A língua kwaio, também chamada de koio, welakau ou fataia, é uma língua austronésia, do ramo oceânico, falada pelo grupo étnico de mesmo nome na ilha de Malaita, das Ilhas Salomão, que conta com cerca de 22.400 pessoas.

O povo kwaio não foi alvo de muitos estudos sociais, e os principais materiais sobre a língua são os livros de Roger Keesing, um antropólogo que se dedicou a conhecer e documentar a etnia, sua cultura e sua língua, sobretudo nas décadas de 70 e 80. Há também uma tradução do Novo Testamento em kwaio, publicada em 2014, sob o título de Fatalana God ("Linguagem de Deus"). Em razão de diversos problemas durante a colonização britânica, muitas famílias sequer aceitam visitas e têm uma certa aversão pelo "homem branco".

Os kwaio são um dos poucos grupos étnicos melanésios a ter preservado sua cultura e forma de vida tradicional, mantendo sua língua viva e sem muitos riscos. O culto aos ancestrais é largamente praticado, e afeta diretamente na estrutura social e na língua: certos ancestrais (em kwaio: adalo), se tornam tão importantes que, como forma de respeito, deixam de ter seu nome dito diretamente. Como os nomes vêm de palavras comuns, é possível que as palavras que os originaram se tornem tabus (em kwaio: abu), devendo ser substituídas por sinônimos para não desrespeitar o adalo e evitar sua ira contra seus descendentes.

A língua tem fonologia e escrita relativamente simples, já que tem apenas 18 sons consonantais, sendo um deles não-fonêmico, e 5 sons vocálicos, utilizando 18 letras do alfabeto latino para representá-los, além do apóstrofo, três dígrafos e um trígrafo. Assim como em outras línguas oceânicas, a gramática do kwaio se fundamenta na interação entre bases e partículas, tem um alinhamento nominativo-acusativo e a ordem normalmente é SVO.

Etimologia A etimologia da palavra kwaio é incerta. As primeiras aparições do termo em livros datam a década de 1920, com o uso do termo koio, designação em kwara'ae. Algumas teorias e suposições quanto à origem do termo existem, como uma que diz que este teria vindo de kwai'o (algo como "te atingir"), mas a teoria foi apontada por Keesing como "palpavelmente falsa".

Outros termos usados para denotar a língua são fataia e welakau. Fataia é a palavra kwaio para "arbusto", nesse caso, significando o interior da ilha. É um termo que se destaca ao ser comparado com seus equivalentes em línguas próximas, que se aproximam mais da raiz tolo. Welakau (wela kau ou ainda wela ka'u) é uma expressão kwaio que significa algo como "ei, você!"

Distribuição A língua kwaio é falada na região central de Malaita, uma das Ilhas Salomão. Dados precisos sobre população são difíceis, pois há grupos que vivem em locais isolados, e alguns rejeitam contato com o exterior, mas dados de 2019 apontam uma estimativa de 22.400 falantes nativos da língua.

Os kwaio são um dos poucos grupos étnicos melanésios que conseguiram conservar sua tradição, tendo um grande número de famílias que rejeitaram o cristianismo e a vida moderna. Muitos grupos ainda vivem em lugares remotos e de difícil acesso, alguns grupos sequer aceitam contato com estrangeiros. Algumas pessoas têm o pijin, língua franca do país, como segunda língua.

Dialetos Keesing descreve três dialetos em suas obras: o kwareuna, falado no noroeste, o siesie, falado no sudeste, e o xwaio, falado no leste da região habitada pelos kwaio, referido como o "coração" da região por ser a zona com a maior população. Os livros do antropólogo relatam principalmente o dialeto xwaio, enquanto o siesie não foi devidamente estudado por ele. Duas diferenças notáveis entre o xwaio e o kwareuna são o uso de fricativas e no lugar de e no xwaio, e uma aparente distinção fonêmica entre os fones e no kwareuna. Além disso, em algumas palavras o xwaio tende a alterar a raiz do proto-malaitano setentrional, enquanto o kwareuna tende a manter a forma original: PMSKwareunaXwaioPortuguês*fa'iniafa'iniafe'eniacom*faufaufoupedra*maurimaurimooriviver*daŋadangaganadia

