A psicologia intercultural, junto a antropologia e outras áreas afins, estuda o comportamento humano ao redor do mundo em sua universalidade e, ao mesmo tempo, dando a devida atenção ao comportamento individual no ambiente cultural em que ele ocorre.Sebben, Andrea. "Expatriados. com: um desafio para os RHs interculturais." Porto Alegre: Artes e Ofícios (2009). É o estudo científico do comportamento humano e da sua transmissão, tendo presentes os modos nos quais os comportamentos são modelados e influenciados pelos valores sociais e culturais;Berry, J.; Segall, M., & Kagitçibasi, C. (1997). Cross-Cultural Psychology In Allyn & Bacon (eds.) Handbook of Cross-Cultural Psychology. Toronto. é o estudo de diferentes padrões culturais na vida mental dos seres humanos.Berry, J., & Sam, D. (1996). Acculturation and Adaption. In Allyn & Bacon (eds.) Handbook of Cross-Cultural Psychology. Boston.

Os estudos da psicologia intercultural buscam compreender as relações entre a cultura e o comportamento individual, tem como pressuposto que algumas variáveis que explicam o comportamento de uma pessoa deve-se à influência dos diferentes contextos socioculturais que caracterizam os distintos ambientes nos quais ela navega.Angelini, Arrigo Leonardo. "Psicologia Intercultural e Psicologia Educacional-Uma contribuição histórica." Boletim Academia Paulista de Psicologia 27.2 (2007): 39-46. Uma importante distinção da psicologia intercultural de outras áreas da psicologia é o pressuposto de que a cultura é um fator contribuinte no desenvolvimento de processos psicológicos. É uma alternativa viável para a promoção de iniciativas que visem a solução do problema do etnocentrismo teórico na psicologia contemporânea.Berry, John W. "A cultural ecology of social behavior." Advances in experimental social psychology. Vol. 12. Academic Press, 1979. 177-206.

O termo intercultural refere-se a um tipo específico de interação ou comunicação entre indivíduos, onde as diferenças culturais influenciam a construção de significado. Já o termo aprendizagem intercultural está relacionado à aquisição de uma competência intercultural ampla e transferível, que pode ser aplicada em diversos contextos de contato intercultural, e não apenas em interações com uma cultura específicaBennett, M. (2010). A short conceptual history of intercultural learning in study abroad. In W. Hoffa & S. Depaul (Eds) A history of U.S. study abroad: 1965-present. Special publication of Frontiers: The Interdisciplinary Journal of Study Abroad, pp. 419-449..

O campo da comunicação intercultural concentra-se na interação entre membros de diferentes grupos culturais. Uma forma de diferenciar a comunicação intercultural da psicologia intercultural é por meio dos níveis de análise. A psicologia intercultural enfatiza as características individuais em diferentes contextos culturais, enquanto a comunicação intercultural foca nos padrões normativos de grupos e sua influência na interação humana. Embora haja interseções entre as disciplinas, essa distinção reflete uma diferença fundamental no foco de cada uma.

História Uma das primeiras obras que marca o início dos estudos de psicologia intercultural estava voltada especificamente para a questão internacional, a “Psicologia dos povos: uma investigação sobre as leis de desenvolvimento da linguagem, mito e costume", de Wundt, entre 1900-1920. Posteriormente, Freud conectou a psicologia com a cultura em "Totem e tabu" e "O mal-estar da civilização". Então Jung, ao realizar pesquisas in loco na América, África, regiões do Oriente da Europa, buscou teorizar sobre seus conceitos de arquétipos como universais.Paiva, G. (1978). Introdução à psicologia transcultural. São Paulo: Pioneira.

