alt=File:DAU TIENG PROJECT BIRDSIGHT.jpg|miniaturadaimagem|Projeto Dau Tieng em Tây Ninh. O financiamento climático no Vietnã refere-se ao conjunto de mecanismos que mobilizam recursos públicos, privados e internacionais para apoiar ações de adaptação e mitigação das mudanças climáticas no país. Devido à sua elevada exposição a ameaças como inundações costeiras, ciclones tropicais e secas e à urgência de reduzir emissões e fortalecer a resiliência, o Vietnã estruturou seu arcabouço legal em torno da Lei nº 72/2020/QH14 de Proteção Ambiental e do Decreto nº 08/2022/ND-CP, complementados por instrumentos financeiros como o Fundo de Proteção Ambiental e a Circular 17/2022 do Banco Estatal sobre gestão de riscos ambientais no crédito bancário.
Linhas de crédito verdes do SBV já apoiaram mais de 1.700 projetos até meados de 2023, totalizando cerca de 66 trilhões de dongs vietnamitas em financiamentos.
Energia renovável, agricultura de baixo carbono, transporte e infraestrutura urbana são os principais alvos dos recursos mobilizados. Para ampliar o acesso ao crédito verde, o país planeja pilotar um mercado de carbono entre 2022–2027, com lançamento formal em 2027.
Contexto climático e vulnerabilidades O Vietnã é um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas, enfrentando riscos significativos devido à sua extensa linha costeira de mais de 3.200 km e às numerosas cidades e regiões de deltas situadas em áreas baixas. Do ponto de vista geográfico, as duas grandes planícies aluviais — o Delta do Mekong, ao sul, e o Delta do Rio Vermelho, ao norte — concentram boa parte da produção agrícola (especialmente arroz) e abrigam milhões de habitantes em áreas praticamente ao nível do mar. Nessas regiões, a elevação gradual do nível do mar combina-se com a subsidência do solo para intensificar a intrusão salina nos sistemas de irrigação. Como consequência, as lavouras tradicionais de arroz ficam cada vez mais sujeitas ao estresse hídrico e à salinidade, reduzindo produtividade e forçando agricultores a diversificarem culturas ou migrar para áreas urbanas. esquerda|miniaturadaimagem|Tufão Yagi fazendo landfall sobre Haiphong e Quang Ninh em 7 de setembro. Entre junho e novembro, o Vietnã costuma ser atingido por tempestades tropicais e tufões que trazem chuvas torrenciais, provocando enchentes repentinas e deslizamentos nas encostas das regiões montanhosas do centro e norte. Esses eventos danificam colheitas, estradas rurais e pontes, além de ameaçar a segurança das comunidades locais. O tufão Yagi, em setembro de 2024 é um exemplo de desastre recente. Ao passar pelo país, deixou 292 mortes, 1.908 feridos e 38 desaparecidos. Além disso, 3.300 casas foram danificadas, 120.000 ha de arrozais submersos e 1.000 pescarias destruídas.
Cidades costeiras como Ho Chi Minh e Da Nang enfrentam enchentes frequentes devido à combinação de marés altas e chuvas intensas. A drenagem urbana, muitas vezes insuficiente para a expansão acelerada, não absorve rapidamente o volume de água, resultando em ruas alagadas que interrompem tráfego, prejudicam comércios e sobrecarregam serviços públicos (água, energia e saneamento).
O crescimento urbano desordenado tem aumentado a área impermeável (asfalto, concreto, edificações), reduzindo a infiltração natural da água da chuva e prolongando a duração dos alagamentos. Esse fenômeno é particularmente grave em regiões costeiras onde os sistemas de drenagem são subdimensionados para suportar eventos extremos.
A região central do Vietnã é afetada pelas oscilações de El Niño e La Niña, que provocam alternância entre longos períodos de seca e episódios de chuvas intensas. Esse padrão climático irregular causa tanto escassez de água potável em épocas de seca prolongada quanto riscos elevados de desastres naturais (enchentes, deslizamentos) quando ocorrem chuvas extremas.
