Uma investigação da Corte Penal Internacional (CPI) para analisar possíveis crimes contra a humanidade cometidos na Venezuela foi aberta em 2021. Um exame preliminar foi inicialmente aberto em 2006 e encerrado após a conclusão de que os requisitos para iniciar uma investigação não haviam sido cumpridos. Em fevereiro de 2018, a CPI anunciou que abriria investigações preliminares sobre supostos crimes contra a humanidade cometidos por autoridades venezuelanas desde pelo menos abril de 2017. Em 2020, o Gabinete do Procurador da CPI declarou acreditar haver uma "base razoável" para considerar que "desde pelo menos abril de 2017, autoridades civis, membros das forças armadas e indivíduos pró-governo cometeram crimes contra a humanidade", e, em 2021, o procurador da CPI Karim Khan anunciou a abertura de uma investigação sobre a situação no país.

Contexto Em 2006, o Gabinete do Procurador recebeu doze comunicações sobre a situação na Venezuela, a maioria delas relacionadas a crimes supostamente cometidos pelo governo venezuelano e forças associadas, e uma referente a crimes supostamente cometidos por grupos de oposição. O exame foi encerrado em 9 de fevereiro de 2006 porque os eventos relacionados à tentativa de golpe de Estado na Venezuela em 2002, em abril de 2002, estavam fora da jurisdição do Estatuto de Roma, uma vez que a jurisdição para a Venezuela começou em 1.º de julho de 2002; enquanto as informações apresentadas sobre eventos ocorridos após 1.º de julho de 2002 careciam de precisão, continham inconsistências internas e externas e foram consideradas pela CPI insuficientes para justificar a abertura de uma investigação.

Exame preliminar

2018 Em fevereiro de 2018, a Corte Penal Internacional (CPI) anunciou que abriria investigações preliminares sobre supostos crimes contra a humanidade cometidos por autoridades venezuelanas.

Em maio de 2018, um painel de peritos internacionais independentes, nomeado pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), concluiu que havia fundamentos razoáveis para acreditar que crimes contra a humanidade vinham sendo cometidos na Venezuela desde pelo menos 12 de fevereiro de 2014 e recomendou que o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, enviasse o relatório e as provas recolhidas pela Secretaria-Geral da OEA ao Gabinete do Procurador da CPI, que convidasse os Estados Partes do Estatuto de Roma a remeterem a situação da Venezuela ao Gabinete do Procurador e que pedisse a abertura de uma investigação sobre os fatos expostos no relatório, em conformidade com o Artigo 14 do Estatuto de Roma.

Em 27 de setembro de 2018, seis Estados Partes do Estatuto de Roma – Argentina, Canadá, Colômbia, Chile, Paraguai e Peru – remeteram à CPI a situação na Venezuela desde 12 de fevereiro de 2014, solicitando à procuradora Fatou Bensouda que iniciasse uma investigação sobre crimes contra a humanidade alegadamente cometidos no território. Em 28 de setembro, a Presidência atribuiu a situação à Câmara de Pré-Julgamento I. Foi a primeira vez que Estados membros solicitaram uma investigação sobre potenciais crimes ocorridos inteiramente no território de outro país.

2020 O ministro das Relações Exteriores do governo de Nicolás Maduro, Jorge Arreaza, apresentou uma denúncia na CPI contra os Estados Unidos em 13 de fevereiro de 2020, argumentando que a política de sanções resultou em crimes contra a humanidade. A procuradora Bensouda afirmou que informou a Presidência da CPI sobre a remessa, de acordo com os regulamentos do tribunal, para permitir a atribuição da situação a uma Câmara de Pré-Julgamento, observando que as duas remessas "parecem se sobrepor geograficamente e temporalmente e, portanto, podem justificar a atribuição à mesma Câmara de Pré-Julgamento", mas "que isso não deve prejudicar uma determinação posterior sobre se o escopo referido das duas situações está suficientemente ligado para constituir uma única situação".

Em setembro de 2020, a Missão Internacional Independente de Apuração dos Fatos sobre a Venezuela, das Nações Unidas, publicou suas conclusões e citou evidências de execuções ilegais, desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias e tortura no país desde 2014. Os autores pediram novas ações por parte da Corte Penal Internacional, bem como justiça e reparações para as vítimas e suas famílias.

Em 2 de dezembro de 2020, a Secretaria-Geral da Organização dos Estados Americanos publicou um relatório de 145 páginas ampliando o relatório de 2018 do painel de peritos independentes, que concluíra que havia base razoável para crer que crimes contra a humanidade vinham sendo cometidos na Venezuela, observando que, desde 2018, os crimes contra a humanidade no país haviam aumentado em escala, escopo e gravidade, ao mesmo tempo em que criticou a demora da Procuradora da CPI em conduzir seu exame preliminar e em abrir uma investigação "apesar das provas esmagadoras de crimes dentro da jurisdição do Tribunal". Dois dias depois, o Gabinete do Procurador respondeu que estava ciente e que estudaria o relatório da OEA, assegurando que buscava "concluir exames preliminares no menor tempo possível", mas lamentando "o tom e a forma do relatório" e afirmando que a Procuradora e o Gabinete "não permitiriam tentativas externas" de interferir no processo. O secretário-geral da OEA, Luis Almagro, respondeu pouco depois, declarando que a organização compreendia o devido processo e que tinha "o máximo respeito" pela Corte Penal Internacional, mas que três anos era tempo excessivo "não para a OEA, mas para as vítimas na Venezuela".

