de Eleia () ( — Cléverson Minikovsky. Heraclito Versus Parmenides. biblioteca24horas; ISBN 978-85-7893-226-8. p. 25.) foi um filósofo grego natural de Eleia, uma cidade grega na costa sul da Magna Grécia. Supostamente de família rica, seus primeiros contatos filosóficos foram com a escola pitagórica, especialmente com Ameinias.Gerd Bornheim. Filósofos Pré-socráticos, Os. Editora Cultrix; 2005. ISBN 978-85-316-0172-9. p. 53. O único trabalho conhecido de Parménides é um poema, Sobre a natureza, que sobreviveu apenas na forma de fragmentos.

Pelo que podemos deduzir a partir dos fragmentos conhecidos e de citações de outros autores, o poema de Parmênides representa uma revelação divina dividida em duas partes: No "caminho da verdade" (primeira parte do poema), ele trata da realidade ("o que é") e expõe vários argumentos que demonstram seus atributos. A existência é atemporal, uniforme, engendrada, necessária e indestrutível, enquanto a mudança é impossível. Desta forma, nega a existência do nada ou "não ser". Esta é considerada a primeira digressão filosófica sobre o fenômeno do "ser", que foi contraposta com a afirmação de Heráclito de que "nenhum homem pisa duas vezes no mesmo rio", a primeira digressão sobre o conceito do "devir". Desta forma, Parmênides e Heráclito, são considerados os fundadores da ontologia. No "caminho da opinião dos mortais" (segunda parte do poema) Parmênides elabora uma doutrina cosmológica completa, tratando de questões como a constituição e localização dos astros, diversos fenómenos meteorológicos e geográficos, e a origem do homem, além de explicar o mundo das aparências, em que as faculdades sensoriais levam a concepções falsas e enganosas.

Embora o conteúdo do "caminho da opinião" se assemelhe às especulações físicas de pensadores anteriores, como os jônios e os pitagóricos, o "caminho da verdade" contém uma reflexão completamente nova, que modifica radicalmente o curso da filosofia antiga. Considera-se que Zenão de Eléia e Melisso de Samos aceitaram suas premissas e continuaram seu pensamento. Os filósofos físicos subsequentes, como Empédocles, Anaxágoras e os atomistas, buscaram alternativas para superar a crise em que o conhecimento do sensível foi lançado. Até mesmo a sofística de Górgias revela uma enorme influência de Parmênides em sua forma argumentativa.

Tanto a doutrina platônica das formas como a metafísica aristotélica mantêm uma dívida incalculável com o "caminho da verdade" de Parmênides. É por isso que muitos filósofos e filólogos consideram que Parmênides é o fundador da metafísica.

Biografia Parménides nasceu na colônia grega de Eleia (atual Ascea), de acordo com Heródoto,Heródoto, i.164 fundada pouco antes de 535 a.C.. Ele era descendente de uma família rica e ilustre.Diógenes Laércio, ix. 21 Suas datas são incertas, de acordo com Diógenes Laércio, ele floresceu pouco antes de 500 a.C.,Diógenes Laércio, ix. 23 o que coloca o ano de seu nascimento por volta de 540 a.C., mas Platão diz que ele visitou Atenas aos 65 anos de idade, quando Sócrates era um homem jovem, c. 450 a.C.,Platão, Parmenides, 127A-128B que, se for verdade, sugere um ano de nascimento do c. 512 a.C.. Ele sugere ainda que Parménides fora aluno de Xenófanes,Aristóteles, Metafísica, i. 5; Sextus Empiricus, adv. Math. vii. 111; Clemente de Alexandria, Stromata, i. 301; Diógenes Laércio, ix. 21 e independentemente de se eles realmente se conheciam, a filosofia Xenófanes é a influência mais óbvia em Parménides.Cf. Simplício, Physics, 22.26-23.20; Hippolytus, i. 14 Diógenes Laércio também descreve Parménides como um discípulo de "Ameinias, filho de Diocaites, o Pitágoras"; mas não existem elementos pitagóricos óbvios em seu pensamento. O primeiro culto do herói de um filósofo que conhecemos foi a dedicação de um heroon por Parménides a seu professor Ameinias em Eleia.Nigel Wilson. Encyclopedia of Ancient Greece. Routledge; 2013. ISBN 978-1-136-78800-0. p. 737–. Parménides foi o fundador da Escola eleática, que também incluiu Zenão de Eleia e Melisso de Samos. De sua vida em Eleia, dizia-se que ele havia escrito as leis da cidade.Espeusipo em Diógenes Laércio, ix. 23, comp. Estrabão, vi.; Plutarco, adv. Colot. 1126AB Seu discípulo mais conhecido é Zenão de Eleia, que, de acordo com Platão, era vinte e cinco anos mais jovem e foi considerado como seu eromenos.Platão, Parmênides, 127A: "Zenão e Parmênides uma vez vieram [a Atenas] para o festival da Grande Panateneia. Parmênides já era um homem muito velho, de cabelos brancos, mas de aparência distinta - ele tinha sessenta e cinco anos. Zeno era então cerca de quarenta anos, alto e agradável de se olhar - diziam ter sido amante de Parmênides." Parménides teve uma grande influência sobre Platão, que não apenas nomeou o diálogo Parménides com o seu nome como também sempre falou dele com grande admiração.e.g. Platão, Teeteto, 183, e.; Sofistas, 237A

