A Igreja Católica no Vietnã, (em português brasileiro) ou Vietname, (em português europeu) é parte da Igreja Católica universal, em comunhão com a liderança espiritual do Papa, em Roma, e da Santa Sé. Ocorre no país o mesmo que em todos os regimes comunistas: há uma constituição e diversas leis que, apenas no papel, parecem respeitar a liberdade religiosa. De certa forma, o Partido Comunista do Vietnã já não utiliza mais sistema de domínio total oriundo do marxismo-leninismo sobre a religião, e, portanto, não há expectativa de declínio ou extinção, mas sim cada vez mais vista como parte positiva da cultura e tradições vietnamitas, e de contribuir para o bem-estar e desenvolvimento do país. O relatório de perseguição religiosa de 2024 da fundação Portas Abertas considerou o Vietnã como o 35.º país que mais persegue os cristãos no mundo. Devido ao fato de o catolicismo ter chegado ao país na era colonial, prevalecem os estereótipos como "católicos são franceses e protestantes são americanos", principalmente em áreas rurais.

História Origens O cristianismo chegou ao Vietnã em 1533 por missionários europeus que estavam a caminho da China. Dois jesuítas fugidos da perseguição aos cristãos no Japão, Francesco Buzomi e Diogo Carvalho, estabeleceram a primeira missão permanente em 1615 em Da Nang. Em 1624, a atividade missionária em grande escala começou com a chegada de outro contingente de jesuítas. Liderando esse contingente estava Alexandre de Rhodes, que depois viria a ficar conhecido como o apóstolo do Vietnã. Rhodes se dirigiu para Hanói em 1627, onde obteve um sucesso extraordinário, batizando a irmã do rei e cerca de 6.700 vietnamitas em três anos. Em 1630, ele foi expulso e o primeiro cristão (não identificado) foi decapitado por causa da fé. Ele retornaria ao Vietnã em 1639, calculando que havia então 100.000 católicos vietnamitas. O influxo de novos missionários da Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris levou a um período de rápido crescimento. Em 1658, havia 300.000 católicos somente em Viet Bac. Em 1659, a florescente missão foi dividida a partir do Rio Gianh em dois vicariatos apostólicos: o de Viet Bac, ao norte, e o de Nanyue, ao sul. O primeiro seminário foi inaugurado em 1666, e os primeiros dois padres nativos foram ordenados já em 1668. Em 1670, Pierre Lambert de la Motte, um padre missionário, fundou a primeira congregação religiosa indígena feminina — as Amantes da Santa Cruz.

Em 1698, eclodiu a primeira grande onda de perseguição à Igreja, resultante de perseguições localizadas em décadas anteriores. Nessas ondas, pelo menos 100.000 cristãos foram martirizados. As perseguições cessaram temporariamente em 1787, quando o vigário apostólico local, Pierre Pigneau de Behaine, organizou um tratado entre o governo francês e o ambicioso senhor provincial do sul, que mais tarde viria a se tornar o imperador Gia Long). A perseguição recomeçou com maior intensidade durante o reinado de seu filho, o imperador Minh Mạng, um praticante fundamentalista do confucionismo, temendo uma possível ameaça do cristianismo à vida sócio-política do Vietnã. Em 1825, ele proibiu a entrada de novos missionários estrangeiros. Quando a rebelião eclodiu em 1833 e os rebeldes procuraram a ajuda de missionários cristãos, o imperador enfurecido respondeu com uma campanha de perseguição feroz, expulsando todos os missionários estrangeiros restantes e forçando os cristãos vietnamitas a abandonarem a fé pisoteando um crucifixo. Sob o reinado de seu filho, o imperador Thiệu Trị, as perseguições diminuíram um pouco, com execuções e expulsões esporádicas.

Colonização francesa A última e pior onda de perseguição recomeçou em 1847 com a ascensão do imperador Tự Đức ao trono. Cruel, inseguro e intransigente, o imperador desconfiava dos missionários estrangeiros e dos cristãos vietnamitas, acusando-os de instigar e participar em rebeliões contra o seu governo. Missionários estrangeiros foram executados e cristãos vietnamitas eram marcados em seus rostos com a inscrição tả đ–ạo (). Muitas famílias foram separadas à força e torturadas para obter retratações. A ferocidade da perseguição de Tự Ðức atingiu tais proporções que os emissários franceses apresentaram um protesto formal à sua corte em 1856. A decapitação do bispo José María Díaz em 1857 foi a gota d'água. Os franceses aproveitaram isso como desculpa para invadir o Vietnã, ocupando Da Nang em 1858 e avançando para o sul. Por um tratado assinado entre Vietnã e França, em 1862, Tự Ðức concordou em conceder liberdade religiosa aos seus súditos e em ceder a região sul aos franceses. A interpretação dos termos do tratado de 1862 tornou-se um ponto de discórdia entre Tự Ðức e os franceses, que ficaram abertamente do lado de seus rivais. Os franceses conquistaram Hanói em 1873 e assumiram o controle da região norte. O apelo de Tự Ðức à China por ajuda para expulsar os franceses foi ignorado e, com sua morte em 1883, os franceses estenderam seu domínio sobre todo o Vietnã.

Durante o século XIX, um total de quase 300.000 pessoas sofreram pela sua fé em Jesus Cristo. A resistência católica foi heroica. No período entre 1857 e 1862, estima-se que mais de 5.000 fiéis tenham sido martirizados, além de 215 padres e freiras nativos, e cerca de 40.000 católicos foram expulsos e exilados de suas regiões de origem. Embora os registros da maioria dos que sofreram tenham sido destruídos, um total de 117 mártires, conhecidos hoje como Mártires do Vietnã, incluindo 96 vietnamitas, 11 dominicanos espanhóis e 10 membros franceses da Sociedade Missionária Estrangeira de Paris, foram posteriormente beatificados em quatro ocasiões diferentes. Destes 117, oito eram bispos, 50 padres (15 dominicanos, 8 membros da Sociedade Missionária Estrangeira de Paris, 27 seculares), um seminarista e 58 leigos (nove terciários dominicanos e 17 catequistas). Em 19 de junho de 1988, o Papa João Paulo II canonizou estes 117 Mártires.

