Uma eleição legislativa foi realizada na França em 30 de junho de 2024, com um segundo turno (segunda volta) em 7 de julho (um dia antes para alguns eleitores no exterior), para eleger todos os 577 membros da 17ª Assembleia Nacional da Quinta República Francesa. A eleição ocorreu após a dissolução da Assembleia Nacional pelo presidente Emmanuel Macron, que decidiu convocar eleições antecipadas após as eleições para o Parlamento Europeu de 2024 na França, nas quais o Reagrupamento Nacional (RN) obteve ganhos substanciais contra sua lista eleitoral Besoin d'Europe. Esta última perdeu um número considerável de assentos em comparação com a eleição para o Parlamento Europeu de 2019.

A eleição legislativa contou com quatro principais blocos: Ensemble, a coalizão/coligação de forças pró-Macron, incluindo Renaissance, o Movimento Democrático e Horizons; a Nova Frente Popular (NFP), reunindo os principais partidos de esquerda, incluindo La France Insoumise, o Partido Socialista, os Ecologistas e o Partido Comunista Francês; o Reagrupamento Nacional (RN), que também apoiou várias dezenas de candidatos respaldados por Éric Ciotti dos Republicanos (LR), além de seus próprios candidatos, precipitando uma crise de liderança dentro dos últimos; e a vasta maioria dos outros candidatos dos LR, que foram apoiados pelo comitê nacional de investidura do partido.

As pesquisas de opinião antes das eleições sugeriam que a alta participação e o nível de tripolarização do eleitorado entre Ensemble, a Nova Frente Popular e o Reagrupamento Nacional poderiam levar a um número sem precedentes de disputas de três vias no segundo turno da eleição. Analistas também notaram que a consolidação do eleitorado em torno dessas três principais forças políticas poderia resultar em um impasse institucional total após as eleições, caso nenhum bloco conseguisse garantir os votos da maioria absoluta dos membros da Assembleia Nacional, o que poderia forçar Macron a convocar uma segunda eleição antecipada em até um ano após a eleição de 2024, conforme estipulado pela constituição.

No primeiro turno da eleição, o RN e seus aliados lideraram com 33,21% dos votos, seguidos pelos partidos da Nova Frente Popular com 28,14%, os de Ensemble com 21,28% e os candidatos dos LR com 6,57%, com uma participação geral de 66,71%, a mais alta desde 1997. Com base nesses resultados, 306 circunscrições estavam indo para disputas de três vias e 5 para disputas de quatro vias. Um total de 76 candidatos foram eleitos diretamente no primeiro turno, e candidatos apoiados pelo RN qualificaram-se para o segundo turno em 444 outras circunscrições, comparado a 415 para a NFP, 321 para Ensemble e 63 para LR (segundo as classificações de candidatos do Le Monde). No segundo turno, após 134 candidatos apoiados pela NFP e 82 candidatos apoiados por Ensemble desistirem (a maioria para tentar impedir a vitória do RN), restaram apenas 89 disputas de três vias e 2 de quatro vias.

Contrariamente às projeções pré-eleitorais, os candidatos apoiados pela NFP conquistaram uma pluralidade de assentos após o segundo turno, com os candidatos de Ensemble superando as expectativas ao ficarem em segundo lugar, à frente dos candidatos apoiados pelo RN, em terceiro, seguidos pelos candidatos dos LR em quarto lugar. Segundo a classificação de candidatos pelo Ministério do Interior, os candidatos pertencentes aos partidos da NFP receberam 180 assentos (bem abaixo dos 289 necessários para uma maioria), comparados a 159 para os partidos de Ensemble, 142 para os candidatos apoiados pelo RN e 39 para os candidatos dos LR, resultando em um parlamento sem maioria definida. As classificações não oficiais dos candidatos pela mídia podem diferir ligeiramente das utilizadas pelo Ministério do Interior: de acordo com a análise do Le Monde, 182 candidatos afiliados à NFP foram eleitos, comparados com 168 de Ensemble, 143 do RN e 45 dos LR. A participação no segundo turno, de 66,63%, também estabeleceu um recorde, sendo a mais alta desde 1997.

