A língua afar (), é uma língua cuxítica oriental, majoritariamente falada na Etiópia pelos afares. Porém, ela também é encontrada em outros países da África Oriental, como a Eritreia, Djibuti e Somália, devido à sua presença nas regiões fronteiriças etíopes de Amhara e Somali. Há cerca de 2.365.800 falantes da língua ao total, com 1.862.800 deles localizados na Etiópia.

Na Escala Expandida de Disrupção Intergeracional Graduada (EGIDS), o afar está no nível 2, categorizando-o como um idioma provincial, incorporado na educação, no mercado de trabalho, na mídia de massa e no governo (entre as principais subdivisões administrativas). Assim, pela UNESCO, a língua é considerada ativa.Raymond G. Gordon, Jr, ed. 2005. Ethnologue: Languages of the World. 15th edition. Dallas: Summer Institute of Linguistics.

Para aqueles que não têm o afar como língua nativa, o índice de alfabetização é apenas de 3%, com ensino em escolas primárias e com o acesso do idioma na literatura, no rádio, em vídeos e textos. A parente mais próxima da língua afar é a língua sahoRaymond G. Gordon, Jr, ed. 2005. Ethnologue: Languages of the World. 15th edition. Dallas: Summer Institute of Linguistics. Raymond G. Gordon, Jr, ed. 2005. Ethnologue: Languages of the World. 15th edition. Dallas: Summer Institute of Linguistics.

Etimologia

O termo "afar" ou "qafar af" deriva do grupo étnico que tem o idioma como língua nativa: o povo afar. Ele, por sua vez, recebe esse nome pelo território que ocupa, o "Triângulo de Afar". O Barão Raimondo Franchetti teorizou que o nome era uma alusão ao personagem bíblico Ofir, filho de Joctan e descendente de Noé. Entretanto, o próprio povo afar crê que descende de Cuxe, filho de Cam (filho de Noé), compondo um ramo distinto da árvore genealógica baseada em Gênesis.

Os outros nomes para o idioma também são originados a partir de denominações para o grupo étnico. Por exemplo, "adal" é um nome bastante utilizado em crônicas etíopes amáricas para se referir tanto à população quanto à língua, em alusão ao Sultanato de Adal, que reinou na região até o século XVI.

Algumas designações possuem uma conotação pejorativa, como "danakil" (danā kil). O termo provém do Deserto de Danakil, situado no nordeste da Etiópia, no sul da Eritréia e em boa parte de Djibuti, território habitado pelo povo afar. Em árabe, é o etnônimo de um povo que habitava a região de Beilul e que compôs o Reino de Dankali, dos séculos XV ao XVII. Posteriormente, os árabes generalizaram o nome e atribuíram-no a todo o povo afar que habitava a costa do Mar Vermelho.

Distribuição esquerda|miniaturadaimagem|283x283px|Homem nômade do povo afar A língua afar é majoritariamente falada na Etiópia: cerca de 1,4% das pessoas da população etíope fala o afar como idioma nativo. No país, ele está presente nas regiões de Tigré, Amhara e Somali. Além disso, a língua é encontrada na Eritreia, no Djibuti, e na Somália, devido ao deslocamento do grupo étnico afar (um povo nômade) para além das fronteiras etíopes. No Djibuti, recebe o título de língua nacional; na Eritreia, é uma língua reconhecida; na Etiópia, é uma língua oficial, incorporada na educação, no mercado de trabalho, na mídia de massa e na administração pública. Devido ao nomadismo, também há indícios de que a língua esteja presente em outros países africanos, entretanto, em escala menor. Já fora do continente africano, há comprovação de uma pequena quantidade de falantes no Reino Unido.

Há quatro principais dialetos do afar: afar setentrional, afar central, aussa e baadu (ba'adu). Cada dialeto possui uma presença nos três países de maior ocupação dos falantes da língua (Etiópia, Eritreia e Djibuti), com exceção ao baadu, cuja concentração documentada está na Etiópia.

Uma forma mais ampla de diferenciar os dialetos do afar é a diferenciação por zona norte e zona sul.

