Cadernos do Nosso Tempo foi um periódico brasileiro de ciências sociais e política publicado em cinco números entre 1953 e 1956 pelo Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP), no Rio de Janeiro, sob a liderança intelectual de Hélio Jaguaribe. A revista reuniu um grupo estável de autores-editores que buscou intervir no debate público a partir de uma perspectiva nacional-desenvolvimentista centrada na noção de “interesse nacional”.

Histórico O IBESP foi criado em 1953, herdeiro de experiências anteriores de reflexão coletiva — como o chamado Grupo de Itatiaia — e tentou, sem êxito, vincular-se diretamente ao governo Vargas; pouco depois, parte do projeto ganharia forma pública no ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), criado em 1955. Houve superposição temporal entre IBESP/ISEB, e a produção dos Cadernos muitas vezes foi lida posteriormente como “antecedente” do ISEB.

Embora o ISEB tenha alcançado maior visibilidade institucional, a historiografia destaca a relevância própria do IBESP e dos Cadernos para a formação do pensamento político brasileiro dos anos 1950.

Perfil editorial e organização Os Cadernos não seguiram padrão rígido, mas em geral traziam um texto de apresentação, a seção “noticiário do IBESP” e análises de conjuntura nacional e internacional; variavam com notas de pesquisa, informes, estudos, entrevistas e documentos. A autoria individual era frequentemente atenuada: muitos textos saíam sem assinatura ou apenas com iniciais.

O conselho de redação variou ao longo dos números, incluindo nomes como Hélio Jaguaribe, Alberto Guerreiro Ramos, Ignácio Rangel, Nelson Werneck Sodré, Roland Corbisier e Cândido Mendes, entre outros. A coesão temática do grupo — apesar de diferenças — advinha de um sentido comum de missão pública e de uma leitura compartilhada da “questão nacional”.

Temas e orientação intelectual A revista articulou diagnóstico histórico-sociológico do Brasil (da herança colonial ao processo de industrialização e urbanização dos anos 1930) a uma deontologia política que propunha harmonizar conflitos de classe em torno do interesse nacional. Nessa chave, defendia-se uma via nacionalista autônoma face à bipolaridade capitalismo versus socialismo, e uma agenda de modernização econômica (industrialização, energia, transportes) acompanhada de reformas institucionais.

Os autores criticaram três “ismos” vistos como operadores do atraso: o moralismo das camadas médias (associado à UDN), o internacionalismo (tanto à direita quanto à esquerda, com dependência de agendas externas) e certos populismos personalistas então em ascensão.

Artigos e contribuições notáveis Entre os textos de maior repercussão estão A crise brasileira (1953), de Hélio Jaguaribe, que sistematizou o diagnóstico da dependência e da necessidade de um projeto nacional, e O inconsciente sociológico (1956), de Alberto Guerreiro Ramos, além de ensaios como O problema do negro na sociologia brasileira e A ideologia da jeunesse dorée, que discutiram a oposição entre paradigmas científicos “autênticos” e “importados”.

No campo dos estudos sobre populismo, destaca-se o ensaio O que é o ademarismo? (nº 2), frequentemente apontado como pioneiro por analisar um fenômeno político centrado no líder — e não no partido — em contraste com práticas clientelistas então dominantes. O texto tem como objeto Adhemar de Barros, mas menciona também Hugo Borghi, e é citado como marco inicial de uma linhagem interpretativa influente nas ciências sociais brasileiras.

Recepção e legado A experiência do IBESP/Cadernos é lembrada como momento em que um coletivo de intelectuais se propôs a exercer liderança pública por seus próprios meios, combinando análise e proposição programática. Parte da historiografia frisa que essa ambição dialogava com tradições mais longas de engajamento intelectual no país. O consenso crítico é que os Cadernos ajudaram a formular e difundir a ideologia nacional-desenvolvimentista e a moldar debates que seriam amplificados pelo ISEB e por autores posteriores.

O quinto número (março de 1956) registra uma inflexão nas interpretações após o suicídio de Getúlio Vargas (1954), com ênfase no legado político do getulismo e na distinção entre “getulismo histórico” e “ideológico”, além de sinais de reconfiguração partidária (PSD e PTB).

Digitalização e acesso Em 2012, a Revista Estudos Políticos publicou online a coleção integral dos cinco números, com mecanismo de busca por palavras, facilitando o acesso de pesquisadores a uma produção antes dispersa em acervos físicos.

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