miniaturadaimagem|A professora Anna Maria Martinez Corrêa, em 2015, durante a apresentação da Comissão da Verdade - Unesp Anna Maria Martinez Corrêa (6 de Abril 1933, Araraquara - 30 de Agosto de 2023, São Paulo) foi uma historiadora e professora universitária, em 2022 foi reconhecida como professora emérita da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Nesse mesmo estabelecimento, em 1987, fundou o Centro de Documentação e Memória. Suas principais frentes de pesquisa são a história oral, história regional (com foco no interior de São Paulo), da Ditadura Militar Brasileira e história das Américas. Em 2014, ela presidiu o núcleo da Comissão Nacional da Verdade referente a Unesp.

Carreira Sua carreira acadêmica começa com uma graduação em história e geografia entre 1951 e 1954. Os dois cursos eram ofertados de forma conjunta pela Faculdade de Filosofia do Instituto “Sedes Sapientiae”, ligado à Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, nesta época.

Na Universidade de São Paulo (USP), ela realizou uma especialização em História Contemporânea sob a orientação do professor Eduardo d'Oliveira França, este posteriormente viria a conduzir a dissertação de mestrado de Corrêa, defendida em 1968. O trabalho em questão, intitulado "História Social de Araraquara", pode ser entendido como exemplo do interesse da autora pelo tema do regionalismo paulista. Em 1974, ela defende o seu doutorado, com o nome de "O movimento de 1924 em São Paulo: Um Estudo das Relações de Poder". No ano de 1988 a historiadora defende uma tese de livre-docência com o título "Poder Local e Representatividade Político-partidária no Vale do Paranapanema: 1920-1930".

Corrêa começa sua trajetória na Unesp em agosto de 1967 quando passa a integrar o Departamento de História da Faculdade de Assis. Sob sua supervisão, é criado o Centro de Documentação da Unesp em 1973, um projeto embrionário que culminaria no Centro de Documentação e Memória de 1987. No ano de 2014, ela é convidada para presidir o núcleo da Unesp na Comissão Nacional da Verdade e em 2015 é chamada a presidir a Comissão da Verdade da Associação dos Docentes da Unesp (Adunesp). Por seus longos anos de contribuição como discente e historiadora, em 2022 essa instituição lhe deu o título de professora emérita.

Centro de Documentação e Memória da UNESP miniaturadaimagem|Logo do Centro de Documentação e Memória da Unesp. Os historiadores Horácio Gutierrez e Jonas Rafael dos Santos consideram em seu texto sobre Anna Maria Corrêa publicado na coletânea “As Historiadoras e o(s) gênero(s) na escrita da história” que a principal herança deixada pela historiadora para a sociedade foi o Centro de Documentação e Memória da UNESP - CEDEM. O CEDEM é uma instituição que se responsabiliza a produzir e organizar um acervo documental relacionado à história da Universidade e história política e dos movimentos sociais.

O centro foi fundado por iniciativa de Anna Maria Corrêa, que também se tornou coordenadora do CEDEM, em 1987, a partir do “Projeto Memória da Universidade” , fundamentado pelos projetos de pesquisa de longa duração organizados e idealizados pela professora. Essas primeiras investigações eram voltadas principalmente para a história dos Institutos de Ensino Superior de São Paulo, a criação da Unesp e os seus primeiros anos de funcionamento, o período transição democrática e o papel da universidade em meio a ele e a constituição comunitária da UNESP. Como parte desse projeto inicial das atividade do centro, Anna Maria desenvolveu o projeto de História Oral “Institutos isolados de Ensino superior do Estado de São Paulo: Memória e História (1923-1976)”, reunindo mais de 500 entrevistas com os membros da comunidade acadêmica da Unesp que foram arquivadas no CEDEM e disponibilizadas para consulta e uso em outras iniciativas de pesquisa. Por volta de 1994, as atividades do CEDEM foram ampliadas para abranger a preservação de documentos ligados à memória e história política e social brasileiras.

