Kimbwandènde Kia Bunseki Fu-Kiau, também conhecido como Andele Fu-Kiau Kia Bunseki-Lumanisa (Manianga, 4 de abril de 1934 – Boston, 29 de novembro de 2013), foi um renomado antropólogo, historiador e educador quinxassa-congolês.
Biografia Kimbwandènde Kia Bunseki Fu-Kiau nasceu em Manianga, Congo Belga (atual República Democrática do Congo), em 4 de abril de 1934. Cresceu no Baixo Congo (atual Congo Central), imerso na agitação e renovação do kintuadi (o movimento kimbanguista original), que contribuiu para os esforços da Segunda Guerra Mundial.
Ele foi um participante ativo do vasto movimento de renascimento e revalorização da cultura congo, que teve como principal representente político o partido Associação dos Bacongos para a Unificação, a Conservação e o Desenvolvimento da Língua Congo (ABAKO). Militando nessa organização, Fu-Kiau foi iniciado nas tradições do Lémba, do kimpasi e do kinkimba. Essas tradições funcionam como sistemas de ensino próprios das culturas originárias. Entre elas, o Lémba se destaca por sua grande influência, sendo a base de diversas religiões e práticas de matriz africana nas Américas, como o Palo Mayombe em Cuba, o Vodu Preto no Haiti e o Candomblé Angola no Brasil, resultado da diáspora forçada de povos da África Central durante o período do tráfico de escravizados. Suas pesquisas posteriores sobre a história e antropologia congo foram instigadas após esse período de imersão cultural e política.
Fu-Kiau fez seus estudos superiores na Universidade Lovanium na década de 1950, e acabou por se tornar professor na mesma universidade. Enquanto docente universitário, Fu-Kiau foi pioneiro nos estudos congo da língua congo, na qual os provérbios (kingana) e desempenham papel central na transmissão e organização do conhecimento, onde saber é compreendido como uma prática coletiva, articulada à vida comunitária e às experiências sociais, não se restringindo a formas escritas ou individuais.
Após um longo período como docente universitário na cidade de Quinxassa, o Fu-Kiau decidiu regressar a Manianga, sua vila de origem no interior. Nesta localidade, em 1964, ele criou o "Instituto Luyalungunu Lwa Kumba-Nsi" e o "Kinkimba kia Kongo à Luozi". Essas instituições foram estabelecidas como escolas e institutos de pesquisa de humanidades congo, com o ensino conduzido em língua congo, no qual influenciou grandes ocidentais, como Dr. Robert Farris Thompson, Dr. Jhon M. Janzen e Dr. Wyatt MacGaffy. Havia a intenção de expandir essa iniciativa para as outras três línguas nacionais da República Democrática do Congo: suaíli, luba e lingala. Foi nesses locais que ele compôs seus primeiros trabalhos escritos em congo. Essencialmente, a ideologia estatal oficial do regime de Mobutu Sese Seko, denominada authenticité, se baseava nas obras de Fu-Kiau. thumb|left|250x250px|Cosmograma congothumb|250x250px|Cosmograma congo alternativo
Na década de 1970, devido o endurecimento no autoritarismo e a mobutização-fascista no país promovida pelo regime de Mobutu Sese Seko, Fu-Kiau exilou-se e continuou suas pesquisas nos Estados Unidos. Lá, ele obteve graduação em Antropologia Cultural, um mestrado em Administração Escolar e um PhD em Educação e Desenvolvimento Comunitário. Durante esse período também dedicou-se aa ensinar o publico estadunidense — especialmente os afro-estadunidenses — sobre a riqueza e a complexidade da filosofia africana através de diversas palestras e conferências. Publicou inúmeros livros e artigos, como Kongo Cosmology (Cosmologia Congo); Kumina: A Kongo-based Tradition in the New Word (Uma tradição Congo baseada no Novo Mundo), entre outros. Era um dos autores listados pela editora PAARI Éditeur, e entre as publicações em que ele era autor estava N‘Kongo ye nza yakun’zungidila – Nza-Kôngo.
Bunseki Fu-Kiau descreveu alguns cosmogramas pré-coloniais com mfinda como uma ponte entre os dois mundos. Esses princípios éticos, sociais e cosmológicos funcionam como meios de interpretação da realidade e orientação das condutas. Tal perspectiva também evidencia a integração entre linguagem, conhecimento e organização social, na medida em que práticas comunitárias, como os espaços de reunião e deliberação, expressam e atualizam princípios no cotidiano.SANTANA, Tiganá. A Cosmologia Africana dos Bantu-Kongo: Princípios de Vida e Vivência (Tradução e Introdução). Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
Fu-Kiau faleceu em 29 de novembro de 2013 em Boston, Estados Unidos.
