Os taquifitas ou Banu Taquife () são uma tribo árabe que habitava — e ainda habita — a cidade de Taife e seus arredores, na atual Arábia Saudita, e desempenhou um papel proeminente na história islâmica primitiva. Durante o período pré-islâmico, rivalizavam e cooperavam com a tribo dos coraixitas de Meca no comércio e na posse de terras. A tribo inicialmente se opôs ao profeta islâmico Maomé, mas, após o cerco muçulmano de Taife em 630, chegaram a um acordo e abraçaram o Islã. As redes intertribais dos taquifitas e seu nível relativamente alto de instrução ajudaram-nos a ascender rapidamente no nascente Estado muçulmano. Eles assumiram um papel particularmente importante na conquista e administração do Iraque, fornecendo aos califas ortodoxos e omíadas governadores capazes e influentes para aquela província e para o califado oriental. Entre seus governadores notáveis no Iraque estavam Almuguira ibne Xuba (638, 642–645), Ziade ibne Abii e Alhajaje ibne Iúçufe , enquanto importantes comandantes taquifitas incluíam , que liderou as primeiras expedições navais muçulmanas na década de 630, , o conquistador de Sinde na década de 710, e o revolucionário pró-alida .
Genealogia
Os taquifitas são tradicionalmente considerados um ramo dos hauazinitas, grande agrupamento tribal dos caicitas, embora sejam frequentemente mencionados separadamente dos hauazinitas nas fontes árabes. Segundo a genealogia adotada por Ibne Hasme, descendiam de Munabi, filho de Becre ibne Hauazine. Munabi teria gerado Caci, conhecido pelo epíteto de Taquife e considerado o progenitor epônimo da tribo. Caci, por sua vez, teve entre seus filhos Juxame e Aufe; de Juxame nasceu Hutaite, pai de Maleque e Gadira. A divisão histórica dos taquifitas em suas duas principais facções não correspondia inteiramente a essa divisão genealógica. Os descendentes de Maleque ibne Hutaite formavam os malequitas, enquanto os descendentes de Aufe constituíam o núcleo dos alafitas, assim chamados por uma aliança estabelecida contra os malequitas. Gadira, embora irmão de Maleque e, portanto, pertencente genealogicamente ao mesmo ramo de Juxame, aderiu aos alafitas. Dessa forma, a tribo encontrava-se historicamente dividida entre os malequitas e os alafitas, estes últimos constituindo uma coalizão que atravessava as subdivisões estritamente genealógicas.
A própria ascendência dos taquifitas, contudo, era objeto de tradições divergentes. Embora a genealogia que acabou predominando os vinculasse a Hauazine através de Caci ibne Munabi ibne Becre, outra tradição, transmitida por Albaladuri a partir de Ibne Alcalbi, fazia Caci descender de Iade, por meio de Munabi ibne Anábite ibne Almançor ibne Iaquedume ibne Áfeça ibne Dumi ibne Iade. Segundo esse relato, Caci e seus descendentes permaneceram em Taife quando outros iaditas abandonaram a região e posteriormente passaram a atribuir-se aos caicitas, adotando a genealogia que os fazia descendentes de Becre ibne Hauazine. A tradição explicava assim a expressão segundo a qual Taquife seria um remanescente de Iade. Outra narrativa, de caráter distinto, associava Caci a Abu Rigal e aos sobreviventes dos tamuditas, origem da alegação de que os taquifitas seriam remanescentes de Tamude. A historicidade dessas genealogias é incerta; Michael Lecker considera possível que a filiação hauazinita tenha sido adotada em conexão com a relação política estabelecida pelos taquifitas com os amiritas, que lhes teriam permitido estabelecer-se e cultivar terras em Taife em troca de parte da produção.
