A língua asurini do Tocantins, sendo também citada como língua asurini do Trocará, língua akuawa, ou língua akuáwa-asurini é uma língua indígena tupi parte da família tupi-guarani, do ramo IV. É utilizada exclusivamente pelo povo asurini do Tocantins, atualmente encontrado na Terra Indígena Trocará (TIT), politicamente pertencente aos municípios de Baião e Tucuruí. Apesar do nome, a língua é falada totalmente no território do Estado do Pará, próximo ao rio Tocantins. Tinha, em 2010, até 492 falantes. Segundo dados mais recentes do Censo do IBGE de 2022, a comunidade apresentava, então, exatamente 683 pessoas, o que deve significar um aumento, também, no número de falantes, se comparado a 2010.

O idioma está sob grande risco de extinção, visto que os nascidos das novas gerações já não costumam aprender a língua com as mães, e quando aprendem algo é com os avós. Além disso, a língua portuguesa tem tomado conta da rotina da população, o que acelera ainda mais o processo de extinção. Tudo isso é exemplificado por uma pesquisa de 2010, que dizia que 213 dos 492 falantes eram, na época, fluentes em português, mas falavam pouco da língua tradicional, representando o maior grupo dentro da pesquisa. Sendo assim, a língua majoritária da comunidade não era mais a asurini, mas a portuguesa.

Acredita-se que que a língua asurini do Tocantins tenha como antepassado mais próximo uma língua conjunta com o parakanã, povo que já viveu junto dos asurinis, mas que hoje são seus inimigos clássicos. O processo de cisão teria se iniciado há não mais do que 200 anos. A proximidade com os ramos V, VI e VIII da família tupi-guarani também justificaria uma protolíngua intermediária à protolíngua tupi e os idiomas modernos dos ramos acima, que teria existido há pelo menos 800 anos. O primeiro contato com os brancos aconteceu com sertanejos, não sendo pacífico, mas tendo se normalizado logo. Após esse primeiro período, os asurinis buscaram apoio e abrigo próximos aos não-indígenas, ao fugirem dos parakanãs.

Um fenômeno curioso da língua é a não padronização de uma ordem sintática. As frases podem ser ditas com as palavras dispostas em qualquer ordem. No entanto, algumas ordens genéricas são usadas. Atualmente, a ordem tradicional mais típica (OVS) tem sido substituída, muitas vezes, pela originalmente portuguesa (SVO). Ainda assim, é unânime que a língua seja uma das mais conservadoras (em relação às protolínguas) da sua família, em se tratando de morfossintática e gramática. Essas questões estão dispostas em algumas obras escritas na língua que utilizam como base o alfabeto latino. As obras incluem dois livros de histórias asurini e um dicionário asurini-português, mas os jovens dizem nunca ter tido contato com essas obras.

Etimologia

miniaturadaimagem|upright=1|200px|Homem asurini usando pigmento natural vermelho no rosto.

O termo "asurini" é dividido entre 2 comunidades: os asurinis do Tocantins e os do Xingu. Na década de 1950, início dos contatos diretos entre brancos e os asurinis do Tocantins, acreditava-se que esses eram descendentes daqueles do Xingu. Essa confusão é a responsável pelo compartilhamento do termo. O provável exônimo veio da palavra asonéri da língua juruna, que é uma língua tupi falada pelo povo de mesmo nome que migrou do Pará para o Mato Grosso, onde vivem hoje. Asonéri é a tradução de "vermelho", e foi atribuída desde o Século XIX aos asurinis do Xingu porque usavam muito da fruta urucum, a ponto de serem nomeados como "índios vermelhos".

Segundo Cabral, awaeté é um termo geral que poderia ser atribuído aos asurinis, já que se refereria aos povos tupis de forma mais abrangente, numa tentativa de diferenciá-los dos jês. Essa palavra surgiu da junção de awa (gente) e eté (verdadeiro). Ou seja, significa, literalmente, "gente de verdade". É entendido por alguns autores como o antônimo para akuawa, que seria a "gente ruim". Entretanto, o uso desse termo como endônimo pelo povo explorado nesse artigo é desacreditado, já que utilizá-lo colocaria os asurinis lado a lado com seus inimigos, os parakanãs. Além disso, awaeté é atribuído como endônimo específico para outros povos, como os asurinis do Xingu, e, em algumas fontes, aos parakanãs também.

