miniaturadaimagem|Críxena dançando rasa lila com Rada ao centro e multiplicado ao redor com as gopis em Vrindávana. Iluminura do Rajastão (século XVII) Raganuga (em sânscrito, rāgānugā, literalmente "seguir a paixão", de anuga, "seguir", e rāgā, "paixão"), também referido como rāgānugā bhakti e rāgānugā bhakti sādhana, é um método devocional (bhakti) esotérico do vaixnavismo bengali em que os devotos se identificam imaginativamente com protagonistas da história divina de Rada e Críxena no reino celeste de Vrindávana ou Vraja, assumindo-as como sua identidade essencial e participando de seu pleno amor com desejo (lobha). Um de seus objetivos é gerar um corpo sutil espiritual, perfeito, que será assumido no paraíso, quando passarão a servir Rada-Críxena. Como um amor que flui, há uma incorporação (āveśa) do amor que as personagens sentem ao ver o casal divino realizando suas atividades cotidianas e seu jogo (lila) amoroso espontâneo. Em sua teologia, é o método considerado mais elevado.
Ele teve início no século XVI a partir do ensinos de Chaitania e de seus sucessores os Gosvamis. A transição ao vaixnavismo gaudia reformulou algumas práticas sexuais populares da doutrina dos sahajiyas, propondo uma dimensão mais meditativa e interna, ao invés de física e externa como estes últimos realizavam. Os sahajiyas absorveram em parte o ensino do raganuga, mas passaram a ser vistos cada vez mais como heterodoxos.
Uma das práticas centrais do raganuga é o manjari sadhana, em que se visualiza a si mesmo como uma das gopis, jovens pastoras acompanhantes do casal divino. Considera-se nessa meditação que se participa realmente do lila do casal divino na realidade divina, como uma serviçal, atora e espectadora de suas atividades intensamente eróticas, mas exigindo-se o controle da própria luxúria sem buscar a própria satisfação; o desenvolvimento emocional do devoto; e a anulação do ego em serviço ao amor divino (prema). Realizada tanto por homens, quanto por mulheres, nela todos assumem uma identidade de gênero feminina.
Demarcação O raganuga é uma das duas divisões do sadhana do bhakti descritas por Rupa Gosvami (século XVI), a outra sendo o vaidhi, em que a devoção amorosa é motivada principalmente por meio de prescrições. Hierarquicamente, o raganuga é considerado um passo seguinte necessário e superior, realizado quando o praticante sente o desejo (lobha) de adentrar no reino divino de Krishna, também chamado Vraja, o que não seria possível apenas por meio de vaidhi. Permite, assim, projetar-se diretamente sobre esse reino.
Raganuga foi o método apresentado sistematicamente por Rupa Gosvami como uma solução para que o devoto (bhakta) pudesse participar da realidade última do Krishna-lila ou Vraja-lila. Após realizar deveres estabelecidos pelo vaidhi, decorando e visualizando externamente as cenas do drama divino, deve surgir o desejo para encenar um papel emotivo, conforme o roteiro estabelecido da interação de Krishna com as figuras companheiras. A fonte principal usada pelos gaudias vaixnavas para descreverem o Vraja-lila é o décimo canto do Bhagavata Purana, sobre o qual a literatura posterior produziu diversas elaborações. O raciocínio de Rupa é de que, por conta do véu de Maiá que esconde a verdadeira identidade, os seres humanos devem impor sobre si essas identidades da cena de Krishna, as quais os conectam ao mundo Vraja.
O componente emocional do desejo torna-se o elemento central que distingue essa prática, necessário para tornar eficaz a lembrança do jogo de Krishna e a recitação de seu nome sagrado. É considerado um caminho mais esotérico e um estado mais interno, em que a atenção recai não sobre o corpo material, mas na realidade espiritual. O praticante, chamado raganuga-bhakta, pode estar realizando atos materiais e mesmo o caminho externo das prescrições vaidhi, mas internamente, estará meditativamente adorando Krishna como uma personagem do ambiente pastoril divino. É um caminho inspirado pela madhurya ("doçura") de Krishna.