Línguas relacionadas Não há estudos a fundo visando uma subdivisão precisa das línguas de Malaita, mas ainda é possível agrupá-las:

O kwara'ae e o 'are'are são praticamente ininteligíveis para os falantes da língua kwaio, enquanto o kwarekwareo (ou doori'o), falado na costa oeste da região de kwaio e o kwaikwaio, falado na costa leste, são por vezes retratados como dialetos. Estudos comparativos entre as línguas malaitanas e agrupamentos detalhados são pouco elaborados, mas é possível comparar algumas palavras das línguas: +Kwaio'Are'areKwara'aeWalaPortuguêsaea'eae(na)a'aeperna, péabuaapuaabuabusagrado, tabukafuwaikafokwaiágua, rioruaruaroruadoisba'itapainadoeba'elagrande

História

Povo kwaio Os kwaio são uma etnia composta de famílias que habitam a região central da ilha de Malaita, do litoral leste, abrangendo as regiões de Uru, Sinalagu e 'Oloburi, até a região de Baunani no litoral oeste, próximo dos 'are'are (pelo sul) e dos kwara'ae (pelo leste). Antes dos contatos com europeus, os kwaio eram um povo que vivia na mata e cultivava taro. Os territórios são fortemente divididos entre família e clãs, e o povo, assim como outros de Malaita, tem uma forte ligação social e religiosa com a ancestralidade.

Na cultura kwaio, há também uma forte separação por gênero, o que se evidencia ao considerar que mulheres devem se isolar em cabanas específicas em seu período menstrual, pois elas são consideradas impuras durante esse período. A divisão em famílias é patrilinear, ou seja, uma pessoa herda a família de seu pai. Mesmo assim, ainda pode haver uma certa ligação com a família materna, apesar de ser mais fraca, então os rituais de uma família podem ainda ser compartilhados por parentes distantes com uma ligação vinda da parte materna.

A religião kwaio se baseia na interação dos vivos com o mundo espiritual, através de seus ancestrais (em kwaio: adalo). Essa interação é mediada por um sacerdote. Os ancestrais podem conceder a mana (em kwaio: nanamangaa), pela qual os vivos são abençoados com sucesso na vida, no trabalho, riquezas e em batalhas, quando estão satisfeitos com o cumprimento correto dos rituais e observação dos tabus. O não cumprimento dos rituais ou o desrespeito aos tabus leva a punições por parte dos adalo, como eles têm poder apenas sobre seus descendentes, um desrespeito cometido por uma pessoa externa leva a uma punição aos descendentes, o que faz com que estes tenham que evitar esse desrespeito e preservar a memória de seus ancestrais.

Há diferentes níveis de poder e importância entre os adalo, que podem ser influenciados por diversos fatores como a importância em vida, a forma da morte, a distância de gerações ou outros fatores. Os adalo costumam ser referenciados por pseudônimos como forma de respeito ao seu nome. No entanto, como os nomes kwaio vêm de bases da língua, em certos casos o nome se torna um tabu (em kwaio: abu) e a base, uma das bases, ou ainda a construção usada na formação do nome desse adalo deixam de ser usadas na língua. De um ponto de vista religioso, esse tabu vem de uma decisão do próprio espírito ancestral, e seu uso desperta a ira do adalo, o que deve ser entendido por meio de adivinhação.

Há alguns critérios para que a base se torne de fato um tabu, como a sua frequência nos nomes de outras pessoas (pois estas teriam que mudar seu nome) a frequência da base na língua, e a possibilidade de substituição para a base em questão. Em resumo, se o nome de um adalo com uma grande importância tem uma base que não é comum em outros nomes ou frequente no dia-a-dia, tem um substituto disponível e não faz parte de uma lista de palavras centrais da língua (como partículas, numerais ou partes do corpo), a chance de essa base se tornar um tabu é alta. Caso contrário, a chance é baixa, a menos que o adalo seja extremamente sacramentado por aquela descendência.

