Atos e manifestações de Preconceito, Xenofobia, Discriminação, violência e Racismo contra migrantes venezuelanos intensificaram-se na década de 2010 devido à Crise migratória venezuelana.
Antecedentes Período da independência thumb|direita|250px|Bandeira do Equador entre 1845 e 1861 (Época Marcista), usada em lugar da tricolor bolivariana então associada à ditadura do general venezuelano Juan José Flores.
Após as Guerras de independência hispano-americanas, venezuelanos passaram a ocupar cargos-chave na administração das repúblicas nascente. Isso desencadeou o ressentimento das populações locais, que promoveram revoltas para expulsar os estrangeiros. Em setembro de 1828, em Bogotá, ocorreu a Conspiração setembrina; foi uma tentativa de assassinar o líder Simón Bolívar, apoiado pelos militares venezuelanos e em oposição aos generais e juristas neogranadinos liderados por Francisco de Paula Santander. Esses eventos levariam à dissolução dos projetos bolivarianos da Grã-Colômbia e da Nova Granada (atual Colômbia e Panamá) três anos depois, com Equador e Venezuela alcançando independência total.
Por sua vez, Bolívar também impôs um regime autoritário no Peru, onde tropas venezuelanas cometeram diversos abusos. A impopular Constituição bolivariana foi revogada em 1827 e o Peru entrou em guerra com a Grã-Colômbia no ano seguinte, pouco depois de intervir na Bolívia em apoio aos rebeldes que desejavam derrubar o regime do venezuelano Antonio José de Sucre.
No Equador, o venezuelano Juan José Flores continuou governando como ditador até 1845, ano em que ocorreu a Revolução Marcista ou Revolução Nacionalista, um levante que tinha entre seus objetivos a expulsão das tropas estrangeiras que ainda permaneciam no país.
Boom do petróleo O surgimento do boom do petróleo na década de 1970 levou a um crescimento econômico sem precedentes na Venezuela. Isso fez com que os venezuelanos fossem estereotipados como opulentos, arrogantes ou "agringados", em parte devido à xenofobia que cometeram contra a população das regiões de fronteira e contra o número crescente de migrantes que se mudaram para o país.
Chavismo e crise Quando Hugo Chávez chegou ao poder, as relações com vários países se deterioraram, a ponto de o governo colombiano denunciar a existência de um projeto de imperialismo venezuelano sobre a região. De acordo com diversas fontes, o governo venezuelano interferia nos governos da Argentina, da Bolívia e de várias ilhas do Caribe, além de apoiar abertamente as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.
A rejeição ideológica ao Chavismo e ao Madurismo ganhou um crescente caráter xenófobo diante da saída diária de milhares de venezuelanos devido à crise econômica pela qual o país vem passando desde 2013. Segundo a ONU, no início de 2019 o número de refugiados da Venezuela em outros países chegou a cerca de 3,5 milhões. Apesar de os governos regionais terem acolhido os migrantes de forma solidária, os venezuelanos foram acusados de influenciar o aumento do desemprego e das taxas de criminalidade, tornando-se vítimas de assédio, insultos e até violência por parte de cidadãos de diferentes países.
Por país
Bolívia Em março de 2019, um grupo de 14 Venezuelanos foi detido pelas autoridades de imigração por protestar em frente à embaixada de Cuba em La Paz. Seis deles foram expulsos do país, já que, segundo o governo:
No entanto, a ação foi condenada por organizações como a Amnesty International, que consideraram a expulsão arbitrária e parte de uma perseguição sistemática contra migrantes venezuelanos devido à estreita relação do governo de Evo Morales com o regime de Nicolás Maduro.
Brasil 300px|Um ataque contra uma população de migrantes venezuelanos em Pacaraima, Brasil, em agosto de 2018.|alt=|thumbEm agosto de 2018, o governo do estado fronteiriço de Roraima solicitou o fechamento temporário da fronteira, alegando que sua administração era incapaz de controlar o grande número de venezuelanos que entravam diariamente no país. Inicialmente, o juiz Helder Girão Barreto ordenou a suspensão da entrada terrestre de venezuelanos, mas depois a medida foi revogada pelo Supremo Tribunal Federal, que considerou que a proibição era contrária à Constituição e aos pactos internacionais assinados pelo Brasil.
