Estudos Críticos da Menstruação Os Estudos Críticos da Menstruação (Critical Menstruation Studies – CMS) constituem uma linha de pesquisa e advocacy multidimensional e transdisciplinar que propõe a menstruação e o ciclo menstrual como categorias centrais de análise. Seu objetivo é investigar os aspectos políticos, sociais, culturais, biomédicos e econômicos associados à menstruação, questionando estigmas, estruturas de poder e exclusões históricas.

Histórico Segundo Chris Bobel, a menstruação, em diversas culturas e eras históricas, tem sido socializada de forma clandestina, inclusive nas pesquisas sérias sobre suas formas, funções e significados. A negligência em relação a esse processo biológico – que é um sinal vital – reflete o poder da misoginia e do estigma, suprimindo a produção do conhecimento.

Alguns marcos importantes na trajetória da visibilidade acadêmica e cultural da menstruação incluem:

1971 – A artista feminista Judy Chicago criou a litografia Red Flag, retratando uma mão removendo um absorvente interno. A obra chocou pela exposição direta da realidade cotidiana da menstruação. 1977 – Fundação da Sociedade pela Pesquisa do Ciclo Menstrual (Society for Menstrual Cycle Research – SMCR), por um grupo de acadêmicas feministas de diversas áreas, com foco na centralidade do ciclo menstrual para a saúde das mulheres. 1978 – A ativista e escritora Gloria Steinem publicou o ensaio satírico If Men Could Menstruate (“Se Homens Pudessem Menstruar”), criticando o sexismo nas percepções culturais sobre a menstruação. Década de 1980 – Casos de Síndrome do Choque Tóxico associados ao uso de absorventes internos chamaram a atenção para os riscos da negligência regulatória e os impactos da medicalização e do consumo sobre os corpos menstruantes.

O termo Critical Menstruation Studies foi cunhado por Sharra Vostral e consolidado com a publicação do Palgrave Handbook of Critical Menstruation Studies (2020), uma coletânea de 72 capítulos com contribuições de 134 pessoas em 23 países. A obra busca estabelecer-se como referência fundamental para acadêmicas, ativistas, formuladores de políticas e profissionais da saúde. O manual contém pesquisas empíricas, ensaios teóricos, notas de campo e narrativas em primeira pessoa. Ele parte de duas questões principais:

Quais novas linhas de investigação – acadêmicas ou voltadas à justiça social – são possíveis ao focar atenção na saúde e nas políticas menstruais ao longo da vida? Qual conhecimento é adquirido quando a menstruação emerge como uma categoria dinâmica de análise?

O manual valoriza a diversidade epistemológica e estilística das autoras, como afirmam as editoras:Levamos a sério as críticas feministas à rigidez epistemológica que refletem uma ideia muito estreita (e privilegiada) do que conta como conhecimento. A expertise assume muitas formas [...], por isso escolhemos preservar os estilos únicos de escrita dos nossos colaboradores.Segundo o manual, os Estudos Críticos da Menstruação podem ser compostos de diversas disciplinas em diálogo, a exemplo: História, Psicologia, Comunicação, Sociologia, Antropologia, Arte, Enfermagem, Estudos de Gênero, Saúde Pública, Políticas Públicas, entre outras.

Temas de interesse

Estigma Investiga o silenciamento de conversas sobre a menstruação, os afetos de vergonha e segredo, e como atitudes culturalmente reproduzidas impactam as experiências das pessoas, o acesso a recursos e sua autopercepção.

Equidade e acesso Temas como o que se convenciona denominar pobreza menstrual, ou a falta de acesso a recursos de higiene, educação etc. Também trata de como a menstruação é experimentada por diferentes grupos raciais, de classe, de gênero e geograficamente.

Medicalização e controle Crítica à como a medicina e a ciência tradicionais têm historicamente patologizado a menstruação desde a institucionalização dessas áreas do conhecimento, de modo a reproduzir discursos misóginos. Os Estudos Críticos da Menstruação questionam o que é considerada uma menstruação “normal” e quais experiências são excluídas.

Gênero e identidade Os Estudos Críticos da Menstruação desafiam a ideia de que apenas mulheres menstruam e busca lançar luz a como a menstruação é vivida por pessoas agênero, não-binárias, interssexo e homens transsexuais.

Políticas Analisa legislações, políticas de locais de trabalho, de educação e sistemas de saúde que negligenciam ou marginalizam mulheres e pessoas que menstruam, buscando a transformação em forma de licenças menstruais, dignidade menstrual e educação.

Ecologia e capital Analisa o impacto ecológico de produtos menstruais e a comodificação da menstruação.

Condições de saúde Investiga como o estigma menstrual afeta o diagnóstico e tratamento de condições como: Síndrome do Choque Tóxico, Endometriose, Síndrome dos Ovários Policísticos, entre outras.

