A Conquista do Império de Gaza pelos portugueses foi um conflito armado que se deu em 1895 em território que hoje faz parte de Moçambique. Fez parte das Campanhas de Pacificação e Ocupação, tendo-se distinguido nela Mouzinho de Albuquerque, que capturou o imperador vátua, Gungunhana.

A ocupação de Gaza deu-se num momento em que as potências europeias disputavam a partilha do continente africano mas o poder vátua encontrava-se enfraquecido por epidemias, fome, emigração de jovens e revoltas internas de povos subjugados.João Paulo Oliveira e Costa, José Damião Rodrigues, Pedro Aires Oliveira: História da Expansão e do Império Português, Esfera dos Livros, 2014, p. 416.

As campanhas de Marracuene e de Gaza foram as primeiras da chamada "era dos centuriões", marcada pela rápida ocupação de território protagonizada por experientes oficiais do exército metropolitano enviados para África em grandes expedições especialmente bem equipadas com armamento moderno e que durou até 1909.

Contexto Os portugueses fundaram fortalezas e cidades em território que é hoje Moçambique a começar no séc. XVI, nomeadamente em Sofala, Ilha de Moçambique, Tete, Sena, Quelimane e Maputo. Em inícios do séc. XIX, deu-se a migração de tribos angunes para a região de Gaza e entre eles contavam-se os vátuas, que fundaram vários reinos em território outrora dominado pelos tsongas, que foram avassalados.

Após a Independência do Brasil, Portugal procurou expandir o seu território em África mas no séc. XIX várias potências europeias lançaram-se também na partilha do continente africano. A Grã-Bretanha pretendia expandir a colónia do Cabo ao passo que a Companhia Britânica da África do Sul procurava estabelecer-se na região de Gaza e um dos seus directores, o influente magnata Cecil Rhodes defendia a ligação da Cidade do Cabo ao Cairo por via de um caminho de ferro.

Gungunhana, imperador vátua, tentava preservar a sua independência negociando com todas as partes, aproveitando-se dos comerciantes, diplomatas e missionários para obter armas, artigos de luxo e dinheiro.Newitt, 1995, p. 334. Os tratados negociados entre europeus para a partilha de África em 1891, porém, deixaram-no em território reclamado por Portugal.

Em Gaza, entretanto, Gungunhana decidiu mudar a sua capital para Manjacaze, na baixa savana entre o Limpopo e Inhambane, levando-o a guerras com os chopes. A partilha de jovens para as minas de África do Sul como trabalhadores também obrigou os vátuas a depender cada vez mais de guerreiros dos seus súbditos tongas em vez de angunes. Os portugueses, por sua vez, pretendiam expandir o território de Moçambique, fundar plantações e construir caminhos-de-ferro para aproveitar os seus recursos mas Gungunhana e a Companhia Britânica da África do Sul continuavam a celebrar acordos, o que preocupava o governo português. O poder vátua encontrava-se, porém, enfraquecido por epidemias, fome, emigração e revoltas de povos subjugados, ao passo que a conquista de Ndebele em 1893 pelos britânicos demonstrou que uma rápida conquista militar do Império de Gaza seria possível.Newitt, 1995, p. 335.

A revolta tonga Entre Lourenço Marques e o Império de Gaza situavam-se os "regulados da Coroa", pequenos reinos tonga vassalos de Portugal, que pagavam impostos à Coroa Portuguesa, forneciam mão-de-obra e guerreiros auxiliares, que os portugueses chamavam de "landins".Telo, 2004, p. 16. Entre os tongas, porém, crescia o ressentimento contra a autoridade portuguesa devido ao comportamento pouco escrupuloso dos recrutadores de mão-de-obra e dos negociantes portugueses.

