Imane Khelif (; 2 de maio de 1999) é uma lutadora de boxe profissional argelina, campeã olímpica na categoria meio-médio feminino (até 66 kg) em Paris 2024. Em 9 de agosto de 2024, conquistou a medalha de ouro após derrotar a chinesa Yang Liu por decisão unânime na final, tornando-se a primeira mulher argelina, árabe e africana a conquistar o ouro olímpico no boxe feminino e a primeira pugilista argelina a ganhar medalha olímpica desde 2000.

Khelif fez sua estreia internacional no Campeonato Mundial de Boxe Feminino de 2018 e alcançou as quartas de final nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Após uma série de vitórias em competições regionais, conquistou a medalha de prata no Campeonato Mundial de Boxe Feminino de 2022, tornando-se a primeira pugilista argelina a alcançar uma final mundial. Em janeiro de 2024, foi nomeada embaixadora nacional da UNICEF na Argélia.

Sua participação nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 gerou controvérsia internacional após sua desqualificação do Campeonato Mundial de Boxe Feminino de 2023 pela Associação Internacional de Boxe (IBA), que alegou que ela não cumpria critérios de elegibilidade não especificados. O Comité Olímpico Internacional (COI) criticou a decisão da IBA como "súbita e arbitrária" e autorizou sua participação em Paris, reafirmando que ela cumpria todos os requisitos de elegibilidade. Khelif nasceu mulher e é como tal que ela se identifica.

Primeiros anos

Imane Khelif nasceu em Aïn Sidi Ali, na Província de Laghouat, mas mudou-se com apenas dois meses de idade para Biban Mesbah, uma vila rural na comuna de Aïn Bouchekif, província de Tiaret, cerca de 280 quilômetros a sudoeste de Argel, onde cresceu. Seu pai, Omar Khelif, um soldador de 49 anos, afirmou que ela demonstrou paixão pelo esporte desde os seis anos de idade.

Khelif cresceu em uma comunidade conservadora onde o boxe feminino não era bem aceito. Inicialmente praticou futebol antes de migrar para o boxe, mas enfrentou resistência familiar. Seu pai, Omar, inicialmente não aprovava sua participação no esporte porque "não concordava com boxe para meninas". Em entrevista à UNICEF, Khelif revelou que seu pai teve dificuldade em aceitar sua escolha, mas posteriormente tornou-se seu maior apoiador.

Para treinar, Khelif precisava percorrer cerca de dez quilômetros de ônibus entre sua vila e a cidade de Tiaret. Para custear as passagens, vendia sucata e metal reciclável, enquanto sua mãe vendia cuscuz preparado em casa. Ela começou seus treinos no clube esportivo da Defesa Civil local em Tiaret.

Carreira

2018–2021: início de carreira e estreia olímpica

Imane Khelif fez a sua estreia internacional no Campeonato Mundial de Boxe Feminino de 2018, realizado em Nova Deli, Índia, onde competiu na categoria até 60 kg (leve feminino). Foi eliminada na primeira rodada pela cazaque Karina Ibragimova, terminando em 17.º lugar.

No Campeonato Mundial de Boxe Feminino de 2019, também em Nova Deli, novamente foi eliminada na primeira rodada, desta vez pela russa Natalia Shadrina na categoria até 60 kg, terminando em 33.º lugar.

Em março de 2021, Khelif conquistou a medalha de ouro no Torneio Internacional de Boxe do Bósforo de Istambul, ao derrotar Anastasia Belyakova na final de peso-leve feminino (até 60 kg).

Khelif representou a Argélia na categoria até 63 kg (leve feminino) nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, ficando em quinto lugar ao ser derrotada pela irlandesa Kellie Harrington, que posteriormente conquistou a medalha de ouro, nas quartas de final.

2022: final do campeonato IBA e sucessos regionais

Em fevereiro de 2022, Khelif conquistou a medalha de ouro no Strandja Memorial Tournament após derrotar Nataliya Sychugova na final da prova feminina de até 63 kg (super leve).

