O Império Mexicano (em castelhano: Imperio Mexicano), também conhecido como Império de Iturbide, foi um Estado norte-americano no século XIX no território do atual México. Foi governado como uma monarquia constitucional, tendo Agostinho de Iturbide como seu primeiro e único imperador, sob o nome de Agostinho I. Formado logo após o processo de Independência do México do Império Espanhol em 1821, foi a única ex-colônia do mesmo império a constituir-se como uma monarquia constitucional pós-independência. Foi uma das poucas monarquias independentes da era moderna que existiram na América, juntamente com o Império Brasileiro, o Primeiro e Segundo Impérios Haitianos, e o Segundo Império Mexicano.
Seu período histórico compreende desde a assinatura do Tratado de Córdoba e da declaração de independência do Império Mexicano em setembro de 1821 até o decreto de 8 de abril de 1823 do Soberano Congresso Constituinte Mexicano, em que se anulou a validade da coroação de Agostinho I, e o estabelecimento do Supremo Poder Executivo em 1823.
Seu território correspondia ao antigo vice-reinado da Nova Espanha, com exceção das capitanias gerais de Cuba, Santo Domingo e Filipinas. As províncias do antigo Reino da Guatemala, reunidas militarmente sob a Capitania Geral da Guatemala, foram posteriormente anexadas ao Império Mexicano.
Como em 1863 foi estabelecido o Segundo Império Mexicano, esse período passou a ser conhecido como Primeiro Império Mexicano. Ambos os impérios não possuem conexão direta.
História
Antecedentes Quando o imperador Napoleão I nomeou o seu irmão José Bonaparte rei da Espanha em 1808, forçando a abdicação de Carlos IV e depois de Fernando VII, e por conseguinte, removendo a dinastia dos Bourbons do trono espanhol, as ligações da metrópole com as suas colônias americanas enfraqueceram, produzindo-se levantamentos populares na parte peninsular do Vice-Reino da Nova Espanha de escala nunca antes vista na colônia. A Guerra de Independência do México iniciou-se em 1810, consequência, em última instância, da homogeneização da opinião pública entre as diferentes classes sociais frente à abdicação não consentida por elas do imperador. Esse conflito prolongou-se até 1821, ano em que as tropas independentistas entraram na Cidade do México e em que foi assinado o Tratado de Córdoba pelo qual a Espanha reconhecia a independência do México.
A luta pela independência foi constituída por setores heterogêneos da sociedade mexicana. Interesses de grandes mineradores, comerciantes e agricultores, que compunham a oligarquia colonial e que se beneficiavam do comércio interno que se constituía no México após as Reformas Borbônicas, se convergiam com os da Igreja, proprietária de um grande número de terras rurais arrendadas, e que, por sua vez, iam de encontro com as demandas do campesinato, composto majoritariamente por uma população trabalhadora indígena, pelo acesso às terras para cultivo. Tal reivindicação se observa, também, nos discursos de Miguel Hidalgo.
A década de 1810 foi palco de diversos conflitos políticos e instabilidade interna na Nova Espanha.NAVARRO MÉNDEZ, José María. Legitimar el Imperio Mexicano: Fiesta, Rito y Ceremonia (1821-1823). Orientador: Dr. Wilfrido Llanes Espinoza. 2018. 220 f. Dissertação (Mestrado em História) - Faculdade de História, Universidad Autónoma de Sinaloa, Sinaloa, 2018. pp. 49-64. Os principais grupos em conflito nesse primeiro período foram os insurgentes e os realistas, sendo esse segundo grupo composto pela elite ainda fiel a Felipe VII e ao regime monárquico em geral. É nesse período que Agostinho de Iturbide, futuro imperador e que nesse período ainda lutara do lado dos realistas, ganha destaque através de suas atividades militares, tendo participado de batalhas contra personagens do tipo de José María Morelos. miniaturadaimagem|Anônimo. Representação da chegada do Exército Trigarante na Cidade do México em 1821. A partir de 1820, com a restauração da Constituição de 1812 na Espanha por Fernando VII e o início do chamado "Triênio Liberal",Guzmán Pérez, Moisés. “El Movimiento Trigarante y el fin de la guerra en Nueva España (1821)”. Anuario Colombiano de Historia Social y de la Cultura 41.2 (2014): 131 – 161. p. 135. novos medos afloraram entre a elite realista na Nova Espanha.NAVARRO MÉNDEZ, José María. Legitimar el Imperio Mexicano: Fiesta, Rito y Ceremonia (1821-1823). Orientador: Dr. Wilfrido Llanes Espinoza. 2018. 220 f. Dissertação (Mestrado em História) - Faculdade de História, Universidad Autónoma de Sinaloa, Sinaloa, 2018. p. 69. Nesse contexto, os focos de conflito militar se mantinham na supressão das guerrilhas rebeldes na região de Guerrero lideradas por Pedro Ascencio e Vicente Guerrero.NAVARRO MÉNDEZ, José María. Legitimar el Imperio Mexicano: Fiesta, Rito y Ceremonia (1821-1823). Orientador: Dr. Wilfrido Llanes Espinoza. 2018. 220 f. Dissertação (Mestrado em História) - Faculdade de História, Universidad Autónoma de Sinaloa, Sinaloa, 2018. p. 70. Tendo em vista as ameaças aos estatutos e privilégios que a elite criolla desfrutava no Vice-Reino representadas pela ascensão liberal na Espanha, Iturbide, agora comandante do distrito militar do sul da Nova Espanha, que se estendia de Taxco ao porto de Acapulco,NAVARRO MÉNDEZ, José María. Legitimar el Imperio Mexicano: Fiesta, Rito y Ceremonia (1821-1823). Orientador: Dr. Wilfrido Llanes Espinoza. 