Paula Inês Malatesta (; Pésaro, 1393 — Mântua, 28 de fevereiro de 1449) foi uma nobre italiana. Ela foi a primeira marquesa de Mântua pelo seu casamento com João Francisco Gonzaga. Ela teve um papel significativo e influente na corte de Mântua, em vários aspectos: político, cultural, financeiro e religioso. Além disso, também foi mecenas e fundadora de casas religiosas da Ordem de Santa Clara. É considerada beata pela Igreja Católica.
Família Paula foi a segunda filha e terceira criança nascida do condotiero Malatesta IV Malatesta, senhor de Pesaro e Fossombrone, e de Isabel de Varano de Camerino.
Os seus avós paternos foram Pandolfo II Malatesta e Paula Orsini. Os seus avós maternos foram Rodolfo II da Varano e sua esposa de nome desconhecido.
Ela teve vários irmãos, que eram: Galeácio, sucessor do pai, e marido de Batista de Montefeltro, uma poeta renascentista que foi a primeira mulher na Itália a ter feito um discurso público em latim; Carlos II, marido de Vitória Colonna, sobrinha do Papa Martinho V; Galeoto, Pandolfo, arcebispo de Patra, Cleofa, esposa do déspota Teodoro II Paleólogo e Tadeia, esposa de Ludovico Migliorati, marquês de Ancona e senhor de Fermo.
Biografia Paula tinha uma deformidade na coluna vertebral, assim como o irmão, Pandolfo. Ela costumava visitar a cidade de Petriolo para tratar das dores nas articulações resultantes de suas costas curvadas, com as águas quentes e sulfurosas das termas, no verão. Uma vez ela chegou a visitar a cidade junto ao pai, e lá permaneceu durante seis meses. Ela era considerada inteligente e bonita.
As relações de Paula com o pai, o senhor de Pésaro, foram afetuosas e frequentes. Assim supõe-se que o pai de Paula, soldado segundo a tradição familiar, e poeta por opção pessoal, teve uma influência profunda sobre a educação de uma filha por quem encontrou nas cartas acentos de afeto profundo e verdadeiro.
Casamento O casamento com João Francisco Gonzaga veio a coroar um costume entre as duas dinastias nascido nas décadas finais do século XIV, e consolidado por duas uniões anteriores: a de Francisco I Gonzaga com Margarida Malatesta, pais do noivo, e a de Carlos I Malatesta de Rimini com Isabel Gonzaga, irmã de Francisco I. Carlos Malatesta, nomeado por testamento de Francisco IV como guardião do jovem João Francisco, juntamente com a República de Veneza, consolidou a sua influência sobre Gonzaga ao concluir com sucesso o casamento, já acordado por Francisco Gonzaga, com a sua parente de sangue, Paula.
João Francisco, o primeiro príncipe renascentista da família Gonzaga, era um ótimo soldado como seus ancestrais, além de ser um homem culto, interessado na arte e em erudição.
O seu futuro marido, o senhor de Mântua, deixou a cidade de Mântua no mês de julho de 1409. Em 22 de agosto, foi assinada, em Pésaro, a escritura notarial na qual Paula renunciou formalmente a qualquer reivindicação para si e para os seus herdeiros da herança paterna e materna, sem prejuízo do dote fixado em 5.000 florins de ouro. Foi nesse mesmo dia, 22 de agosto de 1409, que os dois se casaram, quando a noiva tinha cerca de 16, e o noivo tinha por volta de 14 anos. As festividades do casamento foram prolongadas e magníficas. No torneio para celebrar a união, 40 dos cavaleiros que participaram eram da família Gonzaga.
Os jovens esposos regressaram à Mântua apenas no início de janeiro do ano seguinte. A festa de casamento na cidade foi celebrada em 18 de janeiro de 1410, como se verifica numa lista de presentes recebidos pela noiva naquela ocasião.