Kraepelin também contribuiu na inauguração da psiquiatria comparada, procurando verificar a existência de uma relação entre transtornos mentais e características psicossociais que diferenciam os povos.Jilek, W. Psichiatria transculturale. quo vadis? Trabalho apresentado no International Symposium on Cultural Psychiatry. Roma: Itália. 1998. Outros autores que contribuíram foram W.H.R. Rivers, Bronislaw Malinowski, Ruth Benedict, Cora DuBois, Kardiner e Linton, Margaret Mead. Um maior interesse pela Psicologia Intercultural assim como a Educação Intercultural teve início no término da Segunda Guerra Mundial.Rivers,W.H.R. (1901) Vision. In A C. Haddon (Ed.) Reports of the Cambridge Anthropological Expedition to the Torres Strait. Part I: Cambridge: Cambridge University Press.

Do término da Segunda Guerra até o que se conhece atualmente, muito foi desenvolvido em termos de Psicologia Intercultural, em especial nas décadas de 60 e 70. Houve um aumento das publicações sobre o tema no Journal of Social Psychology, foi fundado o Center for Cross-Cultural Psychology, a International Association for Cross-Cultural Psychology, a Society for Cross-Cultural Research e a International Academy of Intercultural Research.Angelini, A L. (1964). Perspectives and problems in cross cultural research. Trabalho apresentado no Ninth Interamerican Congress of Psychology, Miami, FL.

Durante esse período, mais autores surgiram com importantes contribuições para a área. Kalervo Oberg com o conceito de choque cultural; John Berry com seus modelos de interação cultural e aculturação; Harry Triandis com os conceitos de coletivismo e individualismo; Milton Bennet com o Modelo de Desenvolvimento Intercultural e David L. Sam, cujo trabalho é voltado para os aspectos clínicos da imigração, sobretudo com refugiados.Oberg, Kalervo. Culture shock. Indianapolis, IN: Bobbs-Merrill, 1954.Bennett, M. J. (1986). A developmental approach to training for intercultural sensitivity. International Journal of Intercultural Relations, 10(2), 179–196.Triandis, H. C. 1995. Individualism and collectivism, Boulder, CO: Westview Press.Berry, J. W. (1997). Immigration, Acculturation, and Adaptation. Applied Psychology: An international review, 46(1), 5-68.Sam, D. L. (1991a). Acculturation of immigrants: Report from a pilot study. Health Promotion Reports No. 2. Bergen , Norway : Research Center for Health Promotion: University of Bergen.

No Brasil, Arrigo Angelini se tornou pioneiro dos estudos de Psicologia Intercultural e, posteriormente, Aniela Ginsberg foi considerada perita consultora de pesquisas interculturais da PUC-SP.Angelini, Arrigo Leonardo. "Psicologia Intercultural e Psicologia Educacional-Uma contribuição histórica." Boletim Academia Paulista de Psicologia 27.2 (2007): 39-46.Ginsberg, Aniela Meyer. "A comparison of personality indicators across three cultural groups." Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology 8.1 & 2 (1974).

Atualidade Atualmente, no Brasil, Andrea S. Sebben é uma referência quando se trata de pesquisas em psicologia intercultural e educação intercultural. Tendo tido grande influência de seus antecessores, (Oberg, Bennett e Berry) aperfeiçoou seus modelos teóricos de compreensão cultural e elaborou o Polígono Migratório, dando a devida importância a todos os personagens envolvidos no processo migratório: hóspede, hospedeiro, família pregressa e moderador migratório. Este último foi sua principal contribuição científica, sua abordagem leva em consideração as agências e programas de intercâmbio e setores de Mobilidade Global de Recursos Humanos como participantes ativos no processo migratório do cliente, ao invés de meros observadores. O autoconhecimento e autoeficácia em relação a integração aos grupos são conceitos-chave trazidos, os conflitos inerentes aos processos interculturais também e assim uma nova maneira de resolvê-los.Sebben, Andréa Simões. "Um estudo exploratório sobre o intercâmbio cultural com a contribuição da psicologia intercultural e da educação intercultural." (2001).Sebben, Andrea. "Expatriados. com: um desafio para os RHs interculturais." Porto Alegre: Artes e Ofícios (2009).