Em 1933, foi nomeado o primeiro bispo etnicamente vietnamita, Nguyễn Bá Tòng.

Guerra Fria Vietnã do Norte Em cisma com Roma durante quase 21 anos, entre 1954 e 1975, por estar sendo perseguida pelo governo comunista e devastada pela partida de mais de meio milhão de leigos e clérigos no êxodo de 1954, a Igreja no Vietnã do Norte, aliado ao bloco comunista, lutava para sobreviver, restando apenas pouco mais da metade da população católica. Várias dioceses do Norte perderam mais da metade de seus membros na migração de 1954, e todas, exceto duas, perderam mais de metade do clero. Depois de 1954, o governo comunista confiscou as instituições sociais e culturais da Igreja e limitou o clero e os religiosos a atividades estritamente religiosas. Bispos e padres estavam praticamente em prisão domiciliar. Os doentes tinham de ser levados à casa dos padres para receber o sacramento da unção dos enfermos; um pároco não poderia celebrar missa fora da sua paróquia sem a permissão especial das autoridades locais.

Vietnã do Sul Em comparação com o Vietnã do Norte, a Igreja no Vietnã do Sul ficou em uma situação muito mais favorável, já que o governo era aliado ao bloco capitalista e democrático. Ocorreu no período um afluxo maciço de católicos a partir de 1954, vivenciando um período de liberdade que perdurou até 1975, período esse que coincidiu com uma renovação radical do catolicismo. Dos dois vicariatos apostólicos que existiam no Vietnã em 1659, passaram a ser 17 em 1957. Em 1960, a Santa Sé estabeleceu formalmente a hierarquia vietnamita com três arquidioceses e 18 dioceses sufragâneas. Na altura de 1964, praticamente toda a hierarquia católica vietnamita, tanto do Norte quanto do Sul, era composta por vietnamitas étnicos, exceto por dois prelados franceses. A partir da década de 1970, todos os bispos vietnamitas eram nascidos no país.

Unificação Após 1975, com a unificação do Vietnã, passou a vigorar a política do governo de controle total sobre todas as organizações religiosas, e desse modo, quase todas as organizações católicas foram dissolvidas, como as comissões da Conferência Episcopal Vietnamita, e até o Fundo de Desenvolvimento que era administrado pela Comissão Episcopal de Desenvolvimento em 870 paróquias, desapareceu. Estudantes católicos tinham dificuldades para se matricular em universidades devido à sua religião. Um decreto, emitido pelo governo em 11 de novembro de 1977, declarou que era necessária a permissão das autoridades municipais, distritais e provinciais para se realizar atividades religiosas com numerosos participantes. Celebrações de Natal, aulas de catecismo, retiros de padres, visitas de bispos para celebrar o sacramento do crisma, ou qualquer outra coisa fora do comum precisava da licença especial do governo, ou, pelo menos, tinha que ser comunicada às autoridades locais.

Nesse mesmo período, todos os seminários principais foram fechados e suas propriedades confiscadas pelo governo. Alguns só foram autorizados a reabrir em 1986. As ordenações sacerdotais exigiam permissão. Os bispos tinham de fornecer às autoridades municipais e provinciais um dossiê detalhado sobre o candidato, que era entrevistado várias vezes pela polícia e outras autoridades locais para avaliar a sua aptidão para a ordenação. A maioria das dioceses conseguia celebrar ordenações sacerdotais uma vez ao ano. A Diocese de Huề era uma exceção: a ordenação de cinco sacerdotes, em 1º de setembro de 1994, foi a primeira em 19 anos. Desde 1954, as dez dioceses do norte sofrem com a grave escassez de sacerdotes. Apesar da unificação do país, o governo não permite que padres do sul sirvam nas dioceses do norte. Retiros anuais para o clero têm de ser organizados com a permissão do governo, a quem o nome do pregador e dos participantes deve ser enviado antecipadamente.

Depois de 1986, quando o governo iniciou uma política de liberalização, a vida da Igreja melhorou significativamente. As reformas litúrgicas estipuladas pelo Concílio Vaticano II foram sendo implementadas lentamente. O novo Missal Romano numa tradução revisada entrou em uso. Bíblias, catecismos e livros litúrgicos já não precisavam mais ser contrabandeados para o Norte. A partir daí, as atividades da Igreja limitaram-se majoritariamente às celebrações sacramentais e às devoções piedosas, sem grande impacto na ordem sócio-política e cultural. A educação religiosa consiste principalmente no ensino de orações e aulas de catecismo de perguntas e respostas em preparação para a primeira comunhão e confirmação. A instrução é mais frequentemente ministrada pelos presbíteros da paróquia que, privados de todas as oportunidades de formação religiosa desde 1954, não tiveram acesso aos documentos do Concílio Vaticano II. Livros catequéticos defasados, de 1939, ainda são de uso comum. Apesar destas desvantagens, a população católica no norte tem crescido de forma constante. A fé cristã é alimentada predominantemente pela família com a prática da recitação diária das orações da manhã e da noite. As orações geralmente incluem o rosário, ladainhas, orações aos santos padroeiros, o Miserere pelos ancestrais e os atos de fé, esperança e caridade. Quando um padre visita a igreja paroquial, os sinos tocam para anunciar a missa.