O fato de ter sido o segundo casamento Malatesta dos senhores de Mântua fez com que Paula pudesse usufruir de numerosos bens, joias, baús e diversos objetos pessoais que já tinham pertencido à sua falecida sogra, Margarida, e marcados com o brasão de armas duplo Gonzaga-Malatesta, que lhe foram entregues em fevereiro de 1410. Por outro lado, o problema do dote arrastou-se durante muitos anos, apesar de uma escritura notarial ter sido lavrada em Mântua, em 23 de abril de 1410, para testemunhar o pagamento esperado. Algumas lacunas no texto levaram Francesco Tarducci a acreditar que a escritura foi previamente preparada, mas isso não ocorreu de fato. O testamento do pai da jovem, redigido em 4 de abril de 1422, também exortava seus filhos a pagarem a senhora Paula o que era devido a ela (como jure institucional) pelo seu dote, bem como um legado paterno de 2.000 ducados que serviria para saldar uma dívida contraída por Malatesta IV com sua filha, montantes que, tendo em conta as condições de profundo endividamento do testador e, posteriormente, dos seus herdeiros, é altamente duvidoso que tenham sido pagos.
João Francisco e Paula tiveram sete filhos, quatro meninos e três meninas. Igual à sogra, Margarida Malatesta, ela introduziu uma doença na família Gonzaga; desta vez era cifose, que se manifestou nas gerações seguintes até Guilherme Gonzaga.
Vida na corte Em geral, Paula mantinha relações próximas e duradouras com seus familiares, mesmo nos momentos de maior dificuldade para o ramo Pésaro da família, interpondo-se ao marido sempre que era possível e necessário para fortalecer, sobretudo, a posição de Galeácio, que sucedeu ao pai no vicariato de Pésaro, em 1429. Em particular, manteve uma rica correspondência com sua cunhada Batista de Montefeltro, esposa de Galeácio, provavelmente devido às afinidades religiosas. Assim como a sua sogra, Margarida Malatesta, que, no passado, , também havia feito parte de uma rede de comunicações com as cortes de Ferrara, Rimini e Pésaro, a qual incluía as nobres Alda d'Este, Isabel e Margarida Gonzaga, Paula também manteve correspondências ativas com Batista e seus parentes, inclusive o pai, o poeta Malatesta, a qual também conectava os estados de Mântua, Ferra, Pésaro, e, agora, Urbino. Paula também trocava cartas com a religiosa Catarina de Bolonha, uma parente, parte da Ordem de Santa Clara, que foi declarada santa pela Igreja.
Os anos entre 1409 e 1414 foram os anos da libertação progressiva de João Francisco, cada vez mais adulto, das influências externas: primeiro se livrou do tutor Carlos Malatesta, depois dos poderosos conselheiros de Albertini, que cresceram à sua sombra. A historiografia atribui à Paula um papel significativo neste contexto, alinhado com a imagem mais geral que tem sido transmitido dela como uma mulher responsável, atenta, por vezes mais firme e presente que o marido.
No conflito entre 1413 e 1414 entre o partido Malatesta de Carlos e seu irmão Pandolfo, senhor de Bréscia, contra o imperador Sigismundo do Sacro Império Romano-Germânico, apoiado no lado contrário por Carlos Albertini da Prato, conselheiro de Gonzaga e seus irmãos, inicialmente para obter o título de marquês Gonzaga, e depois para substituí-lo. Paula, naturalmente, ficou do lado dos Malatesta. Ao mesmo tempo, no entanto, pressentia o perigo que poderia advir para o domínio Gonzaga do que parecia se configurar, em 1414, como uma verdadeira conspiração do partido Albertini. Como foi efetivamente demonstrado por uma pesquisa recente de Evelyn Welch, os dois jovens senhores de Mântua tinham, entre outras coisas, uma grande dívida com a família Albertini, que tinha crescido em influência e poder na cidade. Assim, a conspiração, descoberta e suprimida na primavera de 1414, teve como resultado político o realinhamento imediato dos Gonzaga para o lado veneziano, e, como efeito duradouro, uma desconfiança definitiva de João Francisco na criação e manutenção no Estado de figuras predominantes de favoritos, além do confisco de um patrimônio deste porte (nas casas da família Albertini, os Gonzaga teriam encontrado 120.000 ducados de ouro) para restaurar por algum tempo a estabilidade de suas finanças. Paula, por sua vez, provavelmente viu fortalecida sua autoridade pessoal, bem como sua autonomia financeira: de fato, de seus livros contábeis parece que das quantias confiscadas da família Albertini, ela recebeu do marido, no verão de 1414, a considerável soma de 38.444 ducados.