Geografia
Ao contrário de seus contrapartes nômades dos hauazinitas, os taquifitas eram uma tribo sedentária, ou “urbana”, desde o período pré-islâmico. Seu principal centro era Taife, situada no , que constituía o núcleo territorial da tribo. A cidade era o centro político e econômico dos taquifitas, que construíram uma muralha ao seu redor e se beneficiavam das condições favoráveis à agricultura proporcionadas pelas terras e águas da região. A tribo beneficiava-se também de receber os peregrinos que visitavam o ídolo de Alate ali abrigado, assim como aqueles que passavam pela região a caminho da cidade sagrada próxima, Meca. Os taquifitas prosperavam com o cultivo dos pomares e terras agrícolas de Taife e com o comércio caravanista. Cooperaram e competiram com os coraixitas de Meca tanto na agricultura quanto no comércio, participando frequentemente de caravanas conjuntas, ao mesmo tempo em que disputavam a posse das propriedades agrícolas de Taife.
A ocupação taquifita estendia-se pelos vales e terras situados em torno de Taife. Ao sul da cidade encontrava-se , vale pertencente aos taquifitas e situado entre Taife e , localidade habitada conjuntamente por taquifitas e coraixitas. Em , o curso superior pertencia aos taquifitas e o inferior aos naceritas, ramo dos hauazinitas. Entre Lia e situava-se , extensa área plana ocupada pelos naceritas e posteriormente envolvida nas disputas destes com os alafitas. Nas terras de Taife encontrava-se também , aldeia pertencente aos naceritas.
A importância de Uaje como núcleo territorial aparece também nas tradições relativas às relações entre taquifitas e coraixitas. Segundo Maomé ibne Habibe, quando os coraixitas cresceram em número, seus membros procuraram obter participação em Uaje e propuseram aos taquifitas compartilhar o vale em troca de direitos equivalentes no Harame de Meca. Os taquifitas recusaram inicialmente a proposta, argumentando que seu ancestral havia se estabelecido no vale e trabalhado suas terras, enquanto o Harame havia sido estabelecido por Abraão e não pelos próprios coraixitas. Diante da possibilidade de conflito, os taquifitas acabaram estabelecendo uma aliança com os coraixitas. Antes e depois do advento do Islã em , os taquifitas e os coraixitas — especialmente a influente casa omíada — estabeleceram laços matrimoniais consideráveis. Na região de Turaba, associada a Ujez Hauazine (; ), uma expedição comandada por Omar encontrou grupos que Albaladuri enumera como juxamitas, naceritas, saditas e taquifitas.
Período muçulmano inicial
Relações com Maomé Os taquifitas forneceram alguns homens aos coraixitas contra Maomé durante a Batalha de Badre em 624. Depois que Maomé conquistou Meca e obteve a submissão dos coraixitas, sua nascente comunidade muçulmana passou a ser ameaçada pelo taquifitas em Taife e pelos aliados nômades da confederação hauazinita. Eles encararam com preocupação a posição enormemente fortalecida de Maomé, agora apoiado por seu principal rival, os coraixitas. Maomé avançou para subjugar os taquifitas e os hauazinitas na subsequente Batalha de Hunaine. A coalizão taquifita–hauazinita, sob o comando de Maleque ibne Aufe Anáceri, obteve vantagem inicial, mas o rumo da batalha mudou e os muçulmanos derrotaram a coalizão, capturando milhares de mulheres e crianças hauazinita e grande quantidade de butim. Os muçulmanos então passaram a sitiar Taife, onde muitos dos guerreiros beduínos dos hauazinitas haviam buscado refúgio. Muitos dos coraixitas no exército muçulmano estavam motivados a impedir que os taquifitas tomassem suas propriedades próximas a Taife. Quando o cerco vacilou, Maomé conseguiu convencer Maleque ibne Aufe e seus guerreiros beduínos a se voltarem contra os taquifitas, e estes passaram a bloquear as estradas que levavam a Taife.
O cerco obrigou os taquifitas a enviar uma delegação, liderada por um de seus chefes, , a Maomé para negociar sua conversão ao Islã. Após a submissão dos taquifitas, seus ídolos em Taife foram destruídos e a tribo perdeu o prestígio religioso que anteriormente detinha como guardiã desses ídolos. Apesar da derrota, os taquifitas foram firmemente incorporado à comunidade muçulmana e, nas palavras do historiador Hugh N. Kennedy, Maomé havia “assegurado a lealdade e os serviços” de mais um “grupo capaz e experiente”, assim como fizera com os coraixitas. Tal como estes últimos, os taquifitas colocaram seu conhecimento político e seus contatos tribais a serviço do Estado muçulmano à medida que ele se formava e expandia seu território.
Papel na conquista do Iraque Entre os delegados taquifitas enviados a Maomé estava , dos maliquitas, a quem Maomé nomeou seu (agente, governador ou coletor de tributos) sobre os taquifitas. Quando a maior parte das tribos árabes rejeitou a autoridade do Estado muçulmano após a morte de Maomé, em 632 — episódio que ficou conhecido como Guerras da Apostasia —, Otomão desempenhou papel importante ao impedir que o taquifitas também desertassem. Com o fim das Guerras da Apostasia em 633, Otomão e vários taquifitas assumiram funções de comando nas conquistas muçulmanas iniciais e ocuparam posições de destaque no recém-formado califado, especialmente na rica região do Iraque. Os coraixitas prestaram menos atenção ao Iraque sassânida do que à Síria bizantina no período que antecedeu as conquistas dessas duas regiões em meados/final da década de 630. À medida que o esforço militar muçulmano no Iraque começou a se intensificar, os taquifitas, bem como os ançares nativos de Medina, assumiram papéis de liderança e contribuíram com números significativos de homens, juntamente com tribos nômades que viviam próximas à região, como os tamimitas e os becritas. O califa Omar nomeou o taquifita comandante supremo da conquista em 634, mas ele foi morto durante a Batalha da Ponte, na qual os sassânidas derrotaram os muçulmanos.
Embora o comando geral no Iraque tenha passado posteriormente ao companheiro de Maomé, o coraixita Sade ibne Abi Uacas, os taquifitas desempenharam o papel central na frente aberta no sul do Iraque, ao redor do porto de e do vizinho Cuzistão. O comandante nessa frente, Oteba ibne Gazuane, era aparentado por casamento aos taquifitas, e seu sucessor foi o companheiro taquifita de Maomé, Almuguira ibne Xuba. Esses taquifitas fundaram Baçorá, a principal cidade-guarnição dos árabes muçulmanos no sul do Iraque, por volta de , e continuaram a ser proeminentes na cidade nas décadas seguintes.
Administração do Iraque e do leste
O nível de alfabetização dos taquifitas nos períodos pré-islâmico e islâmico inicial era comparável ao dos coraixitas, e foi um fator chave para o recrutamento de membros taquifitas pelo Estado muçulmano para importantes posições administrativas. Almuguira fundou a administração fiscal em Baçorá, e posteriormente foi nomeado governador de Cufa em 642, permanecendo no cargo até ser destituído em 645. Conhecedor do persa médio, a língua da burocracia no Iraque, e tendo adquirido ampla experiência entre os soldados tribais árabes assentados na região, ele foi reconduzido ao governo de Cufa pelo califa em 661, mantendo-se no posto até sua morte em 671.
Por meio da boa relação de Almuguira com o califa, ele obteve o perdão de seu protegido, o taquifita adotivo Ziade ibne Abii, em 664. Ziade havia sido educado pelo primo de Almuguira, , que exercia funções de secretário na administração iraquiana. Ziade tornou-se o poderoso governador de Baçorá em 665 e, após a morte de Almuguira, recebeu também o governo de Cufa, tornando-se o vice-rei do Iraque e do califado oriental. Ele implementou grandes reformas na organização militar do Iraque e reativou as conquistas muçulmanas na Ásia Central. Após sua morte em 673, foi sucedido por seu filho , enquanto vários de seus outros filhos obtiveram vice-governos e comandos importantes. Sua formação, experiência nos assuntos iraquianos e fortes vínculos com os coraixitas, particularmente com a dinastia omíada, posicionaram os taquifitas de forma privilegiada para administrar o Iraque e suas dependências orientais sob os califas omíadas. Segundo Kennedy, Moáuia confiou o governo do Iraque e do leste “àquilo que deve ter sido visto como uma máfia taquifita”.