2018. 220 f. Dissertação (Mestrado em História) - Faculdade de História, Universidad Autónoma de Sinaloa, Sinaloa, 2018. p. 71. organiza uma frente militar ao governo espanhol de caráter independentista e conservador, formando o Exército das Três Garantias ao aliar-se com os insurgentes liderados por Vicente Guerrero. A sua formação foi oficializada no Plano de Iguala, que institucionalizava a luta e estabelecia como seus objetivos a total independência da Nova Espanha, a defesa da religião católica apostólica romana como soberana e única no território, e a união e igualdade entre todos os habitantes da Nova Espanha.NAVARRO MÉNDEZ, José María. Legitimar el Imperio Mexicano: Fiesta, Rito y Ceremonia (1821-1823). Orientador: Dr. Wilfrido Llanes Espinoza. 2018. 220 f. Dissertação (Mestrado em História) - Faculdade de História, Universidad Autónoma de Sinaloa, Sinaloa, 2018. p. 74. O plano não englobava a alteração dos estatutos sociais vigentes na Nova Espanha, pois permitia a preservação da propriedade privada e retenção de postos públicos, e agradava as elites econômicas, eclesiásticas e também certos membros do exército, garantindo a adesão dos últimos caudilhos insurgentes.NAVARRO MÉNDEZ, José María. Legitimar el Imperio Mexicano: Fiesta, Rito y Ceremonia (1821-1823). Orientador: Dr. Wilfrido Llanes Espinoza. 2018. 220 f. Dissertação (Mestrado em História) - Faculdade de História, Universidad Autónoma de Sinaloa, Sinaloa, 2018. pp. 74-78.Guzmán Pérez, Moisés. “El Movimiento Trigarante y el fin de la guerra en Nueva España (1821)”. Anuario Colombiano de Historia Social y de la Cultura 41.2 (2014): 131 – 161. p. 140.
Em 29 de setembro de 1821, o Exército Trigarante entra na Cidade do México, dissolve o governo do vice-rei, e nomeia o ex-Vice Reino como uma monarquia constitucional moderada pelo congresso, com Agostinho de Iturbide agindo, por escolha unânime, como Presidente da Regência do Império.
Regência Logo após a chegada do Exército Trigarante na Cidade do México, Agostinho de Iturbide constituiu uma Junta Provisional Governativa, como previsto nas resoluções 5, 6, 7 e 8 do Plano de Iguala, excluindo membros das facções ora insurgentes durante o processo de independência. Como presidente da Regência, Iturbide convocou eleições para deputados do Congresso Nacional, que redigiriam a constituição do império. Os deputados foram eleitos e começaram seus trabalhos no dia 24 de fevereiro de 1822, data que também marca, consequentemente, a dissolução da Junta Provisional Governativa. miniaturadaimagem|Hesiquio Iriarte. Representação litográfica da coroação de Agostinho I em 1822. Frente às pressões internas causadas pela crise econômica advinda da dívida gerada pelos conflitos dos anos anteriores, a falta de mecanismos de arrecadação fiscal e a pouca experiência dos governantes, surgiram rumores entre o povo de que Iturbide considerava renunciar ao cargo de presidente da Regência. As divergências entre os projetos políticos dos grupos que compunham o congresso, enquanto isso, se agravavam. Os monarquistas apoiavam o projeto monárquico moderado pelo congresso lastreado no Plano de Iguala; os republicanos temiam um governo absolutista e apoiavam ideais similares àquelas que constituíram o governo dos Estados Unidos da América; e os borbonistas estavam divididos: pendiam para o lado dos monarquistas somente caso o monarca fosse um Bourbon. Foi enviado um convite para a Espanha, em busca de algum nobre que quisesse assumir o trono, porém não foi correspondido, visto que fazê-lo seria contrariar o rei Fernando VII.Colegio de México, ed. (1994). Historia general de México 4. ed ed. México, D.F: Colegio de México. p. 569.
Dada à força do movimento iturbidista, aproveitaram esse vácuo de poder no trono e a popularidade de Iturbide como figura da libertação nacional, ameaçada pelos rumores de renúncia, para encabeçar diversas manifestações que pressionassem o congresso a nomear Agostinho de Iturbide imperador.Nueva História Mínima de México Ilustrada. [S.l.]: El Colegio de México. 2008. p. 268. Na noite de 18 de Maio de 1822, uma manifestação organizada pelo Regimento de Celaya, que Iturbide comandara durante a guerra, tomou as ruas da Cidade do México exigindo que Iturbide fosse coroado. No dia 19 de Maio, o Congresso Soberano nomeou-o imperador, sem consultar as províncias, e em 21 de Maio de 1822 foi publicado o decreto que confirmava oficialmente esta nomeação, a qual, formalmente, era apenas temporária até que fosse encontrado um nobre europeu que quisesse governar o México, como se fez no Segundo Império Mexicano com Maximiliano de Habsburgo-Lorena. O título oficial de Iturbide era "Pela Providência Divina e pelo Congresso Nacional, Primeiro Imperador Constitucional do México". A sua coroação teve lugar em 21 de Julho de 1822, na Catedral da Cidade do México.
Reinado e queda de Agostinho I