A Relação da China e da Índia (Aḥbār aṣ-Ṣīn wa-l-Hind ou Akhbār aṣ-Ṣīn) é uma obra em língua árabe, datada de 851 e completada por volta de 910, que reúne informações conhecidas por árabes e persas sobre a Índia e a China no século IX. A obra chegou até os dias atuais por meio de um único manuscrito, atualmente conservado na Biblioteca Nacional da França.

Esse documento, de grande valor histórico e amplamente utilizado por geógrafos árabes posteriores, é frequentemente referido como os Voyages du marchand Soleyman (ou Soliman, Solaïman, Sulaymân, entre outras variantes) — uma atribuição prática, mas imprecisa, já que o título pode sugerir, de forma enganosa, uma autoria que não é atestada.

História do manuscrito miniaturadaimagem|Primeira página do manuscrito, datado de 851.|esquerda|271x271pxO manuscrito foi encontrado por acaso, em 1673, na biblioteca do ministro de Estado francês Jean-Baptiste Colbert,Encore en 1922, Gabriel Ferrand en fait le titre de son édition: Voyage du marchand arabe Sulaymân en Inde et en Chine. Il précise son opinion (): "Le livre a été rédigé par Sulaymàn lui-même ou par un scribe inconnu d'après les récits du marchand Sulaymàn, qui effectua plusieurs voyages en Inde et en Chine... Abu Zayd, vers 916, ajouta à la relation de Sulaymàn des renseignements complémentaires sur l'Inde et la Chine et en rectifia les inexactitudes." The Book of Ser Marco Polo, 1871, 1875, 1903. mas nada se sabe sobre como ele chegou até ali ou qual teria sido seu percurso anterior. A única informação disponível é que teria sido copiado no final do século XII.Quatremère, Critique de la Relation des Voyages, Journal des savants, 1846, et 677-690 (lire en ligne). Não se conhece nenhuma outra cópia do texto. Contudo, o próprio manuscrito informa ser uma cópia feita por volta de 910, derivada de um original escrito em 851.

Traduções miniaturadaimagem|Eusèbe Renaudot, teólogo e orientalista francês que teria descoberto e traduzido o manuscrito|253x253px

A primeira tradução de A Relação da China e da Índia foi realizada no início do século XVIII pelo teólogo e orientalista francês Eusèbe Renaudot,Soleyman est l'arabisation de Salomon, qui est un nom juif, et sur le grand nombre de Juifs à Siraf, voir Jean Aubin, La ruine de Siraf, (op. cité en Bibliographie), et Aurel Stein qui a identifié un tiers de tombes probablement juives à Siraf (Archaelogical Reconnaissances In North-western Indian And South-eastern Iran, 1937, . após a redescoberta do manuscrito na residência de um dos herdeiros de Colbert, o Conde de Seignelay.Sauvaget, : "Le marchand Solaïman"; Ferrand, : "Le marchand Sulaymân"; Rainaud, : "Le marchand Soleyman"; Renaudot, : "Le Marchand Soliman". A versão de Renaudot serviria posteriormente como base para uma nova tradução em inglês.Paul Pelliot, Toung Pao, 1922, XXI, (lire en ligne). O manuscrito foi então incorporado à Bibliothèque Royale (atual Biblioteca Nacional da França), sendo novamente identificado em 1764 pelo orientalista Joseph de Guignes.(ar) Manuscrit arabe : n° 2281 de la Bibliothèque nationale de France (anciennement "Colbert 6004"), année 851 (h 237) (lire en ligne [archive]), édité par Joseph Toussaint Reinaud (ci-dessous).

No início do século XIX, o texto árabe foi impresso por Louis-Mathieu Langlès, mas acabou não sendo publicado, permanecendo nos depósitos da Imprimerie Royale até 1824.Defrémery, 1846 p. 305. Apenas em 1845, Joseph Toussaint Reinaud publicou uma nova versão, acompanhada de tradução francesa,(fr + ar) Joseph Toussaint Reinaud, Relation des voyages faits par les Arabes et les Persans dans l'Inde et à la Chine dans le ixe siècle de l'ère chrétienne : Texte arabe, imprimé en 1811 par les soins de feu Langlès, publié avec des corrections et additions et accompagné d'une traduction française et d'éclaircissements, t. 1 et 2, Paris, Imprimerie royale, 1845 seguida, em 1846, por uma análise crítica elaborada por Charles Defrémery,Charles Defrémery, « Analyse critique de la relation publiée par M. Reinaud », Nouvelles annales des voyages, de la géographie et de l'histoire, vol. 112, no 4 , pp. 303-330,‎ 1846 (t 112 = ser 5, t 8) que consolidou o interesse europeu pela obra.