É importante citar que como ele viveu há muito tempo, não se pode confirmar nada com certeza absoluta sobre ele.

Obra thumb|525px|Hipótese sobre o ano de nascimento de Parménides e data de composição do seu poema Desde a antiguidade considera-se que Parmênides escreveu uma só obra,Diógenes Laércio, I 16 (A 13). intitulada Sobre a natureza.Diógenes Laércio, VIII 55 (A 9) e Simplício, De caelo 556, 25 (A 14) É um poema didático escrito em hexâmetros. A língua em que foi escrito deriva da expressão épica, utilizada no dialeto homérico.

Datação O verso 24 do fragmento 1 contém uma palavra que serviu de início a especulações sobre a datação da composição do poema. Nesse verso, a deusa fala ao destinatário da mensagem, presumivelmente o próprio Parménides, chamando-lhe κοῦρε (koûre, «jovem»). Pensou-se que esta palavra faz referência a um homem com idade inferior a trinta anos e, tendo em conta a sua data de nascimento, podemos colocar a criação do poema entre 490 a.C. e 475 a.C..Cornford, Platão and Parmenides, p. 1.Raven, Los filósofos presocráticos, p. 376; Marcovich, Real – Encyclopädie, col. 249 Mas objectou-se que a palavra deve ser entendida no seu contexto religioso: indica a relação de superioridade da deusa em relação ao homem que recebe a revelação.Burkert, «Das Proëmium», p. 14, n. 32; Guthrie apoia esta ideia, sustentando-a com uma citação (Aristófanes, Aves 977) na qual o vocábulo justamente assinala não a idade de um homem (que não é um jovem), mas a sua situação em relação ao intérprete de oráculos por qual está a ser interpelado. A sua conclusão é que é impossível dizer em que idade Parménides escreveu o poema.Guthrie, Historia de la filosofía griega, II, p. 16 Eggers Lan, para além de citar outro uso de κοῦρε (Homero, Il. VI, 59) onde a palavra pode referir não a um homem de trinta anos, mas a um adolescente, assinala que o menos provável é que o poema tenha sido composto imediatamente depois da experiência religiosa que relata.Eggers Lan, Los filósofos presocráticos, p. 423 n. 12

