Os conflitos Luso-Guzerates foram os confrontos armados entre o Império Português e o Sultanato do Guzerate ou Reino de Cambaia, na Índia, que ocorreram de 1508 até o Guzerate ser anexado pelo Império Mogor em 1573.

Contexto Quando em 1498 Vasco da Gama chegou à Índia, o Sultanato do Guzerate era uma das principais potências comerciais e marítimas da Índia e do Oceano Índico. A região exportava têxteis de elevada qualidade, anil, açúcar e outras mercadorias muito procuradas na Ásia e na Europa. A geografia do centro e do sul do Guzerate era particularmente adequada para a produção de culturas comerciais valiosas como o algodão e anil.Ghulam A. Nadri: "The Dynamics of Port-Hinterland Relationships in Eighteenth-Century Gujarat" in Hinterlands and Commodities: Place, Space, Time and the Political Economic Development of Asia over the Long Eighteenth Century, BRILL, 2014, p. 87.

Grande número de mercadores guzerates espalharam-se pelo Oceano Índico e formavam comunidades mercantis influentes. Muitos viviam na África oriental, em Melinde, mas também em Mombaça, hostil aos portugueses. Na península da Malásia, foi a influência das poderosas elites mercantis guzerates em Malaca, que fez com que o seu sultão, Mamude de Malaca, se virasse contra os portugueses quando estes chegaram a esta cidade em 1509. Malaca era o principal centro comercial guzerate no exterior, 1.000 comerciantes estabeleceram-se na cidade no século XV e cerca de 4.000 para 5.000 visitavam a cidade anualmente para comerciar. Os portugueses compararam-nos aos venezianos e aos genoveses devido à sua habilidade no comércio e na navegação.K. S. Matthew: "Indo-Portuguese battles" in Kaushik Roy, Peter Lorge: Chinese and Indian Warfare - From the Classical Age to 1870 Routledge, 2014, p. 167.

Portugal procurou participar no comércio do Oceano Índico e entrou em conflito com os guzerates pela primeira vez quando o governador guzerate de Diu Malik Ayyaz juntou-se a uma coligação com os mamelucos do Cairo e o Samorim de Calecute para expulsar os portugueses da Índia, em 1508.

Primeiros confrontos Batalha de Chaul, 1508

A batalha de Chaul foi um encontro naval entre uma frota portuguesa comandada por D. Lourenço de Almeida e as frotas coligadas de mamelucos e guzerates que teve lugar no porto de Chaul, na Índia. A batalha saldou-se por uma vitória muçulmana. Foi a primeira derrota sofrida pelos portugueses no mar no Oceano Índico.Tide of Empires: 1481–1654 Peter Padfield p.62ff

Batalha de Diu, 1509

Depois da batalha de Chaul em 1508, uma coligação de mamelucos, guzerates e malabares de Calecute reuniram os seus navios em Diu para depois partirem juntos contra os portugueses e expulsarem-nos da Índia. Foram, porém, derrotados pela armada portuguesa da Índia comandada pelo vice-rei D. Francisco de Almeida.

A vitória portuguesa revelou-se crítica: a grande aliança muçulmana foi totalmente desfeita, facilitando assim a estratégia portuguesa de controlar a navegação no Oceano Índico e desviar o comércio entre a Índia e a Europa pela Rota do Cabo, evitando assim as rotas dominadas pelos árabes e pelos venezianos, pelo Mar Vermelho e Golfo Pérsico. Portugal conquistou vários pontos-chave no Oceano Índico após a batalha de Diu, incluindo Goa, Colombo, Malaca e Ormuz.

A batalha de Diu foi uma batalha de aniquilamento, semelhante a Lepanto ou Trafalgar e uma das mais importantes da história mundial e naval, pois marca o início do domínio dos mares do Oriente pelos europeus, algo que duraria até à Segunda Guerra Mundial.Saturnino Monteiro (2011), Portuguese Sea Battles Volume I – The First World Sea Power p. 273

Batalhas de Dabul e Chaul, 1517

Em 1517, uma frota de sete navios de remo comandads por João de Monroi derrotaram uma frota de 15 navios de remo guzerates de Diu, contratada pelo senhor de Maim para atacar a navegação portuguesa, perto de Chaul. Mais tarde, no mesmo ano, o Monroi destroçou outra frota de 14 navios de remo perto de Dabul devido à sua superior artilharia.K. S. Matthew: "Indo-Portuguese battles" in Kaushik Roy, Peter Lorge: Chinese and Indian Warfare - From the Classical Age to 1870, Routledge, 2014, p. 176.

