A hipótese do tecido custoso (ETH, do inglês ‘Expensive tissue hypothesis’), também chamada de hipótese do tecido caro, ou hipótese do tecido dispendioso, foi inicialmente proposta por Leslie C. Aiello e Peter Wheeler em 1995 em um artigo publicado pela revista Current Anthropology.
Em linhas gerais, a hipótese relaciona o tamanho cerebral com o tamanho do trato gastrointestinal. Sugerindo que na história evolutiva de humanos e outros mamíferos encefalizados, houve um aumento do tamanho relativo cerebral, um tecido metabolicamente custoso, sem um aumento correspondente da taxa metabólica basal (TMB) que pode ser explicado por uma correspondente redução do tamanho relativo do intestino, considerado também custoso metabolicamente.
Artigo original - embasamento teórico O artigo que primeiro postulou a hipótese foi dividido em 4 tópicos, cada um com seu respectivo embasamento teórico descrito abaixo.
"O problema" Nesta parte o artigo postula o problema de como os primatas, em especial os humanos, conseguem sustentar um cérebro de tamanho relativo grande. Esse problema é sustentado por alguns fatores, sendo o primeiro a própria encefalização dos primatas.
Um primata encefalizado é definido como detentor de um cérebro maior do que esperado em relação ao tamanho do corpo, isso é medido no estudo por meio do coeficiente de encefalização, uma relação entre o tamanho cerebral observado e o esperado (calculado utilizando a equação para previsão do tamanho cerebral em mamíferos placentários). O coeficiente encontrado para humanos foi de 4.6 e uma média de 1.9 ± 0.6 para outros primatas, significando que tem um cérebro 4,6 vezes maior do que o esperado para o mamífero médio, e outros primatas quase o dobro.
O segundo dos fatores que sustentam o problema é o custo metabólico elevado para a sustentação do cérebro. A taxa metabólica específica do cérebro (11,2 W/Kg) é nove vezes maior do que a taxa metabólica específica média do corpo humano como um todo (1,25 W/Kg). Essa discrepância parece estar associada à bomba de íons necessária para manter o potencial de membrana dos axônios, e também a constante produção de neurotransmissores. Dessa forma, quanto maior o tamanho do cérebro, maior deve ser a capacidade de fornecer altos níveis de oxigênio e substratos. Contudo, o fornecimento é dificultado pela incapacidade do cérebro armazenar reservas energéticas significativas. Nesse ponto, é correto afirmar que qualquer aumento no tecido cerebral representaria um investimento energético considerável.
Os autores, então, afirmam que não há correlação significativa entre a taxa metabólica basal relativa e o tamanho cerebral relativo em humanos e outros animais encefalizados. Ou seja, ao calcular TMBs de humanos maduros saudáveis encontra-se valores típicos de primatas e, consequentemente, de mamíferos eutérios como um todo. Analisando tal fato, conclui-se que não há evidências suficientes de um aumento no metabolismo basal para explicar o gasto metabólico adicional do cérebro aumentado, levando a formulação da pergunta que será respondida na próxima parte:"De onde vem a energia para alimentar o cérebro encefalizado?"
"A solução" Para tratar dessa questão, os autores trazem a possibilidade de que a expansão da massa encefálica queimaria tanta energia para o corpo que, proporcionalmente ao seu crescimento de massa, a massa de outros tecidos específicos do corpo seria diminuída, pois o gasto de energia já estaria sendo realizado pelo cérebro.
Um ser humano de 65kg entre 18-30 anos saudável, segundo testes de perfuração de tecido, gasta de 60 a 70% de sua taxa metabólica basal com o coração, rim, e os órgãos esplâncnicos (fígado e trato gastrointestinal) junto ao cérebro (medida através do consumo de oxigênio do tecido), apesar destes ocuparem uma massa menor que 10% do total corporal. Os valores absolutos variam conforme os estudos, mas não são significativamente diferentes quando analisados in vivo ou in vitro.
Para determinar se o aumento da encefalização está associado a uma redução no tamanho relativo de qualquer um desses outros tecidos metabolicamente ativos, os cientistas compararam as massas observadas em cada órgão de um humano adulto 65 kg com as esperadas de um primata médio de massa correspondente (calculadas com base nas equações de mínimos quadrados para primatas). Depois dos testes, constatou-se que apesar da massa combinada dos tecidos metabolicamente custosos serem próximos entre o humano e o primata médio de 65kg, a contribuições entre os órgãos variaram bastante, em especial os órgãos esplâncnicos com o trato gastrointestinal, que possui 60% do esperado. Assim concluiram que o acréscimo de massa do cérebro humano é balanceado por uma redução do trato gastrointestinal.
Considerou-se também as relações metabólicas entre os tecidos; a redução de tamanho em massa do trato gastrointestinal calculado salvaria até 9,5 W de energia (segundo estudos em outros mamíferos), que seria aproximadamente a mesma utilizada pelo cérebro de tamanho maior. Portanto as mudanças nas proporções dos dois órgãos terem sido eventos evolutivos contemporâneos explicaria a razão para que as taxas metabólicas basais dos hominídeos não terem sido elevadas acima das típicas de outros primatas como consequência dos custos energéticos da encefalização.
Apesar dessas conclusões, o artigo deixa claro que é impossível determinar exatamente a taxa de consumo energético diário total de um animal. Se considerarmos a energia diária consumida pelos HS como 1,8x o que consideramos hoje, as taxas metabólicas do cérebro e das vísceras continuam em seus níveis basais. O crescimento de energia disponível depende da dieta: o que está disponível para o consumo e qual sua composição, fazendo com que o órgão tenha uma maior taxa metabólica ou não, apesar de isso não ser totalmente compreendido atualmente.
