thumb|Protesto contra as mudanças climáticas durante a COP 17 em Durban

O financiamento climático na África do Sul engloba mecanismos públicos e privados destinados a apoiar a mitigação das emissões de gases de efeito estufa e a adaptação aos impactos das mudanças climáticas, mobilizando recursos nacionais e internacionais para projetos de energia renovável, resiliência hídrica, infraestrutura de baixo carbono e iniciativas de transição energética justa.

Dentre as principais iniciativas, destacam-se o Renewable Energy Independent Power Producer Procurement Programme (REIPPPP), que atraiu 16 bilhões de dólares em investimentos privados para 79 projetos de energia solar e eólica, totalizando 5.243 MW instalados; o Just Energy Transition Partnership (JETP), que prevê 8,5 bilhões de dólares de financiamento catalítico de parceiros internacionais entre 2023 e 2027 para apoiar a descarbonização; e o Fundo Verde para o Clima (GCF, sigla em inglês), que apoia projetos como o “Climate Change Resilience through South Africa’s Water Reuse Programme” (FP209) e o Embedded Generation Investment Programme (FP106). Além disso, o Development Bank of Southern Africa (DBSA) opera um Green Fund que concede até 25 milhões de rands para estudos de viabilidade e até 70 milhões de rands para investimentos, e emite bônus verdes sob seu próprio framework.

Apesar dos avanços, o país enfrenta desafios internos para absorver fundos externos que exigem maior coordenação governamental e parcerias público-privadas eficazes.

Contexto sul-africano Vulnerabilidades climáticas

A África do Sul está entre os países mais vulneráveis às mudanças climáticas na África, enfrentando riscos elevados de escassez hídrica, eventos extremos e impactos socioeconômicos, com índice ND-GAIN de vulnerabilidade, feito pela Universidade de Notre Dame, que a posiciona em 92º lugar entre 181 países em 2020. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) alerta que o continente africano, incluindo a África do Sul, experimentará aumentos de temperatura sem precedentes e requer significativa ampliação de financiamento para fortalecer sua capacidade adaptativa.

Estrutura institucional e marcos legais

O enquadramento político-legal para o financiamento climático sul-africano inclui a Lei de Mudanças Climáticas de 2022, que instituiu limites de emissões e criou a Comissão Presidencial sobre o Clima, encarregado de monitorar o cumprimento das metas nacionais. A Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) da África do Sul estabelece objetivos de redução de 350 MtCO₂e até 2030, exigindo investimento médio de 535 bilhões de rands por ano, enquanto a meta de neutralidade até 2050 demandaria 334 bilhões de rands ao ano. O país também aderiu à Agenda 2030 da ONU e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), incorporando diretrizes de adaptação e mitigação no plano nacional de desenvolvimento.

Os principais instrumentos financeiros empregados na África do Sul abrangem linhas de crédito concessionais, garantias, subsídios, emissão de títulos verdes e mecanismos de mitigação de riscos, como contratos de compra de energia (PPAs) e seguros climáticos. Em 2019-2021, 75 % dos recursos foram mobilizados via empréstimos e financiamentos com juros de mercado, 18 % por meio de capital de risco e o restante em subsídios e financiamentos concessionais. A participação de instituições multilaterais, como o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento, é expressiva, por meio de linhas de crédito e garantias que visam reduzir o custo de captação para projetos de energia renovável e infraestrutura resiliente.

Fluxos de financiamento

Mecanismos de canalização e monitoramento

Os recursos de financiamento climático na África do Sul são, em grande parte, canalizados por meio de intermediários financeiros especializados, sendo o Green Fund e o Climate Finance and Green Economy (CF\&GE) Unit do Tesouro Nacional os principais pontos de convergência para a cofinanciação e coordenação de projetos de baixa emissão de carbono e adaptação climática. O Green Fund, administrado pelo Departamento de Florestas, Pesca e Meio Ambiente (DFFE) da África do Sul, funciona como um mecanismo catalítico que provê subsídios para iniciativas de energia limpa, gestão de resíduos e mobilidade sustentável, exigindo que os projetos demonstrem adicionalidade econômica e benefícios sociais claros. Paralelamente, o CF\&GE Unit articula-se com instituições multilaterais — como o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento — para alinhar linhas de crédito concessionais e garantias de risco, reduzindo o custo de capital e atraindo investimentos privados para empreendimentos climáticos.

Para assegurar a transparência e a eficácia na aplicação dos recursos, a África do Sul adotou o Green Finance Taxonomy, que padroniza a classificação de atividades elegíveis para financiamento verde e orienta investidores e reguladores na identificação de projetos compatíveis com objetivos de mitigação e adaptação. Em complemento, o país dispõe de um sistema nacional de Mensuração, Relato e Verificação (MRV), estabelecido no âmbito da Lei de Mudanças Climáticas de 2022, que exige que órgãos federais, provinciais e municipais submetam relatórios periódicos sobre emissões de gases de efeito estufa, progresso de medidas de adaptação e fluxos financeiros associados. Esse sistema MRV articula-se com o National Climate Change Response Monitoring and Evaluation Framework, coordenado pela Comissão Presidencial de Mudanças Climáticas, para consolidar dados de projetos financiados, avaliar impactos e orientar revisões de políticas públicas.

