O Clube Náutico Marcílio Dias foi um clube esportivo e social fundado 4 de julho de 1949, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Sua principal missão, inicialmente, era a inclusão da comunidade negra no esporte do remo.PEREIRA, Lúcia Regina Brito. Cultura e afrodescendência: organizações negras e suas estratégias educacionais em Porto Alegre (1872-2002). Tese (Doutorado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008. Disponível em: https://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/2310 Acesso em: 23 mai 2025.SANTOS, José Antônio dos. Liga da Canela Preta. Porto Alegre: Diadorim, 2018. p. 35. Em 1971, foi sede da primeira reunião do Grupo Palmares que daria origem ao Dia da Consciência Negra.CANOFRE, Fernanda. Grupo que idealizou o Dia da Consciência Negra teve de dar explicações à ditadura. Portal Geledés, 2018. Disponível em: https://www.geledes.org.br/grupo-que-idealizou-o-dia-da-consciencia-negra-teve-de-dar-explicacoes-ditadura/ Acesso em: 23 mai 2025.Geledés Instituto da Mulher Negra. 1960-1970: Grupo Palmares de Porto Alegre e a Afirmação do Dia da Consciência Negra. Acervo Cultne, 2021. Disponível em: https://artsandculture.google.com/story/BgXRJakjmcizKA?hl=pt-BR Acesso em: 23 mai 2025.
História
O Marcílio Dias foi fundado em 4 de julho de 1949, em Porto Alegre, após convocação publicada nos jornais locais, com o objetivo de organizar um clube náutico para a comunidade negra. Segundo o convite, o nome da entidade seria “José do Patrocínio”. No entanto, já no primeiro anúncio da fundação o clube é denominado “Marcílio Dias”, em homenagem ao marinheiro negro herói da Batalha Naval do Riachuelo. O primeiro presidente eleito do clube foi Heitor Nunes Fraga. Os demais membros da diretoria eram Miguel Gomes Machado, Morelino Caldeira da Silva, Armando Hipólito dos Santos e Kleber de Assis. Entre os doze fundadores estava João Batista da Silva Filho, o Barata, campeão brasileiro de remo no quatro sem timoneiro em 1940, que foi escolhido para o cargo de assistente técnico. O objetivo primeiro do clube era a prática do remo, mas, desde a primeira reunião, os sócios se mostraram abertos à prática de outras modalidades aquáticas e terrestres.
A solenidade de inauguração do clube ocorreu em 12 de junho de 1950, data do 85º aniversário da morte de Marcílio Dias. A cerimônia contou com a presença de diversas autoridades, como o prefeito de Porto Alegre, Ildo Meneghetti, e o presidente da Federação Aquática do Rio Grande do Sul, Darcy Vignolli. Também participaram do evento representantes dos diversos clubes esportivos da cidade, sendo que Guaíba-Porto Alegre, Almirante Barroso e União procederam à doação de barcos e remos para a nova entidade.
Em seus primeiros anos, o clube tentou, por diversas vezes, filiar-se à entidade responsável pela organização do remo no Rio Grande do Sul. Em sua coluna no Diário de Notícias, de Porto Alegre, o jornalista Carlos Engelke Filho realizou assídua campanha pelo acesso do clube, acusando a Federação e seus clubes de racismo. No final de 1955, a Federação propôs a participação do clube nas provas oficiais em caráter de experiência, algo que não foi aceito pela diretoria da época. Dessa forma, o Marcílio Dias nunca competiu oficialmente em sua modalidade de origem. O basquete, o vôlei, a bocha e o ping-pong, por outro lado, muito movimentaram o clube em seus primeiros anos.
Patrimônio
O advogado Armando Hipólito dos Santos, membro da primeira diretoria do clube, foi quem articulou o empréstimo e, posteriormente, a doação de terreno localizado na Avenida Praia de Belas, quase esquina com a Avenida José de Alencar, à época na beira do Guaíba, onde o clube ergueu sua sede social. Em 1957 foi construído um ginásio coberto, que viria a ser destruído por um vendaval no ano seguinte, causando grande prejuízo ao clube. Alguns anos mais tarde, um salão de festas em alvenaria foi construído no mesmo local. A posse do terreno pelo clube sempre foi contestada pelos herdeiros do doador original que, mais tarde, acabaram por retomá-la, o que contribuiu para o ocaso do clube no final dos anos 1970.
A exemplo de outros clubes náuticos da cidade, em 1953, o Marcílio Dias recebeu do governo uma área nas ilhas do delta do Rio Jacuí. O terreno atribuído ao clube ficava na Ilha Grande dos Marinheiros, no local que anteriormente servia de base aos serviços aéreos por hidroaviões do Syndicato Condor e da Varig. A chamada sede náutica do Marcílio Dias recebeu algumas excursões de sócios do clube, mas posteriormente foi abandonada.
Importância Cultural
Ao longo de sua história, o Marcílio Dias desenvolveu intensa atividade cultural. Foi comum a realização de olimpíadas internas que incluíam, além dos esportes, disputas culturais. O clube teve um grupo de teatro experimental. Em 1956 promoveu a vinda da soprano estadunidense Gloria Davy, que se apresentou no Theatro São Pedro.
Um jornal interno, chamado Em Dia, foi publicado a partir de 1955 e dava espaço não apenas para notícias e resultados esportivos, mas também para a produção cultural do próprio clube e de seus membros. Na década seguinte, outra publicação, chamada Ébano, idealizada por Eloy dos Angelos, contou com apenas dois números.MATTOS, Jane. Clube Náutico Marcílio Dias. Memórias Negras em Verbetes, 2023. Disponível em: https://www.memoriasnegrasemverbetes.com/post/clube-náutico-marcílio-dias. Acesso em 23 mai 2025.
Na noite de 20 de novembro de 1971, o Grupo Palmares organizou, na sede do Marcílio Dias, a primeira reunião para discutir aquele que, mais tarde, seria reconhecido como Dia da Consciência Negra. O encontro contou com em torno de 20 pessoas, incluindo Oliveira Silveira, Vilmar Nunes, Ilmo da Silva e Antônio Carlos Côrtes.
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