No século XX, duas novas traduções foram realizadas. A primeira foi publicada em 1922 por Gabriel Ferrand.Gabriel Ferrand, Voyage du marchand arabe Sulaymân en Inde et en Chine rédigé en 851, suivi de remarques par Abu Zayd Hasan (vers 910), Paris, Bossard, coll. Classiques de l'Orient, 1922 A segunda tradução, feita por Jean Sauvaget, foi publicada em 1948, mas abrange apenas a primeira parte da obra.Jean Sauvaget, Relation de la Chine et de l'Inde rédigée en 851 : Aḥbār aṣ-Ṣīn wa l-Hind [première partie seulement], texte établi, traduit et commenté par Jean Sauvaget, Paris, Les Belles Lettres, 1948

Conteúdo O livro é dividido em duas partes. No entanto, apresenta uma lacuna entre as páginas 5 e 6 e danos nas folhas iniciais, o que dificulta a identificação precisa de sua autoria."Sauvaget, 1948, p. xvi e xix.

A primeira parte, frequentemente atribuída ao “mercador Soleyman”,Encore en 1922, Gabriel Ferrand en fait le titre de son édition : Voyage du marchand arabe Sulaymân en Inde et en Chine. Il précise son opinion (p. 13) : « Le livre a été rédigé par Sulaymàn lui-même ou par un scribe inconnu d'après les récits du marchand Sulaymàn, qui effectua plusieurs voyages en Inde et en Chine... Abu Zayd, vers 916, ajouta à la relation de Sulaymàn des renseignements complémentaires sur l'Inde et la Chine et en rectifia les inexactitudes. » descreve, a partir de Siraf, na costa iraniana do Golfo Pérsico,Sauvaget, 1948, p. xxiii : « port qui constituait alors le grand entrepôt du commerce de l'Extrême-Orient »Aubin, Ruine de Siraf, p. 295–301. a rota marítima que vai do Golfo de Omã até o Extremo Oriente. Nessa seção, são abordados os costumes e práticas sociais dos chineses, as divisões políticas da Índia, os hábitos dos hindus e, por fim, comparações entre a China e a Índia, bem como entre os chineses e os hindus.

A segunda parte é um acréscimo posterior, atribuído a Abū Zayd de Siraf, que reúne diversas observações sobre a China e a Índia. Estima-se que essa seção tenha sido composta por volta de 910, com base em um relato do historiador Al-Massudi sobre seu autor.Prairies d’or, p. I-321 (lire en ligne). A data de 916 coincide com o rápido declínio do porto de Siraf (ver Jean Aubin, Ruine de Siraf, obra citada na bibliografia).

Abū Zayd inicia sua contribuição mencionando a data de composição da primeira parte, ou seja, 851 d.C. Em seguida, relata os Massacres de Guangzhou, que interromperam o comércio com a China entre 878 e 879, no final da Dinastia Tang, e confirma incidentalmente a presença significativa de cristãos no país no século IX.Ferrand, 1922, p. 76 : « on massacra 120 000 musulmans, juifs, chrétiens et mazdéens qui étaient établis dans la ville et y faisaient du commerce, sans compter les Chinois qui furent tués ».

Ele descreve ainda diversos aspectos da sociedade chinesa, como os métodos de execução, normas relativas à prostituição, o uso de moedas de cobre, revestimentos nas paredes das casas, incêndios, a atuação de eunucos como funcionários públicos, a qualidade das sedas, a habilidade dos artesãos, entre outros.

O texto, no entanto, não apresenta unidade ou organização sistemática. Parece resultar da compilação de testemunhos de diferentes informantes, viajantes ou marinheiros.

Alcance e usos A Relação da China e da Índia é uma fonte excepcional para compreender o nível do conhecimento geográfico por volta do ano de 850, durante o auge do Califado Abássida e da atividade intelectual em Bagdá. Segundo o orientalista Jean Sauvaget, trata-se de um testemunho histórico único: anterior em mais de quatro séculos aos relatos de Marco Polo, constitui o mais antigo registro de viagem sobre a China que chegou até nós em forma escrita.Sauvaget, 1948, p. 41.

