Josef (José) Kentenich (Gymnich, 18 de novembro de 1885 - Schoenstatt, 15 de setembro de 1968) foi um padre católico alemão. Foi o fundador do Movimento de Schoenstatt, movimento católico fundado em 1914 na localidade de Schoenstatt, cidade de Vallendar, próxima de Koblenz, Alemanha. Cem anos atrás, padre José Kentenich fundava o Movimento de Schoenstatt Jornal de Londrina / Gazeta do Povo - edição de 19 de outubro de 2014 (Fábio Luporini)
Biografia Infância Nascido em 18 de novembro de 1885 em Gymnich, perto de Colônia, José é o filho de José e Catarina Kentenich Koep, fruto de um relacionamento fora do casamento. Com sua mãe aprendeu a devoção mariana. No entanto, a situação de extrema pobreza, com uma avó muito idosa e de saúde debilitada levam-na a deixar o seu filho de oito anos no orfanato São Vicente em Oberhausen (Alemanha), em 1894.
Os anos de orfanato foram conturbados enquanto criança, com duas tentativas de fuga e numerosas travessuras. Ele, no entanto, obteve boas notas na escola e permaneceu marcado por sua consagração a Maria.
Ingresso no seminário Em 1897, José exprime pela primeira vez o desejo de se tornar sacerdote. Dois anos depois, entra para o seminário menor de Ehrenbreitstein, dirigido pelos padres palotinos. Em 1904, passa ao noviciado dos Palotinos de Limburg an der Lahn.
Sacerdócio thumb|Pe. Kentenich, quando de sua ordenação sacerdotalAdmitido à profissão religiosa em 1909, Kentenich é ordenado sacerdote em Limburg an der Lahn, no dia 8 de julho de 1910. Seu sonho de ir para a África como missionário não pode ser realizado por haver adquirido a tuberculose.
Foi inicialmente professor no Seminário Menor de Ehrenbreistein e, em seguida, de 1912 a 1919, Diretor Espiritual no Seminário Menor dos Padres Palotinos em Vallendar-Schoenstatt, perto de Koblenz. Seu carisma como educador se manifesta logo nos primeiros anos de seu sacerdócio.
Capelão Nesse período, uma tempestade agitava o seminário de Vallendar-Schoenstatt: os estudantes protestavam contra o novo regulamento interno, considerado por eles demasiadamente severo; as paredes são grafitadas com mensagens de protesto. Dois padres encarregados pela direção espiritual dos seminaristas renunciam. É neste ambiente que o jovem padre José Kentenich é chamado para ocupar esse cargo e restaurar a confiança dos seminaristas.
Fundação do Movimento de Schoenstatt
O começo: a "Aliança de Amor" com Maria Com alguns de seus alunos, em 18 de outubro de 1914, o Padre Kentenich iniciava o que seria mais tarde considerado o primeiro marco da fundação da Obra de Schoenstatt. Na antiga capela de São Miguel, então abandonada e utilizada como depósito de ferramentas, um grupo de cerca de vinte seminaristas sela com a Virgem Maria um pacto que ele viria mais tarde a chamar de "Aliança de Amor", considerado um contrato bilateral entre duas partes contratantes. Cada membro do grupo concorda em abandonar-se inteiramente à Mãe de Deus e deixar-se guiar por ela durante toda sua vida.thumb|394x394px|O Pe. Kentenich com a Congregação Mariana de Schoenstatt, em outubro de 1914
Por seu lado, os jovens seminaristas compreenderam suas intenções e trabalharam durante os duros anos da Primeira Guerra Mundial. Entre estes, o Servo de Deus José Engling, morto em 4 de outubro de 1918, por uma granada no norte da França, em Thun-Saint-Martin; o Pe. Kentenich o indicará como modelo.thumb|277x277px|A imagem chamada Mater Ter Admirabilis, entronizada em Schoenstatt em 1915 e presente em todos os Santuários de Schoenstatt do mundo
Em abril de 1915, um professor presenteia ao Padre Kentenich uma reprodução de uma gravura de Nossa Senhora tendo ao colo Jesus menino, pintada por Luigi Crosio, sob o título "Refugium Peccatorum". Apesar do reduzido valor artístico da obra, ele entroniza essa imagem no altar da capelinha. Reverenciada como Mater Ter Admirabilis (Mãe Três Vezes Admirável), ela será colocada em todas as casas e santuários do Movimento de Schoenstatt. Durante a guerra, uma revista sob esse patrocínio é enviada para os jovens que lutam na frente de batalha.
