A Universidade Livre de Lisboa foi um estabelecimento de ensino superior particular e cooperativo, reconhecido como pessoa coletiva de utilidade pública, criado em 28 de abril de 1977«Por escritura pública lavrada no dia 28 de Abril de 1977, de fl. 27 v.º fl. 38 v.º do livro de notas n.º 189-D do 20.º Cartório Notarial de Lisboa (fotocópia a fls. 140 e seguintes), foi constituída uma sociedade cooperativa anónima de responsabilidade limitada denominada Cooperativa de Ensino Universidade Livre, S.C.A.R.L., com sede em Lisboa, tendo por objeto «apoiar o ensino universitário», para o que poderia «estabelecer salas de estudo, ministrar o ensino de cadeiras ou cursos paralelos ou complementares do ensino oficial ou particular, criar cursos de especialização ou de reciclagem para pós-graduados ou promover conferências e outras actividades de índole científica ou cultural e de nível universitário» (n.º 1 do artigo 2.º dos respetivos estatutos), e cabendo-lhe ainda «promover, patrocinar e exercitar a investigação científica e a alta cultura em todos os ramos do saber, designadamente naqueles que na Cooperativa se professem» (n.º 2 do mesmo artigo).» conforme exarou o Tribunal Constitucional, no seu acórdão n.º 34/84, de 11 de abril de 1984 e que iniciou a sua atividade docente no ano letivo de 1977/1978, ministrando o ano propedêutico,Criado em 1976, em substituição do Serviço Cívico Estudantil - obrigatório entre junho de 1975 e junho de 1977 para os estudantes que desejavam ingressar no ensino superior -, o ano propedêutico constituía o “ano zero” de acesso ao ensino superior em Portugal, vindo a partir de 1980 a dar origem ao 12.º ano de escolaridade. e, a partir do ano letivo de 1978/1979, lecionando cursos de licenciatura (pré-Bolonha, isto é com 5 anos de duração).
Tratou-se da primeira universidade privada surgida em Portugal após a revolução de 25 de abril de 1974, que, até então, só contava com a Universidade Católica, fundada em 1967 e reconhecida oficialmente em 1971.
Como assinala Carlos Fontes em «História da Formação Profissional e da Educação - Idade Contemporânea – 3.ª República (1974-1986) Ensino Superior» (e-book de 2016):
O «projecto da Universidade Livre, que data de 1976, entrando em funcionamento em 1978, pode ser definido como tentativa de desenvolvimento de um sector privado elitista secular ou pelo menos concorrencial ao sector público. O sector privado procura manter o carácter de distinção social, reforçando a rendibilidade simbólica e económica do diploma de ensino superior», como refere Ana Maria Seixas (da Universidade de Coimbra), em “O ensino superior privado em Portugal: políticas e discursos” (in Revista Portuguesa de Educação, vol. 13, núm. 2, 2000, pp. 53-79 Universidade do Minho Braga, Portugal), a p. 57.
A Universidade Livre de Lisboa teve como seu último ano de atividade docente o período letivo de 1987/1988 e foi extinta em finais dessa década, fruto de dissidências por parte «dos responsáveis da Cooperativa de Ensino Universidade Livre, C.R.L., e a Sociedade Gestora de Ensino Universidade Livre, S.A.R.L., entidades que disputavam, quando da publicação do referido despacho, a titularidade da Universidade» (in Despacho, do Secretário de Estado do Ensino Superior, n.º 31/SEES/94, publicado no Diário da República, 2.ª série, de 26 de agosto de 1994, a página 8784, reportando-se ao Despacho n.º 94/SEES/86, publicado no Diário da República, 2.ª série, de 26 de setembro de 1986, a página 8922.), conflito que não passava apenas pela disputa no controlo legal da instituição e do seu alvará, mas também pelo controlo das suas instâncias académicas e administrativas, entre, de um lado, o “grupo empresarial” de fundadores da Cooperativa, e, do outro, o “grupo académico-institucional” composto por parte dos professores que nela exerciam a docência, e que foi marcado pelo recurso aos tribunais, onde correram várias ações judiciais em torno do exercício da gestão administrativa e financeira da instituição.Ver também Universidades e instituições superiores desaparecidas de Portugal
A mesma extinção sucedeu com o polo que a Universidade Livre tinha na cidade do Porto (usualmente designado por Universidade Livre do Porto), o qual havia iniciado a sua atividade no ano letivo de 1978/1979.
