Não me hei de estabelecer sem montar uma fundição". Eduardo desejava, então, trabalhar numa fundição em Lisboa, sonho que não se cumpriu, mas conseguiu entrar numa fábrica no Porto (a Antiga Fundição do Ouro), por recomendação de um primo (Padre Mota), e é aí que pela primeira vez vê fundir e moldar ferro.
Foi numa conversa com o encarregado da fábrica que teve a ideia de fazer um empréstimo para começar a sua própria fundição no Tramagal.
É em 1874 que Duarte Ferreira estabelece a A Forja, uma pequena oficina que montou no Tramagal com o apoio do pai, que o ajudou a obter um empréstimo. Foi neste ano que disse a famosa frase "Eu, menos que ferreiro, se tiver saúde, não deixo de ser. Se puder ser mais alguma coisa, porque não tentar consegui-lo?”
Por tentativa e erro, Eduardo vai conseguindo aperfeiçoar as poucas técnicas que tinha aprendido no Porto. De olhos inflamados do calor da fundição e corpo cansado ao ponto de desfalecer ou dormir domingos inteiros sem acordar sequer para comer.
A princípio, a pequena oficina de Duarte Ferreira tinha pouca clientela, de maneira que o jovem ferreiro começa a fabricar alfaias agrícolas, como enxadas e enxadões, que vendia à saída da missa da vizinha aldeia de Santa Margarida da Coutada.
Um operário seu companheiro de jornada contava uma história, que ajudava a fazer uma caracterização do patrão: «Regressavam da venda. Eduardo caminhava adiante, apressadamente, a passos largos, e o companheiro, extenuado, vendo-se na impossibilidade de o acompanhar comenta "Porque vai tão depressa, mestre? A venda está feita, podemos ir com o nosso vagar!". Resposta pronta: "Tenho que andar sempre depressa, homem! A minha estrada é muito comprida!"».
Em 1882, já com uma oficina merecedora de maior respeito, é desafiado a entrar numa aposta: "Se conseguires fundir ferro, ganhas um carneiro! Queres apostar, Eduardo?". Eduardo aceitou, e, nestas condições, conseguiu fundir 100 kg de ferro, e tem, talvez, o melhor jantar que comera em algum tempo: o carneiro que lhe prometera o conterrâneo, em tom de gozo. Cria, também, a primeira charrua metálica com bico e rasto substituíveis.
Numa tarde de Primavera de 1884 casa-se com Rosa Carneiro, que já conhecia desde a sua infância. A sua dedicação ao trabalho era tanta que, mesmo no dia do seu casamento trabalhou durante toda a manhã, parando apenas às duas da tarde para celebrar a Boda. esquerda|miniaturadaimagem|Comendador Eduardo D.F. (topo), Eng. Joaquim D. F. (esquerda), Eng. Manuel D.F. (centro) e Eng. Eduardo D.F (direita)Não obstante a sua dedicação à sua oficina, a sua esposa sempre o apoiou durante a formação do Império MDF, mesmo durante as inúmeras vezes que o negócio se aproximou da falência. E foi numa dessas vezes que Rosa salvou a Metalúrgica, dando 300 mil réis que tinha guardados em casa a Eduardo, que, em vez de agradecer, a repreendeu porque, nas suas próprias palavras, "O dinheiro não é para estar parado!".
O casal tem 3 filhos: Joaquim, Manuel e Eduardo Duarte Ferreira, que, ao contrário do pai, se formaram, Joaquim e Manuel em Engenharia Mecânica, no Instituto Superior Técnico, fazendo estágios na Alemanha e na Inglaterra, e Eduardo em Comércio e Ciências Económicas, numa universidade nos Estados Unidos.
Rosa viria a morrer, subitamente, numa tarde de 1911, deixando um grande desgosto no marido. Estavam, então, a construir uma casa no centro da aldeia, que não estava ainda construída totalmente à data da morte de Rosa. A partir dessa tarde nem uma parede mais foi rebocada ou pintada e, como estava, assim ficou a casa dos Duarte Ferreira. O viúvo Eduardo Duarte Ferreira dedica-se novamente ao trabalho, e partilha as suas mágoas apenas com a sua Governanta e a sua irmã Maria, que não casou e escolheu viver com ele.
Em meados dos anos '20, os filhos regressam à aldeia, de canudo na mão, e Eduardo passa, aos poucos, o controlo das fábricas para eles, sempre sem abdicar de alguns direitos: exercia um grau de controlo substancial sobre a fábrica, era ele que abria, também, sempre o correio, e mantinha, assim, o pulso no negócio, como ele próprio dizia. A pé percorria toda a fábrica, acompanhado de um encarregado, indicando o que estava certo ou o que havia a corrigir.
Eduardo fica conhecido pela sua imagem de marca: um chapéu de chuva negro, do qual não se separava. No Verão servia-lhe de guarda-sol e no Inverno protege-o da chuva, e, à medida que a idade vai pesando, serve-lhe também de bengala.