Dias depois, um acampamento de refugiados venezuelanos foi atacado no município de Pacaraima. Uma turba armada com armas improvisadas incendiou barracas e outros pertences dos imigrantes, forçando mais de 1 200 pessoas a voltarem pela fronteira. Os eventos ocorreram em retaliação ao suposto ataque a um comerciante brasileiro por quatro venezuelanos.
O então candidato presidencial Jair Bolsonaro afirmou que o governo não deveria virar as costas ao sentimento popular em Roraima e propôs a criação de campos de refugiados com a ajuda da ONU. Depois de eleito presidente, Bolsonaro disse que adotaria critérios mais rigorosos para a entrada de estrangeiros no Brasil, mas afirmou que não devolveria imigrantes venezuelanos ao seu país.
Chile Em maio de 2017, manifestantes venezuelanos foram confrontados por um grupo de chilenos que demonstrou apoio ao governo de Nicolás Maduro nas proximidades da embaixada venezuelana em Santiago. Meses depois, venezuelanos que protestavam no mesmo local foram espancados e roubados por comunistas chilenos.
Em janeiro de 2018, uma mulher com deficiência atacou uma imigrante em Santiago com uma bengala, chamando-a de comunista e dizendo que havia votado em Sebastián Piñera. No mesmo mês, uma motorista de Valparaíso gritou "venezuelano de merda" a um imigrante que trabalhava em um posto de gasolina, antes de atacá-lo com um cabo de vassoura.
Em janeiro de 2019, durante uma partida entre as seleções sub-20 de Chile e Venezuela, o jogador chileno Nicolás Díaz Huincales chamou o venezuelano Pablo Bonilla de "morto de fome". Posteriormente, o jogador chileno apresentou desculpas públicas por meio de uma carta. Uma chilena também se referiu a uma imigrante com quem trabalhava como "morta de fome" em Cartagena no final do mês.
Em fevereiro do mesmo ano, após a publicação de um vídeo em que um grupo de chilenos e venezuelanos ofendia as vítimas de Augusto Pinochet, cidadãos de esquerda lançaram uma campanha virtual conclamando as pessoas a não ajudar imigrantes e pedindo a expulsão dos e venezorranas, ambos insultos ofensivos dirigidos especificamente a venezuelanos.
Segundo declarações do cônsul dominicano em Arica, a polícia de fronteira chilena nega entrada a qualquer imigrante negro ou venezuelano que não apresente documentos e passagens pré-pagas detalhando onde ficará hospedado e quando retornará.
Em 25 de setembro de 2021, moradores de Iquique organizaram um protesto contra imigrantes recém-chegados, em sua maioria venezuelanos. Durante os protestos, ocorreu um incidente em que um grupo de manifestantes incendiou os pertences dos migrantes. O Ministério Público chileno ordenou uma investigação para identificar e processar os responsáveis pelo incêndio.
Colômbia Em janeiro de 2017, enquanto entregava casas construídas pelo Ministério da Habitação para deslocados na cidade fronteiriça de Tibú, o então vice-presidente Germán Vargas Lleras declarou:
Embora Vargas Lleras tenha posteriormente dito que seu uso de "veneco" era apenas como gentílico, o presidente venezuelano Nicolás Maduro afirmou que se tratava de uma agressão xenófoba e exigiu um pedido de desculpas.
Em maio de 2017, Rodolfo Hernández, prefeito de Bucaramanga, disse que da Venezuela tinham chegado mendigos, prostitutas e desempregados, e que não era possível expulsá-los, mas a cidade era incapaz de responder à crise.
Em setembro de 2017, houve um confronto entre vendedores ambulantes colombianos e venezuelanos pelo controle dos espaços dentro do sistema TransMilenio, que deixou uma pessoa morta.
