Petronilho de Brito (São Paulo, 31 de maio de 1904 — Cerquilho, 7 de setembro de 1983) foi um futebolista brasileiro que atuava como atacante. Notabilizou-se como o primeiro brasileiro negro a jogar profissionalmente no exterior, sendo protagonista do primeiro título do San Lorenzo no campeonato argentino profissional (em 1933),PERUGINO, Elías (setembro de 2011). Petronilo DO BRITOS. El Gráfico Especial n. 32 - "100 Ídolos de San Lorenzo". Revistas Deportivas, p. 68FUENTES, Fernando. Petronilo do Britos. San Lorenzo: el diccionario azulgrana. 1 ed. Buenos Aires, 2007, p. 151 altura em que era o futebolista brasileiro mais bem pago no mundo.

Petronilho teria sido também o primeiro negro a participar do primeira divisão paulista, ou, no mínimo, um dos primeiros a quebrar os preconceitos de cor que impossibilitavam acessos de negros nas grandes equipes locais, que, quando muito, toleravam mulatos. Irmão mais velho do descobridor de Pelé, o também futebolista Waldemar de Brito, Petronilho pôde jogar ao lado de Waldemar também no próprio San Lorenzo. Em 2012, foi considerado pela revista El Gráfico como um dos cem principais ídolos da história desse clube. Em 1953, o jornal Mundo Sportivo elegeu Petronilho como o terceiro maior centroavante que o futebol brasileiro tivera nos vinte anos anteriores. Um ano depois, Thomaz Mazzoni, avaliando futebolistas que já haviam parado de jogar, o qualificou como décimo principal craque, por ordem cronológica, surgido no Brasil.

Notabilizou-se ainda como o real inventor brasileiro do chute de bicicleta, segundo declarado pelo próprio Leônidas da Silva, usualmente considerado o criador da jogada. Na Argentina, onde foi costumeiramente grafado com a corruptela "Petronilo do Britos", ficou conhecido pelo mesmo apelido de Leônidas: Diamante Negro, embora fosse apelidado também de El Bailarín, El Artista de la Pelota, El Fenómeno e El Negro de Porcelana. No Brasil, também era chamado pelo diminutivo "Petro", bem como de "O Azougue".

Antes da consagração no país vizinho, Petronilho foi um dos astros do futebol paulista que teriam ido à Copa do Mundo FIFA de 1930 e terminaram cortados em meio a desavenças entre dirigentes locais com rivais cariocas que geriam a Confederação Brasileira de Desportos.GEHRINGER, Max (set. 2005). CARIOCAS VERSUS PAULISTAS. Placar Especial "A Saga da Jules Rimet fascículo 1 - 1930 Uruguai". São Paulo: Editora Abril, pp. 16-22 Pôde fazer cinco jogos pela Seleção Brasileira, entre 1928 e 1935, embora nenhum seja modernamente considerado oficial. Com o tempo, tornou-se personagem relativamente esquecido no próprio país, tendendo a ser mais lembrado na Argentina, onde seu prestígio é superior ao do irmão ilustre.

Carreira no Brasil Começou a jogar no juvenil do Flor da Infância. Seu primeiro time adulto foi o Antarctica, em 1921, embora ainda fosse adolescente quando começou a jogar por esta equipe do bairro da Mooca. Pelo Antarctica, disputou a segunda divisão paulista de então e posteriormente na primeira divisão de uma liga dissidente que terminou infrutífera.

No ano seguinte, pelo Minas Gerais, do bairro do Brás, Petronilho teria praticado a primeira bicicleta do futebol brasileiro, em duelo contra o Vila Isabel, em partida em que destacou-se também por marcar os quatro gols de sua equipe no empate em 4-4.

Ele seguiu pelo Minas Gerais como solitário destaque de campanhas medianas feitas até 1924 por este clube (renomeado Braz naquele ano) no campeonato paulista. Um dos principais momentos foram dois gols em empate em 3-3 contra a equipe paulista mais poderosa da época, o Paulistano, em 1923.

Em 1925, Petronilho passou a defender o Sírio, marcando cerca de metade dos gols da campanha 5ª colocada naquele ano no estadual. Com isso, terminou convocado pela Seleção Paulista para ser o reserva de Arthur Friedenreich no Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Por ela, estreou contra a Seleção Paraense, que havia se proclamado a campeã do Norte.

