miniaturadaimagem|Uma criança recebe a vacina oral contra poliomielite durante uma campanha de imunização em 2002 na Índia. miniaturadaimagem|Poliovírus

A erradicação da poliomielite, que busca a cessação permanente e global da circulação do poliovírus e, consequentemente, a eliminação da poliomielite (pólio) por ele causada, é o objetivo de um esforço multinacional de saúde pública iniciado em 1988, liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela Rotary Foundation. Essas organizações, junto aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e à Fundação Gates, lideram a campanha por meio da (GPEI). A erradicação de doenças infecciosas bem-sucedida já foi alcançada duas vezes anteriormente, com a varíola em humanos e a peste bovina em ruminantes.

A prevenção da propagação da doença é realizada por meio da vacinação. Existem dois tipos de vacina contra poliomielite — a vacina oral contra poliomielite (VOP), que utiliza poliovírus enfraquecido, e a vacina inativada contra poliomielite (VIP), administrada por injeção. A VOP é mais barata e fácil de administrar, podendo conferir imunidade além da pessoa vacinada, criando imunidade de contato. Por isso, tem sido a vacina predominantemente utilizada. No entanto, em condições de circulação prolongada do vírus vacinal em populações subvacinadas, mutações podem reativar o vírus, gerando uma cepa capaz de induzir poliomielite. Além disso, em raras circunstâncias, a VOP pode causar poliomielite ou infecção assintomática persistente em indivíduos vacinados, especialmente os imunodeficientes. Já a VIP, por ser inativada, não apresenta esses riscos, mas também não induz imunidade de contato. Seu custo é mais elevado, e a logística de entrega é mais complexa.

A Nigéria é o país mais recente a interromper oficialmente a transmissão endêmica do poliovírus selvagem, com seu último caso relatado em 2016. Das três cepas do poliovírus selvagem (PVS), o último caso registrado da tipo 2 (PVS2) ocorreu em 1999, sendo declarado erradicado em 2015. A cepa tipo 3 (PVS3) causou seu último caso conhecido em 2012 e foi declarada erradicada em 2019. Desde então, todos os casos de vírus selvagem foram causados pela cepa tipo 1 (PVS1).

Em , Afeganistão e Paquistão são os únicos países onde a doença ainda é classificada como endêmica. Os casos recentes de poliomielite têm duas origens: o poliovírus "selvagem" (PVS) original e as cepas mutadas derivadas da vacina oral, conhecidas como poliovírus vacinal circulante (cVDPV) ou poliovírus variante, que são muito mais prevalentes. Vacinas contra cada uma das três cepas selvagens de pólio geraram cepas de cVDPV, sendo a cVDPV2 a mais proeminente. Em 2023, a cVDPV causou 524 casos confirmados de poliomielite paralítica em todo o mundo e foi detectada em 32 países.

Fatores que influenciam a erradicação da poliomielite A erradicação da poliomielite foi definida de várias formas:

Como a eliminação da ocorrência de poliomielite mesmo na ausência de intervenção humana; Como a extinção do poliovírus, de modo que o agente infeccioso não exista mais na natureza ou em laboratórios; Como o controle de uma infecção ao ponto em que a transmissão da doença cesse em uma área específica; Como a redução da incidência mundial de poliomielite a zero como resultado de esforços deliberados, não exigindo mais medidas de controle.

Teoricamente, com as ferramentas certas, seria possível erradicar todas as doenças infecciosas que têm apenas humanos como hospedeiros. Na prática, características biológicas dos organismos e fatores técnicos relacionados ao seu manejo tornam a possibilidade de erradicação mais ou menos viável. Três indicadores são considerados fundamentais para determinar a probabilidade de sucesso na erradicação: a existência de ferramentas de intervenção eficazes para interromper a transmissão do agente, como uma vacina; a disponibilidade de ferramentas diagnósticas com suficiente para detectar infecções que possam levar à transmissão da doença; e a dependência do agente do ciclo de vida em humanos, sem outros vertebrados como reservatório natural e sem capacidade de amplificação no meio ambiente.