"Implicações evolucionárias" Nesse tópico do artigo, os autores fazem uma análise da possibilidade de coevolução entre o tamanho do cérebro e do intestino em humanos e outros primatas sugerindo que, para sustentar cérebros relativamente grandes sem aumentar a taxa metabólica basal corporal total, houve uma seleção correspondente para a redução do tamanho relativo do intestino. Essa adaptação foi essencial para manter a TMB típica sem exigir uma ingestão de energia extraordinariamente elevada, o que colocaria os primatas em intensa competição por recursos alimentares.
Equilíbrio energético e tamanho dos tecidos Os autores ressaltam as implicações da redução do tamanho de diferentes órgãos ao analisar a hipótese do tecido custoso, uma vez que cada órgão desempenha funções críticas que não podem ser comprometidas sem consequências significativas para a sobrevivência e o funcionamento do organismo:
Fígado: a capacidade do fígado de armazenar e garantir o fornecimento contínuo de glicose é crítica para o cérebro, que depende exclusivamente da glicose como combustível. A redução significativa do fígado comprometeria a manutenção dos níveis de glicose, essenciais para o funcionamento do sistema nervoso central. Coração: reduzir o tamanho do coração sem comprometer a circulação sanguínea é inviável, especialmente porque o cérebro requer um fornecimento contínuo de glicose e oxigênio. Rins: alterar significativamente o tamanho dos rins afetaria a capacidade de reabsorção de água e solutos, comprometendo a concentração de urina e, portanto, a gestão hídrica, especialmente em habitats áridos. Musculatura esquelética: a redução da massa muscular não compensaria eficazmente o aumento do gasto energético cerebral devido à sua menor taxa metabólica específica.
Associação entre tamanho do intestino e digestibilidade dos alimentos O tamanho do intestino está diretamente relacionado tanto ao volume quanto à digestibilidade dos alimentos consumidos. Dietas que consistem principalmente de alimentos de baixa digestibilidade exigem intestinos relativamente grandes, caracterizados por câmaras de fermentação volumosas, como no estômago ou intestino delgado. Um exemplo extremo são os ruminantes artiodáctilos, como vacas, que são folívoros e dependem quase exclusivamente de gramíneas.
Por outro lado, dietas que incluem alimentos de alta digestibilidade requerem intestinos relativamente menores. Esses intestinos são caracterizados por estômagos simples e intestinos delgados proporcionalmente longos, que priorizam a absorção eficiente de nutrientes. Este padrão é típico entre carnívoros, que têm menor necessidade de fermentação prolongada para digerir suas presas.
Essa associação também se aplica aos primatas. Por exemplo, Cebus se alimenta principalmente de frutas açucaradas, sementes ricas em proteínas, óleos, larvas de corpo mole, cigarras e pequenos vertebrados, com alimentos de origem animal ocupando uma parcela substancial de seu tempo de alimentação. Em contraste, Alouatta consome uma dieta composta por uma alta porcentagem de folhas, além de frutos maduros, verdes e figos altamente fibrosos. Essas diferenças dietéticas se refletem no tamanho relativo do intestino desses primatas.
Dentro dos Hylobatidae, as diferenças na dieta também influenciam o tamanho do intestino. Hylobates lar, que consome mais frutas do que folhas, possui um intestino relativamente menor comparado a Hylobates syndactylus, que dedica mais tempo à alimentação de folhas do que frutas.
Esses exemplos demonstram como a evolução do tamanho do intestino em primatas está adaptada às demandas específicas impostas pela composição nutricional de suas dietas. Essas adaptações permitem uma eficiência na digestão e absorção de nutrientes, essencial para o sucesso adaptativo e a sobrevivência das espécies em seus respectivos habitats.
Associação entre o tamanho relativo do intestino e o tamanho relativo do cérebro O artigo aponta que há uma relação inversa entre o tamanho relativo do cérebro e do intestino. Dessa forma, animais com intestinos relativamente grandes também têm cérebros relativamente pequenos, enquanto animais com intestinos relativamente pequenos têm cérebros relativamente grandes. No entanto, também parece haver uma relação gradativa presente.
Para um determinado tamanho relativo do cérebro, os colobinos têm um intestino relativamente menor do que os cebídeos e os hilobatídeos; eles podem ter TMB relativas gerais mais baixas ou intestinos com taxas metabólicas específicas de massa mais altas, ou seus outros órgãos dispendiosos podem ser relativamente maiores e/ou mais consumidores de energia. O poder de resolução destas comparações, entretanto, é limitado pelo pequeno número de espécies para as quais estão disponíveis dados referentes ao intestino, pelo pequeno número de indivíduos estudados dentro de cada espécie e pelo fato de os dados do cérebro e do intestino não provirem dos mesmos indivíduos. A interpretação também é limitada pela ausência de dados sobre as alometrias do custo metabólico de órgãos individuais em primatas não humanos. No entanto, mesmo com estas limitações, parece haver uma ligação entre a dieta e os tamanhos relativos do trato gastrointestinal e do cérebro.
Dieta, encefalização e sociabilidade A relação entre o tamanho relativo do cérebro e a dieta é frequentemente mencionada na literatura sobre encefalização de primatas e é geralmente explicada em termos dos diferentes graus de inteligência necessários para explorar vários recursos alimentares.
Por exemplo, Parker e GibsonGibson, K. R. "Cognition, brain size, and the extraction of embedded food resources." Primate ontogeny, cognition, and social behavior (1986). argumentaram que um cérebro relativamente grande e um tamanho neocortical se correlacionam com a alimentação onívora em primatas, o que requer estratégias relativamente complicadas para extrair alimentos de alta qualidade.