No ano seguinte, o Sírio realizou sua principal campanha, a do vice-campeonato na edição extra do campeonato paulista de 1926. Também em 1926, a Seleção Paulista venceu o Campeonato Brasileiro, com Petronilho sendo figura destacada também como o artilheiro daquela edição: marcou quinze vezes, sendo sete delas somente na goleada de 16-0 sobre a Seleção Catarinense. Em 1929, classificava aquele título brasileiro como sua maior emoção esportiva.

Entre 1927 e 1928, Petronilho jogou o campeonato paulista pelo Independência. Nesse período, foi vice-campeão por São Paulo no Campeonato Brasileiro de Seleções de 1927; e também estreou pela Seleção Brasileira.

Regressou em 1929 ao Sírio e, apesar da campanha péssima do clube (dos nove gols que o time fez, cinco foram de Petronilho, em seis jogos), seguiu na Seleção Brasileira. Pela Seleção Paulista, naquele ano participou de vitória de 6-1 sobre o então campeão italiano, o Torino, em 14 de setembro, no Parque Antarctica. Ainda em 1929, também voltou a vencer o Campeonato Brasileiro.

Naquele período, "Petro" era então visto como o principal jogador negro do futebol paulista, servindo inclusive seleção estadual formada apenas por negros em jogos de bastante repercussão na época: seja contra uma seleção estadual de brancos, em duelos anuais pela "Taça Princesa Isabel" ocorridos entre 1927 e 1931 no feriado da abolição e vencidos em maioria pelos negros; seja em duelos com a Seleção Carioca, tanto a principal (derrotada por 6-2) como uma só de negros (derrotada por 7-1), como também contra o clube húngaro Ferencváros.

Mesmo com o Sírio realizando nova campanha fraca em 1930, Petronilho destacou-se com 24 gols em 26 jogos, figurando em terceiro na artilharia, abaixo de Friedenreich e de Feitiço. Em paralelo, Leônidas da Silva defendia clube carioca de mesmo nome e, no início de carreira, chegou a ser apelidado de "novo Petronilho" ou de "Petronilho carioca". Ainda em 1930, Petronilho chegou a defender o Palmeiras (então Palestra Itália) em amistoso contra um combinado de Corinthians e São Paulo da Floresta, em 10 de junho, marcando três gols no empate em 6-6; essa participação, assim como a de Tatu, utilizado em cinco amistosos em 1925, antecederam em mais de uma década a passagem de Og Moreira (iniciada em 1942), usualmente considerado o primeiro negro a jogar pelo clube alviverde.

A temporada de 1931 foi a última com participação integral de Petronilho no futebol paulista, tanto no Sírio como pela seleção estadual no Campeonato Brasileiro. A eclosão da Revolução Constitucionalista de 1932 interrompeu o calendário esportivo; em represália à derrota paulista no conflito, os clubes de São Paulo deixaram de ceder jogadores à Seleção.

Naquela era ainda oficialmente amadora do futebol brasileiro, Petronilho remunerava-se como vendedor de agência da Chevrolet controlada pela firma Abdulkader, Pereira & Cia. O fim do amadorismo, oficializado em 1935, acarretaria no desaparecimento de diversos times das primeiras décadas do futebol paulista.ZAMBUZI, Luciana (julho de 2008). Congestionada, populosa, multicultural e… futebolística. Trivela n. 29. São Paulo: Trivela Comunicações, pp. 38-43 O próprio Sírio desativaria naquele mesmo ano seu departamento de futebol, mantendo-se desde então competitivo sobretudo no basquete.

San Lorenzo O título de 1933 thumb|right|300px|Formação do San Lorenzo campeão argentino de 1933. Petronilho é o terceiro agachado, da esquerda para a direita. O San Lorenzo, no início de 1933, formou uma colônia de jogadores brasileiros egressos do futebol paulista. Em 26 de janeiro, em amistoso no antigo estádio (antecessor de La Bombonera) do Boca Juniors, o clube, ao vencer por 4-1 um combinado brasileiro de universitários, promoveu a estreia de João Ramon e de Agostinho Teixeira,D'AMBROSIO, Leandro (2013). Amistosos en la Argentina - 1933. San Lorenzo - Libro de Oro. Buenos Aires: Editorial Perfil, p. 232 vindos respectivamente da Portuguesa e do Estrela de Ouro. Petronilho estreou no amistoso seguinte, em vitória de 4-1 sobre o Vélez Sarsfield no antigo estádio deste clube em Villa Luro, em 8 de fevereiro. Atuou ao lado de Teixeira, autor de um dos gols, e de mais um brasileiro que estreava nos azulgranas, Tuffy.

