A Grande Expedição do Norte foi uma das maiores expedições exploratórias da história, mapeando grande parte da costa ártica da Sibéria e trechos da costa noroeste da América do Norte. O empreendimento se desenrolou principalmente entre 1733 e 1743. Também conhecida como Segunda Expedição de Kamchatka (em russo: Вторая Камчатская экспедиция, Vtoráia Kamtchátskaia ekspedítsia), não constituiu uma viagem única, mas um programa coordenado de levantamentos marítimos e terrestres que se estendeu do mar Branco ao estreito de Bering, às ilhas Curilas, ao arquipélago japonês e às costas do atual Alasca. Sete destacamentos navais e hidrográficos receberam setores geográficos próprios, aos quais se associou um grupo subordinado à Academia de Ciências de São Petersburgo, incumbido de estudar a história, os povos, as línguas, a flora, a fauna, o clima e os recursos naturais da Sibéria. O capitão-comandante Vitus Bering detinha a direção geral da maior parte do programa, embora os dois destacamentos ocidentais respondessem diretamente ao Colégio do Almirantado. O plano inicial previa 977 integrantes nos sete destacamentos de exploração, sem contar o grupo acadêmico, e o conjunto da operação envolveu mais de três mil pessoas entre oficiais, marinheiros, soldados, construtores, geodesistas, intérpretes, estudantes, trabalhadores e pessoal de apoio. A esses números somou-se um contingente não quantificado de habitantes da Sibéria obrigado ou contratado para fornecer transportes, alimentos, embarcações, animais de tração e conhecimento das rotas.
A expedição teve origem nos problemas deixados pela Primeira Expedição de Kamchatka, conduzida por Bering entre 1725 e 1730. Em 1728, o navegador atravessara o estreito que mais tarde receberia o seu nome, porém não avistara a costa americana e regressara sem acompanhar a margem asiática até um ponto cuja posição já fosse conhecida. O resultado permitia sustentar que os continentes estavam separados, mas não eliminava todas as dúvidas do governo e dos cartógrafos. Após regressar a São Petersburgo, Bering propôs uma nova viagem a leste de Kamchatka, uma missão ao Japão e o levantamento da costa entre os rios Ob e Lena. O Senado e o Almirantado ampliaram o projeto, acrescentando setores desde Arkhangelsk e o mar Branco, uma divisão científica e instruções sobre comércio, portos, recursos minerais e relações com os povos encontrados. A imperatriz Ana da Rússia autorizou o empreendimento em 1732, e os grupos começaram a partir no ano seguinte. A realização prolongou-se pelo reinado de Isabel da Rússia, enquanto a análise e a publicação dos materiais continuaram durante décadas.
Os resultados da Grande Expedição do Norte alteraram a representação cartográfica do extremo norte da Eurásia. Os levantamentos ligaram, com diferentes graus de precisão, a foz do Dvina Setentrional ao Ob, ao Ienissei, à península de Taimir, ao Lena, ao Indigirka e ao Kolyma; determinaram a posição aproximada do extremo setentrional da Ásia; documentaram rotas entre Okhotsk, Kamchatka, as Curilas e o Japão; e produziram cartas das costas e ilhas observadas no norte do Pacífico. O empreendimento não completou uma Passagem do Nordeste navegável, e alguns mapas conservaram erros de longitude, ilhas hipotéticas e lacunas provocadas pelo gelo, pela perda de instrumentos e pela curta duração dos verões árticos. Ainda assim, os diários, vocabulários, desenhos, coleções e cópias de documentos reunidos pelo grupo acadêmico constituíram parte da base para obras como a Flora Sibirica, de Gmelin, a Descrição da Terra de Kamchatka, de Krasheninnikov, os estudos históricos e etnográficos de Müller e os escritos zoológicos de Steller. O custo humano incluiu numerosas mortes por doenças, fome, frio, naufrágios e acidentes, embora não exista um total seguro para todos os destacamentos. O custo financeiro foi estimado em cerca de 1,5 milhão de rublos, valor que corresponderia a uma parcela considerável da receita anual do Estado russo nas primeiras décadas do século XVIII.