Estratégia O passo mais crucial na erradicação da poliomielite é a interrupção da transmissão endêmica do poliovírus. A interrupção da transmissão da pólio tem sido buscada por meio de uma combinação de imunização de rotina, campanhas de imunização suplementares e vigilância de possíveis surtos. Diversas estratégias-chave foram delineadas para deter a transmissão da poliomielite:

Alta cobertura de imunização infantil com quatro doses da vacina oral contra poliomielite (VOP) no primeiro ano de vida em países em desenvolvimento e endêmicos, além de imunização de rotina com VOP ou VIP em outros lugares; Organização de "dias nacionais de imunização" para fornecer doses suplementares da vacina oral contra poliomielite a todas as crianças menores de cinco anos; Vigilância ativa do poliovírus por meio de notificação e testes laboratoriais de todos os casos de paralisia flácida aguda. A paralisia flácida aguda (PFA) é uma manifestação clínica da poliomielite caracterizada por fraqueza ou paralisia e redução do tônus muscular sem causa óbvia (como trauma) em crianças menores de quinze anos. Outros agentes patogênicos, como enterovírus, echovírus e adenovírus, também podem causar PFA; Expansão da vigilância ambiental para detectar a presença de poliovírus em comunidades. Amostras de esgoto são coletadas em locais regulares e aleatórios e testadas em laboratórios para verificar a presença de PVS ou cVDPV. Como a maioria das infecções por pólio é assintomática, a transmissão pode ocorrer mesmo sem casos de PFA relacionados à polio, e esse monitoramento ajuda a avaliar o grau de circulação do vírus em uma área; Campanhas direcionadas de "limpeza" quando a transmissão do poliovírus é limitada a focos geográficos específicos.

Vacinação miniaturadaimagem|Menino somali recebendo injeção da vacina inativada contra poliomielite (VIP)

Existem dois tipos distintos de vacina contra poliomielite. A vacina oral contra poliomielite (VOP, ou vacina Sabin) contém poliovírus atenuado. A VOP é administrada como gotas orais ou incorporada em cubos de açúcar. É altamente eficaz e barata (cerca de por dose em 2024), e sua disponibilidade impulsionou os esforços para erradicar a poliomielite. A vacina confere imunidade de longo prazo, possivelmente por toda a vida, contra o vírus. Por ser administrada por via oral, induz imunização da mucosa intestinal, protegendo contra infecções posteriores, embora sejam necessárias múltiplas doses para uma profilaxia eficaz. O poliovírus atenuado derivado da vacina oral é excretado, infectando e induzindo imunidade indiretamente em indivíduos não vacinados, ampliando assim os efeitos das doses administradas. A administração oral não exige equipamentos médicos especiais ou treinamento. Juntas, essas vantagens a tornaram a vacina preferida de muitos países, sendo há muito tempo a escolha da iniciativa global de erradicação.

A principal desvantagem da VOP decorre de sua natureza intrínseca. Por conter um vírus atenuado, porém ativo, pode induzir poliomielite paralítica associada à vacina (PPAV) em cerca de um indivíduo a cada 2,7 milhões de doses administradas. O vírus vivo pode circular em populações subvacinadas (poliovírus vacinal circulante, cVDPV) e, com o tempo, reverter para uma forma neurovirulenta, causando poliomielite paralítica. Até recentemente, usava-se uma VOP trivalente contendo todas as três cepas do vírus, mas, com a erradicação do poliovírus selvagem tipo 2, ela foi descontinuada em 2016 e substituída por uma vacina bivalente com apenas os tipos 1 e 3, suplementada com VOP monovalente tipo 2 em regiões com circulação documentada de cVDPV2. Uma nova vacina VOP2 (nOPV2), geneticamente modificada para reduzir a probabilidade de mutações que causem doenças, recebeu licenciamento emergencial em 2021 e licenciamento completo em dezembro de 2023. Vacinas geneticamente estabilizadas contra os tipos 1 e 3 estão em desenvolvimento, com a intenção de eventualmente substituir completamente as vacinas Sabin.