Guerra Luso-Guzerate, 1521-1534 Batalha de Chaul 1521

Quando os portugueses iniciaram a construção de uma fortaleza em Chaul com o consentimento do sultão de Ahmadnagar, o governador de Diu, Melique Saca despachou 40 a 50 navios a remo comandados por Aga Mamude para impedir a conclusão da obra. O governador da Índia Diogo Lopes de Sequeira mobilizou três galeões, uma caravela e três galés comandadas por D. Aleixo de Meneses e depois um longo combate em Novembro de 1521 Aga Mamude retirou-se em desgraça.Roy, Lorge, 2014, pp. 176-177.

Campanha do Guzerate, 1529 Em 1529 o governador da Índia Lopo Vaz de Sampaio reuniu uma frota para conquistar Diu, porém, depois de partir de Chaul os portugueses ancoraram ao pé de uma ilha na enseada de Bombaim devido a ventos contrários.J. Gerson Da Cunha: Origin of Bombay, Asian Educational Services, 1993, p. 74. O grande capitão Alixá encontrava-se ali perto com uma frota de 68 navios de remo mas retirou-se de imediato. Alixa foi derrotado no rio Nagotana por um destacamento comandado por Heitor da Silveira. Alixá retirou-se depois para uma fortaleza em terra mas Heitor da Silveira desembarcou com 500 homens e devastou a região em redor, regressando com artilharia capturada.Da Cunha, 2004, p. 75.

Lopo Vaz de Sampaio retirou-se para Goa a 20 de Março mas deixou para trás Heitor da Silveira com 22 navios e 300 homens. O Silveira levou a cabo incursões na ilha de Bombaim e provavelmente nas ilhas em redor também. Os portugueses deram o nome de Ilha da Boa Vida à ilha de Bombaim. Em Baçaim encontraram Alixá bem fortificado e ao comando de 3,500 homens mas a fortificação foi tomada por assalto e a cidade pilhada. Temendo pela sua vida, o senhor de Taná ofereceu 2000 pardaus como tributo a troco de paz, que foi aceite.Da Cunha 2004, p. 76.

Campanha do Guzerate, 1530 Em 1530, uma esquadra comandada por António da Silveira arrasou Surrate e Reinel, não obstante a resistência oferecida pela sua aguerrida população muçulmana.Kuzhippalli Skaria Mathew: Portuguese and the Sultanate of Gujarat, 1500-1573 Mittal Publications, 1986, p. 132. Surrate seria mais tarde reconstruida e tomaria o lugar de Reinel, sua rival.M. S. Commissariat: Mandelslo's Travels in Western India: (1638 - 1639),Asian Educational Services, 1995, p. 7.

Campanha do Guzerate, 1531

Em 1531, o governador Nuno da Cunha reuniu uma grande armada que conteria até 400 navios e 30,000 homens, para conquistar a ilha e cidade de Diu.

Na Ilha de Bete combateram contra um destacamento de 800 guerreiros guzerates aquartelados num forte que ali existia e massacraram-nos.Monteiro (1991), p.205 A ilha ficaria, doravante, conhecida como "Ilha dos Mortos". Os portugueses sofreram 9Frederick Charles Denvers: The Portuguese in India, W.H. Allen & Company, 1894, p. 401. ou 17 mortos e 120 feridos. Partiram depois para Diu mas não lograram penetrar no porto e sofreram 14 baixas.Monteiro, 1991, p.209 Deveu-se isto em parte devido ao poder de fogo da artilharia otomana empregue por Mustafa Bayram, um perito otomano.Guns for the sultan: military power and the weapons industry in the Ottoman Empire, Gábor Ágoston, page 194, 2005