Em 1927, Duarte Ferreira é condecorado pelo estado português, na pessoa do Presidente da República, Marechal Óscar Carmona, com a Comenda da Ordem Civil do Mérito Agrícola e Industrial, pelo trabalho feito naquela que era, então, das maiores unidades de produção do país.
Duarte Ferreira preocupa-se sempre com o bem-estar do seu corpo operário. Cria a SAT (Sociedade Artística Tramagalense), constrói o Campo de Jogos do TSU, compra os instrumentos da Banda musical e as roupas do Rancho Folclórico, além de ter criado o primeiro sistema de previdência do país.
Dedica-se, nos seus últimos anos de vida, à agricultura, fundando, nos idos dos anos '40, a Casa Agrícola Eduardo Duarte Ferreira e Filhos. Vai comprando terrenos e desenvolve nas margens do Tejo um intrincado sistema de hidráulicas, que nunca chega a trabalhar na sua máxima potência.
Eduardo Duarte Ferreira era um "velho magro, desempenado, risonho e de poucas falas; modesto no vestir, modesto nos hábitos, nas expansões a respeito da obra realizada" e a quem era possível encontrar ao fim do dia na farmácia, quando voltava da fábrica da MDF, conversando com os amigos sobre os assuntos do momento. Eduardo era um homem sempre interessado no que se passava no Mundo, apesar dos poucos estudos.
Na sequência de uma gripe, Eduardo fica acamado, mas todas as tardes recebia a visita do seu amigo farmacêutico, que o informava sobre as notícias, e a quem perguntou sobre os resultados das primeiras eleições democráticas na Itália, já no seu leito de morte.
Em 1948, com 92 anos de idade, morre, na cama, na mesma casa inacabada onde morreu a esposa, deixando uma empresa próspera que emprega oitocentos trabalhadores.
A MDF
Da fundação à Revolução de 1974 Aos 26 anos, Duarte Ferreira montou a sua primeira oficina à qual chamou A Forja.
No ano de 1882, Duarte Ferreira fabrica uma charrua metálica, com algumas modificações: rasto e bico substituíveis. miniaturadaimagem|Charrua Metálica produzida na MDF (bico e rasto substituíveis)|esquerdaO negócio prosperou, e, em 1920, muda-se para instalações maiores e mais amplas, junto da Linha da Beira Baixa, onde passou a designar-se por Grande Fábrica de Metalúrgica, empregando 250 operários. miniaturadaimagem|Borboleta da MDF, na porta de um cofre nos antigos escritórios MDF (agora Museu MDF) Em 1923, a empresa tornou-se numa sociedade por cotas, passando a designar-se por Duarte Ferreira & Filhos, passando a adoptar como seu símbolo comercial e de marca uma borboleta, além de, nesse mesmo ano, a empresa ter inaugurado a primeira unidade de aço vazado por processo eléctrico em Portugal.
Em 1924, a MDF cria um lagar modelo, que estabelece um laboratório experimental no ramo oleícola. Em 1927, é integrado na empresa um laboratório químico e metalúrgico para investigação e ensaio de materiais. Neste mesmo ano, Duarte Ferreira cria o primeiro sistema de previdência do país para os seus trabalhadores. O fabrico de enfardadeiras e de debulhadoras mecânicas, numa primeira fase (1933-1934), e de caixas de lubrificação para eixos de locomotivas e gasogénios para automóveis, numa segunda fase, são as grandes áreas produtivas da empresa que, em 1947, se transforma numa sociedade anónima com o nome de Metalúrgica Duarte Ferreira, SARL. esquerda|miniaturadaimagem|Placa de Publicidade da MDF em Angola (em exposição no Museu MDF)|120x120pxEm 1948, como consequência de um empréstimo da Caixa Geral de Depósitos, a falida Fábrica de Esmaltagem Águia, no Porto, vocacionada para o fabrico de loiça esmaltada, passa a ser parte do império Duarte Ferreira, fazendo desta unidade fabril sua filial denominada de "Divisão de Fabrico de Artigos Domésticos", cuja actividade ainda laborou até 1985. miniaturadaimagem|Loiça produzida na Fábrica de Esmaltagem Águia, no Porto. Nesse mesmo ano – 1948 – com 92 anos de idade, morre o fundador, deixando uma empresa próspera que emprega oitocentos trabalhadores.
Em 10 de Fevereiro de 1964 procede-se à inauguração das linhas de montagem dos veículos militares Berliet, fornecidos ao exército português, durante os anos da Guerra Colonial. Num espaço de dez anos, entre 1964 e 1974, a linha de montagem do Tramagal entregou um total de 3.549 veículos tácticos pesados Berliet-Tramagal às Forças Armadas portuguesas, repartidos por três modelos: 1.670 camiões GBC da versão 4x4 e outros 972 da versão 6x6 e 907 exemplares GBA 6x6.
O pós-25 de Abril esquerda|miniaturadaimagem|148x148px|Berliet - Tramagal reconvertida em Carrinha dos Bombeiros