O Agente Secreto é um filme de drama, suspense e thriller político brasileiro de 2025, dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho. O filme foi uma coprodução internacional entre Brasil, França, Países Baixos e Alemanha, sendo realizado pelas produtoras CinemaScópio Produções, MK2 Films, Lemming Film, One Two Films e Arte France Cinéma. Distribuído em território nacional pela Vitrine Filmes, contou em seu elenco com nomes como Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Alice Carvalho, Gabriel Leone, Tânia Maria e Udo Kier. Suas filmagens ocorrem na cidade de Recife, em Pernambuco, e na cidade de São Paulo.
A produção conta a história de Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário que, após irritar um poderoso industrial com ligações com a ditadura militar brasileira, assume uma nova identidade e se muda para Recife. Na cidade, é acolhido por Dona Sebastiana (Tânia Maria), uma senhora que é gerente do Edifício Ofir, onde fica hospedado. Enquanto isso, descobre que está sendo perseguido por dois matadores, contratados pelo industrial. O filme aborda temas como repressão política, vigilância estatal, memória e preservação, trauma, identidade, e a resistência.
Em sua estreia na 78.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, em 18 de maio de 2025, onde competiu pelo prêmio de maior prestígio do festival, a Palma de Ouro, O Agente Secreto foi amplamente aclamado pela crítica internacional. Saiu da cerimônia como o filme mais premiado da edição, recebendo as honrarias de melhor diretor, para Kleber Mendonça Filho, melhor ator, para Wagner Moura, além dos prêmios FIPRESCI e Prix des Cinémas d'Art et Essai. Fez sua estreia nos cinemas brasileiros em 6 de novembro do mesmo ano, sendo um enorme sucesso de público, levando mais de 2 milhões e 400 mil pessoas as salas de cinema. A crítica nacional se agradou bastante com a obra de Mendonça Filho, elogiando sua direção e seu estilo autoral de cinema, destacando também a atuação do elenco, em especial do ator Wagner Moura. Foi lançado no exterior com o título The Secret Agent.
Com a repercussão internacional que a obra conquistou, a produção acabou por ser indicada a inúmeras premiações nacionais e internacionais. O filme fez história ao ser o primeiro longa-metragem brasileiro a ser indicado ao Globo de Ouro de melhor filme dramático e melhor ator dramático, para Moura, acabando por vencer o último, com Moura tornando-se o primeiro ator brasileiro a conquistar um troféu na cerimônia. Ainda na mesma premiação, destacou-se como o vencedor da categoria melhor filme em língua não inglesa, segunda vitória brasileira na categoria após Central do Brasil, de Walter Salles. Conquistou duas indicações no BAFTA, nas categorias melhor roteiro original e melhor filme estrangeiro. Ficou marcado na história do cinema brasileiro como o primeiro filme nacional a receber a honraria de melhor filme estrangeiro no Critics' Choice, além de quebrar recordes ao conseguir quatro indicações ao Oscar, nas categorias melhor filme, melhor ator, melhor filme internacional, e na categoria inédita, melhor elenco. Com essas indicações, o filme de Kleber, ao lado de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e O Beijo da Mulher Aranha, de Héctor Babenco, tornaram-se os filmes brasileiros mais indicados na premiação. Recebeu dezoito indicações ao Prêmio Grande Otelo 2026, tornando-se o filme mais indicado da edição e da premiação no geral. Em maio de 2026, foi incluído na lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos.
Enredo Em 1977, durante a ditadura militar brasileira, o ex-professor e viúvo Armando Solimões desembarca em Recife durante as férias de Carnaval, onde seu filho Fernando mora com os avós maternos após a morte da esposa de Armando, Fátima Nascimento. Ele é acolhido num albergue por Dona Sebastiana, uma ex-militante anarcocomunista, junto com outros dissidentes políticos, incluindo Claudia, Haroldo, e Thereza Vitória e António, um casal de refugiados da Guerra Civil Angolana. Enquanto isso, o delegado corrupto da Polícia Civil Euclides e os seus filhos Sérgio e Arlindo são chamados durante o feriado para investigar uma perna humana encontrada dentro de um tubarão capturado.