+Dialetos: fonética e fonologia Diferença Exemplo sul Exemplo norteTraduçãofrequência de metátesesmafgadámafdagáalojamento de escalatagrátargábaldequeda de vogal interconsonantal átona(comum do sul)assé asisé eu guardeiubléubulé eu vi

+Dialetos: morfologia e léxicoDiferençaExemplo sulExemplo norteTraduçãoMorfologiamorfemas derivados podem diferirnammáy → nammeyháytunammáy → nammeyyé(o) segundoLéxicoa proporção de vocabulário comum supera 70%barráagboytámulherʕárus maʕánɖaa aliggépadrinho Entretanto, é essencial sinalizar que a diferenciação de dialetos por zona norte e zona sul é baseado em dados antigos, recolhidos na década de 1950.

O afar é semelhante à língua saho e, juntos, os idiomas compõem o subgrupo saho-afar, que pertence ao ramo cuxítico da família afro-asiática. O contato entre esses dois povos se dá pela ocupação do povo saho no sul da Eritreia, visto que o território é rodeado pelos afares ao sul e ao leste.

História do reconhecimento da língua miniaturadaimagem|Mapa da colonização do povo afar de 1862 a 1936 O povo afar ocupa a mesma região há séculos e, ao longo desse tempo, foi alvo de várias invasões e tentativas de dominação, apesar de habitar uma área muito quente e seca, que desencorajava ataques. Todos os diferentes povos que efetivaram as tentativas de ocupação e colonização tiveram alguma influência linguística no afar. Por exemplo, o árabe clássico, uma língua religiosa, teve um grande papel na conversão de uma parcela da população afar ao islamismo, no século VII. Além disso, ao longo da história colonial africana do século XIX, ainda houve as invasões europeias no Chifre da África, que implantaram colônias italianas na Eritreia, colônias inglesas na Eritreia e Djibuti, e colônias francesas em Djibuti. Por isso, o status da língua afar varia de acordo com os países.

No Djibuti, a realidade colonial atribuiu ao francês um maior reconhecimento como uma língua que "permite a ascensão social", uma língua da elite. Isso, consequentemente, atribuiu ao afar (que nem sequer é uma língua oficial do país) uma condição de idioma de "segunda classe". Por isso, até os dias atuais, quaisquer manifestações culturais ou linguísticas de valorização da língua são raríssimas e, majoritariamente, dependem de abordagens proativas por parte de indivíduos ou associações militantes para promover o idioma.

Apesar disso, foi no Djibuti onde nasceu o alfabeto utilizado na escrita do afar. Adaptado do latim, o sistema de escrita foi desenvolvido pela União de Desenvolvimento Cultural (UDC), uma organização que dava voz às aspirações progressivas da juventude djibutiana, na altura em que o país ainda estava caminhando para a independência nacional. Dois membros da UDC, motivados a desenvolver um sistema de escrita para o afar (que, até então, era inexistente), tiveram o espaço para criar, em 1975, o alfabeto Dimis kee Redo, uma adaptação do alfabeto latim, cujo nome é inspirado pelos dois co-autores: Ahmed Abdallah Hamad, conhecido como Dimis, e Gamaladdin Abdulkadir.

Desde a implementação do alfabeto, a UDC também lançou um programa de alfabetização para falantes nativos dominarem a escrita de sua língua. Apesar disso, para além do programa e de alguns estudiosos dedicados, a escrita afar é rara no ambiente djibutiano, visto que, por mais que seja reconhecido constitucionalmente como uma língua nacional, o afar não goza de um estatuto político particular, e a educação no país continua a ser em francês. esquerda|miniaturadaimagem|260x260px|O Palácio do Povo, Djibuti Quanto aos avanços mais recentes, em 2002 e 2003, foram organizados dois simpósios que reuniram especialistas do afar e do somali (outra língua nacional de Djibuti) para trabalhar na renovação do léxico na comunicação social. No Palácio do Povo, compareceram poetas, jornalistas e linguistas para adaptar o dicionário e consultar sobre o mérito de neologismos.