As práticas do vaidhi são as mais frequentemente recomendadas, envolvendo ritual e recitação estruturadas, com controle estrito de alimentação e do comportamento em geral, e geralmente sendo realizadas dentro do templo e na conduta dos sacerdotes. Já o raganuga exige livre fluxo emocional e intimidade com Deus, podendo ser mau visto quando realizado dentro do terreno sagrado da instituição. Os praticantes consideram que a mudança do estágio de vaidhi para o de raganuga depende também da graça divina, em que não se sabe quando a paixão do devoto será despertada.
O termo "raganuga" refere-se "seguir a paixão exemplificada pelos Vajralokas", ou seja, pelos habitantes do reino celeste de Vraja, em referência principalmente às amantes de Krishna, que em sua maioria são gopis, pastoras acompanhantes de Krishna, mas também a outras figuras pastoris daquele mundo, como os amigos, pais e parentes do deus. Assim, segundo Rupa, o raganuga pode se dividir em duas modalidades. A primeira é a de "Imitação do Bhakti Amoroso" (kamanuga), em que as gopis são os modelos, por sua vez se subdividindo em duas categorias: o praticante pode estabelecer como motivação central o desejo por deleite e união sexual com Krishna (sambhogeccha-mayi); ou o desejo de compartilhar emoções superiores, geralmente tomando Radha como modelo (tattad-bhavecchatmika). Assim, o meditador pode assumir tanto um papel mais ativo e direto, quanto um deleite indireto com a identidade de uma espectadora, como as serviçais amigas (sakhis) das amadas por Krishna. Jiva Gosvami considera essa última categoria como um método mais completo e representativo de se atingir emoções superiores. Já a segunda modalidade é a de "Imitação do Bhakti Relacional", em que os modelos são os pais, amigos e serviçais de Krishna. O modelo de manjari, um tipo especial de uma gopi jovem adolescente, é o papel mais seguido pelos praticantes de raganuga.
Na definição de Rupa, raganuga é "aquele (método de bhakti) que imita o Ragatmika claramente manifestado nos habitantes de Vraja". David Kinsley e David L. Haberman afirmam que o objetivo teórico do raganuga é "a identificação completa com um modelo transcendente". Essa arte meditativa também recebe influências artísticas de teorias indianas da estética e do drama, envolvendo conceitos como de rasa e bhava. David Haberman estabelece paralelos da teoria emocional do raganuga com a teoria de Constantin Stanislavski, em que as emoções são elicitadas a partir da atuação.
Além de se visualizar no papel de uma das personagens serventes do reino de Vrindávana, deve-se decorar todo o ambiente da Vrindávana celeste, incluindo as vilas de Radha e Krishna, suas casas e o lago Radhakunda, onde ambos se encontram. Diagramas desses locais são mantidos por vários gurus vaixnavas que ensinam esse caminho meditativo. Um dos tipos de diagramas utilizados é chamado yoga-pīṭhāmbuja, em que cada manjari é localizada externamente em uma pétala de um lótus visto de cima, em torno de um centro, como um mandala. Por fim, é necessário decorar as atividades realizadas por Radha, Krishna, em um conjunto de oito divisões do dia de 24 horas. Considera-se que todas essas visualizações contribuem para constituir o corpo espiritual do discípulo. Esse engajamento intensivo, chamado asta-kaliya-lila-smaran ("recordar os passatempos dos oito períodos do dia"), é apenas ensinado por um guru a um discípulo quando este atinge um nível de maturidade espiritual e emocional. Essa memorização dos passatempos diários do casal divino é considerada a parte mais difícil. A formação da personalidade essencial do discípulo pode ser determinada como sendo uma serviçal cujo papel corresponde às atividades que ele mais gosta de realizar ordinariamente. A distinta fenomenologia produzida por essa disciplina pode ser explicada por diversos mecanismos cognitivos que atuam intensificando a representação do corpo, as emoções, a memória e a imaginação.
