A Expulsão de moradores por facções criminosas no Ceará refere-se a uma série de episódios de expulsão forçada de moradores ocorridos em diversas localidades do estado do Ceará, Brasil. As ações, atribuídas a facções criminosas, afetaram cidades como Fortaleza, Maranguape, Maracanaú, Caucaia, Sobral, Pacatuba e, de forma mais notória, Morada Nova, onde o distrito de Uiraporanga tornou-se uma “cidade fantasma” após o abandono de grande parte de seus habitantes.
De acordo com um relatório do Núcleo de Inteligência da Polícia Civil do Ceará, entre janeiro de 2024 e setembro de 2025 foram registrados cerca de 219 casos de “deslocamento forçado”, termo utilizado pela pasta para descrever a situação. A expulsão de moradores, entretanto, já vinha sendo registrada desde 2017, quando ocorreram os primeiros episódios em Fortaleza, repetindo-se em anos subsequentes em diferentes regiões do estado.
Antecedentes
Desde 2015, o estado do Ceará enfrenta uma crescente onda de violência associada a facções criminosas, especialmente na Região Metropolitana de Fortaleza.
Em 19 de maio de 2017, o comerciante Manoel Pedro Birino desapareceu e foi encontrado assassinado, após ser torturado e carbonizado na região do Grande Jangurussu, em Fortaleza, três dias após o desaparecimento. O crime teria sido motivado pelo interesse de integrantes de uma facção criminosa em controlar a comunidade Unidos Venceremos, onde foram relatadas as primeiras ameaças diretas a moradores.
Na ocasião, os residentes da comunidade acordaram com pichações em muros que diziam:“É pra sair fora hoje se não vai morrer. Nóis vai tacar fogo em tudo.”De acordo com o jornal El País, o recado foi deixado pela facção Guardiões do Estado – (GDE). Em resposta, a Polícia Militar do Ceará apagou as pichações, substituindo-as pelo número “190”, em referência ao número de emergência policial.
Em 2018, a situação se agravou, com a ocorrência de quatro chacinas ao longo do ano, sendo a primeira a Chacina das Cajazeiras, conhecida por ter ocorrido durante o evento “Forró do Gago”. No mesmo período, foram executados líderes de diferentes facções atuantes no estado, como Petrus William Brandão Freire (apontado como um dos chefes da Facção Família do Norte – FDN), Rogério Jeremias de Simone, conhecido como Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Sousa, o Paca (apontados como membros da cúpula do Primeiro Comando da Capital – PCC), encontrados mortos em uma área indígena.
Por medo de represálias, parlamentares estaduais arquivaram ainda em 2018 a CPI que investigaria o crime organizado no Ceará. A justificativa apresentada foi a falta de segurança dos próprios deputados, caso a comissão fosse instalada. Durante o mesmo período, enquanto se discutia a instalação de bloqueadores de sinal telefônico nos presídios, prédios públicos, como a Secretaria de Justiça, foram alvejados a tiros, e antenas de telefonia chegaram a ser incendiadas em Fortaleza. Também houve ataques incendiários contra o prédio da Prefeitura de Cascavel e outras instalações públicas no interior do estado.
Expulsões A expulsão de moradores de suas residências deixou de ser um problema restrito à capital cearense, passando a afetar também o interior do estado. Fortaleza concentra o maior número de pessoas expulsas por facções criminosas, seguida por Maranguape, Maracanaú, Caucaia e Sobral, de acordo com dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) até setembro de 2025.
Região Metropolitana de Fortaleza A capital cearense reúne o maior número de casos de expulsões, registrados em diversos bairros, tanto no litoral quanto na periferia. Entre as áreas mais afetadas estão Ancuri (16 casos), José Walter (15), Vicente Pinzón (15), Jangurussu (8), Barra do Ceará (7), Papicu (7) e Canindezinho (6).
A Polícia Militar do Ceará realizou a escolta de moradores expulsos nos bairros José Walter e Boa Vista, em Fortaleza, em outubro de 2025. Um homem foi preso em flagrante por posse irregular de arma de fogo durante a operação no bairro.
No dia 31 de outubro, quatro membros do Terceiro Comando Puro (TCP), conforme apontou a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), foram presos por participarem da expulsão de moradores do residencial Cidade Jardim I, no bairro José Walter. No mês anterior, uma perseguição a homens armados em uma área de matagal no bairro Boa Vista resultou na apreensão de dois suspeitos e de um grande arsenal, incluindo fuzis, pistolas e granadas.
Segundo a Polícia Civil do Ceará, o principal motivador das expulsões é a disputa pelo controle territorial entre facções rivais, que buscam ampliar o domínio sobre o tráfico de drogas, extorsões e a cobrança de taxas de moradores e comerciantes locais.
Pacatuba Em setembro de 2025, na cidade de Pacatuba, a área conhecida como Jacarezal, composta por uma vila de pequenas casas, transformou-se em uma “cidade fantasma” após a expulsão de cerca de 30 famílias por facções criminosas. Equipes jornalísticas do G1 visitaram a localidade e encontraram diversas residências trancadas, muitas delas abandonadas com toda a mobília no interior. A região é palco de uma disputa territorial entre os grupos Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP).
O TCP passou a dominar a área após herdar o território anteriormente controlado pela facção cearense Guardiões do Estado (GDE), que perdeu influência local e posteriormente formou uma aliança com o grupo carioca.
Morada Nova
Em Morada Nova, o distrito de Uiraponga transformou-se em um “distrito fantasma” após a expulsão de todos os seus moradores por facções criminosas. A localidade, que antes abrigava cerca de dois mil habitantes, começou a ser esvaziada em julho de 2025, quando os moradores migraram em direção à sede municipal, distante aproximadamente 23 quilômetros.
O êxodo provocou profundos impactos sociais e econômicos. Estabelecimentos comerciais fecharam, os pontos de apoio como os dos Correios deixaram de funcionar, os postos de saúde ficaram sem atendimento e até a igreja local suspendeu as missas por falta de fiéis.
Na educação, os efeitos também foram drásticos: a escola do distrito foi fechada, permanecendo apenas materiais escolares abandonados, deixados às pressas pelos alunos e professores. Após o esvaziamento, a Polícia Militar do Ceará instalou uma base fixa no distrito e passou a realizar rondas constantes na área. Diversos animais domésticos foram deixados para trás pelos antigos moradores.
O criminoso responsável pela ordem de expulsão foi preso em São Paulo, em julho de 2025. De acordo com a Polícia Civil do Ceará, a situação na região está sob controle, informação corroborada pelo tenente-coronel Antônio Gonçalves Cavalcante, que declarou: “O policiamento está 24 horas. A população não tem mais por que temer.”
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