Após os resultados, Gabriel Attal anunciou que apresentaria sua renúncia como primeiro-ministro em 8 de julho, mas indicou sua disposição de permanecer no cargo o tempo necessário, e líderes da NFP pediram a nomeação de um primeiro-ministro de esquerda. Macron recusou a renúncia de Attal "por enquanto" no dia seguinte.

Contexto Após as eleições legislativas de 2022, o Ensemble perdeu sua maioria absoluta na Assembleia Nacional. Entre os partidos membros da coalizão estava o partido do presidente Emmanuel Macron, Renascimento (anteriormente La République En Marche!). Enquanto isso, os dois principais blocos de oposição, a União Popular Ecológica e Social (NUPES) de esquerda e o Reagrupamento Nacional (RN) de extrema-direita, tiveram ganhos significativos em termos de assentos. Apesar disso, nenhum grupo obteve a maioria absoluta, resultando em um parlamento suspenso pela primeira vez desde as eleições de 1988. A falta de uma maioria absoluta levou à repetida invocação do artigo 49.3 da constituição para aprovar legislações, com Élisabeth Borne fazendo isso 23 vezes até dezembro de 2023.

Em 9 de junho de 2024, pouco depois das 21:00 CEST, Macron dissolveu a Assembleia Nacional e convocou eleições antecipadas em um discurso nacional após projeções indicarem que a lista eleitoral L'Europe Ensemble seria significativamente eclipsada pelo RN nas eleições para o Parlamento Europeu na França. Em seu discurso, ele chamou a ascensão do nacionalismo por agitadores de uma ameaça à França, à Europa e ao lugar da França no mundo. Ele também alertou que a extrema-direita traria "o empobrecimento do povo francês e a queda do nosso país." As datas do primeiro e segundo turnos das eleições foram marcadas para 30 de junho e 7 de julho, respectivamente.

Reações ao Anúncio

Políticos O líder do RN, Jordan Bardella, chamou a grande diferença entre as listas eleitorais do RN e do L'Europe Ensemble nas eleições para o Parlamento Europeu de um "desmentido contundente" ao presidente Macron, dizendo que os resultados marcaram "o dia 1 da era pós-Macron". Marine Le Pen, presidente do grupo RN na Assembleia Nacional, e Jean-Luc Mélenchon, líder do La France Insoumise, celebraram os resultados das eleições e acolheram com satisfação o anúncio das eleições antecipadas.

O ex-presidente Nicolas Sarkozy condenou Macron, vendo sua decisão de dissolver o parlamento como um "risco sério para o país". A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, reagiu extremamente negativamente à decisão de Macron, dizendo que as eleições representavam uma ameaça séria para os próximos Jogos Olímpicos de Verão de 2024, pois não apenas "estragariam o clima de todo o país," mas também trariam o risco de tumultos e manifestações nas ruas.

Mídia A decisão de realizar uma eleição pegou de surpresa os observadores externos e foi amplamente vista como arriscada para a maioria presidencial de Emmanuel Macron, com alguns sugerindo que Macron desejava forçar uma decisão entre o RN e sua oposição, e outros avaliando que Macron pretendia conquistar uma maioria. O líder do Renaissance, Stéphane Séjourné, tentou atrair moderados tanto da esquerda quanto da direita para se juntarem à sua aliança em comentários feitos logo após o anúncio da dissolução.

A maioria da mídia internacional expressou profunda surpresa com a decisão de Macron, chamando as eleições antecipadas de "aposta desesperada." Em geral, a decisão de Macron foi percebida negativamente, e as perspectivas de vitória de sua aliança nas eleições foram avaliadas como baixas. La Libre Belgique chamou Macron de "animal político ferido". Segundo a BBC, ao convocar eleições antecipadas, Macron colocou em risco a democracia da Quinta República e correu o risco de provocar violência nas ruas e colapso institucional. The Guardian considerou as medidas de Macron uma tentativa de vingar sua derrota nas eleições anteriores para o Parlamento Europeu, o que poderia resultar na ascensão de radicais ao poder e dividir o país. Die Zeit acreditava que Macron "perdeu a calma" a tal ponto que ele realmente "entregou o país a Marine Le Pen." O jornal diário grego Kathimerini chamou a decisão de Macron de uma aposta imprudente que não levaria a nada de bom. A mídia francesa levantou a questão de realizar os Jogos Olímpicos de Verão de 2024 em condições de instabilidade política.

