Gwen Amber Rose Araujo (24 de fevereiro de 1985 – 4 de outubro de 2002) foi uma adolescente estadunidense assassinada em Newark, Califórnia, aos 17 anos. Ela foi morta por quatro homens, dois dos quais tiveram relações sexuais com ela, que a espancaram e estrangularam após descobrirem que era transgênero. Dois dos réus foram condenados por , mas sem as acusações adicionais de crime de ódio. Os outros dois réus se declararam culpados ou não contestaram a acusação de homicídio culposo. Em pelo menos um dos julgamentos, foi utilizada a defesa conhecida como "pânico trans", uma extensão da defesa de pânico gay.
Merel e Magidson foram condenados à prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional após 15 anos. Merel obteve liberdade condicional antecipada em 2016, após demonstrar remorso significativo à mãe de Araujo, que apoiou a decisão. Magidson, por outro lado, nunca demonstrou remorso e teve a liberdade condicional negada três vezes desde a sentença.
Biografia Gwen Araujo nasceu em 24 de fevereiro de 1985, em Brawley, Califórnia, filha de Edward Araujo e Sylvia Guerrero. Seus pais se divorciaram quando ela tinha 10 meses.
Araujo assumiu sua identidade transgênero em 1999, aos 14 anos, e passou a usar o nome Gwen, inspirado em sua musicista favorita, Gwen Stefani, embora também usasse os nomes Wendy e Lida. Ela começou a deixar o cabelo crescer e planejava iniciar terapia hormonal feminizante e cirurgia. Sua irmã mais velha relatou que Gwen sofreu bullying no ensino fundamental devido à sua voz e comportamento. Ela foi transferida para uma escola secundária alternativa, mas não retornou para o ano letivo de 2002–03.
Crime Araujo conheceu Michael Magidson, José Merel, Jaron Nabors e Jason Cazares no final de agosto ou início de setembro de 2002. Na noite em que se conheceram, Araujo flertou com os quatro homens e eles consumiram maconha juntos. Após ela deixar o local, Nabors perguntou aos outros três: "Será que isso é um cara?", mas nenhum deles levou a suspeita a sério. Posteriormente, ela praticou sexo oral com Magidson e sexo anal com Merel. Ela alegava estar menstruada e, durante o sexo, afastava as mãos dos parceiros de sua genitália para evitar que descobrissem que tinha um pênis.
Nicole Brown, que namorava Paul Merel (irmão mais velho de José) e conhecia Araujo, relatou que elas tiveram uma briga física após Brown desafiar Araujo a se despir na frente dos homens. Araujo a surpreendeu com um golpe forte durante a briga, e Brown afirmou que os homens "ficaram chocados, porque ela era menor que eu e tão forte quanto. Ela lutava como homem". Em setembro, os quatro homens discutiram se Araujo era mulher, concluindo que "algo ruim poderia acontecer" com ela se não fosse.
Confronto
Na noite de 3 de outubro de 2002, Araujo compareceu a uma festa na casa alugada por José e Paul Merel, onde estavam presentes eles, seu irmão mais novo Emmanuel Merel, Michael Magidson, Jaron Nabors, Jason Cazares e Nicole Brown. Nabors testemunhou posteriormente que José Merel disse naquela noite: "Juro, se for um cara, vou matá-lo. Se for um homem, ela não vai sair daqui." Segundo Nabors, Magidson acrescentou: "Não sei o que vou fazer", e Nabors respondeu: "Faça o que quiser, mas não faça sujeira." Brown relatou que os quatro homens saíram para um clube e só retornaram à casa após a meia-noite.
Nas primeiras horas da manhã de 4 de outubro, Magidson pediu que Araujo revelasse seu sexo ou permitisse que ele tocasse seus genitais, o que ela recusou. Brown sugeriu que um deles inspecionasse Araujo, e Magidson a levou ao banheiro. Após meia hora, durante a qual José Merel confessou ter tido relações sexuais com Araujo, Brown foi ao banheiro e descobriu, durante uma inspeção forçada, que Araujo tinha genitália masculina. Surpresa, Brown exclamou: "É um cara!", e os homens com quem Araujo teve relações sexuais ficaram enfurecidos e violentos. Brown testemunhou que alertou Araujo que os homens estavam "muito bravos", mas, ao tentar sair pela porta da frente, Araujo foi confrontada e forçada a voltar para dentro da casa por Magidson, Nabors e Cazares. Emmanuel Merel testemunhou que tentou escoltar Araujo para fora da casa, mas foi impedido por Magidson e Nabors.