Em 1432, o senhor de Mântua tornou-se o comandante do exército da República de Veneza. Já no ano seguinte, na data de 22 de setembro de 1433, após um pagamento de 120.000 florins, o imperador Sigismundo, elevou João Francisco ao título de marquês. Mais tarde, ele se aliou à família Visconti, rivais do Papa.
A figura de Paula emerge das fontes segundo uma oscilação significativa: por um lado, a religiosidade sincera e, mais geralmente, uma atenção contínua à espiritualidade, pontuam a sua biografia com episódios que pintam a figura dela como uma educadora sensível e atenta, e de uma mulher de sentimento religioso intenso e coerente. A sobrevivência dos livros de contas pessoais da marquesa, um acontecimento decididamente raro para este período, revela os lados mais meticulosos e prudentes da sua figura pública como senhora e marquesa. Ela deve ter tido um peso político considerável se, em 1429, o senado veneziano dispôs-se a prestar-lhe uma homenagem especial durante uma visita a Pádua: ("que a própria senhora de alguma forma governe o próprio senhor e seu estado"). Na verdade, as correspondências sobreviventes mostram como a marquesa, na ausência do marido, que nos últimos anos esteve ocupado como líder da Sereníssima, geriu todos os assuntos do Estado, especialmente os financeiros.
João Francisco tinha plena consciência do valor da sua esposa; entre as numerosas cartas endereçadas a Paula, não são raras as palavras como as que encontramos no final de uma carta de 1437, na qual o marquês concluiu uma longa série de instruções políticas com a seguinte admissão: "que te tratando mal todos os dias como nós, você tão intensamente estudou para fazer algo para ser grato e gostar continuamente, por isso passamos a ser superados por você com gratidão."
Questões familiares Em 1423, João Francisco e Paula conseguiram convencer o humanista, Vittorino da Feltre, conhecido como Rambaldoni, a se mudar para Mântua para cuidar da educação dos filhos do casal. A escola, conhecida como Ca'Zoiosa ou Casa Gioisa, também recebia outros jovens privilegiados ou talentosos. Graças ao apoio de Paula e João Francisco, Rambaldoni foi capaz de elaborar e executar uma educação que faz da sua escola uma das mais criativas da Itália durante o Renascimento.
thumb|left|Detalhe de Paula e Bárbara, sua nora, na pintura conhecida como Camera degli Sposi por Andrea Mantegna.
As relações entre o humanista e Paula eram próximas e cotidianas, como demonstram as poucas cartas restantes de Rambaldoni. Em pelo menos duas ocasiões, a marquesa e a educadora se encontraram lado a lado na defesa dos pequenos filhos Gonzaga durante amargos confrontos com o pai. Em 1436, a transição do filho mais velho, Ludovico, da frente veneziana para o lado milanês - uma transição que aparentemente ocorreu sem o conhecimento de João Francisco, então capitão-geral da Sereníssima - causou uma ruptura decisiva na relação entre pai e filho. Os dois só consertaram essa fratura, em 1440, graças ao trabalho de mediação de Puola e Rambaldoni. Nesse período, enquanto Ludovico estava banido de Mântua, por carta de Federico de Hohenzollern dirigida a ela, sabe-se que Paula não deixou de demonstrar seu carinho pela jovem nora, Bárbara de Brandemburgo (que também foi educada por Rambaldoni), ostensivamente preferida na corte de Mântua por seu sogro, Rengarda Manfredi, esposa de seu segundo filho, Carlos, que naqueles anos se tornara herdeiro do marquesado em lugar de Ludovico por testamento de seu pai.
thumb|Medalha de Cecília Gonzaga produzida por Pisanello, de 1457.