miniaturadaimagem|Estudantes da província de Java Oriental plantando árvores, como parte do Dia da Terra, em 2022.
O financiamento climático na Indonésia refere-se aos recursos financeiros destinados a apoiar ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas no país. Como o quinto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, posição atribuída principalmente ao desmatamento (perda de 60.000 km² de florestas primárias entre 2000 e 2012) e à dependência de combustíveis fósseis (85% da matriz energética em 2023), a Indonésia é simultaneamente um ator-chave na crise climática global e um dos países mais vulneráveis aos seus impactos, como a elevação do nível do mar e intensificação de desastres naturais.
Os mecanismos de financiamento abrangem desde padrões internacionais como REDD+ e mercados de carbono até instrumentos inovadores como sukuk verdes (títulos verdes islâmicos) e waqf ecológicos (doações religiosas para conservação). Contudo, desafios históricos – como centralização fundiária herdada do período colonial, conflitos entre direitos consuetudinários (adat) e legislação estatal, e subsídios a setores poluentes – complicam a alocação eficiente de recursos. Entre 2011 e 2023, o país captou US$ 78 bilhões para transição energética e conservação florestal, mas críticos apontam lacunas na governança e na distribuição equitativa de benefícios.
Contexto climático e econômico A Indonésia, arquipélago de mais de 17.000 ilhas e quarto país mais populoso do mundo, enfrenta um cenário complexo frente ao crescimento econômico e à crise climática, marcado por um modelo de desenvolvimento baseado na exploração intensiva de recursos naturais. A degradação acelerada das florestas tropicais e a expansão do setor de azeite de dendê têm gerado graves impactos socioambientais, enquanto o setor energético, fortemente dependente de combustíveis fósseis, representa hoje a principal fonte de emissões do país.
Apesar de compromissos internacionais e do potencial para fontes renováveis, entraves estruturais, subsídios ao carvão e políticas fragmentadas dificultam a transição para uma economia de baixo carbonodemanda energética crescente e pressões climáticas. Com uma população que deve ultrapassar 300 milhões até 2030 e uma rápida urbanização, o país registra aumento no consumo de energia e nas emissões de gases de efeito estufa.
Florestas A cobertura florestal da Indonésia, terceiro maior bioma tropical do mundo, enfrenta pressões históricas vinculadas a modelos econômicos baseados em commodities, e enfrenta desafios complexos na intersecção entre conservação florestal e desenvolvimento econômico. Em 1900, as florestas ocupavam 84% do território nacional, mas já em 1950 restavam 145 milhões de hectares de floresta primária e 14 milhões de hectares de florestas secundárias e manguezais, segundo estimativas históricas. A partir dos anos 1970, a exploração madeireira ganhou escala industrial, impulsionando setores como celulose e papel – entre 1980 e 2000, a capacidade produtiva dessas indústrias cresceu 700%, elevando a Indonésia ao nono lugar entre os maiores produtores globais de celulose.
A aceleração do desmatamento tornou-se crítica nas décadas seguintes: entre 1990 e 2000, o país perdeu 24 milhões de hectares de florestas (20% da cobertura total), restando 94 milhões de hectares (52% do território) em 2010.
Apesar da moratória sobre novas concessões de desmatamento instituída em 2011, a fiscalização deficiente e a corrupção mantiveram altos índices, com pico de 930 mil hectares desmatados em 2016. Entre 2000 e 2012, o país perdeu aproximadamente 60.000 km² de floresta primária, superando o Brasil em taxa anual de desmatamento em 2012 (8.400 km² contra 4.600 km²), impulsionado principalmente pela expansão de plantações de dendezeiros.
Entre os principais vetores do desmatamento (2001–2016), destacam-se a expansão do óleo de palma (23% do total), responsável pela conversão direta de 3,3 milhões de hectares de florestas, e a transformação de áreas em pastagens ou savanas (20%), muitas vezes associada a incêndios ilegais. A agricultura de pequena escala e infraestruturas madeireiras, como estradas e clareiras, contribuíram com 22% e 10%, respectivamente, enquanto atividades como mineração – sobretudo de níquel na ilha de Celebes, impulsionada pela demanda global por baterias – representaram 5%.