Filosofia Dikenga e o ciclo vital O conceito central da obra de Bunseki Fu-Kiau é o Dikenga dia Kongo, um cosmograma que funciona como um mapa do universo e um modelo para a compreensão da existência. Fu-Kiau sistematiza a cosmologia Banto-Congo apresentando a vida não como um processo linear, mas como um movimento circular e contínuo de transformações.
Cosmograma e os quatro estágios do sol
O Dikenga é representado por um círculo dividido por duas linhas cruzadas (uma vertical e uma horizontal). Para Fu-Kiau, o ser humano é um "sol vivo" que percorre quatro estágios fundamentais, correspondentes às posições do sol e aos momentos do dia:
Musoni (Concepção) Representado pela posição da "meia-noite" (inferior). É o ponto de origem no mundo espiritual, o estágio da semente, da ideia e do planejamento. Kala (Nascimento) Representado pelo sol nascente (leste). Simboliza a entrada do indivíduo no mundo físico (Nza). É a fase do aprendizado e do crescimento. Tukula (Maturidade) Representado pelo sol ao meio-dia (superior). É o ápice da força vital, da realização pessoal e da responsabilidade social. Luvemba (Transição/Morte) Representado pelo pôr do sol (oeste). Marca a passagem do mundo físico para o espiritual. Para Fu-Kiau, não é um fim absoluto, mas um "ocaso-reinício", onde o ser se torna um ancestral.
Linha Kalunga e o equilíbrio
A linha horizontal que divide o mundo dos vivos (Nza yayi) do mundo dos mortos ou ancestrais (Nza ya bafwa) é denominada Kalunga. Fu-Kiau define Kalunga como a força de equilíbrio do universo, representada pela linha do oceano. A vida é entendida como o trânsito constante entre esses dois mundos, onde a energia vital nunca desaparece, apenas muda de estado.
Geometria da existência Fu-Kiau utiliza frequentemente a letra "V" como um esboço gráfico para ilustrar a trajetória da vida. Segundo o autor, o ser humano "desce" para o mundo físico no nascimento e, após completar seu ciclo de aprendizado e maturidade, "sobe" de volta à espiritualidade. Esse movimento de descida e subida é o que permite a manutenção do grande círculo cósmico.
Epistemologia, linguagem e educação A produção intelectual de Bunseki Fu-Kiau estabelece uma relação intrínseca entre a linguística e a produção de conhecimento. Para o autor, as línguas africanas, com ênfase no congo, não operam meramente como veículos de comunicação, mas como “instituições sociais” fundamentais que codificam a história, a ética e a ciência de seus povos. Fu-Kiau defende que a descolonização do saber passa, necessariamente, pelo domínio dessas línguas, argumentando que a verdadeira “descodificação cultural” de sistemas sociais e filosóficos africanos só é possível através das categorias mentais e semânticas presentes no idioma nativo.
Crítica à "exploração Intelectual" Fu-Kiau formulou uma crítica rigorosa ao que denominou “exploração intelectual”. Segundo esta perspectiva, a interpretação da realidade africana por académicos ocidentais que não dominam as línguas locais resulta em descrições superficiais e, frequentemente, erróneas. O autor sustenta que o conhecimento produzido “de fora”, sem o acesso aos códigos linguísticos e espirituais originais, falha em captar a essência das estruturas de pensamento Bantu.
Fundamentos culturais: Makuku Matatu No campo da educação e da organização social, Fu-Kiau utiliza a metáfora do Makuku Matatu (os três pés do fogão) para descrever a base da estabilidade de qualquer sistema. De acordo com este princípio cosmológico, assim como uma panela necessita de três pedras de apoio para se equilibrar sobre o fogo, o conhecimento humano e as instituições sociais dependem de três pilares fundamentais. Na sua proposta pedagógica, estes apoios são frequentemente identificados como o conhecimento técnico, a sabedoria ancestral e o compromisso ético-comunitário; a negligência de qualquer um destes pilares resultaria no colapso do sistema educativo.
Onomástica e identidade (Ndumbudulu) Outro aspecto relevante da sua obra é o estudo da nomeação (Ndumbudulu). Fu-Kiau argumenta que, na cultura congo, o nome não é um rótulo arbitrário, mas uma definição biográfica e cósmica do indivíduo ou do clã (kanda). O “nome de glória” carrega em si a essência do ser e o seu papel funcional dentro da comunidade e do universo, sendo um elemento central para a compreensão da identidade e da genealogia africana.
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