Ainda em fevereiro, o San Lorenzo estreou mais um brasileiro, Eugênio Vanni, em vitória amistosa de 6-2 sobre o Chacarita Juniors, no antigo estádio deste clube em Villa Crespo. Nesta partida, Petronilho marcou seu primeiro gol como sanlorencista, empatando em 1-1 o placar aberto pelo adversário. Ainda nos amistosos de pré-temporada, marcou o gol do empate em 3-3 em outra vitória de virada (por 4-3), sobre o Rosario Central, em 5 de março, no velho Gasómetro em Boedo. Uma semana depois, começou o campeonato argentino de 1933.

No restante do ano, Tuffy e Vanni ficaram restritos a amistosos ou à equipe B do San Lorenzo. Os demais foram empregados no campeonato e tiveram seus nomes normalmente nacionalizados: Petronilho de Brito virou "Petronilo do Britos"; João Ramon virou "Juan Ramón";FUENTES, Fernando. Ramón, Juan. San Lorenzo: el diccionario azulgrana. 1 ed. Buenos Aires, 2007, p. 159 e Agostinho Teixeira tornou-se "Agustín Teixeira". Estes dois, contudo, também figuraram mais no torneio de equipes B, no qual o San Lorenzo terminaria vice-campeão.FUENTES, Fernando. Teixeira, Agustín. San Lorenzo: el diccionario azulgrana. 1 ed. Buenos Aires, 2007, p. 194 Petronilho foi o único a colher sucesso de fato no time principal, marcando 13 vezes em 19 partidas no campeonato, ao passo que Ramon e Teixeira, somados, só participaram de três partidas.

Ramon só esteve na rodada inaugural, empate em 1-1 com o Lanús. Teixeira estreou já na 10ª, lesionando-se e só reaparecendo uma outra vez, na 12ª. Naquelas dez primeiras rodadas, o San Lorenzo não parecia dar mostras de ser campeão, ao empatar quatro vezes, ainda que Petronilho pudesse destacar-se gradualmente já nesse período: na 3ª rodada, marcou seu primeiro gol na campanha, abrindo, aos 44 minutos, vitória de 2-0 sobre o Racing. Na 6ª, abriu na casa adversária, com arremate a meia altura, vitória de 3-1 sobre o Platense. Também marcou duas vezes em vitória de 6-1 sobre o Estudiantes de La Plata, no jogo seguinte: abriu o placar e, ainda no primeiro tempo, marcou o provisório 3-1, além de fornecer assistência ao quinto e ao sexto gols.

Na 8ª rodada, Petronilho abriu o placar de 1-1 histórico por render a primeira vez em que o Vélez utilizou sua icônica camisa com listra em V azulada, novo uniforme principal em substituição a uma camisa tricolor similar à do Fluminense. Seu gol seguinte veio na mesma rodada em que Teixeira estreou, a 10ª, abrindo outro placar de 1-1, contra o Argentinos Juniors. Na 11ª, Petronilho saiu lesionado em derrota de 4-2 para o Gimnasia y Esgrima La Plata, equipe que parecia a mais apta ao título na maior parte do campeonato - chegando a ser naquele ano apelidada de El Expreso, onde era reserva Juan Raúl Echevarrieta, futuro maior artilheiro estrangeiro do Palmeiras.

Petronilho só voltou a jogar já na 23ª rodada. Sem ele, o clube pôde permanecer invicto da 12ª à 19ª, com seis vitórias no período, mas saiu derrotado na 20ª e na 21ª. Na reestreia do brasileiro, ele forneceu assistência para abrir o placar e fechando-o em vitória de 3-1 sobre o Platense. Na rodada seguinte, ele marcou novo gol, embora não evitasse derrota em La Plata para o Estudiantes, por 2-1. Mas, nas dez rodadas que restavam, o clube venceu nove desses jogos, se recolocando em disputa que, além do Gimnasia, envolvia também o Boca. Com o brasileiro presente, o San Lorenzo venceu na 25ª rodada por 4-2 o Vélez e, na 26ª, bateu por 5-2 o Tigre.

thumb|right|200px|Em capa de 1933 da revista El Gráfico, junto a Miguel Ángel Lauri (Estudiantes), que defendeu a Seleção Argentina e a Seleção Francesa.