Julie Ethel Dash (22 de outubro de 1952) é uma cineasta, diretora de videoclipes e comerciais, autora e produtora de websites norte-americana. Dash obteve o grau de Master of Fine Arts (MFA) em 1985 pela Escola de Cinema da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA Film School) e é uma das cineastas formadas que integraram o movimento conhecido como L.A. Rebellion.

O movimento L.A. Rebellion refere-se aos primeiros estudantes africanos e afro-americanos que cursaram cinema na UCLA. Por meio de seus esforços coletivos, buscaram combater os preconceitos de Hollywood produzindo filmes experimentais e não convencionais. O principal objetivo dessas obras era criar narrativas originais sobre a experiência negra e levá-las às grandes telas. Depois de escrever e dirigir diversos curtas-metragens, seu longa-metragem de 1991, Daughters of the Dust, tornou-se o primeiro filme de longa-metragem dirigido por uma mulher afro-americana a receber lançamento comercial amplo nos Estados Unidos. Em 2004, Daughters of the Dust foi selecionado para o National Film Registry da Biblioteca do Congresso por sua "importância cultural, histórica e estética". Em decorrência do sucesso do filme, Dash também publicou romances de mesmo título em 1992 e 1999. Posteriormente, a obra serviu como uma das principais inspirações para o álbum Lemonade (2016), de Beyoncé.

Daughters of the Dust é uma narrativa ficcional baseada na família gullah de seu pai, que vivia na costa da Carolina do Sul e da Geórgia em 1902. Mantendo fortes vínculos com a cultura, as tradições e a língua africanas, a família Peazant reflete sobre a importância de sua planejada migração para o território continental dos Estados Unidos. O filme apresenta histórias de mulheres negras, marcantes imagens filmadas em locações reais e uma narrativa não linear. Dash escreveu dois livros sobre Daughters of the Dust: um relato sobre a produção da obra, em coautoria com Toni Cade Bambara e bell hooks, e uma sequência ambientada vinte anos após os acontecimentos retratados no filme. Daughters of the Dust continua exercendo ampla influência cultural, tendo sido considerado pela IndieWire um dos filmes mais significativos dos últimos 30 anos.

Desde o final da década de 1990, Dash também atua na televisão. Entre seus telefilmes estão Funny Valentines (1999), Incognito (1999), Love Song (2000) e The Rosa Parks Story (2002), estrelado por Angela Bassett. Em 2004, o National Underground Railroad Freedom Center encomendou a Dash a direção de Brothers of the Borderland, uma instalação cinematográfica imersiva narrada por Oprah Winfrey, que acompanha a trajetória de mulheres em busca da liberdade por meio da Underground Railroad. Em 2017, Dash dirigiu episódios de Queen Sugar, exibida pela Oprah Winfrey Network. Dando continuidade ao seu trabalho na televisão, dirigiu episódios de séries como Our Kind of People, Women of the Movement e Reasonable Doubt ao longo de 2021 e 2022.

Durante o Festival de Cinema de Sundance de 2019, foi anunciado que o próximo grande projeto de Dash seria uma cinebiografia da ativista dos direitos civis Angela Davis, a ser produzida pela Lionsgate.

Desde 2017, paralelamente ao seu trabalho na televisão, Dash ocupa a cátedra Diana King Endowed Professor no Departamento de Arte e Cultura Visual do Spelman College. No Spelman College, ela contribui para o desenvolvimento de um curso de graduação em documentário. Dash afirmou apreciar o uso de sua "imaginação mecânica" em sala de aula, concentrando-se em elementos como composição de enquadramento e iluminação. Em entrevista, comentou que, embora utilize programas de edição como o Premiere Pro em suas aulas, sente falta de carregar tiras de filme penduradas ao redor do pescoço.