Primeiros contatos com europeus alt=Paisagem da ilha de Malaita vista do oceano. É possível visualizar o mar, uma pequena faixa de areia e uma região montanhosa com uma densa vegetação.|miniaturadaimagem|Paisagem da ilha de Malaita, terra natal dos kwaio A Oceania foi o último continente a ser colonizado pelos europeus. A primeira chegada de um europeu às Ilhas Salomão foi em 1568, e o protetorado britânico só foi ser declarado em 1893.Commonwealth and Colonial Law by Kenneth Roberts-Wray, London, Stevens, 1966. P. 897 Apesar de relativamente recente, a relação entre o poder colonial e os kwaio foi conturbada e passou por conflitos.

Os primeiros contatos de europeus com influência sobre o povo nativo de Malaita começou por volta de 1869, quando as pessoas da ilha eram levadas em massa para o Fiji e, posteriormente, para Queensland para trabalhar, sendo a região de Sinalagu o porto para o "recrutamento". No entanto, os europeus não chegavam a explorar em terra firme nessa época, e esse recrutamento não era bem recebido, sendo marcado por episódios esporádicos de violência. Com esse contato, ferramentas de aço e rifles começavam a ser introduzidas na cultura dos povos nativos, além de batatas-doces, tabaco, e algumas conversões ao cristianismo e batismos. Quando o recrutamento foi proibido em 1903, a SSEM acompanhou os seus fiéis de volta à ilha, formando o primeiro grupo cristão naquela terra.

O massacre em Malaita miniaturadaimagem|"A Declaração de um Protetorado Britânico sobre as Ilhas Salomão", ilustração feita para o The Graphic Em 1909 uma sede do governo foi instalada em Auki, para intensificar a imposição da Pax Britannica. Esse governo causou revolta nos povos nativos, até que, durante uma coleta de impostos, alguns homens assassinaram o chefe do distrito, William Bell, e mais 12 pessoas da polícia em Sinalagu em outubro de 1927. Após esse evento, muitas famílias fugiram para a SSEM, e outros se isolaram ainda mais na mata, com medo da punição que se seguiria. O governo iniciou uma expedição punitiva com ex-policiais, sobreviventes e voluntários, guiada por professores da missão, e levando de lá consigo voluntários e nativos refugiados como carregadores. Cerca de 50 homens, mulheres e crianças foram mortos, e a patrulha destruiu suas vilas, jardins, criações de porcos e locais sagrados. Com o tempo, a maior parte dos envolvidos no assassinato foram capturados ou mortos, junto com muitos inocentes que foram acusados injustamente.

Após esse massacre, os nativos que se juntaram à missão evangelística tiveram medo de voltar ao interior e sofrer com a ira dos ancestrais, já que tinham convivido com mulheres em período menstrual e durante o parto, o que vai contra as suas regras de pureza. Gradualmente, cerca de dois terços dos nativos refugiados pela missão puderam retomar suas terras, enquanto aqueles que haviam fugido para o interior mantinham consigo um medo e sede de vingança do "homem branco". Esses conflitos foram amenizados apenas recentemente, no fim da última década, mas alguns grupos ainda não aceitam visitas externas.

Maasina ruru miniaturadaimagem|Votantes em Gwee'abe, Sinalagu, região leste de kwaio, durante as eleições do Conselho de Malaita. Na década de 30, a SSEM teve um relativo sucesso com alguns grupos que haviam voltado ao interior, sobretudo em razão de doenças até então sem cura, que tornava a igreja uma última opção. No entanto, a Segunda Guerra Mundial interrompeu os trabalhos de evangelização. Durante a guerra, mais especificamente a partir de 1943, começou a emergir entre os povos malaitanos a maasina ruru, um movimento, sobretudo, de emancipação e independência política e cultural contra a colonização britânica.