A vacina inativada contra poliomielite (VIP, ou Salk) contém vírus trivalente totalmente inativado, administrado por injeção. Essa vacina não pode induzir PPAV nem gerar cepas cVDPV, mas também não induz imunidade de contato, exigindo aplicação em cada indivíduo. Além disso, apresenta maiores desafios logísticos. Embora uma única dose seja suficiente para proteção, a administração requer vacinadores treinados com seringas e agulhas descartáveis. Esses fatores resultam em custos de entrega significativamente mais altos. Os protocolos originais envolviam injeção intramuscular no braço ou na perna, mas, recentemente, a injeção subcutânea com uma dose reduzida (chamada de VIP de dose fracionada, fIPV) mostrou-se eficaz, reduzindo custos e permitindo sistemas de entrega mais convenientes e econômicos. O uso da VIP resulta em imunidade sérica, mas não em imunidade intestinal. Assim, indivíduos vacinados estão protegidos contra a contração da polio, mas sua mucosa intestinal pode ainda ser infectada e atuar como reservatório para a excreção do vírus vivo. Por isso, a VIP é ineficaz para conter surtos ativos de PVS ou cVDPV, mas tornou-se a vacina preferida em países industrializados livres da polio.

Embora a VIP por si só não induza imunidade mucosal, demonstrou-se que ela potencializa a imunidade mucosal da VOP, e a OMS agora favorece um protocolo combinado. Recomenda-se que crianças vulneráveis recebam uma dose de VOP ao nascer, seguida, a partir das seis semanas de idade, por uma "série primária" de três doses de VOP com pelo menos quatro semanas de intervalo, acompanhada de uma dose de VIP após 14 semanas. Essa abordagem combinada VOP/VIP também foi utilizada na supressão de surtos.

Imunidade de rebanho miniaturadaimagem|334x334px|Imunidade de rebanho vs. Sem imunidade de rebanho

A vacinação contra a poliomielite também é essencial para o desenvolvimento da imunidade de grupo. Para que a poliomielite ocorra em uma população, é necessário um organismo infectante (poliovírus), uma população humana suscetível e um ciclo de transmissão. Não há reservatório animal para o poliovírus, e o ciclo de transmissão da pólio ocorre de uma pessoa infectada para outra suscetível, geralmente pela via fecal-oral. Se a vasta maioria da população for imune a um agente específico, a capacidade desse patógeno de infectar outro hospedeiro é reduzida; o ciclo de transmissão é interrompido, e o patógeno não consegue se reproduzir e desaparece. Esse conceito, chamado de imunidade comunitária ou de rebanho, é crucial para a erradicação de doenças, pois significa que não é necessário vacinar 100% da população — um objetivo frequentemente difícil logisticamente — para alcançar o resultado desejado. Se o número de indivíduos suscetíveis for reduzido a um nível suficientemente baixo por meio da vacinação, o patógeno eventualmente desaparecerá.

A imunidade de rebanho é um complemento importante à vacinação. Segundo esse conceito, a população para a qual a vacina não funciona ainda está protegida pela imunidade daqueles ao seu redor, algo que só pode ser alcançado com altos níveis de vacinação. Estima-se que o limiar mínimo de imunidade de rebanho para a erradicação do poliovírus varie de cerca de 75% em populações ricas e higiênicas a 97% em ambientes mais pobres. Se a imunização de rotina fosse interrompida, o número de indivíduos não vacinados e suscetíveis logo excederia a capacidade da imunidade de rebanho de protegê-los.

Poliovírus derivado de vacina