Astúcia da Razão (do alemão: List der Vernunft) é uma expressão cunhada por Georg Wilhelm Friedrich Hegel para designar o processo pelo qual, ao longo da história humana, realiza-se um propósito racional que não é consciente para os indivíduos que nele atuam.
Sentido e importância Hegel aplica a noção ao fim último do mundo: a tomada de consciência do espírito sobre sua própria liberdade. Esse fim representa o elemento racional da história e se concretiza através das ações humanas, ainda que estas sejam motivadas por paixões ou interesses particulares. A razão seria “astuciosa” porque permite que tais paixões atuem livremente, mas faz delas instrumentos para alcançar seus próprios objetivos. O custo dessa realização não recai sobre a ideia, e sim sobre os indivíduos que, movidos por seus impulsos, sofrem perdas no processo.Historisches Wörterbuch der Philosophie: List der Vernunft, Bd. 5, p. 343.Hegel: Vorlesungen über die Philosophie der Geschichte, Bd. 12, p. 49, Theorie-Werkausgabe, Suhrkamp, 1970.
Para Hegel, a razão não age diretamente; ela interpõe entre si e a realidade um elemento mediador: as ações humanas.Hegel: Wissenschaft der Logik, Bd. 6, p. 452.
A astúcia da razão na história Segundo Hegel, a razão governa o mundo e se realiza gradualmente através do desenvolvimento histórico. A história é o processo racional e necessário pelo qual o espírito se desdobra e se torna consciente. É o “progresso na consciência da liberdade”, chegando a ser chamada pelo filósofo de “obra de Deus”. Os indivíduos, nesse processo, tornam-se servidores de uma necessidade superior que eles não compreendem. Suas ações, mesmo movidas por paixões privadas, contribuem para a construção da vida ética e para a realização dos fins do espírito do mundo.Hegel, Georg Friedrich Wilhelm. In: Rudolf Eisler: Philosophen-Lexikon.
Os conceitos se desenvolvem dialeticamente: um contém o outro e se define em oposição a ele. Assim, o Absoluto se realiza historicamente nas etapas do “em si”, “para si” e “em si e para si”. Ao longo dos séculos, o espírito absoluto se revela progressivamente, sendo desvelado pelo conhecimento como a essência divina manifestada no mundo.Ernst von Aster: Geschichte der Philosophie, p. 325.Ernst von Aster, ibid., p. 326.
A natureza é o espírito em sua forma alienada. Deus se manifesta na história humana. O indivíduo, por meio do Estado a que pertence, está submetido a um destino histórico. Grandes figuras — como Napoleão, chamado por Hegel de “espírito do mundo a cavalo” — apenas pressentem o que é necessário em determinado momento. Assim, o homem frequentemente se torna instrumento dessas forças objetivas.Kurt Leider: Philosophen des spekulativen Idealismus, p. 147.
Fala-se da astúcia da razão quando alguém age sem perceber que está servindo a um fim maior da história. A pessoa pode acreditar estar perseguindo sua honra, ambição ou carreira, mas, na verdade, age como veículo da racionalidade histórica.
Liberdade e necessidade De acordo com sua compreensão dos processos históricos, o indivíduo pode tornar-se instrumento consciente ou inconsciente de fins superiores. Assim, a concepção kantiana do ser humano como fim em si mesmo perde centralidade. Hegel foi criticado por atribuir peso excessivo ao Estado e menor ao indivíduo, em contraste com autores iluministas como Kant e Rousseau.Ernst von Aster, ibid., p. 327.
Para Hegel, a liberdade não é apenas individual, mas objetiva e social, realizando-se plenamente no Estado — que ele define como a “realidade da ideia ética”.Hegel: Grundlinien der Philosophie des Rechts, Bd. 7, §257.Hegel, ibid., §57. Depois da Revolução Francesa, a liberdade torna-se algo realizável para todos apenas nos Estados modernos.Historisches Wörterbuch der Philosophie: Geschichtsphilosophie, Bd. 3, p. 429.
Nesse processo de realização da liberdade universal, povos e indivíduos podem ser sacrificados — e é nesse sacrifício que se expressa a astúcia da razão. A racionalidade universal prevalece sobre os interesses individuais.
A visão de Hegel provocou críticas tanto de hegelianos de esquerda quanto de Karl Marx, que adotou a dialética histórica, mas rejeitou a noção de um espírito que conduz a história. Para Marx, o motor da história não é a astúcia da razão, mas o trabalho humano e as condições materiais. A crítica de Adorno à filosofia hegeliana mais tarde retomaria esse ponto.
Apesar disso, para Hegel o indivíduo não é mera marionete: sua consciência moral permanece fundamental, pois nela residem sua responsabilidade e seu valor pessoal.Historisches Wörterbuch der Philosophie: Handeln, Handlung, Tat, Tätigkeit, Bd. 3, pp. 993–994.
Ver também
Idealismo alemão Filosofia da história
Referência
Categoria:Hegelianismo Categoria:Metafísica Categoria:Ontologia