Nossa Senhora da Porta da Aurora (lituano: Aušros Vartų Dievo Motina [ɐʊʃˈrɔs ˈvɐrʲtʊ dʲɪˈɛvɔ ˈmɔtʲɪnɐ]) ou Nossa Senhora da Porta Afiada (polonês: Matka Boża Ostrobramska [ˈmatka ˈbɔʐa ɔstrɔˈbramska], bielorrusso: Маці Божая Вастрабрамская [ˈmat͡sʲi ˈbɔʐaja vastraˈbramskaja], russo: Остробрамская икона Божией Матери [ɐstrɐˈbramskəjə ɪˈkonə ˈboʐʲɪjɪj ˈmatʲɪrʲɪ]) é uma destacada imagem cristã milagrosa da Virgem Maria, venerada pelos fiéis na Capela da Porta da Aurora (ou Porta Afiada), em Vilnius, Lituânia. A pintura era originalmente exibida acima do portão da cidade de Vilnius; os portões urbanos da época frequentemente continham artefatos religiosos destinados a afastar ataques e abençoar os viajantes que por ali passavam.
A pintura é realizada no estilo do Renascimento Nórdico e foi concluída, muito provavelmente, por volta de 1630. A Virgem Maria é retratada sem o Menino Jesus. A obra logo passou a ser considerada milagrosa e inspirou a devoção dos fiéis. Uma capela dedicada foi construída em 1671 pelos Carmelitas Descalços. Nessa mesma época, possivelmente inspirando-se na tradição da Igreja Ortodoxa Oriental, a pintura foi coberta por uma rica e elaborada riza de prata e ouro, deixando visíveis apenas o rosto e as mãos.
Em 5 de julho de 1927, a imagem foi canonicamente coroada pelo Papa Pio XI. A capela foi posteriormente visitada pelo Papa João Paulo II em 1993. É um importante local de peregrinação em Vilnius e atrai numerosos visitantes, especialmente da Polônia.
História esquerda|miniaturadaimagem|O Portão da Aurora em Vilnius ; a pintura pode ser vista através da janela de vidro. A lenda conta que, em 1702, quando Vilnius foi capturada pelo exército sueco durante a Grande Guerra do Norte, Nossa Senhora da Porta da Aurora veio em socorro de seu povo. Ao amanhecer, os pesados portões de ferro da cidade caíram, esmagando e matando quatro soldados suecos. Após esse acontecimento, o exército da República das Duas Nações lançou um contra-ataque bem-sucedido nas proximidades do portão.
Acredita-se que a pintura tenha sido encomendada pelo governo de Vilnius. Era costume colocar pinturas ou esculturas de diversos santos em nichos nas paredes, na esperança de que protegessem o edifício. O governador de Vilnius encomendou duas pinturas: uma representando Cristo Salvador e a outra, a Virgem Maria. Ambas decoravam a Porta da Aurora, parte das muralhas da cidade de Vilnius — uma estrutura defensiva que, à época, não possuía importância religiosa.
A pintura de Cristo ornamentava o exterior do portão, enquanto a da Virgem encontrava-se no mesmo local em que está atualmente — um pequeno nicho protegido por venezianas contra a chuva e a neve. Escadas estreitas e íngremes levavam a uma pequena varanda, onde os fiéis podiam acender velas e rezar. Em 1650, Albert Wijuk Kojałowicz publicou Miscellanea, obra que enumerava todas as pinturas milagrosas de Maria, mas não mencionava Nossa Senhora da Porta da Aurora.
Em meados do século XVII, os Carmelitas Descalços construíram a Igreja de Santa Teresa e o respectivo mosteiro nas proximidades da Porta da Aurora. Em 1655, a cidade foi capturada, saqueada e despovoada durante a Batalha de Vilnius, ocorrida na Guerra Russo-Polonesa. É provável que o governo municipal, com poucos recursos, tenha transferido a manutenção do portão e das pinturas para os Carmelitas.