Cabe destacar, ainda, que os asurinis, para alguns autores, se chamam de akuawa, caracterizando um endônimo. No entanto, a palavra pode também representar um termo pejorativo que os asurinis usam para denominar outras comunidades que tenham resistido à colonização e aculturação. Por isso, há uma discussão quanto à validade da classificação do termo como endônimo e como um sinônimo perfeito para asurini, sendo possível notar um uso maior desse último até pelos próprios membros da comunidade. Seguindo essa linha de raciocínio, a palavra akuawa é geralmente traduzida como "indígena", ou "índio do mato". De qualquer forma, a palavra ainda é utilizada por alguns pesquisadores para nomeá-los.

Em outro momento, os asurinis se chamavam de tiraimotoa, antes de se separarem do povo parakanã, com quem dividiam a mesma terra. O termo significa "reunião de muita gente".

Em português, os termos "asurini" e "akuawa" recebem diferentes grafias. Podem ser encontradas as seguintes variações: asuriní, assurini; akwáwa, akwawá, akuáwa, aqawa, áqawa.

Distribuição miniaturadaimagem|upright=1|200px|200px|Aldeia na Terra Indígena Trocará, onde vivem os asurinis do Tocantins. A língua asurini do Tocantins é usada exclusivamente pelo povo de mesmo nome, ou seja, apenas na Terra Indígena do Trocará, onde se localizam. Os limites estão demarcados desde 1972 e homologados desde 1982. Isso significa que o Estado Brasileiro reconhece o direito da população de usufruir exclusivamente de sua própria terra. Politicamente, a localidade está entre os municípios de Baião e Tucuruí, no estado do Pará. Dessa última cidade, a principal aldeia se distancia 18 quilômetros. São banhados pelo rio Tocantins na sua margem e cortados pela BR-422, ou rodovia Trans-Cametá.

O povo está dividido em cinco aldeias: Trocará (distante 2 metros do rio Tocantins e a mais próxima da cidade de Tucuruí), Ororitáwá (30 km distante da última) Oimutawá, Itaraohoa (que significa "Cachoeira Grande") e Pikiá. Há ainda uma área próxima ao rio Pacajá, nos limites dos municípios de Pacajá e Portel que está sendo reinvindicada pelos asurinis. A população que morava lá hoje vive em Trocará, considerada a aldeia central. Há momentos em que toda a comunidade se reúne nela. Para lá, as pessoas das outras aldeias podem migrar quando precisam de abrigo, como é o caso dos habitantes da aldeia Ororitáwá, que fogem das dificuldades de locomoção em época de chuva durante o inverno. A mesma aldeia foi fundada por lideranças tradicionais que queriam se distanciar dos problemas advindos com a construção da rodovia (como o som alto), preferindo uma vida mais conservadora e sem as tecnologias que chegaram com a estrada, como luz elétrica e eletrodomésticos. O mesmo não aconteceu com os habitantes fixos de Trocará, que se integraram às novidades.

Alguns indivíduos de outras etnias (munduruku, anembé e parakanã) também vivem no meio do povo asurini do Tocantins.

A maior parte da população é alfabetizada, conforme uma pesquisa de 2010, segundo a qual 238 pessoas não eram letradas, contra 249 letradas.

Línguas relacionadas Em uma análise de 1975, Harrison disse que haviam dois dialetos do asurini: o falado pelo grupo do Trocará e um outro falado por um grupo que decidiu não se sedentarizar e se aproximar dos não-indígenas. Esse último fugiu depois que vários de seus membros morreram após o contato com os brancos. É comum que autores citem a existência de uma variante mais conservadora e outra menos, falada pelo mesmo povo na mesma região. Em uma pesquisa de 2010, ficou explicitado que os falantes da variante mais conservadora eram, em sua incontestável maior parte, as pessoas mais idosas.