Em 1894, diversos régulos tongas revoltaram-se sob a liderança régulo de Mafumo e filho de Gungunhana, Zixaxa, que mobilizou 1000 guerreiros, ao passo que Mazul, régulo de Magaia, mobilizou 3500 guerreiros. Cheringa, Munhangua e Mutua mobilizaram em conjunto 1300 guerreiros. O régulo de Moamba aderiu à revolta mas logo recuou. miniaturadaimagem|Lourenço Marques, actual Maputo, em 1905. Os régulos rebeldes atacaram o posto de Anguane, 20 quilómetros a norte de Lourenço Marques, a 23 de Setembro, numa altura em que só se encontravam na cidade as forças da Polícia e um destacamento de tropas africanas, o Batalhão de Caçadores da África Oriental nº 3, pouco mais de 100 militares apoiados por mais 300 europeus armados. Lourenço Marques foi atacada mas os tongas são rechaçados.Telo, 2004, p. 18. Na África do Sul, entretanto, jornais ingleses apresentam a revolta como prova que de era necessário subtrair Moçambique à tutela de Portugal.Telo, 2004, p. 17. A 15 de Outubro, fundeiam no porto quatro navios de guerra ingleses, aos quais não se tarda a juntar o famoso cruzador alemão Seeadler e entre os portugueses, adensam-se as suspeitas de que a revolta fora instigada por potências estrangeiras, nomeadamente o Reino Unido.Telo, 2004, p. 19.

Em Lisboa, o governo português vê a revolta como uma oportunidade para organizar uma grande expedição que afirme o seu domínio na região. O momento era crítico pois estava-se nas vésperas da inauguração do caminho-de-ferro que ligaria Lourenço Marques ao Transvaal, confirmando a importância da cidade como o melhor porto de África Oriental e urgia também salvaguardar o sul de Moçambique contra a cobiça de Cecil Rhodes.Nuno Severiano Teixeira; Francisco Contente Domingues; João Gouveia Monteiro: História Militar de Portugal, Esfera dos Livros, 2017, p. 432. António Enes foi nomeado Comissário Régio, com plenos poderes civis e militares para liderar uma expedição que pacifique a região. Enes informa o governo que seria fácil sufocar a rebelião mas antes de partir de Lisboa avisa que seria necessário organizar uma segunda expedição para conquistar o Império Vátua, por chegarem relatórios de Moçambique dando conta que Gungunhana reunia tropas para atacar os portugueses. Havia quem defendesse o estabelecimento de um protectorado sobre Gungunhana mas não era essa a política defendida por Enes, os militares e o governo português. miniaturadaimagem|A Batalha de Marracuene. Na campanha de Marracuene, 782 homens partiram de Lourenço Marques às 5h da madrugada, ao som do hino nacional e saudados por civis. Na Batalha de Marracuene a 2 de Fevereiro de 1895, os portugueses defrontaram 4000 tsongas comandados por Zixaxa, que foram desbaratados devido à superioridade do fogo dos portugueses, armados com metralhadoras e canhões.

Apesar da vitória, a chuva intensa impede a travessia do rio e a tropa portuguesa recebe ordens para regressar a Lourenço Marques. Após a batalha, porém, os régulos aliados dos portugueses, que até ali tinham evitado intervir, passaram a apoiá-los activamente contra os tongas rebeldes e atacaram-nos, causando-lhes pesadas perdas numa emboscada. A partir desse momento, a população tonga rebelde migrou para norte, refugiando-se no Império de Gaza.António José Telo: Moçambique - 1895: A Campanha de Todos os Heróis, Tribuna da História, 2004, pp. 44-51. Gungunhana recebe as tribos refugiadas e aceita a vassalagem dos seus líderes, bem assim como de matabeles depois de sofrerem uma derrota em Lobengula.

A Conquista de Gaza miniaturadaimagem|Gaza em Moçambique. Após o Combate de Marracuene, António Enes decide empreender a conquista do Império de Gaza e empenhar-se em colmatar as insuficiências postas a nu durante a campanha. Neste sentido envia oficiais para a África do Sul a comprar a ingleses ou bóeres embarcações, carroças e animais de carga com vista a melhorar a logística e o transporte terrestre e fluvial. A paquetes alemães que atracam em Lourenço Marques são comprados escaleres a vapor para subirem o Incomati e Limpopo. De Lisboa chegam meios nunca antes vistos em Moçambique: um heliógrafo, holofotes, material para pontões e detonadores eléctricos para minas.