Dash também é integrante do Directors Guild of America, do qual faz parte desde 1996. Primeiros anos e educação

Dash nasceu em 22 de outubro de 1952, no bairro do Queens, em Nova Iorque, filha de Rhudine Henderson e Charles Edward Dash. Formou-se na Jamaica High School e, posteriormente, obteve o grau de bacharel em produção cinematográfica pelo City College of New York em 1974. Foi criada no conjunto habitacional Queensbridge Houses, em Long Island City, no Queens. Em 1969, estudou no Studio Museum in Harlem. Durante a graduação, estudou psicologia até ser aceita na escola de cinema do Leonard Davis Center for the Performing Arts, do City College of New York (CCNY). Em 1974, concluiu o bacharelado em produção cinematográfica. Ainda como estudante, escreveu o roteiro do documentário Working Models of Success para a New York Urban Coalition.

Após formar-se no CCNY, mudou-se para Los Angeles para realizar estudos de pós-graduação. Concluiu uma bolsa de estudos de dois anos em Produção/Roteiro no AFI Conservatory. Nesse período, estudou com cineastas como Ján Kadár, William Friedkin e Slavko Vorkapić. Posteriormente, cursou a pós-graduação na Escola de Cinema da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), tornando-se integrante de uma nova geração de cineastas africanos e afro-americanos conhecida como "Black Insurgents" ou L.A. Rebellion.

Dash dirigiu Working Models of Success (1976) e, no ano seguinte, produziu Four Women (1975), um curta-metragem de dança baseado em uma canção de Nina Simone. A obra recebeu a medalha de ouro da Women in Film no Festival Internacional de Cinema de Miami de 1978. Como estudante de pós-graduação na UCLA, obteve o grau de Master of Fine Arts (MFA) em Produção para Cinema e Televisão. Também dirigiu o filme Diary of an African Nun (1977). Exibido na Los Angeles Film Exposition, o filme recebeu o Prêmio do Directors Guild of America na categoria de filme estudantil. Carreira

Início da carreira

Durante a escola de cinema, Dash foi influenciada pelo cinema de vanguarda, latino-americano, africano e russo. Seu trabalho cinematográfico passou a seguir uma nova direção após concluir seus estudos. Em uma entrevista concedida ao Village Voice em 1991, Dash declarou: "Parei de fazer documentários depois de descobrir Toni Morrison, Toni Cade Bambara e Alice Walker. Perguntei a mim mesma: por que não podemos ver filmes como esses? Percebi que precisava aprender a fazer filmes de ficção". A inspiração encontrada nas obras dessas escritoras negras levou-a a decidir dedicar-se à direção de filmes de ficção dramática.

Four Women (1975)

Seu curta-metragem Four Women é baseado na balada "Four Women", de Nina Simone. Na obra, quatro mulheres — todas interpretadas pela dançarina Linda Martina Young — são retratadas: Aunt Sarah, uma escravizada; Saffronia, uma mulher mestiça; Sweet Thing, uma prostituta; e Peaches, representação da resistência das mulheres negras diante das opressões raciais e de gênero. A primeira personagem, Aunt Sarah, veste um longo vestido e simboliza a escravidão. Em seguida aparece Saffronia, usando vestido e véu pretos, representando uma mulher mestiça nascida após o estupro de sua mãe por um homem branco. A terceira personagem, Sweet Thing, é uma prostituta, vestida com um traje estampado e já sem o véu. A última é Peaches, que representa uma mulher negra fortalecida por gerações de opressão, usando tranças afro, um top colorido e calças combinando. A mensagem central do curta é evidenciar as diferentes formas de opressão enfrentadas por muitas mulheres negras. O filme aborda diretamente os estereótipos atribuídos às mulheres negras, convidando o público a refletir sobre seus próprios preconceitos e estereótipos.

Entre 1978 e 1980, Dash trabalhou como integrante da Classifications and Ratings Administration da Motion Picture Association of America. Ela também participou de uma missão especial de avaliação de curtas-metragens exibidos no Marché du Film do Festival de Cannes.