A pintura de Cristo foi então levada para o mosteiro carmelita e, posteriormente, para a Catedral de Vilnius (um afresco de Jesus foi pintado em seu nicho original no século XIX e redescoberto em 1976). Em 1671, os monges construíram uma capela de madeira dedicada a Nossa Senhora ao lado da torre do portão; foi por essa época que a pintura foi coberta com uma rica riza de prata. Nessa altura, a imagem já era objeto de veneração pública, e a cerimônia de dedicação da capela contou com a presença de várias figuras proeminentes da época, entre elas o chanceler Krzysztof Zygmunt Pac, o grande hetmã Michał Kazimierz Pac e senadores do sejm geral. miniaturadaimagem|Interior da capela de Nossa Senhora da Porta da Aurora (1847) Em maio de 1715, a capela de madeira foi destruída por um incêndio, mas a pintura foi salva e colocada na Igreja de Santa Teresa. Em 1720, a atual capela de tijolos foi consagrada na presença de quatro bispos, vários senadores e uma grande multidão de fiéis.
De acordo com fontes carmelitas do século XVIII, missas em latim e em rito grego eram celebradas diante da pintura, venerada igualmente por católicos romanos e católicos gregos (uniatas). Em 1761, o monge Hilarion publicou Relacja o cudownym Obrazie Najświętszej Marji Panny etc., a principal fonte sobre a história inicial da pintura e também a primeira coletânea de milagres a ela atribuídos.
Em 1773, o papa Clemente XIV concedeu uma indulgência aos fiéis, designando a capela como local de culto público e estabelecendo uma sociedade de caridade.
Na virada do século XIX, as autoridades czaristas demoliram as muralhas e todos os portões da cidade, exceto a Porta da Aurora e sua capela. Em 1829, a capela passou por um processo de restauração e recebeu elementos do estilo neoclássico tardio. Como a entrada para a capela se dava pelo interior do mosteiro carmelita, as mulheres não podiam entrar. Por esse motivo, uma devota patrocinou, em 1830, a construção de uma galeria de dois andares voltada para a rua.
Em 1927, importantes obras de restauração foram concluídas sob a supervisão do bispo Romuald Jałbrzykowski. Com a autorização do papa Pio XI, a pintura foi solenemente coroada como Mãe da Misericórdia em 2 de julho de 1927 pelo arcebispo de Varsóvia, o cardeal Alexander Kakowski. A cerimônia contou com a presença do presidente Ignacy Mościcki, do marechal Józef Piłsudski, do primaz da Polônia August Hlond, de outros 28 bispos e de diversas autoridades.
Pintura miniaturadaimagem|250x250px|Capela do Portão da Aurora
Origem e inspiração A origem da pintura é desconhecida. Segundo o historiador Teodor Narbutt (1784–1864), a obra teria sido adquirida por Algirdas, grão-duque da Lituânia (que reinou entre 1345 e 1377), como troféu de guerra oriundo da Crimeia. Essa informação, baseada em fontes duvidosas, juntamente com as cores escuras da pintura — que lembravam ícones bizantinos —, levou historiadores russos do século XIX a afirmar que a pintura era de origem ortodoxa e não católica romana. Essa teoria foi difundida em diversos artigos, folhetos e estudos, e é ocasionalmente citada atualmente. Outros afirmaram que a pintura teria sido encomendada pelo rei da Polônia Sigismundo II Augusto e representaria sua esposa, Barbara Radziwiłł.
Com uma riza de prata cobrindo toda a pintura, exceto o rosto e as mãos, era muito difícil para os historiadores da arte determinar em que período a obra havia sido criada. Em 1927, a cobertura de prata foi removida pela primeira vez em décadas. A pintura foi então analisada e restaurada. Com base nos novos dados obtidos durante o processo, Mieczysław Skrudlik concluiu que a obra foi realizada entre 1630 e 1650, relacionando-a a outra pintura da Igreja de Corpus Christi, em Cracóvia, criada pelo artista Łukasz em 1624.
Em sua tese de 1990, Mary Kałamajska-Saeed argumentou que Nossa Senhora da Porta da Aurora foi obra de um artista local, inspirada no pintor maneirista flamengo Marten de Vos, por meio de uma gravura de Thomas de Leu. Em 1993, por ocasião da visita do papa, a pintura foi novamente restaurada, e uma de suas tábuas foi datada com base nos anéis de crescimento da madeira. Os cientistas concluíram que o carvalho utilizado cresceu entre 1434 e 1620.