Denominação, limites e cronologia
A designação russa Velikaia Severnaia ekspeditsiia, traduzida como Grande Expedição do Norte, acentua o levantamento da costa ártica, ao passo que Segunda Expedição de Kamchatka relaciona o empreendimento à missão de 1725–1730 e às viagens organizadas a partir de Okhotsk e de Kamchatka. A documentação administrativa empregou nomes distintos para cada destacamento, e a expressão abrangente consolidou-se na historiografia para reunir operações que tinham chefias, bases e calendários próprios. O destacamento acadêmico é normalmente incluído no empreendimento por ter percorrido as mesmas rotas, utilizado a sua rede de transportes e trabalhado a partir de instruções aprovadas no mesmo contexto; administrativamente, porém, respondia à Academia de Ciências e não fazia parte dos sete destacamentos navais contabilizados no plano de 977 pessoas.
O intervalo de 1733 a 1743 corresponde ao deslocamento e ao trabalho dos principais destacamentos. Algumas decisões preparatórias foram tomadas em 1732, e determinadas consequências administrativas estenderam-se além de 1743. Spanberg, por exemplo, teve de responder a dúvidas sobre os seus levantamentos e ainda estava ligado a operações no Pacífico em meados da década de 1740. Os mapas, relatórios e amostras regressaram a São Petersburgo em momentos diferentes; parte dos resultados permaneceu inédita, e obras fundamentais foram publicadas entre as décadas de 1740 e 1770. Assim, a cronologia operacional não coincide com a circulação pública do conhecimento produzido.
Nas datas específicas, a documentação russa do período utilizava o calendário juliano, então onze dias atrasado em relação ao calendário gregoriano. Neste artigo, datas apresentadas em formato duplo indicam, pela ordem, o calendário juliano e o gregoriano; datas isoladas relacionadas aos diários russos seguem em geral o calendário juliano.A diferença entre os calendários juliano e gregoriano era de onze dias durante o período da expedição. As traduções modernas nem sempre adotam o mesmo sistema, razão pela qual uma viagem pode aparecer com datas diferentes em obras distintas.
Antecedentes
Expansão russa pela Sibéria
A expedição ocorreu após mais de um século de expansão russa pelo norte da Ásia. Comerciantes, cossacos, caçadores e agentes do Estado haviam avançado pelos sistemas fluviais do Ob, Ienissei e Lena, estabelecendo fortalezas e postos de cobrança do yasak, tributo pago principalmente em peles. No litoral, navegadores pomores percorriam trechos entre o mar Branco, o Pechora, o mar de Kara e as desembocaduras dos grandes rios siberianos. Outras rotas marítimas haviam ligado o Lena ao Iana, ao Indigirka e ao Kolyma durante o século XVII. Essas viagens não produziram uma carta contínua e padronizada do litoral, mas demonstram que os espaços apresentados em mapas europeus como desconhecidos eram atravessados por comunidades indígenas, comerciantes e marinheiros regionais muito antes de 1733.Dolgikh, Boris O. (1948). «Novye dannye o plavanii russkikh Severnym morskim putem v XVII veke». In: A. P. Okladnikov. Russkie poliarnye morekhody XVII veka u beregov Taimyra (em russo). Moscovo e Leningrado: Glavsevmorput. pp. 117–157.
Parte desse conhecimento deixou de circular após a restrição de algumas rotas, entre elas a antiga passagem marítima para Mangazeia, e permaneceu dispersa em arquivos provinciais. Os oficiais do século XVIII encontraram pilotos locais em vários setores, mas nem sempre tiveram acesso às experiências dos navegadores anteriores. O problema não era apenas a ausência de informação: faltava transformar observações regionais, relatos orais e cartas isoladas num levantamento costeiro baseado em coordenadas, sondagens e convenções comuns. A Grande Expedição do Norte deve, portanto, ser entendida como uma tentativa estatal de reunir e normalizar conhecimentos que tinham origens diversas, e não como o primeiro contato humano com as costas percorridas.