Em 2002, também foi criado o Instituto de Línguas do Djibuti (ILD), no âmbito do Centro de Estudos e Investigação do Djibuti (CERD), que priorizou a investigação de línguas nacionais. Além disso, em 2008, foram criados cursos introdutórios à linguística do afar e do somali na Universidade do Djibuti, ao nível do terceiro ano de uma licenciatura em literatura moderna.

História da documentação O afar é um idioma cuja documentação teve início ao final do século XIX. Uma das primeiras pessoas a fazer registros sobre a língua foi o pesquisador austríaco Leo Reinisch, que, após passar um tempo em Maçuá, cidade na Eritreia, publicou um esboço de gramática e léxico de afar (1886-1887), com base na fala da região. miniaturadaimagem|240x240px|homem afar com vestimentas tradicionais Em seguida, veio uma onda de ingleses que interessaram-se pelo povo afar, sobretudo com um propósito evangelístico. Há levantamentos da década de 1950 sobre o afar na costa da Eritreia, registrados pelo Padre James Colby, que serviram de base para as pesquisas de Enid Parker em 1957, uma integrante da Missão do Mar Vermelho (Red Sea Mission Team). Tais pesquisas resultaram na publicação de um dicionário, acompanhado por anotações gramaticais (Parker & Hayward, 1985).

De 1970 a 1995, Parker residiu em Djibuti e, como missionária, realizou pesquisas para publicar livros didáticos e religiosos (tradução do Novo Testamento, provérbios, contos tradicionais). Ainda houve mais pesquisas realizadas no território do povo afar, mas esses artigos e traduções serviram de base para todas as seguintes investigações da língua. Isto, inclusive, pode ser percebido pelo uso das traduções de frases bíblicas, como é nitidamente percebido no livro de Loren F. Bliese, "A generative grammar of afar" (1997), que baseou-se na tradução do Novo Testamento, escrita por Enid Parker.

Fonologia A língua afar tem cinco vogais e dezessete consoantes. A ortografia padrão é aquela estabelecida por Ali Arif, antigo presidente do Território Francês dos Afares e Issas (Djibuti), e pela Dra. Enid Parker, enquanto participava do Afar Literature Project, do Instituto de Estudos Etíopes. Consoantes

As consoantes da língua afar são listadas abaixo, segundo o IPA:

  Bilabial Labiodental Alveolar Retroflexa Palatal Velar Faríngea Glotal Plosiva vozeada                 desvozeada                 Fricativa vozeada                 desvozeada                 Nasal                 Aproximante                   Vibrante              

Duas consoantes que não são homorgânicas, quando adjacentes uma a outra, possuem um som de transição entre elas, que precede o início da segunda consoante. Essas consoantes homorgânicas são fonemas que possuem o mesmo ponto de articulação, mas se distinguem por traços referentes à sonoridade, por exemplo: /t/ (desvozeado) e /d/ (vozeado). Entre consoantes fricativos e vozeadas, e antes de consoantes vozeadas, esse som é um schwa. ab'le (eu vejo) - ao separar os lábios após o "b", um schwa precede o "l". bar-'t-e (eu aprendi) - o schwa precede o t. Vogais e acento tônico

Cada vogal tem a sua versão curta e alongada. As vogais longas são indicadas pela repetição da letra: aa , ee , ii , oo , uu .

+   Anterior Central Posterior Fechada Semifechada Semiaberta Aberta

Ao final das palavras, há algumas diferenças suprassegmentais que determinam se a frase é afirmativa, negativa ou interrogativa: As vogais finais dos verbos nas frases afirmativas são aspiradas (e tônicas), por exemplo: abeh = Ele fez. As vogais finais dos verbos nas frases negativas não são aspiradas (nem tônicas), por exemplo: maabinna = Ele não fez. As vogais finais dos verbos nas frases interrogativas são alongadas (e tônicas), por exemplo: abee? = Ele fez? Fonotática Há oito esquemas silábicos registrados: V(V)(C) e CV(V)(C). Uma exceção é o grupo de três consoantes -str-.

As estruturas silábicas mais comuns são:

Vogal inicial/consoante final (#V, C#)C V C V → an Vogal longa (Vː)C V C V → baa Encontro consonantal (CC)C V C V C V→ akta Consoante geminada (Cː)C V C V C V→ otto Outras estruturas silábicas são: