O homicídio e ataque à mesquita de Bærum ocorreu a 10 de agosto de 2019 no Centro Islâmico Al-Noor em Bærum, Noruega, a cerca de a oeste da capital Oslo. Philip Manshaus, um norueguês de 21 anos, assassinou a sua irmã adotiva Johanne Ihle-Hansen, de 17 anos, em sua casa. Dirigindo-se de seguida a uma mesquita e abrindo fogo dentro da mesma. O mesmo foi imobilizado por três crentes e entregue às autoridades, não tendo havido fatalidades dentro da mesquita. Houve uma tentativa de transmitir o tiroteio em direto, mas sem sucesso.

Manshaus teria tido uma fixação por teorias da conspiração de extrema-direita e tiroteios em massa, tendo sido investigado em 2018 pelas autoridades após uma denúncia sobre as suas opiniões neonazis. A denúncia não teve seguimento, tendo sido considerada vaga e não foram encontrados indícios de que estivesse a planear um ataque violento. O homicídio de Ihle-Hansen deveu-se à etnia asiática da mesma, e o tiroteio na mesquita teve por objetivo intimidar a comunidade muçulmana; o ataque foi inspirado nos atentados de Christchurch, ocorridos no início do mesmo ano. As armas teriam sido roubadas ao pai de Manshaus.

Manshaus foi declarado culpado de homicídio e de ato de terrorismo. Em 2020, foi condenado a 21 anos de prisão preventiva, uma pena que, na Noruega, pode ser extendida indefinidamente. O caso foi reaberto em 2024, depois de peritos avaliarem que Manshaus estaria alegadamente em estado psicótico desde 2017, incluindo na altura em que o crime foi cometido.

Contexto Philip Manshaus (nascido a ), um norueguês de 21 anos, residente em Bærum, foi o responsável pelo ataque. A sua mãe e avó biológicas morreram por suicídio quando tinha quatro anos de idade. Frequentou a escola de artes liberais Fosen Folkehøgskole (uma universidade popular), conhecida por ser uma instituição alternativa e de esquerda. Tem dois irmãos mais velhos. A sua madrasta notou que passou por várias fases enquanto jovem, e que muitas vezes se tornava obcecado por tópicos estranhos. Tinha um historial de consumo de drogas; aos 15 anos teve um acidente de viação enquanto conduzia sob o efeito de LSD. Tinha tido uma relação homossexual com outro rapaz da comunidade emo de Oslo.

Johanne Zhangjia Ihle-Hansen (nascida a ) nasceu em Jiangxi, China, e foi adotada aos 9 meses de idade pela madrasta de Manshaus. No ensino secundário, licenciou-se em comunicação e média. Tinha um namorado português, com quem esperava ir viver depois de terminar os estudos. Ambicionava tornar-se jornalista. Manshaus e Ihle-Hansen haviam sido muito próximos e dizia-se que Manshaus era muito protetor da irmã; embora a imprensa os descrevesse como irmãos adotivos, eles viam-se como irmãos de sangue e que ela era um membro completamente aceite pela sua família. Um amigo de infância de ambos descreveu Manshaus como sendo admirado por Ihle-Hansen.

Radicalização No início do verão de 2017, Manshaus tomou interesse em teorias da conspiração. Discutia teorias de conspiração anti-semitas sobre o Holocausto abertamente com os seus amigos, tentando várias vezes convencê-los das suas opiniões, o que levou a que começasse a ser evitado pelos mesmos. Outros estudantes notaram uma mudança na sua personalidade e temiam que fosse matar alguém, ou que fosse morto; Manshaus tornou-se cada vez mais religioso e radical. A sua atividade online incluía a leitura de artigos sobre tiroteios em escolas na Finlândia e nos Estados Unidos da América; interessava-se também por materiais de extrema-direta e neonazis, lendo também, entre outros, as obras de Jordan Peterson, Siege de James Mason, e o manifesto do terrorista norueguês Anders Behring Breivik.

No dia 18 de junho de 2018, PST, o serviço de inteligência da Noruega, recebeu uma denúnica a indicar que Manshaus possuía opiniões de extrema-direita e que os seus amigos o chamavam de neo-nazi. Depois de terem consultado o departamento da polícia local, a Polícia Distrital de Oslo, concluíram que a denúncia era demasiado vaga e que não revelava quaisquer indícios de que Manshaus possuíse planos para cometer um ataque violento. Manshaus não foi entrevistado e a denúncia não teve seguimento. A família de Manshaus não foi informada da denúncia e investigação. Manshaus era um utilizador frequente de fóruns de imagens, ato esse que o mesmo admite que contribuiu para a sua radicalização.

A sua família encontrava-se preocupada ao ponto de Ihle-Hansen sugerir que o incluíssem nas suas actividades diárias e que o apresentassem a noruegueses de outras etnias e a muçulmanos para que pudesse fazer novas amizades e fumentar novas ideias. Ihle-Hansen encontrava-se constantemente desconfortável e perturbada para com o comportamento do irmão. Ihle-Hansen enviou várias mensagens a amigos através da aplicação de mensagens Discord, manifestando frustração e preocupação com as opiniões de Manshaus, referindo também que não se sentia segura. Manshaus tornou-se gradualmente mais extremista nas suas atitudes de anti-imigração, anti-muçulmanas e anti-semitas, e tornou-se frio para com Ihle-Hansen. Recusava-se a cumprimentá-la e dizia-lhe coisas cruéis. Disse a Ihle-Hansen que era melhor não ter filhos com o namorado pois seria uma "mistura de raças" e afirmou que não a considerava como irmã, porque, para ser sua irmã, "teria de ser humana". Também a ridicularizava regularmente pela sua cor de pele por saber que era uma das grandes fontes de insegurança da irmã.

Planeamento Nas semanas anteriores ao crime, Manshaus tentou aderir ao Movimento de Resistência Nórdica, mas devido a uma separação interna na organização e a atrasos no sistema de adesão, nunca passou da primeira de duas entrevistas de iniciação. Manshaus aderiu a um clube de tiro e referiu em passagem que estava a tentar obter armas semi-automáticas. Pela mesma altura, foi entregue a Ihle-Hansen uma encomenda que continha um colete à prova de bala.

No dia 15 de março de 2019, Brenton Tarrant cometeu um ataque de terrorismo contra muçulmanos em Christchurch, Nova Zelândia, matando 51 pessoas e transmitindo o ataque em direto. Tarrant publicou um manifesto juntamente com o tiroteio; Manshaus assistiu ao vídeo por volta da hora do ataque mas relatos da família indicam que o mesmo não mostrou interesse na altura, tendo apenas lido o mainfesto a 2 de agosto de 2019. Manshaus ficou profundamente afetado depois de ter lido o manifesto, começando a dormir e comer pouco; para ele, o manifesto era uma “chamada para ação". Manshaus começou a escrever um manifesto, mas sem nunca o terminar. A família de Manshaus descobriu recortes de jornais sobre os tiroteios na mesquita de Christchurch, uma suástica e informações sobre outros ataques terroristas na parede do seu quarto, escondidos atrás de uma bandeira norueguesa, o que levou Ihle-Hansen a recear que o irmão fosse magoar alguém. Depois de descobrir que a madrasta estava a considerar denunciá-lo ao PST, retirou os recortes da parede e convenceu-a de que já não tinha opiniões de extrema-direita.

Em 8 de agosto, Ihle-Hansen contou a uma amiga que era difícil estar em casa porque "o meu irmão odeia-me", e afirmou ter medo de Manshaus. No dia anterior ao seu assassinato, Ihle-Hansen contactou o namorado a expressar a sua frustração para com as opiniões racistas do irmão, contando-lhe também da "propaganda nazi e recortes de jornais sobre tiroteios em massa". Disse que se sentia insegura e que a situação por que estava a passar era uma "loucura". Relatou também que encontrou o irmão a ouvir um discurso sobre opiniões racistas contra descendentes chineses. Amigos de Ihle-Hansen decidiram informar a mãe de Ihle-Hansen e abrir uma denúnica na polícia ou PST depois de a mesma ter partilhado as suas preocupações. Na manhã de 10 de agosto a mãe concordou em informar a PST.

Manshaus tinha uma lista planeada para o ataque, referindo as suas armas e a morada do Centro Islâmico, bem como "ASSASSINATO EM CASA" em letras maiúsculas. Mais tarde veio a referir que tinha decidido matar Ihle-Hansen por a mesma não ser branca e por acreditar que os seus pais seriam rotulados como "traidores da raça" no que ele achava ser o início de uma guerra entre raças, e que a irmã "representa um grupo que ameaça o meu povo". O ataque à mesquita tinha como objetivo matar "o maior número possível de muçulmanos" para intimidar a comunidade muçulmana na Noruega..

Tiroteios alt=Uma porta de vidro partida.|thumb|upright=0.7|A porta da mesquita após o tiroteioAo preparar o ataque, esperou que a madrasta saísse de casa. Colocou o seu plano em ação na manhã de 10 de agosto de 2019, esperando que a madrasta saísse de casa antes de ir buscar três armas de fogo ao armário do pai: uma espingarda sueca Mauser 1896-38 de calibre 6,5×55mm, uma caçadeira de cano duplo Baikal IJ-27E e uma espingarda Remington Modelo 572 Fieldmaster. De seguida, carregou uma das espingardas e entrou no quarto de Ihle-Hansen, antes das 15:00 Depois de uma falha de ignição da arma, alvejou-a três vezes no peito e uma vez na cabeça; ela morreu instantaneamente. De seguida, regressou ao seu quarto e preparou-se para o ataque à mesquita.

Pouco antes do tiroteio na mesquita, Manshaus publicou uma mensagem no imageboard EndChan. A mensagem incitava outros a imita-lo, com Manshaus a apelar para que "falem do tópico da guerra racial irl".{ As mensagens referiam-se a Brenton Tarrant, o autor do tiroteio na mesquita de Christchurch, como “santo tarrant”, e declaravam que tinha sido “eleito” pelo próprio para cometer o ataque. Anexado à mensagem estava um meme que representava Tarrant, Patrick Crusius e John Earnest como "chads". Os três ídivíduos mencionados são conhecidos por cometer tiroteios em massa com motivações raciais em 2019. O artigo foi publicado com o seu nome verdadeiro.<ref=“Klassekampen2020” /> A publicação também continha uma hiperligação para um álbum do Imgur com fotografias suas, e uma hiperligação para o seu perfil do Facebook com a transmissão em direto (com o comentário de que “tretas estúpidas não vão funcionar”). Depois de publicar este artigo, o mesmo procedeu em direção à mesquita.

Manshaus levou consigo para a mesquita várias armas e uma grande quantidade de munições, bem como um colete à prova de bala e um capacete. Levou também um computador e um telemóvel que utilizou para tentar transmitir em direto o tiroteio no Facebook com uma câmara GoPro presa ao capacete. Contudo, não conseguiu conectar o telemóvel à Internet, o que impediu que o ataque fosse transmitido em direto. Quando Manshaus entrou na mesquita, a oração já tinha terminado e a maioria do participantes já tinha abandonado o edifício, restando apenas alguns membros idosos da congregação. Ele abriu a porta trancada com um tiro. Abriu fogo dentro da mesquita, sem atingir ninguém.

As orações tinham acabado de terminar, restando apenas três idosos na mesquita. Um dos homens, Mohammad Rafiq, aproximou-se do atirador e imobilizou-o, afastando as armas de Manshaus depois de este as ter largado. Durante a luta com o agressor, Rafiq dominou-o e desarmou-o antes que este pudesse atacar outros membros da mesquita. Rafiq sofreu ferimentos ligeiros aquando da tentativa do agressor de se libertar do estrangulamento, incluindo uma tentativa de arrancar o seu olho esquerdo. Rafiq é um paquistanês reformado da Força Aérea do Paquistão que se mudou para Bærum para estar junto do seu filho em 2017. Era um visitante frequente do Centro Islâmico Al-Noor. Outro idoso presente na mesquita, Mohamed Iqbal, bateu na cabeça do atirador com a espingarda para o imobilizar. Manshaus escapou três vezes das suas mãos, mas foi recapturado com sucesso. A polícia foi chamada às 16:07, hora local. Outro membro, Irfan Mushtaq, dirigiu-se à mesquita e ajudou a imobilizar Manshaus, amarrando-lhe as pernas com o seu xaile de imã.

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