Myrna Herzog (; nascida em 1 de dezembro de 1951) é uma musicista, regente, professora e pesquisadora brasileira-israelense, reconhecida como pioneira na prática da música antiga no Brasil e referência internacional na interpretação historicamente informada. Especialista em viola da gamba e violoncelo barroco, Herzog fundou e dirigiu conjuntos emblemáticos, como o Quadro Cervantes e a Academia Antiqua Pro-Arte, além do Ensemble PHOENIX, em Israel, e do PHOENIX-Brasil. Sua atuação abrange concertos, gravações, pesquisa organológica e ensino, com contribuições significativas para a difusão da música medieval, renascentista e barroca na América Latina e em Israel.

Origens, família e primeiros estudos thumb|left|150px|Nikolaus Schaack com sua cítara e Myrna Herzog no Natal de 1952Myrna é uma brasileira filha de Yvonne Schaack Herzog e Leon Herzog, um judeu polonês sobrevivente do holocausto que veio para o Brasil em 1946 e construiu a primeira motocicleta brasileira, a Leonette. Seus avós paternos, Jacob e Esther, foram mortos pelo nazismo antes de ela nascer. Seu avô materno foi Nikolaus Schaack, citarista.

Ainda em 1969, ainda aos 17 anos, Myrna foi reconhecida como parte do grupo Geração de novos poetas, junto a Denise Emmer, Geraldo Moneratt, Hamilton Vaz Pereira e Sérgio Frota (our Fontana), publicando o livro de poemas "Canto Aberto".

Myrna estudou violoncelo com Iberê Gomes Grosso. Aos 18 anos, Myrna estudava flauta doce com Marcelo Madeira, primo-irmão de Tom Jobim, que estava formando um conjunto de música antiga. Simultaneamente, ela estudava o violoncelo e foi convidada por Marcelo a integrar o grupo tocando a viola da gamba. Ela aceitou e viajou para os Estados Unidos, onde conheceu a violista da gamba Judith Davidoff em oficinas do instrumento e decidiu se dedicar a ele. Mais tarde, Herzog estudou viola da gamba com Wieland Kuijken.

Carreira musical Brasil (1970-1992) Kalenda Maya A atuação do Kalenda Maya foi elogiada por especialistas internacionais e contribuiu para a consolidação da música antiga como campo artístico e acadêmico no Brasil. Em novembro de 1971, o jornal Correio da Manhã já destacava a atuação do Kalenda Maya e a participação de Herzog como gambista, evidenciando sua inserção precoce na cena profissional da música antiga no Brasil.

Em junho de 1972, o grupo voltou a ser mencionado na imprensa, em reportagem do Diário de Notícias, que ressaltou seu compromisso com a autenticidade interpretativa e o alto nível técnico. Herzog havia vencido o concurso Jovens Solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira naquele ano, tornando-se, a primeira gambista no mundo a conquistar um prêmio dessa natureza.

O Kalenda Maya era formado por quatro especialistas em música medieval e renascentista: Myrna Herzog (viola da gamba), Heloisa Madeira, Marcelo Madeira e Léo Soares. Segundo reportagens da época, o grupo estava ligado à Pró-Arte e dedicava-se à interpretação historicamente informada de repertórios medievais e renascentistas, buscando alto rigor estilístico e excelência técnica.

Segundo reportagem do Jornal do Brasil, Herzog iniciou seus estudos de viola da gamba de forma autodidata, pesquisando livros, discos e filmes, antes de aprofundar sua formação com professores brasileiros e estrangeiros. Estudou violoncelo com Iberê Gomes Grosso e música antiga com gambista nos Estados Unidos, e se tornou na única professora do instrumento no Brasil. Na época, integrava o grupo Kalenda Maya.

Pró-Arte Antiqua O repertório incluía sonatas, divertimentos e árias, com destaque para a sonoridade dos instrumentos originais e a diversidade tímbrica do conjunto. A atuação de Herzog como gambista reafirma sua posição como uma das pioneiras na prática profissional da viola da gamba no Brasil.

