A prostituição no Rio de Janeiro remonta ao período colonial, quando a cidade começou a se consolidar como um centro urbano e portuário no atlântico sul, tendo sua presença documentada já a partir do final do século XVI, quando o intenso fluxo de navios e a configuração do porto favoreceram a instalação de estabelecimentos destinados à prestação de serviços sexuais. No século XVIII, surgiram as primeiras casas de tolerância nas imediações da Baía de Guanabara, atendendo a uma clientela composta por marinheiros, comerciantes e visitantes da cidade. Durante o século XIX, com a intensificação dos processos de urbanização e a consolidação do Rio de Janeiro como capital imperial, áreas como a Lapa, Santa Teresa e o centro passaram a concentrar bordéis e espaços similares, impulsionando intervenções sanitárias e de ordem pública para conter riscos de epidemias e manter a disciplina social. No início do século XX, a modernização e a implantação de políticas de saúde pública levaram a uma reavaliação normativa, que, embora não tenha criminalizado a prática em si, impôs restrições a atividades correlatas, como o aliciamento e o proxenetismo. A partir da segunda metade do século XX, a diversificação dos modos de exercício – do trabalho em bordéis organizados à prestação de serviços na rua e por intermédio de agências.
No Brasil, numa pesquisa do Ministério da Saúde e da Universidade de Brasília indica que, no segundo semestre de 2005, quase quarenta por cento das prostitutas estavam na profissão há, no máximo, quatro anos, fato que indicaria um alto grau de abandono da profissão. Já o Centro de Educação Sexual, uma ONG que realiza trabalhos com garotas e garotos de programa do Rio de Janeiro e Niterói, diz que a maioria se prostitui para sobreviver e que muitas sonham em encontrar um amor.Manchete, Edições 2256-2264. Block Editores, 1995. pp. 108.
Antecedentes Durante a segunda metade do século XIX e início do século XX, a prostituição no Rio de Janeiro consolidou-se como um fenômeno urbano influenciado por fatores sociais, econômicos e culturais. A capital imperial, apresentava uma população numerosa com uma expressiva desigualdade social, o que reduzia as oportunidades de emprego, especialmente para mulheres livres e pobres, que enfrentavam restrições de gênero no mercado de trabalho. A prostituição tornou-se, portanto, uma alternativa de sobrevivência com significativa expressividade econômica.
O meretrício integrava um espectro diverso de mulheres — escravas, libertas, brasileiras livres e estrangeiras — e era hierarquizado em três categorias: as aristocráticas ou de sobrado, ligadas à elite e hospedadas em casas luxuosas com piano e espelhos; as de sobradinho, que atuavam em hotéis ou casas de costureiras em bairros como Botafogo e Jardim Botânico; e as da escória, residentes em casebres, cortiços ou casas de passes. Os bordéis se tornaram locais de sociabilidade onde se mesclavam lazer, sexo e política, em ambientes noturnos animados por músicas e práticas liberadas. No final do século XIX, a prostituição ganhou nova configuração com a construção de grandes bordéis e zonas de meretrício frequentadas por homens de diferentes classes sociais. Estabelecimentos como cabarés, cafés-encontros, pensões chiques, teatros e restaurantes estruturaram uma ampla rede social que incluía músicos, dançarinas, boêmios, gigolôs e trabalhadoras de diversas profissões auxiliares. Este espaço passou a operar com códigos e normas próprias, configurando-se como um universo autônomo de interação social. A chegada de imigrantes europeias, sobretudo judias da Europa Oriental – conhecidas como polacas – representou um marco na Prostituição carioca, iniciada oficialmente em 1867 com a chegada de 104 mulheres, das quais 67 permaneceram no Rio. O fluxo migratório feminino ampliou-se nos anos seguintes, atraído pelo desequilíbrio demográfico, a permissividade cultural com a prostituição e a corrupção nos meios policiais e políticos. Francesas e polacas tornaram-se ícones da prostituição de luxo durante a Belle Époque, período em que sua presença se destacava em pensões centrais como as das ruas do Passeio, Ouvidor e Gonçalves Dias. Simultaneamente, zonas populares de meretrício proliferaram em ruas como Misericórdia, Dom Miguel, Lavradio, Riachuelo e Espírito Santo. História Século XIX – período imperial thumb|direita|O Rio de Janeiro em 1889.|323x323px Durante o século XIX, a prostituição no Rio de Janeiro consolidou-se como uma prática tolerada socialmente, impulsionada pelo crescimento urbano, pelo aumento do desemprego e pela chegada de imigrantes. A cidade, então capital do Império do Brasil, passava por um intenso processo de modernização e europeização dos costumes, cenário no qual o meretrício se estabeleceu com grande diversidade étnica e socioeconômica. A atividade era vista como um “mal necessário”, sobretudo no imaginário masculino, funcionando como via de escape frente às rígidas normas sociais e religiosas impostas à sexualidade no casamento. As meretrizes eram classificadas em três categorias:
Aristocráticas: geralmente francesas, associadas ao luxo e à sofisticação. De sobradinho: de perfil intermediário, atuantes em cafés e praças. Da escória: compostas por mulheres pobres, muitas vezes negras ou mestiças, que viviam em cortiços.
Nesse contexto, a figura do cáften – aliciador e explorador de prostitutas, especialmente das estrangeiras – era recorrente e pouco combatida legalmente. A imprensa popular da época, exemplificada pelo jornal *O Carbonário*, atuava como importante veículo de denúncia e formação da opinião pública, expondo os efeitos sociais da prostituição e revelando a visão pejorativa imposta a essas mulheres, as quais eram frequentemente associadas à disseminação de doenças venéreas. Publicado entre 1881 e 1890, o jornal incluía colunas fixas, como “Fatos e Boatos” e “Secção Livre”, que traziam relatos anônimos – geralmente críticos – ligando o meretrício à degradação moral e à presença de estrangeiras (especialmente vindas de Buenos Aires), retratadas como figuras exóticas e perigosas.