O desenvolvimento da Obra
O projeto expandiu-se rapidamente após a Primeira Guerra Mundial, englobando diversas categorias de pessoas, as quais são estruturadas em ligas, uniões e institutos seculares. thumb|427x427px|Um retiro para sacerdotes pregado pelo Pe. Kentenich em Schoenstatt O Pe. Kentenich passa a percorrer toda a Alemanha, Áustria, Tchecoslováquia e Suíça, para pregar retiros e sessões de formação. Entre 1928 e 1935, a cada ano mais de 2.000 sacerdotes participam de suas conferências, sem contar os participantes leigos.
Batalha contra o nazismo Prisão pela Gestapo Kentenich observa com preocupação o crescimento do nazismo. Em 1933, quando os nazistas tomam o poder na Alemanha e são fechados diversos conventos, ele não tardou em enviar grupos de religiosas para a África do Sul, Brasil, Argentina, Chile e Uruguai a fim de permitir o Movimento de sobreviver caso a perseguição da Igreja na Alemanha aumentasse.
Padre Kentenich diz sobre a suástica: "Para nós, é a Cruz de Cristo que devemos seguir". E sobre o nazismo, "Não vejo nenhum lugar por onde aí poderia passar a água do batismo".
Após diversas ameaças e vexações, no dia 20 de setembro de 1941, Kentenich é convocado pela Gestapo; ele é acusado pelo teor de uma frase, pronunciada em privado, mas denunciada por um delator: "Minha missão é revelar o vazio interior do nacional-socialismo, a fim de assim poder derrotá-lo." A polícia aprisiona o religioso durante um mês em um quarto sem ventilação. Padre Kentenich é mantido por quatro semanas nesse bunker escuro e sem ar, que era antes o cofre de uma filial do Reichsbank. É daí transferido fisicamente debilitado, para a prisão de Koblenz, um antigo convento carmelita, onde passa outros 5 meses.
Enviado para o campo de concentração de Dachau
Em março de 1942, o Padre Kentenich é enviado ao campo de concentração de Dachau, justo no momento em que as condições de vida nesse campo estavam em franca deterioração. Dos 12.000 presos, existem 2.600 sacerdotes. Ele é o prisioneiro n. 29.392. Os alemães são agrupados em um bloco onde eles têm o direito de assistir à missa celebrada diariamente por um deles; somente no dia 19 de março de 1943, Kentenich poderá celebrar sua primeira missa no campo de concentração. À cada noite ele apresenta uma palestra sobre algum tema espiritual a seus companheiros prisioneiros, graças à proteção do "kapo" (prisioneiro chefe do bloco) Guttmann. Guttmann vai salvar a vida do fundador de Schoenstatt, destinado à câmara de gás por causa de sua saúde debilitada: no dia da visita de seleção por um médico da SS, Kapo Guttmann esconde o Padre Kentenich. Após isso, ele é designado ao grupo de desinfecção, podendo circular dentro do campo.
A fundação da Obra Internacional de Schoenstatt em Dachau Em 16 de julho de 1942, foram criados dois novos ramos de Schoenstatt em Dachau, sob a responsabilidade de dois leigos prisioneiros: o Instituto Secular das Famílias e o Instituto dos Irmãos de Maria. Transferidos várias vezes a outros blocos, Kentenich recomeça a cada vez o seu apostolado. Durante os últimos três meses de 1944, o endurecimento do regime nazista e as epidemias causam a morte de dez mil prisioneiros em Dachau. É neste ponto que Padre Kentenich funda com um grupo de discípulos a Obra Internacional, estendendo a fundação de Schoenstatt no mundo inteiro. Ele escreve diversos tratados de espiritualidade, orações e um poema de mais de 20.000 versos. Em dezembro de 1944, Dom Gabriel Piguet, um bispo francês prisioneiro no campo, ordena sacerdote um seminarista de Schoenstatt, o Beato Carlos Leisner. Doente de tuberculose e muito enfraquecido, ele só conseguirá celebrar uma missa antes de morrer.
