miniaturadaimagem|Em 2021, 1,3 mil instituições com US$ 14,6 trilhões desinvestiram na indústria dos combustíveis fósseis.|372x372px Desinvestimento em combustíveis fósseis é uma tentativa de reduzir as alterações climáticas exercendo pressão social, política e econômica para o desinvestimento institucional de ativos, incluindo ações, obrigações e outros instrumentos financeiros ligados a empresas envolvidas na extração de combustíveis fósseis.
Em 2011, surgiram campanhas de desinvestimento em combustíveis fósseis nos campus universitários dos Estados Unidos, com estudantes pressionando as administrações a transformarem os investimentos de dotação na indústria dos combustíveis fósseis em investimentos em energia limpa e nas comunidades mais impactadas pelas alterações climáticas. Em 2012, o Unity College no Maine se tornou a primeira instituição de ensino superior a desinvestir a sua dotação em combustíveis fósseis.
Em 2015, o desinvestimento em combustíveis fósseis foi, alegadamente, o movimento de desinvestimento com crescimento mais rápido da história. Em julho de 2023, mais de 1593 instituições com ativos que totalizavam mais de 40,5 trilhões de dólares em todo o mundo tinham iniciado ou se comprometido com alguma forma de desinvestimento em combustíveis fósseis.
Quem toma a decisão de desinvestir cita diversos motivos. Pode ser um meio de alinhar investimentos com valores fundamentais; ou então uma tática para combater a indústria dos combustíveis fósseis; ou ainda uma forma de proteger as carteiras dos riscos financeiros relacionados ao clima. A investigação financeira sugere que, a longo prazo, o desinvestimento em combustíveis fósseis teve um impacto positivo nos retornos dos investidores.
Motivações para o desinvestimento Redução das emissões de carbono O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas concluiu que todas as emissões futuras de dióxido de carbono devem ser inferiores a mil gigatoneladas para proporcionar uma probabilidade de 66% de evitar mudanças climáticas perigosas; este valor inclui todas as fontes de emissões de carbono. Para evitar essas mudanças, apenas 33% dos combustíveis fósseis extraíveis conhecidos das reservas conhecidas podem ser usados; este orçamento de carbono também pode ser esgotado por um aumento em outras fontes de emissão de carbono, como o desmatamento e a produção de cimento. Afirma-se que, se outras emissões de carbono aumentarem significativamente, então apenas 10% das reservas de combustíveis fósseis podem ser usadas para permanecer dentro dos limites seguros projetados.
Além disso, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, a temperatura média da Terra aumentou ao longo do último século e prevê-se que aumente de 2 a 11,5 °F (1,1 a 6,4 °C) ao longo dos próximos 100 anos, com taxas de emissão de carbono contínuas. Este aumento de temperatura ultrapassaria em muito o nível de aquecimento que cientistas consideram seguro para sustentar a vida na Terra.
Econômicas Ativos encalhados – a bolha de carbono miniaturadaimagem|upright=1.3|A bolha de carbono segundo dados da Carbon Tracker Initiative (2013) "Ativos encalhados", que são conhecidos pelas empresas de combustíveis fósseis como a "bolha de carbono", ocorrem quando as reservas das empresas de combustíveis fósseis são consideradas ambientalmente insustentáveis e, portanto, inutilizáveis, devendo ser amortizadas. Atualmente, o preço das ações das empresas de combustíveis fósseis é calculado supondo-se que todas as reservas de combustíveis fósseis das empresas serão consumidas e, portanto, os verdadeiros custos do dióxido de carbono na intensificação do aquecimento global não são levados em consideração na avaliação de mercado de ações de uma empresa. +Reservas conhecidas de combustíveis fósseis extraíveis que não podem ser queimados a fim de evitar mudanças climáticas perigosas Combustível Estados Unidos África Austrália China e Índia Ex-repúblicas soviéticas Ártico Mundialmente Carvão 92% 85% 90% 66% 94% 0% 82% Gás 4% 33% 61% 63% 50% 100% 49% Óleo 6% 21% 38% 25% 85% 100% 33% Em 2013, um estudo do HSBC descobriu que entre 40% e 60% do valor de mercado da BP, da Royal Dutch Shell e de outras empresas europeias de combustíveis fósseis poderia ser eliminado devido a ativos encalhados causados pela regulamentação das emissões de carbono. O então presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney, falando no seminário do Banco Mundial de 2015, declarou que "a grande maioria das reservas são incombustíveis" se o aumento da temperatura global for limitado a menos de 2 °C. Em 2019, Carney sugeriu que os bancos deveriam ser forçados a divulgar os seus riscos associados ao clima nos próximos dois anos, e afirmou que mais informações levariam os investidores a penalizar e recompensar as empresas de acordo. Alertou também que as empresas e indústrias que não estão caminhando para emissões zero de carbono podem ser punidas pelos investidores e falir.