Na disciplina do raganuga, as emoções são constantemente criadas e transformadas, em uma "escada da emoção" que conduz a estados mais elevados. Os dois textos importantes que a descrevem são o Bhaktirasamritasindhu e o Ujjavala-Nilamani de Rupa Gosvami; o primeiro descreve estados emocionais mais iniciais e suas transformações, enquanto o segundo foca nos estágios avançados do amor místico. O corpo espiritual que é construído é composto de amor, por meio da intensificação de bhava até que seja atingido o nível de amor não egoísta (prema) e estabelecido um foco inalterável da atenção sobre Radha e Krishna. Esse estado emocional máximo é chamado de mahabhava, em que a pessoa experiencia em êxtase apaixonado (mandana) todas as emoções simultaneamente, inclusive as mais extremas e opostas da separação e da união amorosa. Apesar de na tradição ortodoxa apenas Radha poder experimentar mahabhava, diz-se que suas serviçais sentem a emoção da deusa intensificada em cem vezes mais: é explicado que elas sentem um amor não egoísta, por não estarem envolvidas na união direta que a deusa experimenta, e que isso intensifica a sensibilidade delas.
Diz-se que o corpo sutil construído é chamado siddha deha ("corpo aperfeiçoado") ou prema deha ("corpo de amor"), por meio do amor não egoísta (prema), em que ele é visualizado como o eu ideal da pessoa e considerado uma personalidade alternativa a ser assumida após a morte. Dentro do esquema hindu de reencarnação, os praticantes consideram que cada exercício serve de passo progressivo para se atingir a perfeição, até o momento em que o ciclo cármico cessa e definitivamente se atinge Vrindávana.
No esquema do raganuga, o devoto tem posição muito alta, pois ele se torna necessário ao lila de Krishna e à sua realização suprema no amor, em mútua interdependência. Em sua teologia, considera-se a imagem de que Krishna, em seu paraíso, multiplica-se a cada uma das pastoras devotas, permitindo a realização de bhakti individualmente com cada uma delas, sem perder de vista Radha como sua consorte mais próxima e representante máxima de bhakta. Radha é considerada a energia de beatitude (hladini sakti) de Krishna e, além do mais, possui controle sobre o deus. miniaturadaimagem|Foto de Lalita Sakhi jovem, após ter assumido a identidade feminina conforme o sadhana do raganuga e expressá-la mesmo externamente O exercício de relembrar os passatempos de Radha-Krishna pode ser feito não apenas durante momentos reservados de meditação, mas inclusive durante o serviço do templo. Mesmo as atividades ordinárias externas podem estar compondo a atividade imaginativa interna ou conter traços dela, ainda que esta não seja percebida pelos outros. Considera-se que o mundo e tempo de Vrindávana é simultâneo ao do mundo terreno. Idealmente, espera-se que a meditação do raganuga seja feita a cada três horas, mas a maioria a realiza de noite para não perturbar as atividades sociais e os sentidos externos, pois o sadhana gera uma absorção. Lalita Sakhi, por exemplo, nasceu homem em 1873 com o nome Jai Gopal, mas tornou-se completamente absorvida na imaginação de seu eu serviçal feminino, a ponto de abandonar a sua vida ordinária. Passou a viver como mulher, vestindo-se como uma gopi, e teve que se refugiar em um ashram para evitar o desprezo das pessoas comuns.
A imaginação depende também de alguma disciplina da respiração para regular o controle emocional. Diz-se que os praticantes avançados do raganuga desenvolvem poderes cognitivos especiais e até mesmo sobrenaturais, como a mediunidade e percepções extrassensoriais. Mas esses poderes ióguicos são por eles considerados subprodutos, não o objetivo da prática.