Em 6 de abril de 1945, com a chegada dos americanos, os prisioneiros são libertados. No dia 20 de maio, dia de Pentecostes, o Padre Kentenich regressa a Schoenstatt. Ele retorna imediatamente ao seu trabalho; visando estabelecer uma barreira contra dois perigos que ele enxerga: o comunismo no Leste, e o materialismo prático no Ocidente. Os Padres Alberto Eise, morto doente em Dachau e Franz Reinisch, executado pelos nazistas, serão invocados como protetores celestiais por todos os membros do Movimento.
Desenvolvimento Internacional da Obra thumb|359x359px|Um dos mais de 100 Santuários de Schoenstatt construídos pelo mundo Em março de 1947, o Padre Kentenich, é recebido em audiência privada pelo Papa Pio XII, e agradece ao Papa pela publicação, dois dias antes, da Constituição Apostólica Provida Mater Ecclesia, que cria os Institutos Seculares.
Em outubro de 1948, a Santa Sé erige em Instituto Secular as Irmãs de Maria de Schoenstatt. Ao mesmo tempo, o fundador viaja ao, Brasil, Chile, Argentina e Uruguai, à África e os Estados Unidos, para a implantação de sua Obra, com a construção de réplicas do Santuário de Schoenstatt, de casas de retiro e casas de religiosas.
Exílio No entanto, as oposições continuam a se manifestar contra o Movimento. O bispo de Tréveris, em cuja diocese está localizado Schoenstatt, ordena uma visita canônica. Elogioso no geral, no entanto o relatório do visitador faz algumas críticas menores às quais o Padre Kentenich é convidado a responder. Ele se sente obrigado em elevar o debate, escrevendo um longo documento sobre a Obra de Schoenstatt, que é apresentada como uma cura para a doença do pensamento ocidental, o idealismo.
Sua resposta irritou o Visitador Apostólico, que envia o caso para o Santo Ofício em Roma. Em 1951, o Pe. Tromp, jesuíta holandês, foi nomeado inspetor apostólico com amplos poderes. Desconcertado pela terminologia pouco convencional utilizada pelo Padre Kentenich, ele o considera um agitador, um inovador e mesmo um sectário. Depois de removê-lo de todas as suas funções na direção da Obra, ele o transfere ao convento dos Palotinos de Milwaukee (Estados Unidos); toda a correspondência com os responsáveis pela obra lhe é proibida.
Mais de três décadas depois, quando foram ouvidas testemunhas para uma possível beatificação de Kentenich, um padre de 78 anos declarou: "José Kentenich nunca recebeu qualquer ato oficial de acusação. Ele não tinha advogado oficial e nunca foi levado perante um juiz, muito menos diante de uma denúncia ou de uma testemunha." Seu exílio durou quatorze anos.
Em 1953, o Papa Pio XII, a quem lhe haviam sugerido esta medida, se recusa a dissolver Schoenstatt. Há todavia o problema do estatuto da Obra: deve ela ser integrada na Congregação dos Palotinos ou tornar-se autônoma? Os superiores da Ordem recomendam a primeira solução, mas outros palotinos pensam, como o Padre Kentenich, que Schoenstatt deve ser totalmente autônoma, sob pena de morrer. Em 1962, após a intervenção de vários bispos, o Papa São João XXIII confia a questão à Congregação dos Religiosos.
Em 1959, o Padre Kentenich é encarregado responsável da paróquia alemã de Milwaukee, região com muitos imigrantes dessa nação.
O fim do exílio Em dezembro de 1963, Paulo VI nomeia o arcebispo de Münster, Dom Höffner, moderador e protetor de Schoenstatt. Um novo visitador apostólico é designado, o qual apresenta um relatório favorável. Em 1964, com aprovação unânime dos bispos alemães, um decreto papal pronuncia a separação de Schoenstatt dos Palotinos.
Em outubro de 1965, o Padre Kentenich é reintegrado na direção da Obra. Agora com oitenta anos, é recebido por Paulo VI alguns dias após o encerramento do Concílio Vaticano II.
Novos desenvolvimentos na Obra de Schoenstatt No Natal de 1965, o Padre Kentenich é recebido com entusiasmo em Schoenstatt. Seu trabalho agora inclui cinco institutos seculares: os Padres de Schoenstatt, os Sacerdotes Diocesanos envolvidos, os Irmãos de Maria, as Irmãs de Maria, as Senhoras de Schoenstatt (leigas consagradas) e as Famílias. Também existem Uniões e Ligas de sacerdotes, leigos e famílias.