Ceuta foi uma possessão portuguesa entre 1415 e 1641. Conquistada ao Reino de Fez pelo rei D. João I, passou para a posse de Espanha aquando da Restauração da Independência Portuguesa.

História thumb|A conquista portuguesa de Ceuta representada em azulejos na Estação de São Bento, Porto

A 21 de agosto de 1415 tropas portuguesas comandadas pelo rei acompanhado pelos seus filhos Duarte, Pedro e Henrique desembarcaram no que são atualmente as praias de Santo Amaro e conquistam a cidade para Portugal, conquista essa finalizada a 22. Diante das disputas de vários capitães para ficarem com o governo da cidade depois da conquista, Pedro de Meneses apresentou-se ao rei com um pau chamado "aleo", usado num jogo popular na época, e quando lhe perguntou se era suficientemente forte para tomar a seu cargo a responsabilidade do governo de Ceuta terá respondido: «Senhor, este pau basta-me para defender Ceuta de todos os seus inimigos». Pedro de Meneses foi então nomeado primeiro governador e capitão-geral de Ceuta. O pau (Aleo) ainda hoje se encontra no santuário de Nossa Senhora de África e passou de mão em mão por todos os governadores que estiveram no comando da praça jurando defender a cidade tal como o fez Pedro de Meneses.

O rei ordenou que quase 3 000 homens ficassem para trás como guarnição.Ignacio da Costa Quintella: Annaes da Marinha Portugueza, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1839, pp. 57–70. Incluía 300 escudeiros da casa real, 300 escudeiros da casa do príncipe-herdeiro D. Duarte, 250 escudeiros da casa do Infante D. Pedro, 300 escudeiros da casa do Infante D. Henrique, 600 besteiros a pé e a cavalo, um número inédito de escudeiros das cidades de Évora e Beja e vários nobres com os seus seguidores. Muitos ressentiam-se profundamente com a ideia de viver numa cidade fronteiriça isolada, rodeada por potências muçulmanas hostis, ávidas por vingança contra os cristãos e, temendo morte certa ou cativeiro, imploraram para serem levados de regresso a Portugal, subornaram funcionários para os levarem de volta aos navios ou fingiram doenças.Nuno Silva Campos: D. Pedro de Meneses e a construção da Casa de Vila Real (1415–1437), Publicações do Cidehus, 2018, p. 43. Alguns se estabeleceram voluntariamente na cidade como milicianos, como os artesãos. Outros abraçaram de bom grado a vida de fronteiros. Provavelmente muitos eram nobres e seus vassalos, buscando riqueza e glória no serviço no exterior, como Rui de Sousa, que ficou para trás com 40 vassalos.Nuno Silva Campos: GUERRA E CORSO EM CEUTA DURANTE A CAPITANIA DE D. PEDRO DE MENESES (1415–1437) in ACTAS XIV SIMPÓSIO DE HISTÓRIA MARÍTIMA: CEUTA E A EXPANSÃO PORTUGUESA, 2015, p. 337. Tais nobres poderiam ter-se tornado um sério factor de desestabilização e conflito interno finda a paz com Castela em 1411.Campos, 2015, p. 354.

Ceuta foi sitiada pelo sultão de Fez e pelo emir de Granada em 1418 e novamente em 1419. Porém de ambas as vezes os muçulmanos foram rechaçados.Isabel, M. R. Mendes Drumond Braga; Paulo Drumond Braga: Ceuta Portuguesa (1415-1656), Instituto de Estudos Ceutíes, 1998, p. 33.Affonso de Dornellas: De Ceuta a Alcacer Kibir em 1923, Casa Portugueza, 1925, pp. 90-92.

Num tratado assinado com o rei de Fez, este reconheceu Ceuta como portuguesa. No mundo cristão, a cidade foi reconhecida como possessão portuguesa nos tratados das Alcáçovas (1479) e de Tordesilhas (1494).