São reocupadas as terras rebeldes, em grande medida abandonadas pela população autóctone e erigidos novos postos militares, na Ilha da Xefina Grande, na Ilha da Xefina Pequena, em Marracuene, Ilha de Benguelene e Incanine, onde é construía uma ponte de batelões. Com o apoio dos régulos leais e das suas tropas é explorado o terreno e encurralados os poucos grupos de guerreiros que ainda não tinham partido para norte com as suas tribos.

Preparativos miniaturadaimagem|Comissário Régio António Enes. Em Abril, António Enes projectou a campanha para a conquista de Gaza: uma coluna principal seria transportada para Inhambane e de lá seguiria para Manjacaze, a capital vátua, ao passo que outra coluna partiria de Lourenço Marques em direcção ao norte para perseguir os régulos rebeldes. No Limpopo, a meio, operaria uma esquadrilha fluvial, para impedir que os africanos atravessassem o rio e servir de manobra de diversão. Em nove meses Portugal reuniu em Moçambique um total de 2600 militares para uma campanha em território mal conhecido e contra um adversário que se gabava abertamente de poder reunir 60 000 guerreiros. Por esta razão, apontava-se oficialmente para objectivos mais limitados, que passavam pela fundação de postos militares na fronteira com Gaza mas, secretamente, António Enes não punha de parte a possibilidade de conquistar Gaza ou, pelo menos, sujeitar Gungunhana à autoridade portuguesa caso a oportunidade surgisse. Tinha também o propósito de mostrar às restantes potências europeias que Portugal tinha capacidade para impor a sua soberania sobre os territórios reclamados.

António Enes enviou o Conselheiro José de Almeida a negociar com Gungunhana mas sem acreditar nem se esforçar por chegar a acordo. Gungunhana, por sua vez, pretende arrastar as negociações até à época das chuvas. As negociações foram longas e com vários incidentes caricatos mas os portugueses ganham longos meses para deslocar tropas e material sem sofrerem ataques.Telo, 2004, p. 52. miniaturadaimagem|Caldas Xavier. Em Maio de 1895, a Coluna do Sul, comandada por Caldas Xavier parte de Lourenço Marques com ordens para fundar vários postos militares e a 18 de Junho começa a construir uma estrada de 92 km de Pasene a Stokolo.Telo, 2004, pp. 52-54. Ao mesmo tempo a Componente Este da Coluna Sul, comandada por Freire de Andrade inicia o percurso subindo o rio Marracuene até Manhissa, fundando aqui um posto e abre um caminho até Stokolo. A 10 de Julho, parte da guarnição de Stokolo avança até à margem esquerda do Incomati e ali ergue o Posto X. A Coluna Este parte de Manhissa a 10 de Julho transportada pelas lanchas Bacamarte, Chefina e Magaia e desembarca em Chinavane, construindo ali outro posto. A 31 de Julho é inaugurada a Ponte D. Afonso sobre o Rio Incomati. Outra é construída em Xinavane. Chegados a Agosto, a Coluna Sul encontra-se a postos na suas bases de partida. Os portugueses estabelecem relações cordiais com o régulo Chonguela Manavi, que controla os territórios vizinhos do Posto X, atravessam o Incomati para Cossine e erguem um novo posto em Magude. Vários régulos vassalos de Gungunhana passam então para o lado português.

A Batalha de Magul A 23 de Agosto, António Enes interrompe as negociações com Gungunhana e dá ordens aos destacamentos para invadirem Gaza e perseguirem os régulos rebeldes refugiados em Cossine.Telo, 2004, pp. 54-63. Freire de Andrade convoca os régulos leais e, a 3 de Setembro, atravessa a Ponte D. Afonso com 10 cavaleiros, 120 praças com uma metralhadora Nordenfelt, 25 praças angolanos e 1000 africanos auxiliares.

Grande número de guerreiros são avistados em Magul comandados por Zixaxa, Magaia, Magioli e Chonguela Manavi, e os auxiliares dos portugueses recusam-se a avançar para combate. Os portugueses recuam até Xinavane para esperar reforços e eles chegam a 5 de Novembro. Os auxiliares são enviados a atacar as terras desguarnecidas dos régulos e a coluna parte novamente de Xinavane, contando 275 europeus, 32 angolanos e 4 metralhadoras Nordenfelt. Os meios de transporte eram insuficientes mas o entusiasmo da tropa impelia para o combate.