miniaturadaimagem|Ferramentas solutreanas, Crot du Charnier, Solutré-Pouilly, Saône-et-Loire, França.|283x283pxO Solutreano é uma cultura pré-histórica que se desenvolveu na França e na Península Ibérica durante a segunda metade do Paleolítico Superior, de 23 a 18 ka cal AP, o que corresponde aproximadamente ao curso do Último Máximo Glacial (LGM - Do inglês: Last Glacial Maximum). Seu nome vem do sítio pré-histórico de Solutré, em Saône-et-Loire. É precedida pelo Gravetiano (31 a 22 ka cal AP) e sucedida pelo Magdaleniano (17 a 15 ka cal AP). No período do Paleolítico Superior Europeu, o complexo tecnológico solutreano emerge como um dos fenômenos culturais mais únicos e intrigantes por representar uma clara ruptura em relação aos complexos tecnológicos pan-europeus anteriores. Nota: "ka" significa "kilo-annum", ou seja, 1000 anos (não calibrado na data C14.)
Bastante excepcional, a característica que isola mais visivelmente o Solutreano entre a variabilidade tecno-tipológica do Pleistoceno Superior é o conjunto de inovações tecnológicas desenvolvidas para a fabricação de talhas líticas usando retoque plano invasivo unifacial e bifacial.
Devido à sua singularidade, os utensílios solutreanos receberam muita atenção ao longo do tempo. A sua caracterização tecno-tipológica tem sido o princípio norteador de alguns dos tópicos solutreanos mais debatidos, como as origens tecno-tipológicas em si (por exemplo, influência externa vs. desenvolvimento nativo); a possível expansão demográfica e cultural em direção à América do Norte durante o LGM; ou a organização cronológica interna do complexo tecnológico (por exemplo, subdivisões de estágios vs. variabilidade funcional no Norte da Península Ibérica).
Em um estudo sobre a transição das formas culturais na França por volta de 23 ka cal AP, Boccaccio analisou como devem ter acontecido as interações entre as culturas humanas da região. A transição solutreana para badegouliana não apresenta resquícios transicionais de tecnologia. Já a transição solutreana para um pequeno grupo conhecido como salpetriana apresenta tanto rupturas quanto continuidades tecnológicas. Assim, ainda há, atualmente, dificuldades em definir a relação entre os diferentes grupos culturais que existiam junto da cultura solutreana, como a badegouliana e a salpetriana. Boccaccio e demais autores consideram que um trabalho extenso deva ser realizado para fornecer novos dados arqueológicos, análises tecnológicas e datação de vestígios. Isto também ajudará a compreender a evolução de sociedades do Paleolítico que carregaram pontas durante o LGM na borda noroeste do mar Mediterrâneo.
Descoberta
Os artefatos relacionados a cada cultura revelam detalhes importantes acerca da evolução dos primeiros europeus ao longo de mais de 40 mil anos, de modo que o descobrimento desses itens seja fundamental no estudo desse período da história humana. Nesse sentido, após pesquisas realizadas por arqueólogos de várias partes do mundo, foram encontradas camadas de artefatos, ferramentas e restos de osso e de pedra, além de restos de esqueletos de animais e de humanos. Assim, indícios de suas mudanças culturais e comportamentais foram utilizadas para classificar esses achados em subperíodos e em populações associadas a eles, isto é, em culturas arqueológicas europeias.
O resultado desse processo foi uma divisão em cinco culturas, cujos nomes advém do local em que foram documentadas pela primeira vez. Elas são a cultura Châtelperroniana, Aurignaciana, Gravetiana, Solutreana e Magdaleniana. Outrossim, devido a sua singularidade, o armamento dessa cultura se distingue bastante de outras tradições, principalmente por sua caracterização tecno-tipológica, a qual ainda é debatida entre os cientistas.