Diary of an African Nun (1977)

O curta-metragem Diary of an African Nun (13 minutos), dirigido por Dash em 1977, foi realizado durante seu período na UCLA. Adaptado do conto homônimo de Alice Walker, acompanha uma jovem freira (Barbara O. Jones), em Uganda, tomada pelo vazio e pela dúvida enquanto reflete sobre seus votos religiosos e sua união com Cristo. À medida que as noites passam, o ritmo dos tambores da aldeia intensifica sua angústia e aumenta suas inquietações.

A simplicidade visual de Diary of an African Nun, combinada ao estilo poético e político de Dash, rendeu-lhe o prêmio do Directors Guild of America para filmes estudantis durante a Los Angeles Film Exposition. Sua narrativa confrontava diretamente as convenções estabelecidas por uma longa tradição cinematográfica dominada por produtores e diretores brancos. O filme apresenta uma intensidade que antecipa temas e características desenvolvidos posteriormente em Daughters of the Dust.

Illusions (1982)

Dash escreveu e dirigiu o curta-metragem Illusions (34 minutos), que explora a discriminação racial e de gênero em Hollywood e na sociedade norte-americana. Lançado em 1982, foi seu primeiro trabalho a alcançar reconhecimento mais amplo.

Ambientado em 1942 nos fictícios National Studios, o filme acompanha Mignon Duprée, uma executiva negra que se faz passar por branca para alcançar sua posição profissional. Também apresenta Ester Jeeter, uma cantora negra contratada para dublar a voz de uma estrela branca dos musicais de Hollywood. Ambas trabalham em uma indústria dedicada à criação de imagens e realidades alternativas. A narrativa explora o dilema de Mignon, a luta de Ester para conquistar papéis como atriz e cantora, em vez de apenas emprestar sua voz a outras intérpretes, e o papel do cinema em tempos de guerra — três ilusões constantemente confrontadas pela realidade.

Illusions recebeu, em 1985, o prêmio da Black American Cinema Society e, em 1989, o prêmio do júri da Black Filmmaker Foundation como o melhor filme da década. O crítico Kevin Thomas, do Los Angeles Times, descreveu a obra como "uma crítica envolvente ao poder do cinema de moldar a percepção", ao mesmo tempo em que examina as ilusões criadas por Hollywood e a própria ilusão da identidade racial. O sucesso desse e de outros curtas-metragens possibilitou a transição de Dash para a direção de longas-metragens. Em 2020, Illusions foi selecionado para preservação no National Film Registry da Biblioteca do Congresso por ser considerado "cultural, histórica ou esteticamente significativo". Daughters of the Dust (1991)

Dash começou a desenvolver a história em 1975, inspirada na origem gullah da família de seu pai e na migração das Sea Islands da Geórgia. Essa história daria origem ao roteiro de Daughters of the Dust, cuja produção teve início após a obtenção de US$ 800 mil em financiamento da PBS, em 1988. Ambientado em 1902, o filme acompanha três gerações de mulheres gullah da família Peazant na ilha de St. Helena, localizada na costa da Geórgia e da Carolina do Sul. Inovador pelo uso do dialeto gullah e por suas narrativas entrelaçadas, protagonizadas majoritariamente por mulheres, o filme concentra-se nas relações ancestrais e matriarcais, bem como na história dos ex-escravizados que se estabeleceram na ilha e ali formaram uma comunidade independente. O roteiro foi escrito no dialeto dos habitantes da ilha, utilizando o mínimo possível de legendas, proporcionando uma experiência linguística imersiva.

A abordagem experimental de Dash em relação à estrutura narrativa era algo raramente visto nos longas-metragens produzidos nos Estados Unidos. Por ocasião do relançamento do filme, ela afirmou: "Eu queria fazer um filme tão profundamente enraizado na cultura, tão autêntico a essa cultura, que parecesse um filme estrangeiro". A narrativa é estruturada à maneira como um griô africano conta uma história, relembrando oralmente a trajetória de uma família ao longo de vários dias. Para garantir a autenticidade da obra, Dash contou com a consultoria de um especialista na cultura gullah.