O cerco de Goa de 1570 a 1571 foi um episódio da Guerra Geral da Índia, entre o Império Português e o Sultanato de Bijapur. A capital do Estado da Índia foi sitiada por um grande exército comandado pessoalmente pelo Hidalcão, sultão de Bijapur, durante uma das maiores crises do império português no Oriente, em que várias fortalezas e possessões portuguesas foram atacadas ao mesmo tempo por diversos potentados coligados.

O vice-rei D. Luís de Ataíde organizou eficazmente a defesa de Goa e, após vários meses de resistência animada dos portugueses, o Hidalcão desistiu do assédio, tendo assinado um tratado de paz favorável a Portugal. D. Luís de Ataíde regressou a Portugal em 1571 e foi amplamente recompensado pelo rei D. Sebastião, que mais tarde o reconduziria ao cargo de vice-rei da Índia.

Contexto Após a Batalha de Talicota, os sultanatos do Decão destruíram o poder do Reino de Bisnaga e, soberbos e riquíssimos com as vitórias que alcançaram, o Nizamaluco, sultão de Amedenagar e o Hidalcão, sultão de Bijapur, fizeram uma aliança destinada a recuperar Chaul e Goa mas também para expulsar os portugueses da Índia.Saturnino Monteiro: Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, volume III, Livraria Sá da Costa Editora, 1992, p. 331.

Ao mesmo tempo que começaram a reunir armas, munições e a mobilizar as suas tropas, enviaram embaixadores ao Samorim de Calecute, para convencê-lo a atacar a fortaleza portuguesa de Chale, aos régulos da costa do Malabar incitando-os a atacar as fortalezas de Onor, Barcelor e Mangalor, bem como ao sultão do Achém, sugerindo-lhe que fosse por, mais uma vez, cerco a Malaca. Como o Nizamaluco e o Hidalcão sabiam que cada vez que uma fortaleza portuguesa era atacada, as restantes acorriam com reforços por mar, enviaram também um convite ao Império Otomano para que contestasse o mar com as suas armadas de galés, em conjunto com os paraus dos malabares.

A confiança do Hidalcão, do Nizamaluco e do Samorim quanto ao sucesso do projecto levou-as a dividir entre si os territórios que imaginavam já terem conquistado aos portugueses.Frederick Charles Danvers: The Portuguese in India, A. D. 1481-1571, W. H. Allen & Company Limited, 1894, p. 551. Assim, ao Hidalcão caberia Goa, Onor e Barcelor; ao Nizamaluco, Chaul, Damão e Baçaim, e ao Samorim, Cananor, Mangalor, Cochim e Chale. Para além do mais, o Hidalcão adiantou-se a atribuir postos aos seus oficiais em Goa.

Preparativos portugueses Boatos acerca das maquinações do Hidalcão e do Nizamaluco comçaram a chegar a Goa ainda antes de ter terminado a monção de 1570 e o vice-rei D. Luís de Ataíde enviou para Malaca uma grande armada de 5 galeões, 1 galé, 2 galeotas, 5 fustas, guarnecidas com 800 soldados sob o comando de D. Luís de Melo da Silva.Monteiro, 1992, p. 333. Para patrulhar a Costa do Malabar e manter as linhas de comunicação abertas com Cochim enviou D. Diogo de Meneses com 3 galés e 17 fustas guarnecidas com 500 homens. Depois destes destacamentos, ficou em Goa com 1250 soldados.