Em 14 de dezembro, o Gabinete do Procurador publicou um relatório sobre as atividades do ano, afirmando acreditar haver uma "base razoável" para considerar que "desde pelo menos abril de 2017, autoridades civis, membros das forças armadas e indivíduos pró-governo cometeram crimes contra a humanidade" e que esperava decidir em 2021 se abriria ou não uma investigação.

2021 Em maio de 2021, o procurador-geral de Maduro, Tarek William Saab, admitiu que Fernando Albán, vereador de Caracas que morreu em 2018 enquanto estava detido na sede do Serviço Bolivariano de Inteligência (SEBIN), não cometeu suicídio, como inicialmente informado por autoridades governamentais, mas foi assassinado, e que, durante os protestos na Venezuela em 2017, o estudante Juan Pablo Pernalete foi morto com uma granada de gás lacrimogêneo por forças de segurança, algo inicialmente negado por altos funcionários. William Saab também acusaria o processo na CPI de "falta de transparência". A vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez, descreveu o caso contra a Venezuela na CPI como uma "grande farsa". A Assembleia Nacional de oposição, liderada por Juan Guaidó, declarou que William Saab buscava impedir a atuação da CPI e condenou o fato de que a cadeia de comando não estava sendo investigada.

Em 2 de julho, a Câmara de Pré-Julgamento rejeitou um pedido de "controle judicial" apresentado por William Saab, que alegava falta de complementaridade e de colaboração do Gabinete do Procurador da CPI com a Venezuela. A Câmara rejeitou o recurso por inadmissibilidade e por ser manifestamente prematuro.

Em 4 de novembro de 2021, o procurador Karim Khan anunciou a abertura de uma investigação sobre a situação na Venezuela.

Investigação

2022 Em 17 de janeiro de 2022, o Gabinete do Procurador indicou que, nos termos do Artigo 18 (2) do Estatuto de Roma, o governo de Nicolás Maduro tinha três meses para apresentar seu relatório sobre as investigações realizadas pelos tribunais venezuelanos a respeito de crimes contra a humanidade cometidos na Venezuela. Em 7 de abril, Tarek William Saab declarou que "não há necessidade" de uma investigação pela CPI.

Após não fornecer informações sobre investigações realizadas pelos tribunais venezuelanos, a Venezuela pediu a Karim Khan, em 15 de abril, que o seu gabinete suspendesse a investigação sobre possíveis crimes contra a humanidade, alegando que as instituições estatais estavam investigando ou já haviam investigado tais crimes. Em 20 de abril, Khan informou um painel de juízes da CPI sobre o pedido da Venezuela, afirmando que seu gabinete pediria aos juízes que rejeitassem a solicitação.

Em 1.º de novembro, Khan solicitou a reabertura da investigação sobre a Venezuela, pouco mais de seis meses depois de o país ter pedido à CPI que adiasse a investigação, afirmando que "o adiamento solicitado pela Venezuela, nesta fase, não se justifica e que a retomada da investigação deve ser autorizada".

Em resposta ao pedido do procurador, o Estado venezuelano enviou um documento em 10 de novembro, opondo-se à participação direta das vítimas e de seus representantes e solicitando que a investigação se limitasse aos resumos preparados pela Seção de Apoio às Vítimas da CPI e apenas aos casos apresentados pelo Gabinete do Procurador. No documento, a Venezuela também pede aos juízes da CPI que não permitam a participação, nos procedimentos, de Canadá, Colômbia, Chile, Paraguai e Peru, os Estados membros que remeteram a situação do país ao Tribunal. A ONG PROVEA advertiu que o comunicado fazia parte da estratégia protelatória do governo Maduro para paralisar, pelo maior tempo possível, a investigação do procurador da CPI, afirmando: "Essa comunicação ratifica o desprezo das autoridades venezuelanas pelas vítimas e por suas demandas de justiça, bem como sua falta de disposição para cumprir de forma genuína o princípio da complementaridade".

2023 Em 28 de fevereiro, o governo venezuelano divulgou um comunicado em que descreveu as acusações contra si como "falácias" e negou que crimes contra a humanidade tenham ocorrido no país, argumentando que a investigação tinha "caráter político". A ONG Control Ciudadano alertou que tais ações do governo Maduro buscavam desacreditar o Gabinete do Procurador da CPI e eram evidência de que o tribunal internacional deveria exercer sua jurisdição sobre os casos em investigação. O procurador Karim Khan respondeu às alegações em 1.º de março, afirmando, em comunicado, que a alegação do governo de que não haviam sido cometidos crimes contra a humanidade carecia de fundamento e de provas suficientes, e que as autoridades venezuelanas não haviam demonstrado a realização de investigações ou julgamentos em âmbito interno que refletissem o escopo da investigação em curso na Corte. A Câmara de Pré-Julgamento pediu à Venezuela que apresentasse uma resposta de, no máximo, dez páginas, com prazo até 20 de abril. Em 3 de abril, o governo de Maduro acusou Khan de "instrumentalizar" a justiça "para fins políticos".