No nível de projetos, o South African National Biodiversity Institute (SANBI), como entidade de acesso direto ao Fundo Verde para o Clima, implementa protocolos de monitoramento de resultados socioambientais em iniciativas de restauração de ecossistemas e reuse de água, reportando indicadores de adaptação e mitigação ao Green Climate Fund. Além disso, a Small Grants Facility (SGF) do Adaptation Fund oferece apoio técnico e financeiro a comunidades vulneráveis para elaboração de propostas, garantindo que os pequenos projetos cumpram padrões de qualidade e gerem evidências de resultados. Complementarmente, o Banco de Reserva da África do Sul (SARB) desenvolve uma estrutura macroprudencial para monitorar riscos climáticos no sistema financeiro, incluindo avaliações de estresse climático em bancos e seguradoras, com o objetivo de integrar riscos físicos e de transição nas decisões de política monetária.

O Budget Review do Tesouro Nacional da África do Sul inclui um capítulo específico sobre finanças verdes, no qual são detalhadas as alocações orçamentárias para programas climáticos e os indicadores de performance, permitindo ao Legislativo e à sociedade civil acompanhar a execução dos fundos públicos destinados à mitigação e à adaptação. Por fim, a Climate Policy Initiative (CPI) contribui para o aprimoramento contínuo do sistema de rastreamento de fluxos financeiros, publicando periodicamente o relatório “South African Climate Finance Landscape”, que mapeia fontes, intermediários e instrumentos financeiros, e identifica lacunas de dados e oportunidades de aprimoramento na cadeia de canalização e monitoramento.

Público

O Green Fund, gerido pelo Departamento de Florestas, Pesca e Meio Ambiente (DFFE), provê financiamento catalítico para iniciativas de baixo carbono que promovam redução da pobreza e geração de empregos, apoiando apenas projetos que não ocorreriam sem seu suporte. Estão disponíveis subsídios e aportes para gerenciamento de resíduos, eficiência energética e mobilidade sustentável.

Assinado na COP26 de 2021, o JETP é uma parceria entre Reino Unido, União Europeia, Estados Unidos e mais de seis países doadores, que comprometeu 8,5 bilhões de dólares para apoiar a transição energética justa na África do Sul, incluindo a conversão de usinas de carvão em hubs de energia limpa e requalificação de trabalhadores da mineração.

Em 2023, o Banco Mundial aprovou um empréstimo de 1 bilhão de dólares para modernizar a rede elétrica e estimular a incorporação de fontes renováveis, além de uma linha de 439,5 milhões de dólares para conversão de termelétricas de carvão em projetos híbridos de energia solar e eólica.

A África do Sul possui diversos projetos aprovados no GCF, como o “Climate Change Resilience through South Africa’s Water Reuse Programme” (FP209) e o programa “Climate Investor Two” (FP190), totalizando centenas de milhões de dólares em financiamento para adaptação e mitigação, distribuídos entre concessões e instrumentos de cofinanciamento.

Desde 2016, o Instituto Sul-Africano de Biodiversidade (SANBI) atua como entidade de acesso direto ao GCF, desenvolvendo propostas, supervisionando execuções e monitorando os resultados de projetos voltados à adaptação baseada em ecossistemas e conservação de água.

Privado

O setor privado sul-africano mobilizou, em média, 113 bilhões de rands anuais em 2019-2021, sobretudo em projetos de energia solar, eólica e eficiência energética, representando 86 % do total de fluxos financeiros climáticos nacionais. Essas iniciativas foram financiadas por meio de dívida corporativa, títulos verdes listados nas bolsas de valores de Joanesburgo e Londres, além de investimentos de fundos de private equity especializados em tecnologia limpa. Destacam-se fundos como o Climate Investor Two, que canaliza capital de risco para empreendimentos de energias renováveis, e fintechs que oferecem soluções de microfinanciamento para adaptação nas comunidades rurais.

Principais setores beneficiados

Os setores que concentram a maior parte dos investimentos em financiamento climático na África do Sul são energia limpa, transporte de baixo carbono, resiliência hídrica (smart water), economia circular e agricultura sustentável. Em adição, áreas como biodiversidade e conservação, gestão de resíduos e construção sustentável têm atraído volumes crescentes de recursos, sobretudo por meio de mecanismos catalíticos e instrumentos inovadores de mercado.

Energia limpa thumb|Usina eólica no Cabo Ocidental, África do Sul

O setor de energia limpa é o que mais capta recursos de financiamento climático. Projetos de geração solar fotovoltaica, parques eólicos terrestres e híbridos (solar + eólico) têm sido favorecidos por financiamentos multilaterais e privados, frequentemente estruturados como contratos de compra de energia (PPAs) de longo prazo. Além disso, programas como o Renewable Energy Independent Power Producer Procurement Programme (REIPPPP) têm atraído capital estrangeiro e garantias de risco para reduzir o custo de captação e viabilizar o descomissionamento de usinas a carvão.

Agricultura sustentável

A agricultura sustentável concentra projetos de agroflorestamento, conservação de solo e sistemas integrados de produção resiliente à seca apoiados por subsídios do Adaptation Fund e linhas de crédito do Banco Africano de Desenvolvimento. Iniciativas de microfinanciamento e seguro climático indexado também têm sido promovidas por fintechs especializadas, visando aumentar a adaptação de pequenos produtores.

Infraestrutura urbana e edificações

Projetos de construção sustentável e eficiência energética em edificações públicas e residenciais vêm crescendo graças a garantias parciais de crédito do Banco Mundial e subsídios do Green Fund que cobrem estudos de viabilidade e certificação ambiental, contribuindo para reduzir emissões indiretas e custos operacionais de energia. A adoção de normas nacionais de construção verde (SANS 10400-XA) tem sido incentivada por estes mecanismos.

Desafios