A rede de dissidentes de Armando o situa num instituto de identificação da Polícia Civil sob o pseudônimo "Marcelo", onde recebe boas-vindas e proteção de Euclides. Armando fica visivelmente irritado com a arrogância do delegado, que inclui importunar Hans—um alfaiate alemão que Euclides presume ser um fugitivo nazista, mas na verdade é um judeu sobrevivente do Holocausto. O novo emprego de Armando também lhe propõe a oportunidade de procurar arquivos sobre a sua falecida mãe, "Índia", de quem tem poucas lembranças. Em São Paulo, os assassinos de aluguel Bobbi e Augusto são contratados por Henrique Ghirotti, um executivo da Eletrobras e ex-ministro do governo militar, para matar Armando por uma disputa política e pessoal. Sérgio e Arlindo desovam a perna engolida pelo tubarão no Rio Capibaribe. Os jornais locais noticiam que a perna ressuscitou e atacou casais gays num parque público, supostamente para acobertar a corrupção política e violência durante a semana de carnaval.
300px|miniaturadaimagem|left|Cena em que Armando entra na sala de projeção do Cinema São Luiz, onde seu sogro, Seu Alexandre, trabalha.
No Cinema São Luiz, onde seu sogro Seu Alexandre trabalha como projecionista, Armando encontra com Elza, líder de um movimento de resistência política no nordeste brasileiro, para gravar um testemunho sobre as atividades de Ghirotti, e relembra um jantar ao lado de Fátima em que, após receber comentários de mau gosto sobre sua classe socioeconômica e supostas simpatias comunistas, brigou com Ghirotti e seu filho. Elza informa Armando que há uma recompensa sobre a sua vida e o instrui a fugir do país com um passaporte falso. Augusto e Bobbi contratam um pistoleiro pobre, Vilmar, para encontrar Armando. Antecipando sua fuga, Armando dá adeus a Dona Sebastiana e os outros refugiados. Na manhã seguinte, Bobbi descobre a localização de Armando ao seguir Seu Alexandre. Vilmar encontra Armando no instituto de identificação, mas não consegue matá-lo. Na perseguição, Vilmar mata dois policiais incluindo Arlindo e é baleado na perna, deixando um rastro de sangue. Bobbi segue o rastro até que é morto por Vilmar numa barbearia.
No presente, a estudante de história Flávia pesquisa a rede de resistência de Elza através de gravações de áudio pela mesma e acervos de jornais, até que descobre que Armando foi assassinado e enquadrado como um professor corrupto. Flávia viaja para Recife para entrevistar Fernando, agora um médico de meia-idade, após Flávia doar sangue no hospital onde trabalha. Discutindo o passado político, histórico familiar, e assassinato de Armando, Fernando diz que não tem lembranças do próprio pai, mas lembra de ter assistido Tubarão com o avô num cinema que se tornou o hospital onde ele trabalha.
Elenco
Produção Orçamento Com produção de Emilie Lesclaux, Brent Travers, Nathanaël Karmitz, Elisha Karmitz, e do diretor e do ator Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura, O Agente Secreto foi produzido pelas produtoras CinemaScópio Produções, MK2 Films, Lemming Film, One Two Films e Arte France Cinéma. Parte de seu financiamento veio através do Fundo Setorial do Audiovisual, gerido pela Ancine, através da Lei do Audiovisual, onde captou 7,5 milhões de reais. O restante de seu orçamento veio da França, através do programa "Aide aux cinémas du monde avant réalisation" e "Aide à l'édition en vidéo physique", Holanda, com Netherlands Film Fund, através do Film Production Incentive em 2024, e Alemanha, onde recebeu € 150 000 do Medienboard Berlin-Brandenburg e € 60 000 do FFA (German Federal Film Fund). O orçamento total da produção foi de 28 milhões de reais.