Cada vez mais, existe um crescimento do fenômeno da expatriação entre empresas nacionais e estrangeiras, e com isso encontram-se mais dificuldades em países estrangeiros e na Gestão de Expatriados na área de Recursos Humanos.Sebben, A. (2013). Gestão de expatriados e a psicologia intercultural como um novo recurso. Sumários Revista Da ESPM, 15(1), 70–75. Geert Hofstede trouxe novas compreensões sobre o comportamento intercultural, apesar da crescente globalização dos mercados, aculturação de pessoas e contatos cada vez mais facilitados entre os povos, as diferenças nacionais e regionais não deixam de crescer.Hofstede, G. (2005) Cultures and organizations: Software of the mind. London: McGraw-Hill. Essas diferenças podem tornar-se um dos problemas mais importantes e cruciais para a gestão, em particular para a gestão de multinacionais e de organizações multiculturais.Vulpe, T., Kealey, D., Protheroe, D. e Mac Donald, D. (2001) A profile of the intercultural effective person. Ed, Quebec, Canada: Canadian Department of Foreing Affairs and International Trade, Centre of Intercultural Learning.

A psicologia intercultural permite a atuação com adaptação de brasileiros no exterior e estrangeiros no Brasil, com base na combinação entre Psicologia Intercultural e Educação Intercultural. A metodologia desenvolvida por Sebben facilita o processo de aculturação e integração, aplicada em diversos contextos, como intercambistas, executivos expatriados e profissionais do esporte, com enfoque na adaptação eficaz e sustentável em ambientes culturais variados. Traz reflexões sobre o conceito de diversidade cultural nas organizações modernas, onde o termo diversidade é visto como algo positivo e enriquecedor.Sebben, A. (2013). Educação intercultural: celebrando a diversidade cultural dentro das empresas. Sumários Revista Da ESPM, 15(3), 110–115.

Aplicações A psicologia intercultural tem o potencial de ser uma ferramenta significativa na resolução de diversos problemas enfrentados por sociedades em diferentes países. Entre esses problemas, incluem-se questões relacionadas a imigrações internas, aculturação, urbanização, educação de massas, programas de saúde pública, planejamento familiar, planejamento educacional, telecomunicações, violência urbana, relações internacionais, conflitos religiosos, conflitos raciais, pobreza e privação cultural. Muitas dessas questões são marcadas por conflitos que surgem de diferentes percepções do mundo ou pela busca pela preservação de traços culturais e étnicos.Angelini, Arrigo Leonardo. "Uma contribuição histórica Cross-Cultural Psychology and Educational Psychology." Boletim Academia Paulista de Psicologia 27.2 (2007): 39-46.

A psicologia intercultural tem como objetivos:Paiva, G. J. de. Introdução à psicologia intercultural. São Paulo, Pioneira, 1978

ampliar os dados atuais da Psicologia com variáveis culturais; compreender o etnocentrismo enraizado na produção científica global; gerar novas hipóteses para explicação do comportamento; aprofundar de maneira sistemática e reflexão conhecimento da própria cultura;

A psicologia intercultural é aplicada no desenvolvimento de currículos que promovem a compreensão intercultural e reduzem o preconceito.Banks, James A. "Multicultural education: Historical development, dimensions, and practice." Review of research in education 19 (1993): 3-49. No âmbito corporativo, as teorias interculturais ajudam a gerir equipes multiculturais e a nortear negociações globais.Hofstede, Geert. "Culture's consequences: Comparing values, behaviors, institutions and organizations across nations." Thousand Oaks (2001).“O executivo multicultural sabe se comportar em qualquer país, recebe bem em sua terra natal, é curioso, criativo e um grande negociador, habilidades que são desenvolvidas a partir do treinamento intercultural, que educa a sensibilidade do executivo.”