Khelif foi escolhida como porta-bandeira da Argélia no Campeonato Mundial Feminino de Boxe da IBA de 2022 em Istambul. Neste torneio, na categoria até 63 kg, tornou-se a primeira boxeadora argelina a chegar à final após derrotar Chelsey Heijnen. Foi derrotada na final por Amy Broadhurst e obteve então a medalha de prata.

No mesmo ano, Khelif conquistou medalhas de ouro nos Jogos Pan-Arábicos de 2022, realizados na Argélia, na categoria até 66 kg (meio-médio feminino), nos Jogos do Mediterrâneo de 2022, realizados em Orã, e no Campeonato Africano de Boxe Amador de 2022.

2023: Desqualificação do Campeonato IBA

alt=|miniaturadaimagem|Khelif recebe a medalha de ouro após derrotar a marroquina Oumaïma Belahbib na final da partida de peso meio-médio feminino dos Jogos Árabes de 2023

Em março de 2023, Khelif avançou até a final do Campeonato Mundial Feminino de Boxe da IBA em Nova Deli, onde enfrentaria a boxeadora chinesa Yang Liu pela medalha de ouro. No entanto, foi desqualificada poucas horas antes da luta final. A desqualificação ocorreu no contexto da alegação por parte da Associação Internacional de Boxe (IBA) de que Khelif tinha falhado testes de elegibilidade não especificados.

Esta desqualificação deu-se três dias depois de Khelif derrotar Azalia Amineva, uma desportista russa até então invicta, o que restaurou o recorde de invencibilidade da lutadora russa. Segundo o Comitê Olímpico Argelino, Khelif foi desqualificada por motivos médicos, mas também políticos, alegando uma conspiração para evitar que a Argélia vencesse uma medalha de ouro. A medalha de bronze foi atribuída à boxeadora uzbeque Navbakhor Khamidova.

Em 2023, o presidente do IBA, Umar Kremlev, disse que as desqualificações ocorreram porque os testes de DNA "provaram que elas tinham cromossomos XY". O Washington Post declarou: "Ainda não está claro quais padrões Khelif e Lin Yu Ting falharam [em 2023] para levar às desqualificações," escrevendo ainda: "Nunca houve evidências de que [...] Khelif [...] tinha cromossomos XY ou níveis elevados de testosterona." Os testes realizados (e respectivos resultados) não foram publicados pelo IBA, que afirmou que as "especificações permanecem confidenciais."

Khelif disse que tinha sido excluída depois de lhe dizerem que tinha "características que significam que não posso participar em lutas com mulheres", mas declarou que fora vítima de uma "grande conspiração" em relação à desqualificação. Ela inicialmente fez um apelo ao Tribunal Arbitral do Desporto, do qual depois desistiu.

Em 31 de julho de 2024, relativamente à sua decisão de 2023, a IBA afirmou que Khelif e outras pessoas "não foram submetidas a um exame de testosterona, mas foram sujeitas a um outro teste reconhecido, cujos detalhes permanecem confidenciais", e que "foram consideradas como tendo vantagens sobre outras concorrentes femininas".

No dia seguinte, o Comité Olímpico Internacional (COI) divulgou em resposta o seu próprio comunicado, onde afirmou que a decisão da IBA foi "repentina e arbitrária" e "sem qualquer processo devido". O comité fez ainda a seguinte declaração:

Aspectos biomédicos da controvérsia

A ausência de transparência sobre os resultados dos testes realizados pela IBA em 2023 dificultou a avaliação independente do caso. Segundo relatório médico francês de junho de 2023, citado pelo jornalista Alan Abrahamson do site 3 Wire Sports, Khelif apresentaria deficiência de 5-alfa-redutase tipo 2, uma das formas de diferenças do desenvolvimento sexual (DSD) com cromossomos XY e testículos internos, com nível de testosterona de 14,7 nmol/L — o intervalo feminino não ultrapassa o nível máximo de 3 nmol/L. Em fevereiro de 2026, a própria Khelif confirmou à CNN possuir níveis elevados de testosterona, que estaria reduzindo sob supervisão médica.