Ademais, as ferramentas solutreanas encontradas apresentaram uma considerável semelhança com as tecnologias líticas Clóvis norte-americanas, de modo que surgiu uma nova hipótese para a ocupação da América do Norte, a qual teria sido ocupada por migrantes da tradição Solutreana, que teriam migrado de barco através do gelo compactado do Atlântico. Contudo, essa hipótese não é amplamente apoiada no meio científico, e as evidências acerca da teoria de que os asiáticos cruzaram o Estreito de Bering apresentam maior aceitação entre os cientistas.
Ferramentas
miniaturadaimagem|461x461px|Ponta de sílex do Volgu no Museu Arqueológico Nacional da França.A cultura Solutreana faz parte do Paleolítico Superior e a sua tecnologia é típica de um estilo de vida caçador-coletor. A tecnologia das pontas líticas se divide de acordo com o período, consistindo em pontas planas no Solutreano Inferior, peças bifaciais de grande delicadeza, chamadas “folhas de louro”, no Solutreano Médio, e “folhas de salgueiro” e pontas entalhadas no Solutreano Superior. As restantes ferramentas correspondem ao conjunto comum do Paleolítico Superior: raspadores, cinzéis, brocas, lâminas de dorso. Também sabemos que as pontas líticas em forma de folha produzidas por essa cultura eram extremamente sofisticadas, tendo como característica principal o lascamento com a utilização de chifres e outras ferramentas de origem animal, com seu acabamento sendo feito por meio da técnica de retoque por pressão. A cultura de lascamento solutreana é derivada da cultura gravetiana, tendo surgido desta a partir do isolamento de alguns grupos durante o último máximo glacial. Além disso, a cultura Solutreana apresenta algumas inovações próprias.
Inovações tecnológicas esquerda|miniaturadaimagem|213x213px|Folha de louro Solutreana. Um dos sítios arqueológicos pertencentes à cultura Solutreana é o da caverna de El Buxu. A análise das pontas encontradas neste sítio revelou resíduos de substâncias adesivas, indicando que os solutreanos usavam esses materiais para fixar lâminas em hastes de madeira ou osso. O uso de adesivos reflete um nível significativo de sofisticação tecnológica. A fixação das lâminas com adesivos aumentaria a durabilidade e a eficácia das ferramentas, essenciais para atividades como caça e processamento de alimentos.
O tratamento térmico do sílex, a partir do Solutreano Superior, também foi uma inovação dessa cultura. As pontas de sílex eram aquecidas entre 250 a 300 graus celsius com o objetivo de facilitar a sua talha. Evidências do uso desse tratamento foram encontradas em pontas do sítio arqueológico de Le Piage.
Arte
miniaturadaimagem|Arte rupestre solutreana na Cueva de El Salitre, Cantabria, Espanha.|257x257pxO Solutreano é conhecido por suas distintas manifestações artísticas. A arte Solutreana é principalmente caracterizada pela produção de ferramentas líticas finamente trabalhadas e pela arte rupestre.
Em relação à arte rupestre, os solutreanos produziram gravuras e pinturas em cavernas, muitas vezes representando figuras de animais como cavalos e cervos. Essas representações são notáveis pela sua precisão e detalhamento, refletindo uma observação cuidadosa da fauna da época. Além disso, os motivos geométricos e abstratos são também uma característica marcante, sugerindo uma dimensão simbólica ou ritualística na sua produção artística. esquerda|miniaturadaimagem|270x270px|Arte rupestre solutreana em Altamira. As práticas artísticas dos solutreanos são vistas como um reflexo da complexidade cultural e das habilidades cognitivas avançadas desses grupos humanos, evidenciando uma profunda ligação com o seu meio ambiente e uma capacidade para a expressão simbólica.
A arte parietal (no estudo da arte pré-histórica, de maneira geral, o conjunto de obras realizado pelo Homem em paredes de cavernas e abrigos sob rochas) solutreana é conhecida notadamente pelo friso esculpido de Roc-de-Sers e uma parte das pinturas da Caverna de Cosquer. A arte rupestre do vale do Côa, em Portugal, está igualmente ligada ao Solutreano. Uma datação por carbono 14 sob os materiais escavados de Puits, na caverna de Lascaux,. tenderia a envelhecer as três datações anteriores (17 ka cal AP), com uma idade aproximada de 18,9 ka cal AP, o que atribui Lascaux ao Solutreano. No entanto, não existem objetos solutreanos na única camada arqueológica da caverna, mas apenas numerosos objetos do período Madgaleniano II. Na caverna do Moro, Espanha, também encontra-se arte solutreana, a qual se tornou um ponto-chave para entender o fenômeno da arte rupestre no sul da Península Ibérica.