José Merel vomitou ao descobrir que Araujo tinha genitália masculina e começou a chorar em descrença, dizendo: "Não posso ser gay." Brown testemunhou que tentou confortar Merel após a descoberta, dizendo: "Não é sua culpa. Estudei com você no ensino médio, e você estava no time de futebol. Qualquer mulher que te conhecer depois disso não vai se importar. Apenas deixe ela ir."
Após Araujo ser trazida de volta para a casa, Magidson tentou expor seus genitais, puxando sua saia e roupa íntima. Ele então a socou no rosto, derrubando-a no chão, e a colocou em um mata-leão, mas foi afastado por outros. Araujo implorou aos homens que parassem, dizendo: "Não, por favor, não. Eu tenho família." José Merel, enfurecido, atingiu-a na cabeça com uma lata de comida, amassando a lata e causando um corte em sua cabeça, e depois a golpeou novamente com uma frigideira. As últimas palavras que Merel ouviu de Araujo foram: "Eu disse que estava arrependida."
Em algum momento depois disso, Brown acordou Paul Merel, e eles saíram da casa com Emmanuel Merel. Emmanuel Merel testemunhou que caminhou até uma loja de conveniência para comprar chiclete e depois foi para a casa de um amigo passar a noite.
Nabors e Cazares saíram no caminhão de Magidson para buscar pás e uma picareta na casa de Cazares, dizendo, ao saírem da casa dos Merel, que os outros homens iriam "matar aquela vadia". Brown relatou que, após sair com Paul Merel, eles deram uma volta no quarteirão e retornaram à casa, onde viram Nabors e Cazares saindo no caminhão de Magidson.
Assassinato
Quando Nabors e Cazares retornaram, Araujo ainda estava consciente, sangrando de um ferimento na cabeça e sentada no sofá. José Merel preocupou-se com o fato de Araujo estar sangrando no sofá e ordenou que ela saísse dele. Em algum momento, o ataque foi retomado. Nabors e Cazares incitaram os outros a "nocautearem a vadia", segundo o testemunho de Nabors. Magidson atingiu a cabeça de Araujo contra a parede da sala com o joelho, deixando-a inconsciente. Nabors testemunhou que o ataque de Magidson foi tão severo que deixou uma marca na parede e rachou o reboco. Cazares a chutou. Merel estava preocupado em limpar o sangue de Araujo do sofá e do carpete antes de se retirar para seu quarto para que os outros não o vissem chorando.
Após Araujo ser nocauteada, Magidson amarrou seus pulsos e tornozelos, e ela foi enrolada em um edredom para minimizar as manchas de sangue no carpete, antes de ser levada para a garagem da casa. A partir desse ponto, os testemunhos dos réus divergem.
Nabors testemunhou que Magidson a estrangulou com uma corda e que Cazares a atingiu com uma pá, mas Nabors estava retornando da garagem e não testemunhou diretamente o ato de estrangulamento. Referindo-se a Araujo como Lida — o nome que ela usava com eles —, Nabors testemunhou que viu Magidson levantando a corda até o pescoço dela antes de sair da garagem e que Magidson depois disse aos outros que "enrolou a corda no pescoço de Lida e a girou".
Magidson testemunhou que foi Nabors quem a estrangulou e a atingiu com a pá, e Cazares testemunhou que nunca a atingiu e não a viu morrer. José Merel testemunhou que estava limpando o sangue de Araujo dos carpetes e do sofá enquanto Magidson amarrava seus tornozelos, antes de ela ser levada para a garagem. Merel também disse que achava que ela ainda estava viva até ver seu corpo na caçamba do caminhão de Magidson. Não está claro em que momento dessa sequência de eventos ela morreu. No entanto, a autópsia mostrou que ela morreu por estrangulamento associado a trauma contuso na cabeça. Segundo Nabors, Magidson "não tinha certeza se Lida havia morrido ao torcer a corda, mas, quando Jason a atingiu duas vezes com a pá, ele sabia que ela estava morta".