Em junho de 2014, a Agência Internacional de Energia divulgou uma análise independente sobre o efeito dos controles de emissões de carbono. Ela estimou que 300 bilhões de dólares em investimentos em combustíveis fósseis ficariam estagnados até 2035 se fossem adotados cortes nas emissões de carbono de modo que a temperatura média global da superfície aumentasse não mais do que 2 °C. "The report estimated that about $120 billion of new fossil-fuel capacity in the power sector would be idled before repaying its investment costs, along with about $130 billion of stranded exploration costs for oil and about $50 billion for gas."
Um relatório da Carbon Tracker Initiative constatou que, entre 2010 e 2015, o setor carbonífero dos EUA perdeu 76% do seu valor, incluindo o encerramento de 200 minas. Constatou-se que a Peabody Energy, a maior empresa privada de mineração de carvão do mundo, perdeu 80% do preço das suas ações durante esse período. Este queda foi atribuída às regulamentações da Agência de Proteção Ambiental (EPA) e à concorrência com o gás de xisto. miniaturadaimagem|Entre 3500–4000 ativistas ambientais bloqueando uma mina de carvão na Alemanha em protesto contra seus impactos nas mudanças climáticas (Ende Gelände 2016)
Em 2013, as empresas de combustíveis fósseis investiram 670 bilhões de dólares na exploração de novos recursos de petróleo e gás. De acordo com pesquisas de 2021, cerca de metade dos ativos de combustíveis fósseis do mundo poderão se tornar inúteis até 2036, no contexto de uma transição zero líquido.
Risco da regulamentação e precificação de carbono Um relatório de 2015 estudou 20 empresas de combustíveis fósseis e descobriu que, embora altamente lucrativo, o custo econômico oculto para a sociedade também era grande. O relatório abrange o período de 2008 a 2012 e observa que "para todas as empresas e todos os anos, o custo econômico para a sociedade das suas emissões foi maior do que o seu lucro após impostos, com a única exceção sendo a ExxonMobil em 2008".As empresas de carvão puro têm um desempenho ainda pior: "o custo econômico para a sociedade excede a receita total (emprego, impostos, compras de materiais e emprego indireto) em todos os anos, com este custo variando entre quase 2 e 9 dólares por cada 1 dólar de receita".
Da mesma forma, em 2014, a empresa de análise financeira Kepler Cheuvreux projetou 28 trilhões de dólares em valor perdido para as empresas de combustíveis fósseis num cenário regulamentar que visa 450 partes por milhão de atmosférico.
Concorrência de fontes de energia renováveis A concorrência de fontes de energia renováveis pode levar à perda de valor das empresas de combustíveis fósseis devido à sua incapacidade de competir comercialmente com elas. Em alguns casos, isso já aconteceu. O Deutsche Bank previu que 80% do mercado global de eletricidade teria atingido a paridade de rede para a geração de eletricidade solar até o final de 2017. Em 2012, 67% da geração mundial de eletricidade foi produzida a partir de combustíveis fósseis.