Imigração forçada de mulheres judias
thumb|Polacas do Rio de Janeiro Na segunda metade do século XIX, um número significativo de mulheres judias do Europa Oriental – conhecidas posteriormente como “polacas” – foi trazido ao Brasil, especialmente ao Rio de Janeiro, sob falsas promessas de uma vida melhor, sendo forçadas à prostituição ao chegar. Provenientes, em sua maioria, de comunidades judaicas empobrecidas, essas mulheres enfrentaram condições degradantes e foram submetidas a intensas formas de exploração e discriminação, vivendo muitas delas em locais precários próximos à atual Praça Onze. Contudo, mesmo diante do isolamento imposto tanto pela sociedade quanto por instituições religiosas, elas encontraram formas de resistência e união, fundando, no início do século XX, a associação que daria origem ao Cemitério Israelita de Inhaúma, no subúrbio do Rio, assegurando um local de sepultamento em consonância com seus preceitos de fé.
Casa de Detenção da Corte (1871–1888) Durante as últimas décadas do século XIX, a prostituição emergiu como tema central na interseção entre moralidade pública, escravidão, vigilância policial e punição penal no Rio de Janeiro. A partir de 1871, denúncias sobre a prostituição de mulheres escravizadas – apontadas como “escândalo imoral” – levaram o delegado Miguel José Tavares a organizar uma campanha para a libertação dessas mulheres, fundamentada em princípios do Direito romano, que exigiam a alforria das escravas forçadas à atividade. Mesmo não havendo tipificação penal específica para a prostituição, a prática era frequentemente utilizada como justificativa para a prisão de mulheres que circulavam em áreas centrais da cidade. Entre 1871 e 1888, pelo menos 11 mulheres foram registradas como presas por exercerem ou serem forçadas à prostituição. A maioria das detenidas era brasileira e nenhuma foi classificada como branca, evidenciando a interseção entre raça, classe e gênero na repressão. As ocupações registradas – como lavadeiras, cozinheiras, vendedoras e trabalhadoras domésticas – reforçavam a marginalização dessa atividade no contexto urbano, enquanto o projeto de regulamentação das “casas de tolerância” de 1876 encontrava forte resistência das elites.
Saber médico Entre 1840 e 1890, o Rio de Janeiro serviu como palco para a consolidação do saber médico voltado à normatização do espaço urbano. Magali Engel investigou como os médicos, representando uma nova instância de poder, passaram a enquadrar a prostituição como uma doença – inserindo-a nos estudos de Higiene e Saúde pública. Sendo um símbolo de ruptura com os papéis tradicionais atribuídos às mulheres (como esposas e mães), convertendo as meretrizes em ameaças à moral e à ordem social. O discurso médico, ao mesmo tempo em que associava a prostituição à degeneração física, moral e social, criava categorias como perversão, depravação e comércio do corpo. Essa lógica alimentava a ideia de que as mulheres envolvidas nessa atividade eram responsáveis por sua própria marginalização, isentando os homens e reforçando estereótipos discriminatórios, especialmente contra a mulher negra.
Primeira República Na segunda metade do século XIX e no início do século XX, o cenário da prostituição no Rio de Janeiro tornou-se mais complexo, influenciado por transformações urbanas, fluxos migratórios e discursos médicos e morais. Com a chegada da corte portuguesa, a atividade passou a incorporar novos contornos – alimentada pela presença de mulheres dos Açores e da França – e a envolver diferentes categorias: escravas, libertas, brasileiras e estrangeiras. Elas representaram símbolos de modernidade e autonomia, embora, ao transgredir as normas patriarcais, desencadeassem campanhas de repressão e debates políticos, artísticos e econômicos, com a dualidade entre reconhecimento e marginalização da atividade.
Disputas legais na Primeira República Durante as primeiras décadas da República, intensas transformações espaciais e sociais no Rio de Janeiro intensificaram o controle policial sobre as mulheres pobres envolvidas com a prostituição. Tais mulheres passaram a recorrer ao Habeas corpus como forma de resistência às ações arbitrárias que as obrigavam a mudar de endereço, intensificadas a partir de 1896 com o redirecionamento das atividades para áreas periféricas. Mesmo em meio ao projeto de modernização da capital – que visava embelezar e ordenar o espaço urbano – narrativas sobre tráfico de mulheres, muitas vezes associadas a estrangeiros (especialmente judeus), foram utilizadas para justificar medidas repressivas. No campo jurídico, a eliminação da exigência de prova de lucro para configurar o crime de lenocínio ampliou o poder de intervenção policial, resultando em uma aplicação desigual da lei e intensificando a vigilância sobre as práticas das classes populares.
Século XX – reconfiguração dos espaços urbanos
El Mangue e começos da Vila Mimosa
thumb|Entrada de um dos bares onde se podem ver salas para prática sexual no topo, podendo ler-se “de meia em meia hora” Na primeira metade do século XX, a prostituição se concentrou em zonas específicas do Rio de Janeiro. Inicialmente, áreas como a Lapa, Rio de Janeiro, a Praça Onze – conhecida pela presença de prostitutas judias do Leste Europeu (as “polacas”) – e a Rua Alice, frequentada pela elite, marcaram o início dessa organização. A partir da década de 1920, o Mangue consolidou-se como uma zona de prostituição mais aberta, onde as mulheres atuavam na via pública.