Peguei Um Ita no Norte foi o enredo apresentado pelo Salgueiro no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 1993. Com o desfile, a escola conquistou o seu oitavo título de campeã do carnaval carioca, quebrando o jejum de dezessete anos sem conquistas. O título anterior da escola foi conquistado no carnaval de 1975.
O grande sucesso do desfile de 1993 foi o samba-enredo, composto por por Demá Chagas, Arizão, Bala, Guaracy e Celso Trindade, também conhecido como "Explode Coração" por causa do emblemático refrão "Explode coração! / Na maior felicidade / É lindo o meu Salgueiro! / Contagiando, sacudindo essa cidade". O samba é comumente listado entre os mais marcantes da história do carnaval. Foi cantado pelo público presente no Sambódromo durante toda a exibição da escola, proporcionando um momento de catarse coletiva na Marquês de Sapucaí. Fora do carnaval, é um dos sambas mais executados e regravados no Brasil e foi adaptado como canto de torcidas de futebol.
O enredo do desfile foi desenvolvido pelo carnavalesco Mário Borriello, que se inspirou na canção "Peguei Um Ita no Norte" (1945) de Dorival Caymmi, para criar uma viagem fictícia entre Belém do Pará e Rio de Janeiro, a bordo de um "Ita", nome dado aos navios que faziam a navegação de cabotagem entre o Norte e o Sul do Brasil. Na fictícia viagem proposta pelo enredo, um migrante paraense passa por várias capitais do Nordeste brasileiro, onde conhece mais sobre a cultura de cada região, até chegar ao Rio, onde se encanta com o carnaval carioca.
O Salgueiro foi a terceira escola a se apresentar na segunda noite do Grupo Especial, em 22 de fevereiro de 1993. Especialistas aclamaram o desfile com adjetivos como "histórico", "brilhante" e "deslumbrante"; e apontaram a escola como favorita ao campeonato. O Salgueiro recebeu quatro prêmios do Estandarte de Ouro: melhor escola, melhor bateria, melhor enredo e ala de crianças. Confirmando a expectativa, o Salgueiro venceu o carnaval com 2,5 pontos de vantagem sobre a vice-campeã, Imperatriz Leopoldinense.
Antecedentes O Salgueiro chegou ao carnaval de 1993 enfrentando um jejum de dezessete anos sem vitórias. O último título da agremiação tinha sido conquistado no carnaval de 1975 com o enredo "O Segredo das Minas do Rei Salomão", do carnavalesco Joãosinho Trinta. Com a transferência de Joãosinho para a Beija-Flor, o Salgueiro passou a trocar quase que anualmente de carnavalesco, além de enfrentar crises políticas e financeiras. O cenário começou a mudar em 1987 com a chegada do bicheiro Miro Garcia à escola. Com o apoio financeiro de Miro, a escola voltou a mostrar competitividade, atingindo, como melhor resultado da gestão de Miro até então, o vice-campeonato do carnaval de 1991, quando desfilou com o enredo "Me Masso se não Passo pela Rua do Ouvidor" de Rosa Magalhães. Com a transferência de Rosa para a Imperatriz Leopoldinense, o carnavalesco Flávio Tavares começou a desenvolver o enredo de 1992, sobre a história do café, mas se desligou da escola meses antes do desfile. O cenógrafo e figurinista Mário Borriello assumiu o carnaval da agremiação, fazendo sua estreia como carnavalesco. A escola se classificou em quarto lugar em 1992 e o trabalho de Boriello foi aprovado por Miro, que manteve o carnavalesco para o ano seguinte, com liberdade para criar o enredo de 1993.
O enredo esquerda|miniaturadaimagem|O carnavalesco Mário Borriello, autor do enredo salgueirense. O enredo do desfile, assinado pelo carnavalesco Mário Borriello, foi inspirado na música "Peguei Um Ita no Norte", lançada em 1945 por Dorival Caymmi. A canção foi inspirada na viagem costeira do compositor baiano para o Rio de Janeiro, em 1938, a bordo do vapor "Itapé". Ita era o nome que se dava aos navios que faziam a navegação de cabotagem, entre o Norte e o Sul do Brasil. Essa denominação era usada porque a Companhia Nacional de Navegação Costeira dava nomes a suas embarcações sempre começando por "ita", que significa pedra na língua tupi: Itaquatirara, Itapé, Itanajé, entre outros. O enredo criado por Borriello narra uma fictícia viagem de um migrante paraense a bordo de um ita, saindo de Belém do Pará em direção ao Rio de Janeiro. Em cada porto que o ita para, o migrante entra em contato com a cultura do local. O enredo foi dividido em três partes: "A Partida" (sobre a emoção da despedida do migrante de sua terra natal); "Os Brasis" (sobre hábitos e culturas de parte do Brasil); e "A Integração" (com o migrante totalmente adaptado à nova vida no Rio de Janeiro).