A deficiência de 5-alfa-redutase tipo 2 é uma condição na qual indivíduos com cromossomos XY nascem com genitália externa ambígua ou de aparência feminina, são frequentemente registrados e criados como mulheres, mas passam por masculinização durante a puberdade devido à ação da testosterona produzida pelos testículos internos. Segundo a Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, muitas pessoas com esta condição são registradas como do sexo feminino ao nascer, mas são "geneticamente masculinas".

Especialistas em fisiologia do esporte destacam que indivíduos com esta condição, ao passarem por puberdade com testosterona em nível masculino, desenvolvem vantagens estruturais permanentes em músculos, ossos, capacidade cardiorrespiratória e concentração de hemoglobina no sangue. A supressão hormonal na fase adulta não reverte estas vantagens adquiridas durante o desenvolvimento puberal, conforme reconhecido pelo próprio Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) em casos anteriores.

O tipo específico de DSD é determinante para a questão da vantagem atlética no esporte. Existem quatro cenários principais:

Na síndrome de insensibilidade completa aos andrógenos (CAIS), o corpo não responde à testosterona e não desenvolve vantagens atléticas; atletas com esta condição são permitidas a competir na categoria feminina pelo World Athletics. Na síndrome de Swyer, a ausência de testículos funcionais impede a produção de testosterona e, portanto, não há vantagem atlética. Na síndrome de insensibilidade parcial aos andrógenos (PAIS), ocorre puberdade masculina parcial, conferindo alguma vantagem atlética. Na deficiência de 5-alfa-redutase (5-ARD), condição considerada a mais provável no caso de Khelif com base nos dados disponíveis, o corpo responde plenamente à testosterona durante a puberdade e desenvolve vantagens atléticas significativas. Esta é a mesma condição da corredora sul-africana Caster Semenya, excluída da categoria feminina pelo World Athletics.

Especialistas apontam que, dada a aparência masculinizada de Khelif, a CAIS e a síndrome de Swyer — condições que não conferem vantagem atlética — podem ser efetivamente descartadas como diagnóstico provável. No entanto, sem a publicação oficial do laudo médico completo com cadeia de custódia verificada, não é possível afirmar categoricamente o diagnóstico — o que, por si só, constitui o cerne da controvérsia sobre a falta de transparência do processo.

Jogos Árabes e profissionalização

Quatro meses após a desqualificação do Campeonato IBA, em julho de 2023, Khelif representou a Argélia nos Jogos Pan-Arábicos, onde conquistou a medalha de ouro na categoria meio-médio feminino (até 66 kg).

Em novembro de 2023, ela anunciou a sua profissionalização. A sua primeira luta enquanto profissional teve lugar no mesmo mês em Singapura.

2024: Jogos Olímpicos de Verão e ouro olímpico

Em janeiro de 2024, Khelif tornou-se embaixadora nacional da UNICEF na Argélia.

O estatuto olímpico da IBA foi revogado em junho de 2023, devido a questões de governança e suspeita de corrupção no julgamento e arbitragem. Por esse motivo, os eventos de boxe em Paris para os Jogos Olímpicos de Verão de 2024 foram geridos pela Unidade de Boxe de Paris 2024 do COI.

Embora o COI não realize testes de sexo, afirmou que todos os atletas que competem em Paris cumprem os regulamentos de elegibilidade e entrada da competição, e que Khelif "nasceu mulher, foi registada como mulher, vive a sua vida como mulher, luta boxe como mulher, e tem passaporte feminino." O COI lembrou ainda que "As mulheres podem ter um nível de testosterona igual ao dos homens, embora ainda sejam mulheres."

Campanha até a final

Qualificada em quinto lugar na prova feminina de até 66 kg, Khelif derrotou a húngara Luca Hámori nos quartos de final, em 3 de agosto, garantindo dessa forma a medalha de bronze na prova, no mínimo.

Nas semifinais, em 6 de agosto, derrotou a pugilista tailandesa Janjaem Suwannapheng por decisão unânime, garantindo ao menos a medalha de prata e avançando para a final olímpica.

Final e conquista do ouro

Em 9 de agosto de 2024, Khelif enfrentou a chinesa Yang Liu, campeã mundial de 2023, na final da categoria até 66 kg. Khelif dominou os três rounds da luta e foi declarada vencedora por decisão unânime dos juízes, conquistando a medalha de ouro.