O texto foi amplamente reaproveitado por autores árabes ao longo de vários séculos,Sauvaget, 1948, p. xxiv e seguintes, demonstra esse uso em Ibn al-Faqih, Ibrâhim Ibn Waçîf-Châh, Albiruni, Almaruazi... até o século XIII, com Alcasvini e Ibne Aluardi. como Almaçudi em Os Prados de Ouro,Prairies d'or: "A semelhança é tão evidente e os elementos comuns são tão numerosos que Quatremère não hesitou em afirmar que, na verdade, a Relação compunha parte da segunda edição dos Prados de Ouro" (Sauvaget, p. xxiv). e, ao que tudo indica, até mesmo Dreses.Renaudot, 1718, p. v. A qualidade das informações da obra se destaca das "fábulas e absurdos" encontrados em outros relatos árabes.Renaudot, 1718, p. vii e xxvii.

Sua forma se caracteriza por uma "simplicidade pouco comum entre os orientais", o que, segundo Eusèbe Renaudot, sustenta sua veracidade.Renaudot, 1718, p. xx. Para Jean Sauvaget, trata-se de um dos primeiros textos da geografia árabe e "não deve nada a ninguém". Quanto à confiabilidade, ele reafirma o julgamento positivo de Renaudot — anteriormente questionado por Quatremère e FerrandQuatremère, Critique de la Relation des Voyages, Journal des savants, 1846, p. 513–531 e 677–690. — e afirma que “essas qualidades se devem, em parte, à própria estrutura da obra, que reproduz em primeira mão, com as palavras das testemunhas oculares, relatos diretos, sem a mediação de intermediários capazes de distorcer as informações”. A Relação também é considerada mais confiável do que textos de autores que, ao copiarem materiais de um ou dois séculos antes, oferecem "em sua maioria apenas dados anacrônicos".

Na Europa do século XIX, após a publicação bilíngue feita por Joseph Toussaint Reinaud,Reinaud, 1845. a obra passou a ser amplamente citada, num momento em que a geografia positiva ganhava destaque, a Índia estava sob domínio britânico e a China começava a se abrir ao mundo. Guillaume Pauthier, em seus comentários ao Livro de Marco Polo, menciona a Relação diversas vezes.Pauthier, 1865, p. 816, índice sob "Soleyman". Henry Yule, em sua edição inglesa da mesma obra, também a cita com frequência.The Book of Ser Marco Polo, 1871, 1875, 1903. Já Jules Verne a resume brevemente em um de seus livros.Jules Verne, 1878, p. 36.

Autoria miniaturadaimagem| Capa da publicação editada por Reinaud, em 1845 A atribuição da autoria da primeira parte da obra ao chamado "mercador Soleyman" se baseia exclusivamente em uma passagem do texto, onde se lê: “O mercador Soleyman relata que, em Cantão, ponto de encontro de comerciantes, havia um muçulmano encarregado, por delegação das autoridades chinesas, de resolver disputas entre seus correligionários que ali chegavam”.Sauvaget, p. 7: "Le marchand Solaïman"; Ferrand, p. 38: "Le marchand Sulaymân"; Reinaud, p. 13: "Le marchand Soleyman"; Renaudot, p. 9: "Le Marchand Soliman".

Essa é a única menção direta a Soleyman em todo o manuscrito. Nenhuma informação adicional é fornecida sobre sua origem, nacionalidade ou papel na redação do texto.O nome "Soleyman" é uma forma arabizada de "Salomão", de origem judaica. Há registros da presença de uma numerosa comunidade judaica em Siraf, como mostram os estudos de Jean Aubin e Aurel Stein sobre as sepulturas da região. Ver Aubin, La ruine de Siraf, p. 297, e Stein, Archaeological Reconnaissances in North-Western India and South-Eastern Iran, 1937, p. 208–209. A narrativa segue sem voltar a mencioná-lo. Diante disso, diversos estudiosos levantaram a hipótese de que Soleyman teria sido apenas um dos informantes de um autor anônimo — e não o autor da obra. Jean Sauvaget dedicou uma análise detalhada a esse problema, acompanhando uma longa tradição crítica que já colocava em dúvida essa atribuição.Sauvaget, 1948, p. xix.

Segundo Joseph Toussaint Reinaud, seria incorreto concluir, com base na única menção, que Soleyman foi o autor da obra. Para ele, o texto foi redigido por alguém que se baseou nos relatos do mercador.Reinaud, 1845, p. xv.