A direção artística era compartilhada por Homero de Magalhães Filho e Marcelo Madeira, com direção coral de Jaques Morelenbaum. O repertório incluía madrigais, danças e peças instrumentais típicas do período elisabetano, executadas com instrumentos como cravo, organeto, dulciana, rauschpfeife, krumhorn e shawm, reforçando o compromisso do grupo com a autenticidade sonora e estilística.

Competição de Jovens Solistas da Série Juventude (1972) Segundo reportagem do *Jornal do Brasil*, a participação de Herzog e Magalhães representou um marco na valorização da música antiga no Brasil, ao introduzir instrumentos como a viola da gamba e a flauta doce em contextos sinfônicos tradicionais.

O concerto ocorreu no dia 27 de outubro de 1972 no Teatro João Caetano, sob regência de Isaac Karabtchevsky.

Concurso da Sociedade Villa Lobos (1973) Myrna Herzog foi a vencedora do concurso da Sociedade Villa Lobos em 1973, de acordo com o livro 'International Who's Who in Music and Musicians' Directory' em sua edição de 1980. Quadro Cervantes thumb|Myrna tocando uma viola em 1978 durante apresentação do Quadro Cervantes para a TVE Brasil no Rio de Janeiro. O conjunto surgiu originalmente em 1972 sob a forma de trio, composto por Myrna Herzog Feldman (viola da gamba), Homero de Magalhães Filho (flauta doce) e Rosana Lanzelotte (cravo). Em seus primeiros anos, o grupo obteve reconhecimento em concertos na Casa de Rui Barbosa e na Sala Cecília Meireles.

Em 1974, Ronaldo Miranda mencionou a Trio tendo lotado a casa Rui Barbosa de jovens que queriam ouvir a nova música antiga.

Em meados de 1974, com a integração de Helder Parente (flauta doce, viola da gamba e voz), o grupo passou a se chamar "Quadro Cervantes". A escolha do termo "Quadro" visava evitar a associação imediata com o tradicional quarteto de cordas, mantendo uma identidade própria para a música de câmara antiga.

O grupo destacou-se por realizar concertos comentados, onde as obras e os instrumentos eram explicados ao público. Em 1975, o conjunto registrou participações na TV Globo, no programa Concertos para a Juventude.

Integrantes (Formação em 1975) Myrna Herzog Feldman: Responsável pela viola da gamba. Iniciou no piano e violoncelo antes de se especializar em música antiga nos Estados Unidos com Judith Davidoff. É formada em Jornalismo pela UFRJ. Helder Parente: Flautista, gambista e cantor. Atuou em diversos conjuntos de música antiga, como o da Rádio MEC e o Kalenda Maya, sendo pioneiro no ensino de flauta pelo Método Orff no Brasil. Homero de Magalhães Filho: Flautista e cravista autodidata. Atuou como professor de flauta doce em instituições como a Pro-Arte e a Associação de Canto Coral. Rosana Lanzelotte: Cravista com formação pianística. Descobriu o cravo no Festival de Inverno de Ouro Preto e graduou-se em Engenharia pela PUC-Rio.

Crítica A crítica conclui que, mesmo sem perfeição absoluta, o concerto ofereceu uma lição de musicalidade e autenticidade, reafirmando o valor da música antiga como espaço de formação e expressão artística para a juventude brasileira dos anos 1970.

Aniversário de 15 anos Em 1988, o grupo comemorou quinze anos de atividade com uma série de concertos na Casa de Cultura Laura Alvim, destacando seu uso de instrumentos históricos — originais ou réplicas — como a viola de roda, e sua abordagem estética singular. Formado por músicos como Myrna Herzog (viola da gamba), Clarice Szajnbrum (soprano), Helder Parente (flauta) e Rosana Lanzelotte (teclado), o conjunto também incorporou música contemporânea ao seu repertório, com obras dedicadas por Ronaldo Miranda. Reconhecido por sua continuidade e influência, o Quadro Cervantes serviu de modelo para outros grupos e contribuiu para a formação de um público interessado em música antiga no Brasil.