Descrição esquerda|miniaturadaimagem|369x369px|Nossa Senhora da Porta da Aurora A pintura original mede 163 por 200 centímetros (64 × 79 polegadas) e foi realizada por um artista desconhecido sobre oito tábuas de carvalho com 2 centímetros (0,79 polegada) de espessura. Como era comum no Norte da Europa, aplicou-se uma fina camada de preparação de giz sobre as tábuas antes da pintura em têmpera. Posteriormente, a imagem de Nossa Senhora foi repintada com tinta a óleo. Alguns trabalhos de restauração foram realizados em meados do século XIX, e uma restauração de maior porte foi concluída em 1927.
A pintura expressa uma personalidade complexa e a profunda devoção a Maria. Sua cabeça inclina-se suavemente para a direita, os olhos estão semicerrados e as mãos cruzadas em atitude de oração; esses elementos recordam sua virgindade, sua humildade como serva do Senhor, sua misericórdia materna e seu papel de padroeira do povo.
Ao mesmo tempo, sua cabeça é cercada por uma auréola com raios dourados, e seu corpo costuma estar coberto por elaboradas rizas e coroas de ouro e prata — símbolos de sua natureza divina e de seu papel majestoso como Rainha do Céu. A pintura também remete à expressão Tota pulchra es (“Tu és toda formosa”), uma antiga oração católica.
Riza A tradição de ornamentar pinturas com uma riza ou revestimento de metais preciosos pode ter sido herdada da Igreja Ortodoxa Oriental. A riza de Nossa Senhora é composta por três partes de prata dourada, cada uma realizada por diferentes artistas em períodos distintos. A cobertura da cabeça e dos ombros foi feita entre 1670 e 1690; a peça do peito foi adaptada de outra pintura entre 1695 e 1700; e a parte inferior da obra foi concluída por volta da década de 1730.
Os revestimentos são ricamente decorados com motivos florais — rosas, tulipas, narcisos, cravos e pelo menos outras seis espécies de flores.
As flores fazem referência ao hortus conclusus (“jardim fechado”), símbolo da virgindade e da pureza de Maria. O círculo de estrelas representa a Imaculada Conceição. A cabeça de Nossa Senhora é adornada com duas coroas: dois pequenos anjos abaixam a grande coroa em estilo rococó, incrustada com vidros coloridos, sobre uma coroa menor em estilo barroco.
Alguns estudiosos argumentam que as duas coroas, semelhantes a insígnias reais e ducais, representavam respectivamente o Reino da Polônia e o Grão-Ducado da Lituânia. Em 1927, foram confeccionadas coroas duplicadas em ouro puro, doadas pelo povo e abençoadas pelo papa Pio XI. Em 2 de julho de 1927, realizou-se a coroação canônica, ocasião em que a pintura recebeu o título de Mãe da Misericórdia. As coroas de ouro perderam-se, possivelmente durante a Segunda Guerra Mundial.
Em certas ocasiões, a imagem foi exibida sem sua riza por um tempo limitado.
Esculturas dos pais de Maria – São Joaquim e Santa Ana – estão em ambos os lados da pintura, entre as colunas do altar.
Veneração
Milagres e oferendas votivas miniaturadaimagem|Detalhe das oferendas votivas Em 1761, o monge Hilarion publicou um livro enumerando dezessete milagres atribuídos à pintura e à Virgem Maria. O primeiro milagre registrado ocorreu em 1671, mesmo ano em que foi construída a primeira capela. Uma criança de dois anos caiu do segundo andar sobre um pavimento de pedra e ficou gravemente ferida. Os pais então rezaram a Nossa Senhora, e no dia seguinte a criança encontrava-se completamente curada.
Em 1702, Vilnius foi capturada pelo exército sueco durante a Grande Guerra do Norte. Os suecos, de fé protestante, zombaram da pintura, proibiram cânticos e orações e festejaram em torno da Porta da Aurora. Um soldado chegou a disparar contra a imagem (o buraco da bala ainda é visível na manga direita). Na madrugada do Sábado de Aleluia, os pesados portões de ferro caíram e esmagaram quatro soldados suecos — dois morreram instantaneamente e dois posteriormente em decorrência dos ferimentos. No dia seguinte, Domingo de Páscoa, o exército lituano lançou um contra-ataque bem-sucedido nas proximidades do portão. O comandante, em agradecimento pela vitória, ofereceu à capela um grande ex-voto de prata.