Apesar disso, o asurini do Tocantins, como um todo, é a língua mais conservadora do ramo IV da família tupi-guarani, descendente do tronco tupi. O ramo IV é dividido com as línguas parakanã (com a qual compartilha maiores semelhanças, tanto lexicais quanto fonológicas, morfológicas e sintáticas), suruí, tembé, turiwara, tapirapé e avá-canoeiro. Uma comparação pode ser feita entre as palavras das principais línguas desse ramo, conforme observa-se abaixo:

+Línguasele dormeluaele vaieu o vejojacaréPrototupi-guaraniokérjatxýotsóatsepjákjakaréAsurini do TocantinsókentxahýaáhaaétxangtxakareParakanãokentxaýa - - -TembéokérzahýohóaetsákzakaréTapirapé -txãhý - -txãkãré

A proximidade com o parakanã é tanta que leva a acreditar que essa língua é a antepassada mais próxima do asurini. As duas teriam formado uma língua comum há 150 ou 200 anos. Essa tese encontra apoio histórico, visto que os asurinis já foram, em dado momento, parte da mesma comunidade que os parakanãs, mas acabaram se separando. Posteriormente, os dois povos se tornariam inimigos.

Pesquisas entre as línguas da família tupi-guarani concluíram que as similaridades linguísticas e geográficas entre o asurini (do ramo IV) e outros idiomas que constituem os ramos IV, V, VI e VIII levam a acreditar que houve uma protolíngua, intermediária à protolíngua tupi e aos idiomas modernos desses ramos, que se desenvolveram na região entre os rios Tocantins e Xingu, há pelo menos 800 anos.

A lista a seguir mostra algumas das línguas que fazem parte desses ramos, organizadas de forma a privilegiar suas proximidades, como fez Aquino, com base em estudos de outros autores: miniaturadaimagem|upright=1|200px|Distribuição das línguas tupi-guaranis (em rosa) e tupis (roxo) pelo Brasil.

Protolíngua tupi-guarani Protolíngua intermediária (Encontro dos ramos IV, V e VI) Ramo VI kayabí apiaká juma tupi-kawahíb parintintín tenharin amondáva ururewawau (Outras línguas) Ramo V asurini do Xingu anambé araweté ararandewára/ananajé Ramo IV avá-canoeiro tapirapé suruí Protolíngua asurini-parakanã parakanã língua asurini do Tocantins turiwára tembé guajajára Ramo VIII emérillon wayampí wayampí-pukú zo'é anambé de Ehrenreich ka'apór guajá

É possível fazer algumas comparações entre os vocábulos de algumas línguas desses ramos: +LínguasLuaJacaréEle vaiAsurini do Trocará (IV)txahýatxakareáhaTembé (IV)zahýzakaréohóAsurini do Xingu (V)djahydjakaréahaParintintín (VI)jahýjakaréohóUrubu/kaapor (VIII)jahýjakaréohóWayampí (VIII)jáyjakaréóoExistem muitas semelhanças entre o asurini do Xingu e o do Trocará, assim como muitas diferenças. Essas relações são abordadas em um estudo comparativo de Nicholson entre os dois idiomas, que no documento são considerados como dois dialetos da mesma língua. Muitos outros estudos, entretanto, classificam os dois como idiomas diferentes (tanto que estão em ramos diferentes), falados por dois grupos tão diversos entre si que são totalmente diferentes, sendo às vezes considerados um em função de uma confusão feita por pesquisadores nos primeiros anos de pesquisa.

Segundo esse estudo, existem mais consoantes na língua xinguana do que na do Trocará. A tabela a seguir reúne alguns vocábulos que podem ser usados para comparar as duas línguas: +Asurini do xinguAsurini do trocaráTradução para o portuguêstendawatenawabancodže.membyratše.memyrameu filhoo'ako'aŋarrancardža'waratšawaracachorrodža'yptša'ywacastanheirao.džokao.tšokamataro.žaoko.tšahoŋtomar banho Já quanto às vogais, as xinguanas e as do Trocará são, em muitos casos, as mesmas. Contudo, há a existência de vogais mais fechadas no idioma do Xingu, como pode ser observado abaixo abaixo: +Asurini do xinguAsurini do trocaráTradução para o portuguêskonomikonomiacriançaywyraywyrapau/varao.kabuo.kamomamaro.pywyno.powonfiare.rute.rontraga!tamunuatamanowatamanduáo.kito.kendormir Outras semelhanças incluem:

A última sílaba de um sintagma é prolongada quando se quer enfatizar algo Regras morfofonológicas Prefixos pessoais em verbos transitivos e intransitivos