Assim que os ataques a Goa e Chaul se tornaram evidentes, o vice-rei reuniu em conselho para decidir se Chaul deveria ser defendida, mas como o vice-rei era da opinião que começar uma guerra com uma retirada era má política pelas implicações de ordem psicológica que daí poderiam advir e não evitaria que depois o Nizamaluco atacasse Baçaim, em Outubro enviou para Chaul um reforço de 600 soldados. Ficando em Goa apenas 650 soldados, foram mobilizados 1500 auxiliares goeses cristãos, 1000 escravos fiéis que foram armados, 300 religiosos que pegaram em armas e 200 ex-soldados idosos que se voluntariaram, subindo assim o complemento para 3650 homens, entre soldados e milicianos. O vice-rei tinha em Goa 4 galés, 1 galeota e 20 fustas comandados por Jorge de Menezes Baroche para defender as águas dos rios Mandovi e Zuari em redor da Ilha de Goa, mas apetrechou mais cem, porém já não dispunha de homens para guarnecer eficazmente as defesas da cidade e os navios ao mesmo tempo.Monteiro, 1992, p. 334.Danvers, 1894, p. 552. miniaturadaimagem|A fortaleza dos Reis Magos de Goa Conquistada por Afonso de Albuquerque em 1510, Goa ficava numa ilha rodeada por rios infestados de crocodilos que podiam, no entanto, ser atravessados a vau em algumas áreas durante a estação seca. O vau mais importante e próximo da cidade de Goa era o Passo Seco, defendido pela fortaleza de Benastarim. A passagem podia ser feita em nove vaus ao todo, que foram devidamente fortificados, artilhados e guarnecidos pelos portugueses. Dom Luís de Ataíde distribuiu as suas forças em 19 pontos críticos ao longo da margem oriental, onde se instalaram baterias de artilharia, guarnecidas com 20 a 80 homens e um contingente de lascarins, para impedir a travessia do exército de Bijapur. Cada bateria deveria ter contacto visual com as vizinhas e as suas guarnições não deveriam abandonar os seus postos, a menos que recebessem ordens para tal.

Fora da Ilha de Goa, os portugueses tinham ainda as fortalezas dos Reis Magos, Naroá e Rachol, guarnecidos com 30 a 40 soldados cada uma. A fortaleza dos Reis Magos era apoiada por um galeão ancorado.

O cerco miniaturadaimagem|O Hidalcão, sultão Ali Adil Xá I O Hidalcão desprezou os tratados de paz que tinha firmado com os portugueses e partiu para atacar Goa.

A 28 de Dezembro de 1570, o general Nuri Khan chegou a Goa com a vanguarda do exército, chegando o HidalcãoNome dado pelos portugueses ao soberano de Bijapur. em pessoa oito dias depois, com o grosso das tropas. O Hidalcão assentou um arraial em torno da sua tenda vermelha a leste de Goa, a infantaria distribuída em frente à fortaleza de Benastarim e a artilharia posicionada para contra-atacar as baterias portuguesas. Segundo os portugueses, contava com 100,000 homens, dos quais 30,000 a pé, 3,000 arcabuzeiros e 35,000 a cavalo, incluindo 2,000 elefantes, sendo os restantes trabalhadores forçados. Incluía mais de 350 bombardas, 30 das quais de tamanho colossal e também vários milhares de dançarinas. A sua ordem de batalha era:

4000 cavaleiros, 600 mosqueteiros, 300 elefantes e 220 canhões em Pondá, comandados pessoalmente pelo Hidalcão;Danvers, 1894, p. 553. 3000 cavaleiros, 130 elefantes e 9 canhões perto do Canal de Ganja, comandados Cojer Khan, Rumi Khan e Mortaz Khan; 7000 cavaleiros, 180 elefantes, e 8 grandes canhões em frente à Ilha de João Lopes comandados por Nuri Khan; 9,000 cavaleiros, 200 elefantes, e 32 canhões em frente ao vau de Benastarim comandados por Camil Khan e Delirra Khan; 1500 cavaleiros e 2 peças de campanha nas colinas em frente a Benastarim comandados por Solimão Aga; 2,500 cavaleiros, 50 elefantes e 6 canhões em frente à Ilha de João Bangel comandados por Angozcan; 1500 cavaleiros, 6 elefantes e 6 canhões perto de Sapal comandados por Xatiarviatam; 9,000 cavaleiros, 200 elefantes e 26 canhões em frente ao vau de Agaçaim comandados por Danlate Khan, Xatiatimanaique, Chiti Khan e Codemena Khan. A infantaria "em vasto número cobria os montes e parecia ser o seu propósito inculcar o terror nos espíritos mais ousados".

Começo do cerco miniaturadaimagem|Bandeira da Ordem de Cristo, usada pelos portugueses no séc. XVI em terra e no mar O cerco começou com um furioso bombardeamento geral mas a artilharia de Bijapur focou-se na fortaleza de Benastarim, que foi duramente atingida mas era constantemente reparada durante a noite.Danvers, 1894, p. 554. O inimigo não se apercebia, porém, das baixas que causava dentro da fortaleza. Ao longo das linhas portuguesas junto às margens do rio, o vice-rei ordenou que tochas e fogueiras fossem acesas em posições isoladas durante a noite, para dar a impressão de prontidão e encorajar o inimigo a desperdiçar munições a disparar sobre elas. Os navios portugueses em patrulha nas águas dos rios, comandados por Jorge de Meneses Baroche, por sua vez também respondiam com as suas bocas de fogo um pouco por todo o lado.