Comissão da Verdade Anna Maria Martinez Corrêa foi presidente da Comissão da Verdade da Unesp, criada em 24 de fevereiro de 2014. Seus objetivos eram investigar a repressão por parte do regime militar em vigor entre 1964 e 1985 contra aqueles considerados subversivos no ambiente universitário e seus impactos na universidade, reconhecer e elucidar as violações dos direitos humanos, acontecidos dentro da Universidade Estadual Paulista, propor reparações às vitimas destas violências, potencializar e/ou criar novas pesquisas dentro desta área e construir marcos de memória para os professores e alunos perseguidos.

Acompanhando o trabalho da Comissão Nacional da Verdade (CNV), o trabalho da historiadora culminou em um documento de 336 páginas detalhando o papel da própria universidade na repressão de alunos, professores e reitores dentro da Ditadura Militar Brasileira.

Contribuições da Autora A produção bibliográfica da historiadora Anna Maria Martinez Corrêa teve como foco central a história social do interior de São Paulo, com desdobramentos para o Brasil e a América Latina. Além disso, dedicou-se ao estudo da história da Unesp, instituição onde trabalhou por muitos anos, e à história oral, área à qual deu significativa contribuição.

Em sua dissertação de mestrado intitulada "História Social de Araraquara", Corrêa argumenta sobre a formação social de Araraquara no período que vai aproximadamente desde a fundação da cidade em 1817 até meados do século XX, pelo menos até 1930, com destaque para práticas sociais, econômicas e institucionais. Isso inclui a economia cafeeira, o uso do trabalho escravo, dinâmicas populacionais, poder local, relações de vizinhança, elites dominantes, desse modo, ajuda a entender como se deu o processo de formação de elites locais, escravidão, trabalho livre, e, desse modo, as inter-relações entre economia rural e desenvolvimento urbano/institucional. Esse trabalho serve de referência histórica local, base para compreensões históricas posteriores sobre Araraquara e regiões cafeeiras do interior de São Paulo.

Em 1974, defendeu seu doutorado, cujo título "O movimento de 1924 em São Paulo: um estudo das relações de poder" tornou-se referência fundamental para os estudos sobre a Revolução Paulista de 1924, pois nele ela analisa as relações de poder envolvidas no movimento militar de 1924 em São Paulo, inserindo esse episódio no contexto social, político e institucional do Brasil da época. Nesse sentido, a autora mostra que o movimento não pode ser visto como mero ato militar isolado, mas como resultado de determinadas tensões de poder entre oligarquias estaduais, elites civis, militares de patente baixa/média, instituições de controle (polícia, justiça), e insatisfações populares. Também exibindo o papel da hierarquia militar, das Forças Públicas estaduais e da articulação entre militares dissidentes e civis descontentes na formação do movimento. A autora apresenta também as consequências da Revolução: reforço do controle do Estado, modificações nas práticas de policiamento, legalismo/juridicidade como instrumentos de legitimação do poder, e precedentes para futuros conflitos e intervenções militares.

No ano de 2008, publicou o livro "Araraquara - 1720-1930: Um capítulo da história do café em São Paulo", obra que retoma e aprofunda o tema de sua dissertação de mestrado, explorando o papel do café na formação histórica da região.

Em seu projeto de pós-doutorado, desenvolvido em 1988, Corrêa investigou o interior do litoral norte paulista com o trabalho intitulado "Poder local e representatividade político-partidária no Vale do Paranapanema: 1920-1930", reforçando sua atuação como pesquisadora da história política e regional.

Além de suas pesquisas acadêmicas, Anna Maria Corrêa também contribuiu como autora e organizadora para diversas publicações coletivas, como os livros:

"Para preparar a mocidade: fragmentos de memórias na história da Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara, 1923–1976",. "Unesp 30 anos: memórias e perspectivas", "Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na Ditadura Civil-Militar (1964–1976)", entre outros.

Ao longo de sua carreira, orientou dez trabalhos acadêmicos nas áreas de história social, Brasil colonial e história das Américas, além de participar de diversas bancas examinadoras na Unesp de Assis.