A descoberta de gravuras de cavalos solutreanos em 1995 confirmou a presença de arte do Paleolítico Superior na região, particularmente na área do Campo de Gibraltar e da antiga lagoa La Janda, na província de Cádis, Espanha. Os padrões de pontos encontrados na caverna Moro são comparáveis a outros sítios da região, como nas cavernas Estrellas, Palomas-I e Palomas-IV, que também apresentam padrões de pontos regulares considerados do Paleolítico Superior, presumivelmente solutreanos. Além disso, não há arte explícita pós-paleolítica na caverna Moro, o que a torna uma exceção notável na região, onde a maioria dos sítios conhecidos compartilha espaço com figuras esquemáticas. miniaturadaimagem|273x273px|Arte rupestre solutreana na Cueva Ambrosio, Almeria, Espanha. Para melhorar o estudo da arte rupestre, na pesquisa que se deu na região, foram utilizados métodos digitais de registro, como fotogrametria e ortofotomosaicos. Isso levou à modelagem espacial do abrigo rochoso, à microtopografia dos painéis e à descoberta de numerosas ilustrações inéditas em todo o sítio. Foram identificados padrões pintados de pontos (espirais/círculos concêntricos, alinhamentos e agregações) relacionados a um grande cavalo no andar inferior da caverna, sugerindo uma cronologia do final do Solutreano/início do Magdaleniano, com base no tamanho e formato dos pontos, arranjo e composição, comparação com outros sítios e grau de degradação.
Práticas rituais
Quanto às práticas rituais, existe, na margem esquerda da Ribeira da Casqueira (também conhecida por Ribeira da Caranguejeira e do Sirol), em Portugal, o chamado “Abrigo do Lagar Velho”, onde foi encontrado um depósito conservado no interior de uma reentrância da parte de trás do abrigo. O solo contém vestígios estratigrafados de ocupações do Proto-Solutreano, do Solutrano inferior e do Solutreano médio. Após realizada uma terraplenagem, foi descoberta e escavada uma sepultura infantil, cujo esqueleto encontrava-se em conexão anatômica, com exceção da cabeça, fragmentada pela terraplenagem, e do antebraço, mão e pé direitos. Os ossos da criança e as terras situadas no interior da fossa sepulcral encontravam-se tingidas de ocre vermelho. Na zona do pescoço foi recolhida uma concha perfurada de Littorina obtusata. Ao longo do ombro e braço direito e junto aos pés, o contorno da fossa sepulcral encontrava-se marcado por uma série de ossos de herbívoro de médio porte que poderão ter constituído oferendas funerárias. A anatomia do maxilar inferior e o estado de desenvolvimento da dentição indicam que se trata de um indivíduo de tipo moderno com uma idade estimada em cerca de 4 anos. Esta se trataria da mais antiga ocupação identificada até o momento no Abrigo do Lagar Velho, em uma altura na qual o local teria sido utilizado como espaço funerário, datado de 29 ka cal AP, o que o enquadraria como inaugurado no período Gravetiano, o anterior ao Solutreano..
Estilo de Vida
miniaturadaimagem|223x223px|Cavernas solutreanas em Aujac, Gard. Os habitantes do período Solutreano eram principalmente caçadores-coletores, vivendo em grupos nômades ou semi-nômades. A ocupação dos sítios variava conforme as estações do ano e a disponibilidade de recursos naturais. Em locais como o Vale Boi, em Portugal, as ocupações solutreanas se distribuíam por diferentes áreas, incluindo terraços e abrigos, que forneciam proteção e uma base para atividades diárias.