Ainda que Diu tenha sido defendida a vitória foi sol de pouca dura: a ilha foi bloqueada por mar e a armada portuguesa desviada para cidades guzerates mais expostas.Denvers, 1894, p.403. Goga, Surrate, Mangalor, Mangrol, Somnath, Baçaim, Tarapur, Quelve, Mahim, Bulsar, Agaçaim, Pate e muitos outros povoados mais pequenos foram atacado e saqueados, alguns nunca mais recuperando destes ataques.Pearson, Michael Naylor (1976). Merchants and Rulers in Gujarat: The Response to the Portuguese in the Sixteenth Century. University of California Press, pg. 76Denvers 1894, p.402-404Gazetteer of the Bombay Presidency, Volume 13, Government Central Press, 1882, p.451

Campanha do Guzerate, 1532 O governador Nuno da Cunha enviou Diogo da Silveira a atacar Cambaia no verão de 1532 mas pouco havia para fazer quando o Silveira chegou, por terem as regiões costeiras sido abandonadas e encontrarem-se desertas. Mediante pressão do senhor de Diu Melique Tocão, o senhor de Taná recusou-se a pagar um tributo acordado no ano anterior e Taná foi saqueada. Em Abril de 1532 Diogo da Silveira partiu para Chaul.Da Cunha, 2004, p. 86

Campanha do Guzerate 1533

O governador Nuno da Cunha pretendia bloquear Diu por mar mas como antevia que a cidade de Baçaim pudesse interferir com este plano, partiu a reduzi-la em finais de 1532 com 150 navios e 3000 portugueses, acompanhados por 200 auxiliares canarins. Os portugueses alcançaram Baçaim em Janeiro de 1533 e constatou-se estar a cidade fortemente defendida por 12,000 homens. O governador dividiu os seus soldados em três destacamentos e atacou Baçaim por três lados. Os guzerates perderam o ânimo logo após o primeiro ataque e retiraram-se para a fortaleza da cidade, de que foram expulsos, tendo perdido na batalha 600 homens. Os portugueses capturaram 400 peças de artilharia, muita munição e depois de terem devastado os campos em redor arrasaram a fortaleza de Baçaim.Danvers, 1894, p. 404.

Manuel de Albuquerque foi depois enviado a atacar Damão. Foi o Albuquerque bem-sucedido e não só atacou Damão como incendiou todas as vilas de Baçaim a Tarapur, regressou com muitos despojos e capturou alguns navios depois de ter reduzido Taná, Bandorá, Mahim e Bombaim ao estatuto de vassalos tributários.

Campanha do Guzerate, 1534

Duas frotas portuguesas alcançaram a Índia em 1534, uma de cinco navios comandada por Martim Afonso de Sousa e outra com 12 navios e 1200 soldados comandada por D. Pedro de Castelo Branco. A Martim Afonso de Sousa foram-lhe dados 40 navios e 500 homens e com eles atacou, novamente, Damão. O comandante de Damão incendiou a sua cidade e retirou-se para a fortaleza da cidade mas esta fortificação foi tomada pelos portugueses, a maioria dos defensores mortos e o forte arrasado depois.Frederick Charles Danvers: The Portuguese in India A.D. 1481-1571, W.H. Allen & Company, limited, 1894, p. 405.

Em 1534, o sultão Badur de Cambaia assinou o Tratado de Baçaim com o governador Nuno da Cunha, mediante o qual concedia aos portugueses o território de Baçaim, que incluía Bombaim. No ano seguinte os portugueses foram autorizados a construir uma fortaleza em Diu.

Guerra Luso-Guzerate 1537-1539 O sultão Badur de Guzerate encontrava-se sob ameaça do imperador Humayun e permitiu aos portugueses construírem uma fortaleza em Diu em troca de ajuda militar contra os mogores, bem como de asilo, caso o seu reino fosse totalmente conquistado. Os portugueses tomaram posse de Gogolá, perto de Diu, e construíram a fortaleza de Diu.

Afastada a ameaça mogor, o sultão Badur tentou negociar a retirada dos portugueses mas a 13 de Fevereiro de 1537 afogou-se durante as negociações em circunstâncias pouco claras.The Cambridge history of the British Empire, Volume 2 by Arthur Percival Newton p.14

Morto o Badur, os portugueses tentaram interferir a fundo na política de Cambaia e colocaram no trono um sultão-fantoche, Muhammad Zaman Mirza, que aceitou um tratado ditado pelos portugueses e concedeu-lhes grandes somas de dinheiro.Pearson, 1976, pp. 77-78. O sultão foi, porém, deposto pouco depois pelos apoiantes de Mamude III.

Cerco de Diu, 1538