Roteiro e filmagens As filmagens de O Agente Secreto aconteceram ao longo de dez semanas entre junho e agosto de 2024, com locações nas cidades de Recife, capital do estado de Pernambuco, e na cidade de São Paulo. Entre os locais retratados no filme, estão quase 50 pontos da capital pernambucana, entre eles o Cinema São Luiz — local esse que foi tema do filme anterior de Kleber, Retratos Fantasmas, Edifício Ofir, Ponte 6 de Março, Parque 13 de Maio, Ginásio Pernambucano, entre muitos outras localidades da cidade de Recife.
A ideia para a história do filme, como dito pelo próprio diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho, veio de uma notícia de um jornal australiano sobre um tubarão encontrado com uma perna humana em seu ventre, sendo transformado na trama em uma homenagem a filmes trash. A notícia acabou por complementar a história da perna cabeluda na narrativa, uma lenda urbana de Recife criada na década de 1970 pelo Diario de Pernambuco durante o período da ditadura militar no Brasil, como forma de preencher seus espaços editoriais devido ao corte sistemático de matérias pelos censores. Uma outra sequência, envolvendo uma bomba de gasolina, originou-se de um curta-metragem que o diretor nunca chegou a filmar. O processo de escrita para o roteiro do longa durou cerca de três anos, num processo descrito por Mendonça Filho como difícil, com longos períodos de improdutividade até que a história "passa a se escrever sozinha". O roteiro finalizado continha 167 páginas.
O Agente Secreto foi a primeira produção brasileira estrelada por Wagner Moura após um hiato de mais de 10 anos. Foi considerado pelo ator "libertador" trabalhar em um filme falado em português, após passar anos dedicando-se a carreira internacional. O filme marca também a segunda contribuição de Kleber com o ator Udo Kier, após Bacurau, de 2019. O processo de seleção do elenco, dirigido por Gabriel Domingues, incluiu a escolha da jovem atriz mineira Laura Lufési, e dos atores Kaiony Venâncio e Joálisson Cunha. Mendonça Filho afirmou que busca com seus filmes "suscitar ideias" em vez de "levar uma mensagem", e que desejava fazer um filme sobre os anos 70 com "detalhes do coração", explorando como indivíduos navegam e resistem a um sistema opressor. O abrigo de "refugiados" no filme simboliza um "bunker de afeição".
Trilha sonora A trilha sonora assume um papel fundamental na obra, transmitindo uma sensação de "volta ao tempo" no espectador, trazendo desde ouros escondidos da música brasileira a músicas populares do pop internacional, ajudando na estética e na criação do ambiente da época. Segundo o diretor, a trilha surgiu numa ida a uma loja de LPs em Recife, onde garimpou algumas canções que chegaram ao filme. A trilha sonora original, composta pelos irmãos Mateus e Tomaz Alves de Souza, foi disponibilizada na plataforma de streaming Spotify, além de ter sido comercializada em disco de vinil.
Lançamento O Agente Secreto teve sua estreia mundial em 18 de maio de 2025, como parte da Seleção Oficial do 78.º Festival de Cannes, onde competiu pela Palma de Ouro.
O filme estreou em 6 de novembro de 2025 nos cinemas brasileiros com distribuição da Vitrine Filmes, sendo precedido por duas semanas de pré-estreias. Na França, o lançamento está previsto para janeiro de 2026 pela Ad Vitam Distribution. Nos Estados Unidos e Canadá, o filme terá distribuição da Neon. No Reino Unido, Irlanda, Índia e no restante da América Latina (exceto Brasil), o longa possui distribuição da MUBI. A distribuição na Alemanha será feita pela Port au Prince Pictures. Em Portugal, o filme possui distribuição da Nitrato Filmes e estreou em 6 de novembro de 2025.
Em dezembro de 2025, com seis semanas em cartaz nos cinemas, o filme alcançou a marca de 1 milhão de espectadores, tornando-se o primeiro filme brasileiro produzido fora do eixo Sul-Sudeste a alcançar este número de ingressos vendidos no país. Em fevereiro de 2026, após 14 semanas em cartaz, chegou a 2 milhões de espectadores, ajudado pela presença do filme no circuito de prêmios internacional.
Recepção Crítica especializada