Transmissão textual O poema de Parménides, como obra completa, considera-se perdido de maneira irremediável. A partir da sua composição, foi copiado muitas vezes, mas a última referência à obra completa deriva de Simplício, no século VI: escreve que esta obra já se havia tornada rara naquela época (Física, 144).Cordero, Siendo, se es, p. 26. O que nos chega do poema são citações fragmentárias, presentes nas obras de diversos autores. Nisto Parménides não se diferencia da maioria dos filósofos pré-socráticos. O primeiro que o cita é Platão, depois Aristóteles, Plutarco, Sexto Empírico e Simplício, entre outros. Por vezes um mesmo grupo de versos é citado por vários de estes autores, e com estes dados os especialistas podem determinar mais facilmente qual é a cópia que se assemelha mais ao original. Noutras ocasiões a situação é diferente, e a citação é única.Cordero, Siendo, se es, p. 27. A reconstrução do texto, a partir da reunião de todas as citações existentes, começou no Renascimento e culminou com a obra de Hermann Diels, Die Fragmente der Vorsokratiker, em 1903, que estabeleceu os textos da maioria dos filósofos anteriores a Platão.Cordero, Siendo, se es, p. 28. Nesta obra figuram um total de 19 «fragmentos» presumivelmente originários de Parménides, dos quais 18 estão em grego e um consiste numa tradução rítmica em latim. Do poema foram conservados 160 versos. Segundo estimativas de Diels, estes versos representam cerca de nove décimos da primeira parte (a «via da verdade»), mais um décimo da segunda (a «via da opinião»).Guthrie, Historia de la filosofía griega, II, p. 18. A obra de Diels foi reeditada e modificada por Walther Kranz em 1934. A edição teve tanta influência nos estudos que hoje se cita Parménides (assim como aos outros pré-socráticos) segundo a ordem dos autores e fragmentos desta. Parménides ocupa ali o capítulo 28, pelo que se citar com a abreviatura DK 28, adicionando depois o tipo de fragmento (A = comentários antigos sobre a vida e a doutrina; B = os fragmentos do poema original) e finalmente o número de fragmento (por exemplo, «DK 28 B 1»). Ainda que esta edição seja considerada canônica pelos filólogos, têm aparecido numerosas reedições que propuseram uma nova ordem dos fragmentos, e alguns especialistas, como Allan Hartley Coxon e Néstor Luis Cordero, realizaram comparações sobre os manuscritos onde se conservam algumas das citações, e colocaram em dúvida a fiabilidade da leitura e o estabelecimento do texto de Diels.Tudela, Poema, Introducción, p. 7.

A forma de poema épico didático Muito se tem escrito acerca da forma poética da sua escrita. Plutarco considerou que era apenas uma maneira de evitar a prosa,Plutarco, Quomodo adol. poet. aud. deb. 16c (A 15). e criticou a sua versificação.Plutarco, De aud. 45a–b (A 16). Proclo disse que apesar de utilizar metáforas e alegorias, forçado pela forma poética, a sua escrita não deixa de ser mais parecido com prosa que com poesia.Proclo, Parménides I p. 665, 17 (A 18). Simplício da Cilícia, ao qual devemos a conservação da maior parte do texto que chegou até aos nossos dias, tem uma visão semelhante: não há que se admirar da aparição de motivos míticos na sua escrita, devido à forma poética que utiliza.Simplicio, Física, 144, 25 – 147, 2 (A 20).

Para Werner Jaeger, a escolha de Parménides pela forma de épico didático é uma inovação significativa. Ela envolve, em primeiro lugar, a rejeição da forma de prosa introduzida por Anaximandro. Por outra forma, significa um vínculo com a forma da Teogonia de Hesíodo. Mas o vínculo não afeta apenas a forma, mas também alguns elementos de conteúdo: na segunda parte do poema de Parmênides (fragmentos B 12 e 13) aparece o Eros cosmogônico de Hesíodo (Teogonia 120) juntamente com um grande número de divindades alegóricas como a Guerra, a Discórdia, o Desejo,Cícero, de deor. nat., I, 11, 18 (A 37). cuja origem na Teogonia não se pode colocar em dúvida. No entanto, há que notar que a colocação destes elementos cosmogônicos na segunda parte, dedicada ao mundo da aparência, também envolve a rejeição desta forma de entender o mundo, forma estranha à Verdade para Parménides.

Hesíodo apresentou o seu poema teogônico como uma revelação procedente de seres divinos. Tinha usado da invocação às musas, uma convenção épica, o relato de uma experiência pessoal de iniciação numa missão única, a de revelar a origem dos deuses. Parménides, no seu poema, apresenta seu pensamento sobre um Ente uno e imóvel como uma revelação divina, como para derrotar Hesíodo no seu próprio jogo.Jaeger, La teología de los primeros filósofos griegos, pp. 95s.

Conteúdo O poema de Parménides começa com um prefácio de carácter simbólico de que subsistem 32 versos. Os primeiros trinta versos foram conservados por Sexto Empírico, que os transmitiu na sua obra Adversus Mathematicos VII, 111ss. Por sua vez, Simplício da Cilícia transmite na sua obra de Caelo 557, 25 ss, os versos 28 a 32. O prefácio figura como o primeiro fragmento na recompilação de Diels (DK 28 B 1).