Apesar desses impactos, o setor de azeite de dendê e o de madeira geram, juntos, cerca de 45 bilhões de dólares em receitas de exportação por ano para a Indonésia. miniaturadaimagem|Desmatamento de uma floresta turfeira para a plantação de dendezeiros.|esquerda Azeite de Dendê A Indonésia é o maior produtor mundial de azeite de dendê, que é a principal matéria-prima para seu biodiesel. A extração de madeira e as plantações de dendezeiro têm impulsionado o crescimento econômico, mas ao mesmo tempo provocam desmatamento em larga escala.
Atualmente, apenas 49% do território do país é coberto por florestas, contra uma estimativa histórica de 84%. Entre 2001 e 2016, as plantações de dendê foram responsáveis por 23% desse desmatamento.
A expansão de monoculturas de dendezeiros na Indonésia, frequentemente associada à substituição de florestas tropicais ou áreas agrícolas que já existiam no local, intensificou pressões ambientais e sociais durante o final do século XX e início do século XXI. Estima-se que até 80% do desmatamento vinculado ao setor - responsável pela perda de 840 mil hectares de floresta primária anualmente entre 2000 e 2012 - ocorra de forma ilegal.
A destruição de turfeiras, que capturam até 20 vezes mais carbono do que florestas tropicais não alagadas, amplifica as emissões de dióxido de carbono: incêndios ilegais para limpeza de terras liberaram entre 0,81 e 2,57 bilhões de toneladas de carbono em 1997, equivalente a 13–40% das emissões globais de combustíveis fósseis naquele ano.
A degradação ambiental estende-se a solos e recursos hídricos: cada tonelada de azeite de dendê produzida gera 2,5 toneladas de efluentes tóxicos, contaminando ecossistemas aquáticos. O uso intensivo de agroquímicos, como pesticidas e fertilizantes, aliado à erosão em encostas íngremes (comum em plantações), agrava inundações e assoreamento de rios, ameaçando as infraestruturas locais.
A perda de biodiversidade é crítica, com espécies endêmicas como orangotangos, tigres-de-sumatra e elefantes-pigmeus ameaçadas por incêndios e pela fragmentação de seus habitats.
No plano socioeconômico, embora o setor empregue 16 milhões de pessoas e represente cerca de 4,5% do PIB, comunidades indígenas, como os Dayak na região de Calimantã, enfrentam deslocamentos forçados e conflitos fundiários: mais de 630 disputas territoriais vinculadas a plantações foram registradas até 2010.
A saúde pública é comprometida pela poluição do ar – em 2015, a névoa transfronteiriça (Southeast Asian Haze) contribuiu para 103.300 mortes prematuras na região. Além disso, uma denúncia feita em 2016 pela Anistia Internacional afirmava que trabalhadores da empresa Wilmar International teriam sofrido graves danos à saúde em decorrência da aplicação de herbicidas como o paraquat, proibido na Europa mas ainda utilizado nas plantações de dendezeiros, sem equipamentos de proteção adequados. Mulheres e crianças são particularmente vulneráveis a estes riscos: menores trabalham informalmente para auxiliar pais em metas de produção, enquanto mulheres, frequentemente contratadas sem benefícios sociais, manuseiam químicos tóxicos.
Energia miniaturadaimagem|Usina de gás natural da empresa Badak LNG, na cidade de Bontang, na ilha de Bornéu. O setor energético é central no debate climático indonésio. Apesar de possuir recursos renováveis abundantes, como energia geotérmica, hidrelétrica e biocombustíveis, sua matriz energética ainda depende em 85% de combustíveis fósseis, especialmente carvão e gás natural.