Academia Antiqua Pro-Arte thumb|Academia Antiqua Pro-Arte com sua base de 8 músicos e incluindo Laura Rónai na flauta Em 1983, Myrna fundou a primeira Orquestra Barroca do Brasil, a Academia Antiqua Pro-Arte. A Academia Antiqua Pró-Arte era um conjunto dedicado à interpretação historicamente informada de música barroca e pré-clássica. Inspirado nas academias musicais inglesas do século XVIII, o nome do grupo refletia seu compromisso com repertórios anteriores a Händel e com práticas instrumentais autênticas, como o uso de cordas de tripa e arcos históricos. Segundo Herzog, a escolha por instrumentos antigos implicava desafios técnicos e sonoros, mas era essencial para evitar o que ela chamava de “retratos desfigurados” da música barroca. A base da orquestra incluía em 1984 oito músicos: Hélder Parente (flauta doce) Hermano Tarumi (flauta doce) Paulo Keuffer (violino) Eliahu Feldman (violino) Ivan Niremberg (viola) Myrna Herzog (violoncello) Ricardo Medeiros (contrabaixo) Rozana Lanzelotte (cravo)

A orquestra durou até 1992, quando Myrna tinha 40 anos e se mudou para Israel—segundo ela, "pura e simplesmente por sionismo", e também para facilitar seu trabalho de pesquisa, ficando mais próxima da Europa.

Trio MMM Em julho de 1990, Myrna Herzog integrou o "Trio MMM", formado em conjunto com a cantora Margarita Schack e a pianista Maria Tereza Madeira. O grupo estreou com um recital eclético no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), apresentando um repertório que abrangia desde Mozart e Schubert até Duke Ellington e Tom Jobim.

O projeto marcou a primeira apresentação pública de Herzog como vocalista (atuando em segunda e terceira vozes) e seu retorno temporário ao violoncelo moderno, instrumento no qual possui formação acadêmica. Na ocasião, a crítica destacou sua importância como uma das principais incentivadoras da música antiga no Brasil, mencionando sua atuação na colaboração com músicos estrangeiros e na edição de livros de musicologia, apesar de ter optado por "silenciar" momentaneamente sua viola da gamba para este projeto específico. Mesmo no violoncelo moderno, Herzog manteve o uso de cordas de tripa, características da sonoridade histórica. Encontros Brasileiros de Viola da Gamba (1981 - 1985) Em fevereiro de 1981, Myrna Herzog organizou o primeiro Encontro Brasileiro de Violas da Gamba, reunindo quinze músicos de várias cidades brasileiras em atividades pedagógicas e artísticas voltadas à prática historicamente informada do instrumento. Representante da American Society of Viols da Gamba no Brasil, Herzog coordenou seminários, concertos e debates técnicos, promovendo o intercâmbio entre intérpretes e consolidando a presença da viola da gamba no cenário musical brasileiro.

O Segundo Encontro Brasileiro de Violas da Gamba foi realizado em janeiro de 1983, em Curitiba, como parte da programação da I Oficina de Música da cidade. Coordenado por Myrna Herzog, o evento reuniu cerca de vinte gambistas de diversas regiões do país e promoveu aulas, concertos e atividades de ornamentação musical voltadas à prática historicamente informada. A iniciativa teve papel central na consolidação da viola da gamba no Brasil, destacando sua presença em grupos locais como a Camerata Antiqua e o Conjunto Renascentista, e contou com a participação do luthier Joaquim Pinheiro, que apresentou modelos e técnicas de construção do instrumento.

Em julho de 1985, Myrna Herzog organizou, na Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio), o terceiro Encontro Brasileiro de Violas da Gamba, realizado no contexto do II Seminário de Música Antiga promovido pela instituição. O encontro, descrito pela imprensa como um inédito ajuntamento de gambistas vindos de diversos estados brasileiros, foi apontado por Herzog como um sinal de amadurecimento da prática de música antiga no país, em especial no repertório para cordas friccionadas históricas. Segundo ela, o seminário representava a primeira iniciativa inteiramente dedicada à música antiga, e o crescimento do número e da qualidade dos intérpretes contribuía para superar a antiga sensação de isolamento entre gambistas no Brasil. Série de concertos com Wieland Kuijken (1988)