Desde o fim de 2017, panfletos com ameaças contra venezuelanos começaram a circular nas cidades fronteiriças de Cúcuta e Arauca. Entre os grupos envolvidos na distribuição dessas ameaças estavam o ELN, o Clã do Golfo e o Grupo de Limpeza Social de Arauca.
Em janeiro de 2018, um grupo de jovens lançou bombas incendiárias contra 900 venezuelanos que estavam em um abrigo em um centro esportivo em Cúcuta.
Em maio de 2018, começou a circular um áudio em que eram feitas ameaças militares contra imigrantes que não deixassem o município de Subachoque em duas semanas.
Em outubro de 2018, um venezuelano foi linchado em Ciudad Bolívar após ser associado ao sequestro de crianças por meio de correntes falsas no WhatsApp. Pelo menos 200 cidadãos participaram do linchamento com pedras, paus e facões. Depois disso, dois venezuelanos estiveram prestes a ser linchados no mesmo local e outros dois migrantes foram espancados no TransMilenio.
Em janeiro de 2019, panfletos com ameaças apareceram contra venezuelanos residentes em Ipiales, perto da fronteira com o Equador. As autoridades consideram que o fenômeno ocorreu devido ao retorno de uma população venezuelana a partir do Equador, onde houve ataques contra imigrantes nas semanas anteriores.
Em fevereiro de 2019, o prefeito Rodolfo Hernández afirmou que as venezuelanas eram "fábricas de fazer chinitos pobres". Cinco meses depois, a jornalista Claudia Palacios escreveu uma coluna no jornal El Tiempo conclamando os venezuelanos a parar de ter filhos.
Em julho de 2019, cinco corpos esquartejados foram encontrados em Bogotá, três deles pertencentes a cidadãos venezuelanos. Em agosto do mesmo ano, panfletos com ameaças apareceram em Bucaramanga, exigindo que os comerciantes da cidade substituíssem seus trabalhadores venezuelanos em 48 horas.
Com o aumento do número de imigrantes venezuelanos em busca de moradia em Bogotá, há relatos de que em vários locais é comum encontrar anúncios com a frase "Aluga-se: sem venezuelanos".
Durante a campanha para as eleições presidenciais de 2018, uma acusação comum entre os candidatos era a de que seus adversários queriam transformar a Colômbia em uma segunda Venezuela. Além disso, o candidato conservador Alejandro Ordóñez afirmou que, diante da migração maciça de venezuelanos, os empresários deveriam priorizar o direito ao trabalho dos colombianos. Ordóñez foi posteriormente nomeado embaixador da Colômbia na Organização dos Estados Americanos, cargo a partir do qual declarou que a migração venezuelana fazia parte de uma agenda para disseminar o socialismo em toda a América Latina.
Segundo pesquisa publicada pela revista Semana em março de 2019, 41% dos migrantes haviam sofrido algum tipo de rejeição ou discriminação. No entanto, 81% dos entrevistados disseram não ter sido vítimas de nenhum crime por causa de sua nacionalidade, e a maioria descreveu os colombianos como pessoas gentis e amigáveis.
Antes da eleição colombiana de 2022, um estudo do instituto de pesquisas Ivamer constatou que 63,2% dos colombianos tinham uma opinião negativa sobre os venezuelanos e 60,2% discordavam da política do presidente Iván Duque em relação a eles.
Curaçao Em 2017, 1 203 venezuelanos foram deportados de Curaçao. Muitos foram obrigados até mesmo a pagar sua passagem de volta.
Por meio de uma estratégia rígida de remoções, venezuelanos sem estabilidade são deportados antes que possam solicitar status de refugiado. Isso ocorre apesar das reivindicações de organizações como a Amnesty International. Em novembro de 2018, o Ministério do Interior e Relações do Reino dos Países Baixos (país ao qual a ilha pertence) declarou que o governo não investigaria o assunto.
Equador Em agosto de 2018, o governo equatoriano emitiu um decreto exigindo que venezuelanos que quisessem entrar no país apresentassem passaportes válidos. Contudo, uma juíza suspendeu a aplicação do decreto, argumentando que ele contrariava os acordos internacionais assinados pelo Equador.