Ciência, cartografia e reformas de Pedro I
As reformas de Pedro, o Grande aproximaram a navegação russa das práticas ensinadas nas escolas marítimas europeias. O governo contratou oficiais e estudiosos estrangeiros, promoveu levantamentos geodésicos e fundou a Academia de Ciências de São Petersburgo em 1724. O interesse do soberano pela geografia estava ligado à administração do império, à navegação comercial e militar e à definição da relação entre a Ásia e a América. Os geodesistas Ivan Evreinov e Fiodor Luzhin haviam recebido, em 1719, a missão de levantar Kamchatka e as Curilas; os seus resultados ampliaram o conhecimento da península e das ilhas ao sul, sem resolver a configuração do nordeste asiático.
A criação da Academia também tornou possível associar um programa de história natural e estudos humanos a uma expedição naval. A instituição reunia estudiosos formados em universidades de língua alemã, cartógrafos franceses e estudantes russos. Essa composição refletia o caráter internacional da ciência acadêmica do século XVIII, embora todos trabalhassem sob as prioridades e os mecanismos administrativos do Estado russo. As instruções combinavam problemas de pesquisa com perguntas sobre rotas, recursos, tributação e capacidade produtiva das regiões visitadas.
Primeira Expedição de Kamchatka
Pouco antes de morrer, Pedro I entregou a Bering instruções para construir embarcações em Kamchatka, seguir a costa asiática para norte e determinar a sua relação com a América. Bering, oficial dinamarquês incorporado à Marinha russa, deixou São Petersburgo em fevereiro de 1725 com Aleksei Chirikov e Martin Spanberg. A travessia terrestre da Sibéria, a construção do São Gabriel e o transporte de materiais até Kamchatka consumiram mais de três anos. No verão de 1728, a embarcação navegou para norte, passou pelo estreito de Bering e atingiu cerca de 67°18′ N antes de regressar. A costa americana permaneceu escondida pela distância, pelo nevoeiro e pelo curso seguido junto à margem asiática.Urness, Carol (2003). «The First Kamchatka Expedition in Focus». In: Peter Ulf Møller; Natasha Okhotina Lind. Under Vitus Bering's Command: New Perspectives on the Russian Kamchatka Expeditions (em inglês). Aarhus: Aarhus University Press.
Bering regressou a São Petersburgo em 1730 e apresentou uma carta do nordeste da Ásia, além de propostas para novas viagens. A interpretação da primeira expedição tornou-se objeto de debate: parte da historiografia considera que a navegação demonstrou a separação continental; outra parte acentua que a missão não seguiu a costa até um ponto de posição conhecida e não avistou a América. Essa incerteza contribuiu para a aprovação de um programa mais amplo, mas não foi o único motivo. O governo desejava levantar o litoral, examinar o acesso ao Japão e avaliar possibilidades econômicas no Pacífico.
A questão da primeira chegada russa documentada ao Alasca também exige distinguir a Grande Expedição do Norte de uma missão anterior. Em 1732, Ivan Fedorov e o geodesista Mikhail Gvozdev atravessaram o estreito no antigo São Gabriel, observaram a ilha Pequena Diomedes e alcançaram a costa americana nas proximidades do atual cabo Príncipe de Gales. Seguiram parte da península de Seward antes de regressar. As suas observações não foram prontamente consolidadas em mapas públicos, mas antecederam em nove anos as viagens de Bering e Chirikov. Por essa razão, a campanha de 1741 é descrita com maior precisão como o primeiro reconhecimento russo sistemático de trechos do sul e sudeste do Alasca, e não como o descobrimento de uma terra já habitada e anteriormente avistada por navegadores russos.
Planeamento e objetivos