No Brasil, o jornal Folha de S.Paulo, em um editorial diz que Macron está esvaziado e diz que há um risco de o presidente francês sair dessa eleição "manco de um país cujo Parlamento foi entregue à oposição". O Globo, descreveu a decisão como uma manobra arriscada de Macron, destacando o potencial aumento de instabilidade política e o impacto nos preparativos para as Olimpíadas de 2024 e o Estadão atentou para possíveis desdobramentos negativos para a França.

Campanha O tempo para registar as candidaturas às eleições para a primeira ronda foi de 12 a 16 de junho, enquanto para a segunda volta será até a 2 de julho. A campanha eleitoral começou oficialmente a 17 de junho.

Logo após os resultados das europeias, François Ruffin, deputado da França Insubmissa, pediu uma nova Frente Popular para travar a ascensão do Reagrupamento Nacional. Rapidamente, os líderes do Partido Socialista, Verdes e do Partido Comunista Francês, bem como diversos intelectuais e independentes, juntaram-se ao apelo e, a 10 de junho foi apresentada a Nova Frente Popular. O programa da Frente Popular, apresentado a 14 de junho, onde prevê reverter a política de imigração e de pensões do governo Macron, reconhecimento do Estado da Palestina continuar com ajuda militar para a Ucrânia e o envio de soldados da manutenção da paz para proteger as centrais nucleares ucranianas.

Na direita francesa, a divisão tem sido a palavra de ordem. Na noite das eleições europeias, Marion Maréchal, candidata pelo partido Reconquête de Éric Zemmour, anunciou uma reunião no dia seguinte com Jordan Bardella e Marine Le Pen (tia de Marion). Após a reunião, Marion anunciava que o Reagrupamento Nacional não queria uma coligação em virtude da sua posição contra Zemmour. Apesar disto, Marion Maréchal anunciou o seu apoio ao RN. Como consequência deste anúncio, Zemmour expulsou, não só Marion Maréchal, como outros membros do seu partido e ficando reduzido a 1 eurodeputado, apenas dois dias depois de ter elegido 5.

Marine Le Pen prometeu que o RN iria formar um governo de "unidade nacional" em caso de vitória eleitoral. Ao mesmo tempo, Bardella afirmou que só ele "era o único capaz de bloquear Mélenchon e bloquear a extrema-esquerda" e apelou a "todas as forças patrióticas da república" para se unirem e travar uma possível vitória da esquerda francesa. Ele também prometeu passar uma nova lei de imigração que permita a deportação de "islamistas e delinquentes" e cortar os custos da energia enquanto primeiro-ministro.

A grande questão destas eleições foi uma possível aliança entre a direita tradicional gaullista dos Republicanos e o Reagrupamento Nacional. A 11 de junho, numa entrevista a um canal francês, Éric Ciotti, líder dos Republicanos, anunciou o seu apoio para que tal aliança aconteceu. Este anúncio motivou uma onda de choque com vários membros dos Republicanos a condenaram tal decisão, e no dia seguinte, a comissão política do partido anunciou a expulsão de Ciotti, não só como líder do partido, mas como membro do partido totalmente. Apesar disto, Ciotti rejeitou tal decisão, descrevendo-a como uma "violação flagrante dos nossos estatutos" e que era ilegal e nula. Ciotti viu um tribunal administrativo de Paris a dar-lhe razão a 14 de junho, sendo restituído líder dos Republicanos. Jordan Bardella afirmava que o RN e os Republicanos iriam apoiar 70 candidatos de forma conjunta, embora os Republicanos afirmam que o número de candidatos não está correto. Por contraponto, a secção do partido Republicano de Altos do Sena anunciou uma aliança com a coligação de Macron.