Diálogo com outras teorias críticas

Teorias Feministas

Os Estudos Críticos da Menstruação se valem das críticas feministas à medicalização, estigmatização e controle de corpos femininos. Nessa seara, o estigma sobre a menstruação é compreendido como parte do sistema patriarcal, que classifica o corpo feminino como sujo, errado e irracional. Intelectuais dos Estudos Críticos da Menstruação buscam transformar a menstruação em fonte de conhecimento do próprio corpo e, até mesmo, como fonte de poder e resistência.

Mulheres e pessoas que menstruam não-brancas e negras estão sujeitas a estereótipos, disparidades no acesso à higiene e à saúde.

Estudos Feministas da Deficiência e Teoria Crip Assim como os Feminist Disability Studies e a Teoria Crip, desafia o que é considerado um corpo “normal” ou “funcional”. Em intersecção, pessoas neurodivergentes ou com deficiências físicas podem experienciar dificuldades em passar pelo período menstrual em ambientes inacessíveis e lidar com sensibilidades sensoriais.

Teoria Queer Rejeitam binarismos de gênero e a biologização da menstruação, desafiando a ideia de que menstruar é exclusivo de mulheres cisgêneras.

Teorias Decoloniais e Pós-coloniais Propõem a descentralização do Norte Global nos debates e investigam como a colonização moldou práticas menstruais por meio da imposição de normas culturais, médicas e religiosas.

Principais autoras

Chris Bobel – University of Massachusetts Inga T. Winkler – Wageningen University Breanne Fahs – Arizona State University Katie Ann Hasson – Center for Genetics and Society Elizabeth Arveda Kissling – Eastern Washington University Tomi-Ann Roberts – Colorado College

Referências

Ligações externas

Bobel, Chris. ''New Blood: Third-Wave Feminism and the Politics of Menstruation''. Rutgers University Press, 2010. Bobel, Chris. ''The Managed Body: Developing Girls and Menstrual Health in the Global South''. Springer International Publishing, 2019. Brown, Joe; et al. "The effects of racism, social exclusion, and discrimination on achieving universal safe water and sanitation in high-income countries". The Lancet Global Health, v. 11, n. 4, p. e606–e614, 2023. Fahs, Breanne. ''Out for Blood: Essays on Menstruation and Resistance''. SUNY Press, 2016. Fahs, Breanne. "Genital panics: Constructing the vagina in women's qualitative narratives about pubic hair, menstrual sex, and vaginal self-image". Body Image, v. 11, n. 3, p. 210–218, 2014. Hasson, Katie Ann. "Not a 'real' period? Social and material constructions of menstruation". Gender & Society, v. 30, n. 6, p. 958–983, 2016. Hasson, Katie Ann. ''No Need to Bleed: Technologies and Practices of Menstrual Suppression''. University of California, Berkeley, 2012. Hennegan, Julie; et al. "Menstrual health: a definition for policy, practice, and research". Sexual and Reproductive Health Matters, v. 29, n. 1, p. 31–38, 2021. Kissling, Elizabeth Arveda. "Bleeding out loud: Communication about menstruation". Feminism & Psychology, v. 6, n. 4, p. 481–504, 1996. Kissling, Elizabeth Arveda. "On the rag on screen: Menarche in film and television". Sex Roles, v. 46, p. 5–12, 2002. Kissling, Elizabeth Arveda. "Pills, periods, and postfeminism: The new politics of marketing birth control". Feminist Media Studies, v. 13, n. 3, p. 490–504, 2013. Olson, Mary M.; et al. "The persistent power of stigma: A critical review of policy initiatives to break the menstrual silence and advance menstrual literacy". PLOS Global Public Health, v. 2, n. 7, p. e0000070, 2022. Roberts, Tomi‐Ann; et al. "‘Feminine protection’: The effects of menstruation on attitudes towards women". Psychology of Women Quarterly, v. 26, n. 2, p. 131–139, 2002. Roberts, Tomi-Ann. "Female trouble: The menstrual self-evaluation scale and women's self-objectification". Psychology of Women Quarterly, v. 28, n. 1, p. 22–26, 2004. Vostral, Sharra L. ''Toxic Shock: A Social History''. New York University Press, 2018. Vostral, Sharra L. "Of mice and (wo)men: tampons, menstruation, and testing". In: Bobel, C. et al. (eds.) The Palgrave Handbook of Critical Menstruation Studies, p. 673–686, Palgrave Macmillan, 2020. Winkler, Inga T.; Roaf, Virginia. "Taking the bloody linen out of the closet: Menstrual hygiene as a priority for achieving gender equality". Cardozo Journal of Law & Gender, v. 21, p. 1, 2014.

Categoria:Ciclo menstrual