O corpo de Araujo foi então colocado na caçamba de um caminhão, e os quatro homens dirigiram por quatro horas, enterrando-a em uma cova rasa perto das montanhas Sierra Nevada, na Floresta Nacional de El Dorado, próximo à Silver Fork Road, no Condado de El Dorado. No caminho de volta, eles compraram café da manhã em uma janela de drive-through do McDonald's. Naquela manhã, durante uma conversa telefônica, Brown perguntou a José Merel o que aconteceu, ao que ele respondeu: "Digamos que ela teve uma longa caminhada para casa."
Prisões Os participantes da festa não denunciaram o crime, e os agressores não disseram nada a ninguém sobre o assassinato. Araujo costumava manter contato com sua mãe, então, quando não voltou para casa no dia seguinte à festa, sua mãe chamou a polícia em 5 de outubro para relatar seu desaparecimento. Inicialmente, a polícia não levou o caso de desaparecimento a sério, em parte porque Araujo era transgênero, e também porque ela era conhecida por passar noites fora de casa. Rumores chegaram à família de que uma garota que havia sido revelada como transgênero em uma festa fora assassinada e enterrada em Tahoe, e sua tia informou a polícia em 9 de outubro, passando a história adiante. A polícia começou a entrevistar os participantes da festa, e um deles levou os investigadores à casa dos Merel.
Dois dias após o relato do desaparecimento de Araujo, um amigo de Jaron Nabors o descreveu como parecendo perturbado. Nabors confessou a um amigo o que os quatro haviam feito logo após retornarem do local do enterro. Esse amigo denunciou à polícia e concordou em usar um microfone durante uma conversa subsequente com Nabors sobre o assassinato. Confrontado com a gravação, Nabors concordou em levar as autoridades ao corpo em 15 de outubro.
O Departamento do Xerife do Condado de Alameda enviou quatro investigadores de cenas de crime e dois detetives para recuperar o corpo de Araujo no local da cova. Os quatro inicialmente presos e acusados pelo assassinato foram Magidson (22 anos), Nabors (19 anos), José Merel (22 anos) e Paul Merel.
Paul Merel foi liberado após Brown e Emmanuel Merel informarem à polícia que ele havia deixado o local com eles. Magidson, Nabors e José Merel foram acusados de assassinato em 17 de outubro e mantidos sem direito a fiança. Em 24 de outubro, Nabors declarou-se não culpado, Magidson ainda buscava um advogado, e José Merel ainda revisava as evidências contra ele. Em uma entrevista ao Los Angeles Times, Merel estava confiante de que as acusações seriam retiradas.
Após sua prisão, Nabors escreveu uma carta a uma namorada na qual afirmou que os réus discutiram um "plano tipo Sopranos" para "matar a vadia e se livrar do corpo". A carta foi interceptada pelos oficiais do xerife e levou à prisão de Cazares em 19 de novembro. Cazares havia sido identificado como uma possível testemunha em 22 de outubro. No primeiro julgamento, o advogado de defesa Tony Serra acusou Nabors de escrever a carta sabendo que ela seria interceptada e implicaria Cazares.
Julgamentos
Jaron Nabors Nabors declarou-se culpado em 24 de fevereiro de 2003 por uma acusação menor de homicídio culposo, que acarretava uma pena de 11 anos de prisão, junto com a promessa de testemunhar contra os outros três réus. Durante a formalização de sua confissão, o juiz Kenneth Burr alertou Nabors que ele ainda poderia ser acusado de assassinato se os promotores descobrissem que ele não estava "cumprindo sua parte do acordo".
Durante os procedimentos de indiciamento em fevereiro de 2003, Nabors forneceu um relato detalhado do assassinato e do enterro. Enquanto a enterravam, os homens continuaram a difamá-la. Nabors testemunhou que disse: "Não acredito que alguém faria isso, seria tão enganador", e que José Merel acrescentou: "Estava tão bravo que ainda poderia chutá-la mais algumas vezes".