O enredo começa no Círio de Nazaré, antes da partida do Ita, em Belém. A primeira parada do Ita foi no Maranhão, onde o viajante conheceu o Bumba Meu Boi, o Centro Histórico de São Luís e os casarões antigos da cidade. A segunda parada foi em Fortaleza, no Ceará, onde o migrante participou da romaria de Padre Cícero, e conheceu o artesanato de cerâmica e o artesanato com renda das famosas rendeiras cearenses. A terceira parada foi em Natal, no Rio Grande do Norte, onde o viajante conheceu as famosas salinas do estado. A quarta parada foi no Recife, em Pernambuco, onde o migrante conheceu a Feira de Caruaru, o Frevo e o Maracatu pernambucano. A quinta parada do Ita foi em Maceió, em Alagoas, onde o viajante conheceu o Reisado e as plantações de cana-de-açúcar da região. A sexta parada foi em Aracaju, no Sergipe, onde o migrante conheceu as vaquejadas e a história dos cangaceiros Lampião e Maria Bonita, mortos na região. A sétima parada do Ita foi em Salvador, na Bahia, onde o viajante tocou berimbau, comeu os "quindins de yayá" e conheceu mais sobre o candomblé. A última parada é no destino final, a cidade do Rio de Janeiro, onde o migrante entra em contato com o surf, o futebol, as favelas e o carnaval carioca. O enredo é finalizado no próprio carnaval, onde o migrante, estabelecido no Rio de Janeiro, adota o Salgueiro como escola de samba do coração e assiste sua história ser contada num desfile na Marquês de Sapucaí.
O samba-enredo miniaturadaimagem|280x280px|Quinho foi o intérprete responsável por gravar a conduzir o samba no desfile. O samba-enredo do desfile foi composto por Demá Chagas, Arizão, Bala, Guaracy e Celso Trindade, e lançado oficialmente no álbum Sambas de Enredo - Grupo Especial - Carnaval 93, com interpretação de Quinho. O concurso realizado pelo Salgueiro para escolha do samba teve início em 29 de agosto de 1992, com quatorze obras concorrentes. O processo de escolha foi realizado em forma de classificatória, com os sambas sendo apresentados na quadra e avaliados pela direção da escola com eliminatórias semanais. A final do concurso foi realizada em 17 de outubro de 1992 com seis sambas concorrentes. O samba vencedor recebeu 25 votos contra onze votos para a parceria de Sereno, Diogo, Luiz Fernando e Fernando Baster e um voto para a obra composta por Márcio Paiva, Helinho do Salgueiro, Nelson Rosa e Amaury da Cuíca. Esse foi o décimo samba do compositor Bala no Salgueiro; o quarto samba de Arizão; o terceiro samba de Demá Chagas; o segundo de Celso Trindade; e o primeiro de Guaracy na escola. Apesar do sucesso, o samba não começou a disputa como favorito, conquistando a torcida aos poucos. Seus críticos consideravam que ele não contava tão bem o enredo quanto o samba da parceria de Sereno, que era mais descritivo. Uma das críticas ao samba vencedor é que ele não citava todas as capitas abordadas no enredo. A viagem do Ita era rapidamente resumida no trecho "Em cada porto que passo / Eu vejo e retrato em fantasia / Cultura, folclore e hábitos / Com isso refaço minha alegria"; enquanto o samba da parceria de Sereno citava aspectos culturais de cada estado por onde o Ita passava.