Estima-se que o setor energético seja responsável por 50% a 70% das emissões nacionais até 2030, superando o desmatamento. O crescimento da demanda por eletricidade, impulsionado pela industrialização e urbanização, tende a consolidar infraestruturas baseadas em carvão, gerando riscos de "ativos encalhados" em um cenário global de descarbonização. A Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA) alerta que, sem políticas urgentes, a demanda energética aumentará 80% até 2030, travando o país em tecnologias poluentes e economicamente obsoletas.
Após o Acordo de Paris, o governo indonésio estabeleceu metas ambiciosas para sua contribuição nacionalmente determinada, como reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 29% até 2030 (ou 41%, com apoio internacional) e ampliar a participação de energias renováveis para 31% de sua matriz primária até 2050. No entanto, desafios como subsídios históricos a combustíveis fósseis, políticas inconsistentes, estruturas monopolizadas no setor energético e falta de transparência nos custos dificultam o cumprimento desses objetivos. Estudos indicam que uma transição verde economicamente viável é possível, mas requer investimentos significativos: projeções indicam a necessidade de até US$ 78 bilhões em investimento até 2030 para modernizar as redes elétricas de Java e Sumatra, regiões que concentram 70% da geração nacional.
Por ser composto de 17.508 ilhas, o país ainda não possui uma rede elétrica totalmente interconectada. Muitas ilhas dependem de sistemas isolados para gerar energia, que estão distribuídos em várias zonas. O país pretende modernizar toda a estrutura de sua rede, ampliando a capacidade e incluindo a expansão de fontes renováveis, além de conectar as ilhas entre si. Para executar essas mudanças, o governo afirma que são necessários mais de 20 bilhões de dólares americanos.
Em 2023, as emissões totais de CO₂ do país chegaram a cerca de 1,2 bilhões de toneladas métricas. A principal fonte dessas emissões é o setor de energia, com usinas termoelétricas a carvão respondendo por mais de 60% da geração de eletricidade. Outros contribuintes importantes incluem desmatamento, mudanças no uso da terra causadas pela expansão do cultivo de azeite de dendê e atividades industriais.
Para reduzir essas emissões e cumprir suas metas climáticas, o governo indonésio prometeu não aprovar novas usinas termoelétricas a carvão. Empresas que investirem em Captura de Carbono, energia renovável ou projetos de conservação florestal podem vender créditos de carbono no mercado regulado da Indonésia.
O setor de transporte na Indonésia gera cerca de 150 milhões de toneladas métricas de CO₂ por ano, o que equivale a quase um quarto das emissões totais do país. O transporte rodoviário (carros, ônibus, caminhões e motos) é responsável por 90% dessas emissões no setor. Embora exista transporte público e ele esteja em expansão, 72% dos indonésios ainda depende de transporte privado. Em Jacarta, o TransJakarta BRT é um dos maiores sistemas de ônibus de trânsito rápido, atendendo a mais de 1 milhão de passageiros diariamente. Em 2023, foi inaugurado o trem de alta velocidade Jacarta-Bandung, o primeiro do tipo no Sudeste Asiático, com o objetivo de reduzir o tempo de viagem e as emissões associadas.
A Indonésia estabeleceu metas ambiciosas para alcançar 75% de energia limpa até 2040. Os setores de geotermia e hidroelétricos são vistos como fundamentais para atingir esse objetivo. O governo e a empresa de eletricidade estatal Perusahaan Listrik Negara (PLN) emitiram novas regulamentações e criaram fundos para apoiar esse crescimento. A PLN também reconheceu a importância da participação do setor privado e delineou planos de colaboração. Estima-se que serão necessários 154 bilhões de dólares para cumprir as metas climáticas. Atualmente, a capacidade instalada de energia limpa representa apenas 12% do total. Em 2023, o investimento em energia limpa na Indonésia atingiu cerca de 497,99 milhões de dólares, um aumento de 78% em relação a 2022 (279,93 milhões).