A seu tempo, Ceuta veio a tornar-se uma formidável base militar e um dos principais refúgios para corsários cristãos no ocidente Mediterrâneo, a principal base a partir da qual os navios portugueses atacavam navios muçulmanos hostis, de Salé a Granada e Tunes, actividade que rendeu ao capitão de Ceuta D. Pedro de Meneses e a D. João I valiosos rendimentos.Filipe Themudo Barata : O CORSO E A PIRATARIA A PARTIR DE CEUTA: INSTRUMENTO POLÍTICO E NEGÓCIO POPULAR in ACTAS XIV SIMPÓSIO DE HISTÓRIA MARÍTIMA: CEUTA E A EXPANSÃO PORTUGUESA, 2015, p. 336. A navegação cristã no Estreito de Gibraltar também se tornou mais segura.Campos, 2015, p. 354. Os ataques portugueses causaram o abandono da costa marroquina por número considerável de residentes, que fugiram para o interior, ao passo que o comércio externo marroquino definhou gradualmente.Filipe Themudo Barata: Ceuta: Da Organização De Uma Máquina de Guerra À Eficácia de Um Instrumento de Política Externa in XVII Jornadas de História de Ceuta: Portugal Y El Norte de Africa, Histórias D'Aquem E D'Além-Mar, Instituto de Estudius Ceutíes, Ceuta, 2016, pp. 65–73. Ceuta era frequentada por aventureiros de diversas nacionalidades, entre castelhanos, aragoneses, flamengos, Alemães e até mesmo polacos, que buscavam de riqueza e glória.Campos, 2015, p. 352.

Ceuta tornou-se diocese em 1417 por bula do .

Durante o reinado de D. Duarte, a fortaleza de Ceuta rapidamente se tornou um peso nas finanças régias. As caravanas trans-saarianas mudaram de percurso para Tânger e o permanente estado de guerra comprometia o cultivo dos campos em redor e a produção de cereais. A situação agravou-se em função das elevadas despesas militares necessárias à manutenção da praça africana. Os membros da corte chegaram a cogitar o abandono da cidade. O Infante D. Pedro, em carta ao seu irmão, afirmava mais tarde:

Em 1437 Henrique e Fernando persuadiram o rei a lançar um novo ataque ao sultanato Marinida. O ataque a Tânger liderado pelo infante D. Henrique, foi um desastre. O Infante D. Fernando foi entregue aos merínidas como refém e prometida a entrega Ceuta para que o exército português pudesse partir a salvo. D. Fernando faleceu no cativeiro e a cidade continuou portuguesa (1443).

A posse de Ceuta levaria indirectamente a mais expansão portuguesa, servindo como ponto tanto para a expansão na costa africana como para sede do corso português sobre as forças muçulmanas. A principal área de expansão portuguesa, nesta altura, era a costa de Marrocos, onde havia cereais, gado, açúcar e têxteis, bem como peixe, peles, cera e mel.Payne, Stanley G., ''A History of Spain and Portugal, Vol. 1, Chap. 10 "The Expansion"

Ceuta teve que se aguentar sozinha, durante 43 anos, até que a posição da cidade ser consolidada com a tomada de Alcácer Seguer (1458), Arzila e Tânger (1471).

A cidade foi reconhecida pelos castelhanos como possessão portuguesa pelo Tratado de Alcáçovas (1479) e pelo Tratado de Tordesilhas (1494).

No contexto da Dinastia Filipina, que se seguiu à morte de em 1580, Ceuta manteve a administração portuguesa, tal como Tânger e Mazagão. Todavia, quando da Restauração Portuguesa em 1640, não aclamou o Duque de Bragança como rei de Portugal, ficando sob domínio espanhol desde Março de 1641. A situação foi oficializada a 13 de Fevereiro de 1668 com o Tratado de Lisboa, assinado entre os dois países e que pôs fim à guerra da Restauração, no entanto, a cidade decidiu manter a sua bandeira que é composta por gomos brancos e pretos, à semelhança da bandeira da cidade de Lisboa, ostentando ao centro o escudo português.

Ver também Governadores portugueses de Ceuta Cerco de Ceuta (1418) Cerco de Ceuta (1419) Tânger Portuguesa Arzila Portuguesa

Categoria:Antigos territórios portugueses em Marrocos Categoria:Império Português Ceuta Categoria:Fundações em Portugal em 1415 Categoria:Estados e territórios fundados em 1415 Categoria:Estados e territórios extintos em 1641