Letra
Na primeira parte do samba, o narrador se despede de Belém do Pará e pega um Ita rumo ao Rio de Janeiro ("Lá vou eu... / Me levo pelo mar da sedução / Sou mais um aventureiro / Rumo ao Rio de Janeiro / Adeus Belém do Pará / Um dia eu volto, meu pai / Não chore, pois vou sorrir / Felicidade, o velho Ita vai partir"). No refrão central do samba, o narrador expressa o que sentiu durante a viagem ("Oi, no balanço das ondas, eu vou / No mar eu jogo a saudade, amor / O tempo traz esperança e ansiedade / Vou navegando em busca da felicidade"). A segunda parte do samba começa com o narrador resumindo a sua passagem por portos de diversas capitais brasileiras ("Em cada porto que passo / Eu vejo e retrato em fantasia / Cultura, folclore e hábitos / Com isso refaço minha alegria") até a chegada ao destino final, no Rio de Janeiro, onde fica encantado com o carnaval carioca ("Chego ao Rio de Janeiro / Terra do samba, da mulata e futebol / Vou vivendo o dia a dia / Embalado na magia / Do seu carnaval"). O refrão principal do samba faz menção ao final do enredo de Mário Borriello, quando o viajante, vivendo no Rio há algum tempo, escolhe o Salgueiro como sua escola de samba ("Explode coração / Na maior felicidade / É lindo meu Salgueiro / Contagiando e sacudindo esta cidade"). O refrão principal foi composto anos antes. Seu autor, Demá Chagas, aguardava um enredo em que pudesse utilizá-lo.
O desfile miniaturadaimagem|300x300px|Comissão de Frente que abriu o desfile do Salgueiro de 1993: "Oficiais da Marinha". O Salgueiro foi a terceira das sete escolas que se apresentaram na segunda noite do Grupo Especial de 1993, iniciando seu desfile por volta das 22 horas da segunda-feira de carnaval, dia 22 de fevereiro de 1993. O desfile foi dividido em três partes e contou com a participação de cinco mil e quinhentos componentes, distribuídos em 37 alas e doze alegorias.
Roteiro "A Partida"
A primeira parte do desfile simbolizou a partida do Ita de Belém do Pará. O desfile foi aberto pela Comissão de Frente representando os "Oficiais da Marinha". Quinze homens com roupas brancas, simulando o uniforme de marinheiro, faziam uma coreografia com bandeiras nas cores vermelho e branco em referência aos movimentos de sinalização da Marinha. miniaturadaimagem|300x300px|Carro abre-alas: "A Festa do Círio de Nazaré".|esquerda Após a Comissão de Frente, desfilou o carro abre-alas, que simbolizou uma procissão marítima do Círio de Nazaré, manifestação religiosa católica, em devoção a Nossa Senhora de Nazaré, que ocorre em Belém todo segundo domingo de outubro. A frente da alegoria tinha a reprodução de cinco barcos, nas cores vermelho e branco. Acima deles, um letreiro com o nome "Salgueiro", decorado com lâmpadas. Em cima dos barcos, componentes desfilavam com fantasias de marinheiro e pescadores. No barco central desfilou Sabrina Garcia, esposa de Maninho Garcia, presidente da escola. A parte traseira da alegoria, atrás dos barcos, tinha a reprodução da berlinda onde a imagem de Nossa Senhora de Nazaré é transportada na procissão do Círio. Acima da berlinda, uma coroa giratória fazia referência à imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Esculturas de anjos também decoravam a parte de trás da alegoria. miniaturadaimagem|300x300px|A segunda alegoria do desfile, "O Velho Ita". Após o abre-alas desfilou uma ala coreografada representando os romeiros do Círio de Nazaré. Em seguida, alas representaram os vendedores de peixes, de frutas e de pássaros do Mercado Ver-o-Peso. A segunda alegoria, "O Velho Ita", foi a maior do desfile. Simbolizando a partida do Ita, o carro reproduziu um navio, nas cores vermelho e branco. A triatleta Fernanda Keller desfilou como destaque no alto da alegoria. Em seguida, desfilaram alas com fantasias em referência ao mar. Encerrando a primeira parte do desfile, desfilou a terceira alegoria, que também fez referência ao mar por onde navegou o navio. A alegoria tinha esculturas de cavalos marinhos prateados e decoração em forma de ondas, em tons de prata e branco, contrastando com uma escultura colorida de Iemanjá. esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Terceira alegoria: "Primeiro Porto - São Luís do Maranhão". "Os Brasis"