A Stanwell Corporation, uma geradora de eletricidade de propriedade do Governo de Queensland, registrou um prejuízo em 2013 com os seus 4.000 MW de capacidade de geração a carvão e gás. A empresa atribuiu essa perda à expansão da geração de energia solar em telhados, que reduziu o preço da eletricidade durante o dia; em alguns dias, o preço (geralmente 40–50 dólar australiano/MWh) era quase zero. O governo australiano e a Bloomberg New Energy Finance previram que a produção de energia por painéis solares em telhados aumentaria em seis vezes entre 2014 e 2024.
Preços instáveis dos combustíveis fósseis A instabilidade dos preços dos combustíveis fósseis tornou o investimento na extração de combustíveis fósseis uma oportunidade de investimento mais arriscada. O petróleo bruto da West Texas Intermediate caiu de 107 dólares por barril em junho de 2014 para 50 dólares por barril em janeiro de 2015. O Goldman Sachs declarou em janeiro de 2015 que, se o petróleo se estabilizasse em 70 dólares por barril, 1 bilhão de dólares em investimentos planejados em campos petrolíferos não seriam rentáveis.
Morais A motivação moral para o desinvestimento em combustíveis fósseis se baseia na crença de que seria errado lucrar com danos deliberados e conscientes ao planeta, especialmente quando os impactos desses danos são absorvidos desproporcionalmente por aqueles que menos se beneficiaram da extração e do uso de combustíveis fósseis. O filósofo e ativista pela justiça climática sul-africano Alex Lenferna apresenta estes três argumentos morais interligados a favor do desinvestimento em combustíveis fósseis:
investir em combustíveis fósseis contribui para danos e injustiças graves, substanciais e desnecessários; desinvestir em combustíveis fósseis ajuda a cumprir a nossa responsabilidade moral de promover a ação climática; e investir em combustíveis fósseis mancha moralmente aqueles que o fazem, tornando-os cúmplices das injustiças da indústria de combustíveis fósseis.
Legais O argumento legal para o desinvestimento é o de que, como a indústria dos combustíveis fósseis enfrenta riscos estruturais a longo prazo, os investidores que continuam a apostar nela podem estar violando os seus deveres fiduciários. Por exemplo, em 2021, a Universidade de Harvard se comprometeu a desinvestir em combustíveis fósseis após enfrentar uma queixa legal que afirmava que os seus investimentos violavam as leis estaduais.
Efeitos Reação da indústria de combustíveis fósseis miniaturadaimagem|280x280px|"Exxon sabia das mudanças climáticas desde 1981 e negou-as mesmo assim". Protesto sobre negacionismo climático em Washington, D.C., 2015. Em Outubro de 2014, a ExxonMobil declarou que o desinvestimento nos combustíveis fósseis estava “desfasado da realidade” e que “não utilizar combustíveis fósseis equivale a simplesmente não utilizar energia, e isso não é viável”.
Em março de 2014, John Felmy, economista-chefe do Instituto Americano de Petróleo, declarou que o movimento para desinvestir em empresas de combustíveis fósseis "realmente me enoja" e afirmou que acadêmicos e ativistas que apoiam o desinvestimento são "mal informados, desinformados ou mentirosos". Ele criticou particularmente o ambientalista e autor Bill McKibben.
A Associação Mundial do Carvão (World Coal Association) destacou que o desinvestimento na indústria de combustíveis fósseis não resulta necessariamente na redução da demanda por esses produtos, mas sim na perda de influência de investidores ambientalmente conscientes sobre a operação das empresas que compõem o setor. Benjamin Sporton, diretor executivo interino da Associação Mundial do Carvão em 2013, afirma que o carvão tem sido a fonte de energia com crescimento mais rápido na última década e é uma importante matéria-prima para aço e cimento em países em desenvolvimento.