Esta era a época habitual para a partida das naus de regresso a Portugal e, embora tenham aconselhado ao vice-rei que não partissem naquele ano por levarem muita gente necessária à defesa da cidade, D. Luís de Ataíde autorizou-as a regressar à Europa, com relatos do que se passava.

Os soldados destacados para a patrulha dos rios e as tripulações dos navios fizeram grande serviço na defesa de Goa, atacando inesperadamente em toda a parte, às vezes desembarcando para atacar os sitiantes dentro das suas linhas fortificadas e regressando com bandeiras capturadas, armas e prisioneiros. Os irmãos Lançarote e Gaspar Dias incendiaram duas aldeias e várias quintas em redor de Goa com um destacamento de 80 soldados, regressando com gado capturado e prisioneiros e noutra ocasião atacaram a posição de Cojer Khan e Rumi Khan, destruíndo os preparativos que tinham feito para atacar a Ilha de João Lopes. miniaturadaimagem|Geografia da região de Goa Vendo-se incapaz de atravessar o rio com as suas tropas pois os portugueses controlavam as águas, o Hidalcão ordenou que o Passo Seco e a parte do rio mais próxima da cidade fossem enchidos de terra para permitir a passagem do exército, obrigando os trabalhadores a cavar sob fogo português:

O ataque parou chegados a Fevereiro de 1571, pois o exército de Bijapur não conseguia superar as defesas portuguesas. As forças navais portuguesas, por sua vez, devastavam as costas e margens dos rios de Bijapur, interceptando navios mercantes com provisões e capturando grandes quantidades de gado que era trazido de volta para Goa. Por causa da sua grande população, os alimentos tiveram que ser racionados para alimentar as tropas, mas a cidade não sofreu fome, pois os portugueses mantiveram as rotas de abastecimento naval abertas.

Em finais de Fevereiro, chegou a Goa um grande reforço de soldados e armas de Cochim. miniaturadaimagem|Guerreiro goês, com um arco longo Os atacantes mostravam a sua admiração pelos portugueses, que combatiam apesar da grande desvantagem numérica mas mostraram-se mais admirados quando lhes chegou a informação de que, regressada a frota de D. Diogo de Meneses do Malabar, para fora enviada novamente apesar do cerco e também que 6 navios comandados por D. Fernando de Vasconcelos foram enviados a atacar a cidade de Dabul.Danvers, 1894, p. 555. Regressado de Dabul, atacou as linhas de Angozcan mas este ataque correu mal e morreram 40 portugueses. As suas cabeças foram levadas em triunfo ao Hidalcão, juntamente com as suas bandeiras.

O Hidalcão, entretanto, convenceu a rainha de Garçopa a atacar a fortaleza de Onor mas D. Luís de Ataíde não só enviou reforços para aquela fortaleza como despachou também reforços para as Molucas e para Moçambique.Danvers, 1894, p. 556. O vice-rei também obteve informação do que se passava no campo inimigo subornando um renegado português que se encontrava ao serviço do Hidalcão e até a sua mulher favorita.Danvers, 1894, p. 557. Ao ver os estragos que sofria de tão poucos adversários, o Hidalcão entabulou negociações com o vice-rei mas o cerco continuou.

A 6 de Março, voltou de Malaca Dom Luís de Melo, que na batalha do Rio Formoso destruíra a armada do Achém e assim evitou que Malaca fosse sitiada ao mesmo tempo que Goa e Chaul. Também trouxe reforços de Cochim, totalizando os seus efectivos 1,500 homens.

Assalto geral contra a Ilha de Mercantor miniaturadaimagem|Ilhas de Goa Vendo que nada conseguia com guerra de posição, na manhã de 13 de Março o Hidalcão resolveu dar um grande assalto geral em direcção à Ilha de Mercantor.Monteiro, 1992, p. 336.Danvers, 1894, p. 558.