Em regiões de difícil acesso, sobretudo nas terras montanhosas do norte, comunidades de minorias étnicas têm acesso limitado a previsões meteorológicas confiáveis e a programas governamentais de apoio. Isso aumenta sua exposição a enchentes e deslizamentos, pois a infraestrutura de comunicação e transporte é precária.
Os impactos das mudanças climáticas, especialmente a elevação do nível do mar e o aumento das inundações, já estão perturbando a atividade econômica e ameaçando os meios de subsistência de milhões de pessoas. Em 2020, os custos relacionados às mudanças climáticas chegaram a aproximadamente 10 bilhões de dólares americanos, o que representou 3,2% do PIB nacional; projeções indicam perdas potenciais entre 12% e 14,5% do PIB até 2050 caso não sejam tomadas ações climáticas substanciais.
Marcos legais e institucionais O arcabouço legal para o financiamento climático no Vietnã é estruturado principalmente pela Lei nº 72/2020/QH14 sobre Proteção Ambiental, promulgada em 17 de novembro de 2020 e em vigor desde 1º de janeiro de 2022, que estabelece diretrizes para a gestão de emissões de gases de efeito estufa (GEE), avaliação de impacto ambiental e mecanismos de uso de instrumentos econômicos para incentivar práticas sustentáveis. Essa lei foi complementada pelo Decreto nº 08/2022/ND-CP, que detalha os procedimentos para mitigação e reporte de emissões, criando as bases para a certificação de projetos elegíveis ao crédito verde.
Adicionalmente, o governo vietnamita aprovou a Estratégia Nacional de Crescimento Verde para o período 2021–2030, com visão até 2050, que estabelece metas de redução de intensidade de emissões por unidade de PIB em 15% até 2030 e 30% até 2050, além de prever a participação mínima de 15–20% de fontes renováveis na matriz energética até 2030 e 25–30% até 2050. A implantação dessa estratégia é coordenada pelo Comitê Interministerial de Coordenação para Crescimento Verde e Mudanças Climáticas, liderado pela Ministério dos Recursos Naturais e Meio Ambiente, que conta com departamentos específicos para planejamento, legislação, cooperação internacional e monitoramento de GEE.
No âmbito institucional, cabe ao Ministério dos Recursos Naturais e Meio Ambiente supervisionar a implementação de políticas climáticas, apoiado pelo Banco Estatal do Vietnã, que regula as linhas de crédito verde e define critérios para emissão de títulos verdes. Além disso, o Ministério das Finanças e o Ministério da Indústria e Comércio participam do processo de elaboração de normas tributárias e incentivos fiscais voltados a tecnologias limpas, enquanto o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural coordena projetos de adaptação climática no setor agrícola.
Financiamento público alt=File:MaPiLeng,HaGiang,Vietnam.jpg|miniaturadaimagem|270x270px|Vale no Hà Giang. O financiamento público para ações climáticas no Vietnã envolve tanto recursos orçamentários diretos quanto instrumentos financeiros governamentais. Por meio do orçamento da União, o governo tem estabelecido códigos específicos para investimentos em projetos de mitigação e adaptação, alinhados à Tipologia de Gastos de Resposta às Mudanças Climáticas (TCCRE) desenvolvida pelo Banco Mundial, executado pelo Ministério dos Recursos Naturais e Meio Ambiente, Ministério da Indústria e Comércio e Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, que classificou os gastos públicos em três pilares: governança, capacidade científica e tecnológica, e entrega de ações climáticas.
O Fundo de Proteção Ambiental, gerido pelo Ministério de Recursos Naturais e Meio Ambiente, possui um capital de 1,8 trilhões de dongs vietnamitas, para financiar projetos de proteção ambiental e adaptação às mudanças climáticas. Embora seja o principal instrumento público para crédito verde, sua rigidez no estabelecimento de garantias e prazos tem dificultado o acesso de projetos de menor porte (pequenos produtores, cooperativas ou iniciativas comunitárias).