Fruto, por um lado, das mencionadas «cisões internas no seio desta instituição» e por outro, do «Decreto-Lei 121/86 de 28 de Maio, que estará na origem no processo de expansão da criação oficial das instituições de ensino superior privado», surgiram, entretanto, novas universidades privadas, para onde migraram parte dos professores e dos alunos da Universidade Livre que ainda não haviam concluído as suas licenciaturas. Com efeito, será com base naquele diploma legal do governo de Aníbal Cavaco Silva que o ministro da educação e cultura João de Deus Pinheiro reconhecerá, no verão desse ano, através de despachos ministeriais, a autorização da abertura, como estabelecimentos de ensino superior privado, entre outros, da Universidade Autónoma Luís de Camões, criada em 1985, e das Universidade Lusíada de Lisboa e Universidade Portucalense Infante D. Henrique, no Porto, ambas criadas em 1986, a que se seguirá pouco depois a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, criada em 1987.
Como expendeu, em 2007, Manuel de Almeida Damásio na sua tese de doutoramento, p. 287:
Cursos Conforme dispunha o artigo 6.º, n.º 1, do Decreto-lei 426/80: «A Universidade Livre poderá atribuir os graus de bacharel, licenciado, mestre e doutor, gozando os correspondentes títulos e diplomas do mesmo valor que os das restantes Universidades portuguesas.» A Universidade Livre, nos termos dos artigos 1.º e 2.º, do Decreto 59/83, foi, em Lisboa e no Porto, «autorizada a conferir o grau de licenciado em: a) Ciências Históricas; b) Direito (nos ramos de): I) Ciências Jurídicas; II) Ciências Jurídico-Políticas; III) Ciências Jurídico-Económicas; c) Economia; d) Estudos Portugueses; e) Gestão; f) Línguas e Literaturas Modernas (nas variantes de): I) Estudos Ingleses e Alemães; II) Estudos Portugueses e Franceses; III) Estudos Portugueses e Ingleses; g) Matemáticas Aplicadas»
Órgãos internos Eram «órgãos internos da Universidade Livre: a) O reitor e vice-reitores; b) O conselho universitário; c) O conselho pedagógico e científico; d) Os conselhos escolares dos departamentos; e) O conselho administrativo; f) O conselho disciplinar.»
Estabelecidos no artigo 1.º da Portaria n.º 92/81, de 14 de janeiro de 1981, do ministro da educação e ciência, com a composição, competências e funcionamento, previstos nos artigos 2.º a 12.º do mesmo diploma legal. Instalações A Universidade Livre de Lisboa teve as suas instalações, na Rua Vítor Cordon (antiga rua do Ferragial), números 41-45, em Lisboa, no vetusto e icónico edifício que fora o «Hotel Braganza», (construção do século XIX, no estilo arquitetónico romântico, por vezes referenciado como «Hotel Bragança», não devendo ser confundido com o hotel homónimo da Rua do Alecrim, número 12, que lhe ficava próximo, inaugurado em 1924, sendo que o Braganza já havia encerrado em 1911), local onde, anteriormente, se alojaram hóspedes ilustres, como o imperador do Brasil, a rainha da Suécia e o rei do Sião, bem como ali se reuniram importantes tertúlias literárias e artísticas, tendo sido ponto de encontro do grupo «Os Vencidos da Vida », composto, entre outros, por Guerra Junqueiro, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Francisco Melo Breyner e Eça de Queiroz, que o imortalizou em Os Maias. thumb|350px|Os Vencidos da Vida (fotografia de P. Marinho, in Brasil-Portugal, a. II, 1900): António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, Luís Maria Augusto Pinto de Soveral, Carlos Félix de Lima Mayer, Francisco Manuel de Melo Breyner, Abílio Manuel Guerra Junqueiro, José Duarte Ramalho Ortigão, Carlos de Orta Lobo de Ávila, Bernardo Pinheiro Correia de Melo, José Maria de Eça de Queirós e Joaquim Pedro de Oliveira Martins (faltando António Cândido Ribeiro da Costa) Em 2019, o edifício foi integralmente recuperado, reabilitado e transformado, albergando, desde então, no seu interior apartamentos de luxo.
Aquando da sua abertura a Universidade Livre de Lisboa lecionou o ano propedêutico (1977/1978) em instalações sitas no Edifício Franjinhas da Rua Braamcamp, em Lisboa, funcionando a secretaria no prédio da esquina da Avenida Fontes Pereira de Melo com a Avenida António Augusto de Aguiar.
Na sua fase final, a partir do segundo semestre do ano letivo de 1984/1985, a Universidade Livre teve também instalações na Rua da Junqueira, em Lisboa, no que viria a ser, a partir de 1986, a Universidade Lusíada.
Reitores Adelino da Palma Carlos, primeiro reitor; José João Gonçalves de Proença;In espólio documental da Universidade Livre de Lisboa arquivado e consultável na Direcção-Geral do Ensino Superior Francisco da Costa Durão (eleito em 1982);Reitor in Livro de curso - Direito 1978/1983 da Universidade Livre; Lisboa; 1983; e na documentação, constante no espólio da Universidade Livre de Lisboa, arquivada e consultável na Direcção-Geral do Ensino Superior Docentes Professores catedráticos Adriano Moreira (Direito internacional público); Alberto Franco Nogueira (História de Portugal contemporâneo); Almerindo de Vasconcelos Lessa (Ecologia humana); António Jorge Martins da Mota Veiga (Direito do trabalho); Diogo José de Leite Campos; Henrique Martins de Carvalho; Inocêncio Galvão Teles (Teoria geral do Direito civil e Direito das obrigações) Joaquim de Jesus Santos; Joaquim Veríssimo Serrão (História); José João Gonçalves de Proença (Direito da família e sucessões); José Júlio Gonçalves (Introdução ao estudo do Direito); Justino Mendes de Almeida; Manuel Duarte Gomes da Silva; Mário Júlio Brito de Almeida Costa (História das instituições); Óscar Soares Barata (História); Pedro Mário Soares Martinez; Vítor António Duarte Faveiro (Direito fiscal); Professores associados, convidados e auxiliares Augusto da Penha Gonçalves (Direitos reais); Carlos Olavo (Direito comercial); Jorge Tracana de Carvalho; José João Baptista (Direito processual civil); José Inácio Clímaco de Sousa e Brito (Direito penal e Filosofia do direito); José Luís Nogueira de Brito (Segurança Social); Maria Fernanda Palma (Direito processual penal); Maria de Jesus Brito L.M. Serra Lopes (Teoria geral do Direito civil e Direito das obrigações); Maria Teresa Paulo Sampaio da Costa Macedo (Cultura Portuguesa e Literatura Brasileira); Rebelo da Conceição; Rui Eduardo Ferreira Rodrigues Pena (Direito administrativo); Rui Carlos Pereira (Direito processual penal); Assistentes António Colaço Canário (Teoria geral do Direito civil e Direito das obrigações); António Cardoso da Mota; António José Baeta Tomás; António Serra Lopes (Direito económico); Artur da Conceição Mendes; Canuto Joaquim Fausto de Quadros (Direito comunitário; Carlos Botelho Moniz; Carlos Sampaio; Eduardo Paes Ferreira; Eduardo Tracana de Carvalho; Fernando José Borges Correia de Araújo; Fernando Larcher Nunes (Direito administrativo); Fernando Helder Gonçalves Domingos Ferreira; Fernando Jorge de Loureiro de Roboredo Seara (Direito internacional público); Filipa Maria de Vilhena Arantes Pedroso; Helena de Araújo Lopes; Henrique Hilário Tavares Dias da Silva; Jorge Correia de Noronha e Silveira; José Artur Duarte Nogueira; José Pedro Duarte Lupi Fialho (Direito do trabalho); José Correia de Noronha E. Silveira; José Manuel Cardoso Sequeira; Maria Paula Rodrigues Passos de Gouveia Vieira Branco; Karl Prelhaz Natscheradetz (Direito penal); Maria Celeste Lopes Ferreira Cardona; Maria da Conceição Santana Valdagua;Professores in Livro de curso - Direito 1979/1984 da Universidade Livre; Lisboa; 1984; e na documentação, constante no espólio da Universidade Livre de Lisboa, arquivada e consultável na Direcção-Geral do Ensino Superior. Maria Eduarda de Almeida Azevedo; Mário Coelho Ferraz de Oliveira (Direito da família e sucessões);