Em 23 de dezembro de 2022, o Banco Estatal do Vietnã (SBV) publicou a Circular nº 17/2022/TT-NHNN, com o objetivo de orientar a gestão de riscos ambientais no processo de concessão de crédito por instituições financeiras e agências bancárias estrangeiras no Vietnã. Em 30 de junho de 2023, o SBV havia financiado 1.776 projetos por meio de empréstimos verdes, totalizando 66,17 trilhões de dongs (2,81 bilhões de dólares), o que representava 4,1% do total de seus empréstimos em aberto.
Até 2017, apenas duas emissões de títulos verdes haviam sido registradas – uma de 3 trilhões de dongs pela cidade de Ho Chi Minh e outra de 500 bilhões pela província de Bà Rịa–Vũng Tàu – evidenciando a inatividade do mercado doméstico até então. Somente em 2021 o mercado doméstico voltou a registrar emissões relevantes, quando empresas como a BIM Land reentraram no segmento com a colocação de títulos verdes no exterior, mas prosseguindo com a inatividade em emissões.
Financiamento privado O setor privado tem desempenhado um papel crescente no financiamento climático do Vietnã, embora seja ainda limitado por desafios regulatórios e de mercado. Bancos comerciais continuam sendo a principal fonte de crédito, mas a natureza intensiva de capital e os longos prazos de retorno das energias renováveis têm esgotado a disponibilidade de crédito, levando empresas a buscar instrumentos alternativos, como emissão de debêntures corporativas, títulos verdes e financiamentos via fundos de investimento privados.
Em 2021, a empresa tailandesa B.Grimm Power emitiu debêntures no valor de 242,7 milhões de dólares americanos para financiar dois parques solares nas províncias de Phú Yên e Tây Ninh, com capacidade combinada de 677 MW. No mesmo ano, o grupo filipino Ayala Corp. adquiriu 49% da Solar NT, subsidiária da tailandesa Super Energy Corp., incorporando nove plantas solares com capacidade total de 837 MW no Vietnã.alt=File:Canal in Mekong Delta - My Tho - Vietnam (15726848817).jpg|esquerda|miniaturadaimagem|Canal do Delta do MekongO mercado de títulos verdes também tem se ampliado. Em 2024, com apoio do IFC, do Banco Mundial, o SeABank lançou o primeiro título verde emitido por uma instituição financeira privada no país, promovendo investimentos em infraestrutura sustentável. Fundos de impacto e private equity voltados ao clima ganharam destaque: em 2023, a VinaCapital lançou o VinaCarbon, primeiro fundo de impacto climático vietnamita dedicado a projetos que geram créditos de carbono, enquanto a Mekong Capital anunciou a criação de um fundo climático com meta de 200 milhões de dólares para promover a regeneração florestal na região do Mekong.
No âmbito internacional, a Copenhagen Infrastructure Partners lançou, em dezembro de 2023, o Growth Markets Fund II, com objetivo de 3 bilhões de dólares para financiar projetos de energia renovável em mercados emergentes, incluindo o Vietnã.
Entretanto, a instabilidade regulatória ainda representa um risco significativo: em março de 2025, investidores privados alertaram que mudanças retroativas nas Feed-in tariffs poderiam pôr mais de 13 bilhões de dólares em projetos de energia solar e eólica em risco, afetando a confiança e a viabilidade financeira de futuros investimentos privados no setor.
Cooperação internacional e financiamento externo Em dezembro de 2022, o Vietnã foi incluído na Just Energy Transition Partnership (JETP), iniciativa do G7 que mobilizou 15,5 bilhões de dólares em financiamento público e privado para viabilizar a descarbonização do setor elétrico e antecipar o pico de emissões para 2030.
O Banco Asiático de Desenvolvimento comprometeu-se a oferecer assistência técnica e financiar projetos de adaptação e transição energética no valor de 2,1 bilhões de dólares, nos próximos anos, para apoiar o Vietnã no cumprimento de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas e no desenvolvimento de energia limpa, incluindo hidrogênio verde e sistemas de armazenamento de energia.